China x Estados Unidos: a colisão que se aproxima
por José Valenzuela Feijóo
[*]
Ao longo da sua história o regime capitalista apresenta uma grande
disparidade em matéria de crescimento. Por isso mesmo, costuma dar-se um
período histórico no qual este ou aquele país funciona
como líder ou potência hegemónica. Para a seguir
avançar a outro período em que é outra a potência
dominante. Fala-se, por exemplo, da Holanda, da Inglaterra, da França,
dos Estados Unidos, etc. Quando acaba a Segunda Guerra Mundial os Estados
Unidos convertem-se na grande superpotência, esmagadoramente superior no
plano económico e no militar. No quarto de século que se seguiu,
a Europa e o Japão parecem alcançá-lo. Mas a seguir, com a
ascensão do neoliberalismo, os ritmos de crescimento tendem a
abrandar-se. E a deterioração dos EUA em relação ao
Japão e à Alemanha parecia deter-se ou, pelo menos, não se
agudizar. Mas ao iniciar-se o século XXI (ou antes) surge um novo
desafio: o da China.
Este país vem de muito baixo e de um período em que, sob a
direcção de Mao-Tse-Tung, procurou avançar para o
socialismo. Projecto que é cancelado e que deu lugar ao arranque de uma
via capitalista no qual o país cresce a ritmos desenfreados. E de facto
começa a desafiar aquela que ainda é a grande
superpotência: os Estados Unidos.
Aparentemente este país continua a ser a primeira potência
mundial. Mas pode ser que a China o esteja a alcançar e até a
superá-lo. Para isto, convém recordar alguns dados básicos.
[2]
Em termos de Produto por habitante, usando taxas de câmbio de paridade, o
FMI estima que no ano de 2015 o PIB per capita dos EUA chegava aos US$52704 e o
da China a US$13572. Ou seja, a China situava-se a uns 26% do nível dos
EUA. E como o diferencial de taxas de crescimento é muito diferente, o
desnível vai-se reduzindo cada vez mais.
[3]
De facto, em termos globais o PIB total da China já supera o dos Estados
Unidos. No ano de 2015, os EUA representavam uns 15,8% do PIB mundial e a China
uns 17,1%.
Quanto ao PIB industrial, se fazemos o PIB dos EUA igual a 100 temos que no ano
2014 o da China era igual a 125, a preços constantes do ano 2000. A
preços correntes no mesmo ano de 2014 temos EUA = 100 e China = 130. A
superioridade, consequentemente, é evidente.
O que se passa com a produtividade do trabalho no sector manufactureiro?
[4]
Entre 1992 e 2018 a taxa média anual foi:
|
Mundo
|
2,3% ao ano
|
|
Países desenvolvidos
|
3,0% ao ano
|
|
China
|
9,5% ao ano
|
Também se deve notar: o desenvolvimento industrial da China não
se concentra nos sectores de baixa tecnologia. Entre 2005 e 2017 os dados
básicos são mostrados no quadro I.
Quadro I: Participação da China na produção
manufactureira mundial segundo níveis tecnológicos
|
Segmentos tecnológicos segundo níveis de complexidade
|
2005
|
2017
|
|
Baixa complexidade
|
7,4 %
|
20,2 %
|
|
Média-baixa complexidade
|
8,6 %
|
23,7%
|
|
Alta e média-alta complexidade
|
7,0 %
|
21,1 %
|
Fonte: UNIDO, Industrial Development Report 2020.
Observa-se que em todos os níveis tecnológicos a
participação da China eleva-se e tende a triplicar apenas nos 12
anos que vão de 2005 a 2017. E deve-se sublinhar que isto também
ocorre nos ramos com maior complexidade tecnológica.
O que acontece com as exportações?
Examinemos rapidamente a dinâmica desta variável crucial. Medindo
em dólares, para 1970 temos os EUA representavam uns 15,7% do total
mundial e a China uns pequenos 0,6%. No ano de 2003, a porção dos
EUA havia descido para 11,1% e a da China subido para 4,9%. A seguir, em 2015,
a parte dos EUA experimentou uma ligeira descida: chegou a 10,8%. Entretanto, a
quota da China saltou até 11,6%.
O avanço científico-técnico também é crucial
na luta pela supremacia económica e política. E pode-se esperar
que neste campo o atraso relativo da China seja maior. Não obstante, nos
últimos anos já se observam números muito
respeitáveis e congruentes com os mostrados no Quadro I. Consideramos o
gasto em I&D associado à indústria manufactureira (A) e a chamada
"intensidade em I&D", que se entende como gastos em I&D aplicados no
sector sobre o Valor Agregado do sector (B). Para países seleccionados
no ano de 2011 tem-se:
Quadro II: Gastos em investigação e desenvolvimento
associados ao
sector manufactureiro, 2011
|
País
|
Gastos em I&D (US$10
12
) (*)
|
Intensidade I&D (B)
|
|
Estados Unidos
|
201,36
|
10.56 %
|
|
Alemanha
|
55,77
|
7,93%
|
|
Japão
|
100,36
|
12,35 %
|
|
China
|
162,47
|
3,78 %
|
(*) Taxas de câmbio de paridade.
Fonte: UNIDO, Industrial Development Report 2016; pág. 89. N.
York, 2016.
Como se pode observar, os gastos absolutos da China já alcançam
um montante considerável: são superados apenas pelos EUA. Quanto
à intensidade, ainda está muito abaixo do vigente no
Japão, EUA e Alemanha. Ou seja, neste indicar a China ainda tem um campo
amplo para a sua expansão tecnológica. Basta pensar que se a
China chegar a uma intensidade em I&D igual a 8,0% (ou seja, semelhante
àquela agora da Alemanha), seu gasto absoluto iria aos 325
milhões de milhões de dólares, número que superaria
amplamente o dos Estados Unidos. E deve-se sublinhar: no plano
científico e tecnológico o que conta são os números
absolutos do gasto.
Nesta muito breve recapitulação também se pode dar uma
vista de olhos ao poderio militar. Para isso, consideramos as cifras do gasto
militar da China, dos Estados Unidos e do total mundial. Entre 2001 e 2014, o
gasto militar mundial sobe 85% (a 4,8% ao ano). O gasto dos EUA eleva-se em
45,9% (2,9% ao ano) e o da China sobe 283% (10,9% ao ano). A dinâmica do
gasto militar é tremendamente desigual (em favor da China) ainda que
esta continue a estar, em termos absolutos, muito abaixo da dos Estados Unidos.
No ano 2001 os gastos chineses equivaliam a 12% dos estado-unidenses, no de
2017 a 16% e no de 2014 a 33%. Os últimos números
disponíveis (não estritamente comparáveis) assinalavam que
em 2019 o gasto militar chinês atingia 37,1% do que realizavam os Estados
Unidos. Além disso, em matéria de gastos em armamento nuclear, a
China já se posicionava num segundo lugar mundial, depois dos EUA.
[5]
Quadro III. Gastos militares, China e EUA, 2001 a 2014, dólares
constantes de 2014 (**)
|
Países
|
2001
|
2007
|
2014
|
Índice (*)
|
|
1) Total mundial
|
946 891,50
|
1 548 707,87
|
1 752 621,76
|
185,1
|
|
2) EUA
|
418 135,44
|
635 921,05
|
609 914,00
|
145,9
|
|
3) China
|
52 179,22
|
103 715,57
|
199 651,44
|
382,6
|
|
4) EUA + China
|
470 314,65
|
739 636,62
|
809 565,44
|
172,1
|
|
5) = 2 / 4
|
0,89
|
0,86
|
0,75
|
|
|
6) = 3 / 4
|
0,11
|
0,14
|
0,25
|
|
(*) 2014 sobre 2001. (**) US$ milhões.
Fonte: SIPRI, base de dados (3/03/2017).
No plano global há que considerar a muito possível aliança
económica da China com o Vietname e inclusive com a Coreia do Sul (esta
com dificuldades maiores), um bloco que seria formidável. Também
se poderia acrescentar a Rússia, o que proporcionaria ao bloco um
poderio militar incontestável. E se a ele se pudesse acrescentar o
Japão (algo muito menos provável), o deslocamento
geográfico do centro do poder mundial seria inevitável.
[6]
Na realidade, o que se perfila no futuro é uma zona, a do sudeste
asiático, que mostra um capitalismo industrializador e
desenvolvimentista, afastado de todo das misérias neoliberais e que
já começa a se constituir como novo centro da economia mundial.
No acima indicado observa-se uma situação que, em termos
históricos, não é nova: a potência dominante
conserva um poder militar superior, mas vai perdendo terreno no plano
económico. No fim, se esta tendência se mantém, deve-se
produzir uma dissociação muito forte entre os poderes
económicos e os militares. Entretanto, na potência emergente, o
poder económico cresce e vai, até certo momento, muito acima do
poder militar. No fim, o poder militar deveria alcançar o
económico, sendo este, muito provavelmente, o momento do deslocamento da
velha potência hegemónica pela nova. No caso que nos preocupa, se
as tendêncis se mantiverem, a mutação poderia dar-se dentro
de uns 10 ou 15 anos mais, por volta de 2040 ou, num processo mais lento,
porvolta de 2050.
