Jornalismo bumbum
por César Príncipe
O vernáculo porno-erótico foi repescado de alguns diários da paróquia lusitana já lá vão alguns anos. Entretanto, o codex deste ramo de negócio tornou-se ainda mais fluente e pícaro. Os out-doors de carnes verdes estão ao alcance de qualquer olhar em trânsito por esta europeriferia cheia de oportunidades. Tornaram-se as verdadeiras escolas de educação de todas as faixas etárias e classes sociais. E ao contrário dos custos do restante ensino, rende milhões e milhões. Alguns órgãos sexuais da Imprensa contam com este canal de receita para manter a cabeça erguida ou menos submersa nas águas do mercado. Longe de mim pôr em xeque o empreendedorismo de bordel e o proxenetismo de papel. Não ambiciono ocupar espaço que, por missão, cabe a igrejas, reformatórios, autoridades sanitárias, fiscais e judiciárias. No entanto, das igrejas pouco haverá a esperar. As santas sanhas estão concentradas na Interrupção Voluntária da Gravidez. A Católica, essa, então, não está em condições de reivindicar moral de pronúncia. Em séculos transactos, manteve lupanares para consumo próprio (dentro das portas do Vaticano) e administrou os prostíbulos de Roma, emitindo salvo-condutos para uma série de gratas personalidades, além de cobrar os correspondentes impostos e fixar uma sobretaxa para o exercício da actividade aos domingos e dias santos. Esta taxa suplementar fez doutrina: é hoje aplicada pela generalidade dos media. Assim, estará justificado o recolhido silêncio da Conferência Episcopal. De facto, a Católica, por espírito empresarial e tempero das coisas do eterno com coisas do efémero, sempre provou conviver bem com tetas e partes baixas, a que também chama sagradas. Quanto às pretensões desta short story, são compreensivelmente modestas: idealizam a ligação de um leitor para o seu imaginário jornal, construindo uma rábula-parábola sobre o Jornalismo Bumbum e os dilemas da Cidadania. Quem se sentir tomado por súbitos rubores, mesmo que não os tenha ao folhear os papers de maior audiência, fica advertido: irá confrontar-se com um texto hiper-realista.
Podia ligar à Sexão Casos do Dia? Grande Porto.
Grande Corpo. Catarina Dias. Sexo anal. Coimbra. Localizei um criminoso que nunca foi procurado pela Polícia. Máximo sigilo. Discrição total. É dos que comem tudo. Leoa faminta. Boca insaciável. Bumbum devorador. Bumbum gostoso. Estou varado. Não compreendeu. É assunto de serviço. Primeira página. Todo o serviço. Atendo no seu automóvel (em lingerie) ou no meu apartamento (ao natural). Primeira vez. Está a brincar comigo? Massagem prostática. Botão de rosa. 30 beijinhos. Chuva de prata e bolinhas de sabão. Donde fala? Garganta funda. Oral profundo. Linguado duplo. Língua na língua. Aplicam o Acordo Ortográfico? Senhora culta. Delira com palavrões. Queria apresentar um caso da minha rua. Perto do Shopping da Senhora da Hora. Largo do Toural. Campo Pequeno. Marina de Vila Moura. Mas onde é que foi parar o meu telefonema? Braga. Viúva ardente. Esposende. Ratinha quente. Viseu. Irmãs. Lisboa. Tia+sobrinha. Estou a ver que me enganei no número. Cuequinha à porta. Quer fazer o favor de se identificar? Universitária. Coxa grossa. Rabão empinado. Travesti. Cavalona. Casada insatisfeita. A sua pronúncia não me é estranha. Cabrita angolana. Mulata brasileira. Loira eslovaca. Romena peluda. Português dotado. Tem carteira? Não parece estagiária. Desinibida. Safadinha. Apertadinha. Louca por novidades. Faz jornalismo de investigação? 24 horas. Completo. Sem pressas. Até ao fim. Não me está a cheirar. Aromas exóticos. Aloés. Champanhe. Banho de leite. Ligue-me à Redactora Principal. Modelo. Tatuada. Espanholada. Body-body em marquesa. Ligue-me à Grande Repórter. Bomba na cama. Ligue-me à Directora. Broche bem elaborado. Penetração dupla. Inversão de papéis. Meu Deus! Corpo divinal. 69 divinal. Anjo da noite. Sereia. Musa. Ninfeta. Estou a ver que a mais velha profissão do mundo pode ser a de jornalista. Escort VIP. Grande puta! Só cavalheiros de respeito. Tenho outras pistas. Tráfico mafioso in actu. Não lhe diz nada? Localizei a maior fábrica de luvas do país. Não quer fazer manchete? Chicotes, cordas, algemas, mordaças, arneses, vendas, máscaras, salto alto, vibradores. Desculpe a estranheza. Deve haver cruzamento de linhas. Estou confuso. Estarei a sofrer alucinações? Pode ser homem (solo), mulher (solo), casais, bissexuais, homossexuais, travestais. Em privado. Festas. Mix. Tem Estatuto Editorial? Livro de Estilo? Provedor? Regulador? Barómetro Marksex? Higiene, lubrificantes, loções, óleos, clisteres, pensos, preservativos, viagretas, pílula do dia seguinte. Vou recorrer à Opinião do Leitor. Uma carta é uma carta. Não confio em redes fixas ou móveis. Adoro trair o marido. Toda nua. Toda boa. Toda tua. Ao vivo. On-line. Manda um e-mail. Manda-me uma selfie. Não são visitadas pela Autoridade Tributária? Residem nas Cayman Relax? São avaliadas pelas Agências de Rating? Domicílios, hotéis, motéis, viaturas particulares, transportes públicos, multibancos, tampões higiénicos. Já agora uma pergunta do foro gineconómico. Quem controla o seu Grupo de Comunicação Sexual? Desligou. Não sou inspector das Finanças nem da Judiciária nem do SEF. Simples lapsus linguae. Não quis nem quero ofender ninguém. Muito menos a Comunicação Social. (Trabalho de campo) LA PUTAIN RESPECTUEUSE [1]
A caça ao jornalismo constitucional e socialmente responsável
não é desencadeada apenas por jornalistas de confiança
contra jornalistas e cidadãos em quem o poder não confia ou de
quem o poder desconfia. As instâncias político-legislativas
fixaram um quadro limitador dos colectivos redactoriais, passando a ignorar as
suas posições e as suas fortalezas de classe (Conselhos de
Redacção, Delegados Sindicais, Sindicato). A guerra
mediática foi preparada por fases. Começou pela vida interna das
redacções: alteração do quadro legal,
selecção de fidelizáveis, precariedade laboral, trabalho
intensivo e mal remunerado. Os estrategas e executores desta mudança de
paradigma ainda se ressentem dos fantasmas igualitários e
libertários do 25 de Abril, em que os trabalhadores da
Informação detiveram uma efectiva influência, tornando-se
aliados dos leitores, radiouvintes, telespectadores.
(Proposição teórica) [*] Subsídios para uma futura Tese de Mestrado à Bolonhesa intitulada "Os media no país da virgem". Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |