Marx no Largo do Rato
por César Príncipe
No rescaldo do II Congresso Internacional Marx em Maio,
[1]
três personalidades convidaram Karl Marx para uma sessão de
três perguntas. O
rendez-vous
decorreu no nº 2 do Largo do Rato.
[NR]
Questão colocada por Mário Soares, presidente da Comissão
de Liberdade Religiosa, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros,
ex-primeiro-ministro, ex-presidente da República,
ex-secretário-geral do PS, Conselheiro de Estado:
Como insere o Diálogo Inter-Religioso na crise de valores?
K. M.
O problema não passa por dois mil anos de cristianismo a comer carne de
vaca e a queixar-se do excesso de proteínas enquanto o hinduísmo
continua a venerar a vaca e a morrer à fome. A questão não
passa por dois mil anos de cristianismo a comer carne de porco enquanto o
islamismo e o judaísmo consideram repugnante o consumo de suínos.
É certo que as vacas e os cevados têm considerável peso em
múltiplos domínios da agropecuária e do simbólico.
Certo é que a besta sagrada continua a alienar grande parte da
sapiens
, colaborando, com irrefreável
animus
, na adulteração da ciência em magia, na
substituição da filosofia pela idolatria. É óbvio
que a apologética e a
praxis
religiosas são arsenais de balizamento cultural e controlo social. As
mensagens da promissão e da punição seduzem milhões
de seres com contas a acertar com o destino e a banca. Não será
por mera coincidência que os animais de culto mais aceite ou ditado pelas
armas têm uma tipologia comum: são mamíferos e possuem
armações. Quer se trate do fedorento bode expiatório ou do
ternurento cordeiro de Deus. Todavia, quem verdadeiramente decreta o
Paraíso no além para os pobres e no aquém para os ricos
não são Bíblias, não são Vedas, não
são Corões, não são Talmudes. Não são
concílios de deuses. Nem sequer é a Assembleia Geral das
Nações Unidas. Muito menos é determinado pela Assembleia
da República Portuguesa. Cabe ao
Kapital
eleger os dignos e os indignos da face divina e dos beneficiários do
leite e do mel. Haverá, por consequência e previdência, que
relativizar o poder religioso no além e no aquém. A supremacia do
sobrenatural é exorbitada. No fundamental, aparente. Move-se num
conjunto de peças articuladas. As organizações religiosas
são sobretudo gestoras de anestésicos cristãos e
combustíveis
jhiad
. O
Kapital
não deposita demasiada fé no transcendente. Há muito que
confia mais numa grande televisão do que numa grande religião. O
Kapital
investe na narcodiversidade: a cocaína colombiana e a heroína
afegã são tanto ou mais incentivados e cultivados do que o
ópio do povo
. E,
monsieur
, as receitas das drogas pesadas não andarão longe dos dividendos
do céu. O mercado da aluci(nação) é muito
competitivo e possessivo. O Império não dorme: mantém a
manu militari
na Colômbia e no Afeganistão e assegura as rotas de tráfico
no planeta. Mas regressemos,
mon ami
, ao bestiário ocidental. Sem dúvida que o jumento teve o
privilégio de testemunhar as manobras de parto da Virgem-Mãe.
Consta que num estábulo palestino, num Dezembro, que marcou o
início da nossa era. Mas regressemos,
mon ami
, ao bestiário oriental. Sem dúvida que os templos
asiáticos elevaram o elefante a potestade. Contudo, confrontados os
Livros Sagrados com os Livros Profanos, assomará sempre a
Revelação do Anjo: os quadrúpedes que comandam as
carteiras de expectativas, os mapas de intervenção e os
negócios do Mundo não são celebrados nos santuários
do Ocidente e do Oriente, mas na Casa Branca, no Capitólio, no
Pentágono, nas Agências de Espionagem e Propaganda, na FED, em
Wall Street, no BCE. Com efeito, politicamente estamos à mercê dos
couces do burro Democrata e das trombas do elefante Republicano. De resto, Deus
convive com o bezerro sem qualquer complexo, sem exarar uma
declaração de voto.
Mon ami
, fui consultado. Questionar-vos-ei. Que raios e coriscos desfecham os
Céus quando a NATO empreende um ataque do
Kapital
in nomine Dei
? Que denúncias trovejam os profetas, frequentemente desautorizados
pelas maquinações da CIA e pelas devassas
urbi et orbi
da NSA?
Monsieur
, como podereis dialogar com o
homo erectus
jurai se reverenciais solípedes e proboscídeos?
Monsieur
, vós que falais do púlpito inter-religioso para o cosmos, que
futuro decente esperará a cristandade confessai se o
verdadeiro cristianismo (o que galvaniza as televisões e as
rádios e os jornais e afervora as multidões) é encarnado
por um ídolo com pés de barro, por Cristiano?
Monsieur
, a Igreja Católica acabará por canonizar este 13º
apóstolo? Cristiano estará a caminho dos altares? Graças
já muitas derramou. Milagres já vários operou. Por
exemplo: pôs uma irmã a cantar. Crise de valores? Passa pelas
Agências de Rating. Passa ao lado do Sumo Francisco, fetiche
mediático e coqueluche de
monsieur
, credor de
passe-partout
na sua secretária,
vis-à-vis
com Obama. Este, obviamente, tem mais margem decisória do que o Sumo e
obviamente do que o
monsieur
mas, mesmo assim, não dá ordens à Goldman Sachs, à
FED, à Boeing, à Shell, à Carlyle, à Blackwater,
nem sequer a Netanyahu. Recebe ordens. E tem de zelar pelo reforço da
Ordem Económica Global, aliciando ou pressionando dezenas de Estados a
assinar o TTIP e o TSA. E em que medida a atribuição do
Prémio Nobel da Paz contribuiu para a paz,
monsieur
? Obama mantém todas as guerras herdadas de Bush (pai & filho) e foi
adicionando outras campanhas armadas (directamente ou por
procuração: Bahrein, Iémen, Líbia, Síria,
Ucrânia, etc.). É certo: Obama sorri generosamente e veste
à manequim. E de que serve à Humanidade este porte de etiqueta e
este traje de mordomo? Obama manda? É mais mandado do que manda?
Há tempos, um ex-presidente USA, James Carter, num desabafo televisivo,
não conteve as lágrimas. Justificou o que fez e o que não
fez:
o presidente não manda
. Também o papa Francisco não manda na Igreja nem muda os grandes
interesses e desígnios da Igreja: apenas poderá mudar (e
temporariamente) a imagem da Igreja, objectivo acalentado pelos sectores
táctico-prudenciais, após um longo ciclo de descrédito
(crimes do banco do Vaticano, colaboração com as ditaduras mais
sinistras (principalmente na América Latina), e as geopolíticas
mais predatórias um pouco por todo o orbe, desautorização
dos teólogos da abertura, acosso dos padres-operários, quebra das
vocações sacerdotais e conventuais, evasão de crentes,
confirmações de pedofilia, suspeitas de magnicídio, etc.).
Monsieur, mon ami
, fraseados cativantes, gestos de proximidade, valores abstractos,
paroles. Monsieur
, sempre que uma organização com cultura para
dar a volta
, com verbo de
aggiornamento
, gera e acumula desencanto e vê reduzir-se a sua fatia de mercado e a
empatia geral, desce uns degraus da pirâmide. Simula mesmo descer
à base. Foi o que sucedeu com a rainha da Inglaterra ao condecorar os
Beatles com a Ordem do Império. Pretendeu vender um sinal de
identificação com a maré juvenil e contestatária.
Com a entrega do colar, que mudou na Casa Real, na Monarquia Britânica,
no capitalismo deste subimpério? Só as princesas trocaram de
amante com mais desembaraço e menos resguardo, dividindo o tálamo
com nobres,
plaboys
e plebeus. Realmente, esta
modernização
apenas fez prosperar os tablóides. Neste interlúdio do
séc. XXI, cabe à Igreja do Polvo de Deus resignar-se a aceitar um
papa realmente bom, em comunhão com a Igreja do Povo de Deus e os
condenados da Terra
. Os Média andam com o papa-sorriso ao colo. Sim,
monsieur
, todos os dias nos ministram o tónico do Santo Padre. Os
empresários da opinião pública preferem que depositemos
esperança na palavra solta, a tocar o irreverente, do
public relations
Francisco da Santa Sé do que nas palavras de ordem de
manifestações e greves anti-
establishment
, e dos projectos revolucionários e alternativos. Por isso, nos instruem
para que sejamos todos
franciscanos
, sob pena de tresmalhe herético. Em verdade, em verdade vos digo,
monsieur
, já outro franciscano, João XXIII, foi um bondoso papa,
após séculos de papas-maus. O tempo o requeria. Deus o chamou
à sua presença, encerrando o seu esplêndido e breve
pontificado (1958-1963). Tiveram de passar 50 anos, a fim de que Roma achasse
que o
fumo branco
deveria anunciar um amigo da justiça e da paz. Até quando e com
que balanço pastoral? Lembrarei,
monsieur
: já o fundador da Ordem Franciscana, Francisco de Assis, que irrompeu,
no hagiológio, para redimir a Igreja e o Mundo dos desmandos da riqueza
e da baixeza, não impediu que, nestes 800 anos, a Terra fosse preservada
de colossais pilhagens e terríveis atrocidades, com a Igreja, por regra,
cúmplice. Mais,
monsieur
, a Ordem Franciscana, que advogava o despojamento das sandálias
apostólicas, acabou presa do ouro e do incenso e de seus compromissos.
Vossa Senhoria é confessadamente franciscófilo e
obamaníaco, porque precisa de se autojustificar e reescrever a sua
biografia. Fez o que o sistema lhe exigiu e continua a exigir: atirou o
socialismo, com uma pedra ao pescoço, para o fundo do mar e agora reza
pela sua alma.
Questão colocada por Vítor Constâncio, vice-presidente do
Banco Central Europeu, ex-ministro das Finanças, ex-governador do Banco
de Portugal, ex-vogal do BPI e da EDP, ex-secretário-geral do PS:
Qual o papel do Euro na unificação da Europa?
K. M.
Sehr geehrter herr
[2]
, o Euro é o Marco do IV Reich. Na guerra económico-financeira,
Portugal deixou cair o Escudo e ficou desarmado. Sei do que falo. Sou
alemão. Portugal tem uma economia débil e uma moeda forte.
Desenvolveu a doença da dívida galopante, estimulada pelos
credores, apostados em criar uma grande zona de ajuda, baseada na
suspensão dos instrumentos de soberania e sob a bota da usura e a
égide da jurisprudência extraterritorial. Porque serei suspeito de
ser marxista, reforçarei a minha tese euromonetária com os
empréstimos de Mayer Rothschild e John Adams, afiançadores do
domínio da finança sobre a Política, a Economia, a
Sociedade, a Comunicação, a Cultura.
[3]
Questão colocada por José Sócrates, ex-militante do PSD,
ex-deputado, ex-secretário de Estado, ex-ministro, ex-primeiro-ministro,
ex-secretário-geral do PS, ex-presidente do Conselho Consultivo do Grupo
Octapharma para a América Latina, presidiário nº 44:
Como arrumaria, numa gaveta filosófica, o quadro partidário
português?
K. M.
O Movimento das Forças Armadas, executor do Golpe de Estado
Democrático de 1974, propôs-se concretizar três D`s:
Democracia, Descolonização, Desenvolvimento. O quadro
partidário português poderá ser definido com três
I`s: Ideais, Ideias, Interesses. A Esquerda distingue-se pelos ideais e pelas
ideias. A Direita pelos interesses. O Modelo Democrático Burguês
é um Sistema Clientelar. O presente arco da gover(nação)
é a base aparelhística da alternância e da salvaguarda do
modelo de negócio. O
Kapital
é quem mais ordena. A burguesia detesta a democracia crítica e
participativa. Reduz a democracia a números: à estatística
eleitoral e à contabilidade do saque. Até agora, nenhum banqueiro
ou grande empresário se tem dado mal com esta
equação-rotação em todo o percurso
pós-revolucionário português. Os ministros não
passam de administradores-delegados das corporações. O parceirato
à trois
tem resistido às provas de
stress
. Os dispositivos mediáticos reproduzem
ad infinitum
o discurso do poder económico-financeiro, a fim de manter a
população prisioneira da fórmula. Entretanto, a democracia
está a revelar-se cada vez mais pobre e os portugueses continuam a
empobrecer. O programa de espoliação tornou-se obsessivo.
Ameaça perdurar dezenas de anos no século XXI. Durou
séculos na Idade Média e na Idade Moderna. Durou milénios
nas Diversas Antiguidades. Mas poderia demorar meses se algo ou alguém
obrigasse o PS a tirar o socialismo da gaveta, voltando a defender (desta vez,
com depósito de caução e palavra de honra)
a sociedade sem classes
e
o marxismo como inspiração teórica predominante,
redistribuindo autocolantes e enrouquecendo a gritar
Partido Socialista, partido marxista.
Para isso,
monsieur porte-plume de la Nouvelle Philosophie Occidental,
Vossa Excelência teria de debruçar-se sobre a
Miséria da Filosofia,
de Karl Marx, após haver provavelmente tropeçado na
Filosofia da Miséria,
de Proudhon. A condenação à crónica
indigência,
monsieur,
também poderia demorar semanas se os explorados se pusessem de
pé e forçassem os exploradores a prestar contas. E,
monsieur,
poderia demorar dias se uma força categórica fizesse cumprir a
Constituição da República.
A História anda por aí,
monsieur.
Não se esqueça de reler o
Manifesto.
É mais importante do que visitar o meu túmulo.
[1] II Congresso Internacional Marx em Maio: Promovido pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 8, 9 e 10 de Maio, 2014,
[2]
Prezado senhor.
[3] Mayer Rothschild, banqueiro, afiançou, há 200 anos, que o
controlo da moeda de um país tornava irrelevantes as leis nacionais.
John Adams, presidente dos USA, considerou, há 200 anos, que a
dívida era um meio de submeter e escravizar um país, sem recorrer
a meios militares.
[NR] Aos leitores estrangeiros: sede do PS, em Lisboa.
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