Também é necessário precaver-se contra
extrapolações ingénuas. Os problemas internos da China
até agora não são muito visíveis, mas não
são menores. O regime de exploração da força de
trabalho operária e camponesa, a partir da reversão do
capitalismo (impulsionada por Teng-Siao-Ping et al.), foi forte. Alguns
analistas chegaram a falar de uma espécie de "ditadura" contra
os trabalhadores do campo e da cidade e que esta situação deveria
dar lugar, mais cedo ou mais tarde, a inquietações,
reclamações e protestos. Afinal de contas, alguma memória
deve restar dos tempos revolucionários, da longa marcha e da
revolução cultural. Tão pouco se deve esquecer: a) ainda
que a distribuição seja muito regressiva, o crescimento
absoluto
dos níveis de vida foi elevado e isso suaviza todo possível
conflito; b) com bom olfacto, a liderança chinesa nos últimos
anos alterou a rota do desenvolvimento começando a dar mais peso ao
mercado interno e buscando uma distribuição menos regressiva. Em
suma, se bem que não se possa augurar um caminho claro, uma
insurreição no estilo Mao parece por agora mais do
que remota.
Esta revisão, ainda que sumária, é suficiente para
comprovar o que muitos já sabem: a China começou a
alcançar e inclusive a superar o poderio económico dos Estados
Unidos. Fenómeno que nos próximos anos deveria acentuar-se. E
que, muito provavelmente, deveria dar lugar a colisões de ordem maior.
Para o caso, vale recordar um texto clássico:
"o capital financeiro e os trusts (...) acentuam a diferença entre
o ritmo de crescimento dos diferentes elementos da economia mundial. E se a
correlação de força mudou, como se podem resolver as
contradições, sob o capitalismo, senão pela
força?". Também podemos ler: "no terreno do
capitalismo, que outro meio pode haver que não seja a guerra, para
eliminar a desproporção existente entre o desenvolvimento das
forças produtivas e a acumulação de capital, por um lado,
e a repartição das colónias e das esferas de
influência do capital financeiro, por outro?"
[7]
No caso que nos deve preocupar, é claro que a política chinesa
foi extremamente prudente no plano político-miitar. E não
é de esperar que mude na próxima década ou pouco mais. O
tempo, sabem-no bem os dirigentes chineses, trabalha a favor deles. Mas
não é este o caso dos EUA: o tempo e o continuísmo
político o afundará cada vez mais. Mais ainda: a seguir à
grande fraude eleitoral em favor de Biden, poder-se-ia esperar, de Biden e de
sua vice-presidenta (que parece mais "falcona" do que a
própria Hillary Clinton) e sobretudo do chamado "Deep state",
uma agressão até desesperada.
O recurso à guerra certamente não é novo (acaso não
é a continuação da política por outros meios?) e
sabe-se a brutalidade dos seus custos. Mas há um dado novo: o que pode
acontecer quando ambos os lados são potências nucleares? Poderia o
mundo resistir a uma guerra com ataques nucleares maciços de ambos os
lados? Com as coisas assim, não se chegaria a eliminar a própria
existência humana? Poderíamos também supor ou simplesmente
desejar que,
antes,
essa humanidade se levantará para por um basta a tamanho destino. E que
talvez o faça arvorando o lema de Rosa Luxemburgo: "socialismo ou
barbárie".
Novembro/2020
2. Há números que poderiam ser actualizados alguns anos (dois ou
três). Só acrescentariam que as distâncias se encurtam ou
que a superioridade já presente da China acentuou-se.
3. Os números apresentados (salvo indicação expressa)
são tomados do Banco Mundial, da ONUDI ou do FMI.
4. Países desenvolvidos inclui EUA. Fonte: UNIDO, "Industrial
Development Report 2020.
5. Dados do SIPRIS, Military expenditure, DataBase, 2020.
6. Ver Sit Tsui, Erebus Wong. Lau Kin Chi y Wen Tie Jun, "One belt, one
road. China's Strategy for a New Global Financial Order";
Monthly Review,
Vol. 68, n°8, January 2017.
7. V. I. Lenin, "El imperialismo, fase superior del capitalismo", en
Obras Escogidas, Tomo 1, págs. 771 y 773. Edit. Progreso, Moscú,
1974.
[*]
Economista, Depto. Economía, UAM-I, México.
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