Burocracia e fascismo no Brasil:
Alguns apontamentos sobre uma correlação provável
por João Vilela
As recentes manifestações no Brasil foram absolutamente
chocantes. Será certo que o contexto social e político, que vai
do crescimento das congregações pentecostais à brusca
alteração de uma política de promoção social
para outra de degradação das condições de vida,
passando por escândalos incontáveis de corrupção, de
mentira em campanhas eleitorais, e de agressão à justa luta das
populações levados a cabo por um partido que se reclama da
esquerda, torna razoavelmente previsível tudo o que aconteceu. Mas
conter o choque, mesmo ciente de tudo isto, é impossível.
No Brasil, a palavra é "estelionato". Em Portugal
diríamos burla. Nos dois casos seríamos capazes de convergir,
para nos entendermos, para a palavra "mentira". A palavra
"traição". A palavra "fraude". A palavra
"engano". Nisso, e em nada mais, consistiu o discurso, inflamado e de
bater com a mão no peito, de Dilma, na campanha eleitoral contra
Aécio Neves. A escolha de Kátia Abreu, histórica lobista
do latifúndio, para o Ministério da Agricultura, a escolha de
Joaquim Levy (conhecido como "Eduardo Mãos-de-Tesoura") para o
Ministério da Fazenda, faziam antever o que por aí viria: uma
campanha contra a direita e a prática da política de direita
chegada ao poder. Note-se que a política de direita do Governo PT,
patente no modelo
cavaquista
das PPPs, das obras públicas faraónicas, na bolha
imobiliária que não só levou à expulsão
maciça de moradores de favelas para construir hotéis de luxo
como está na base da crise económica que motivou as medidas de
austeridade recentemente anunciadas, vem de longe. Era conhecido de todos
quanto aos efeitos que tinha tido, desde logo, em Portugal. Chico Buarque
cantou que a sua terra iria ser um imenso Portugal. Não adivinhava que o
seria à lei do cimento, pelas mãos de um dito partido dos
trabalhadores.
Portanto, a traição vem de longe e estava no bojo mesmo das
medidas que aparentavam ser progressistas. A política do PT teve efeitos
positivos para os trabalhadores, deve reconhecer-se. O problema foi a
estratégia geral por detrás dessa política, que não
visava o avanço dos trabalhadores na direcção da tomada
pelo poder, mas o contrário: visava discutir, no plano da divisão
internacional do trabalho, qual o papel da burguesia brasileira se o de
uma burguesia subalterna perante o imperialismo estadunidense, se o de uma
burguesia em condições de encarar o imperialismo nos olhos. O
proletariado não tem de apoiar a sua burguesia nacional contra o
imperialismo, e a proposta, e a consecução de uma política
desse tipo, chama-se social-chauvinismo. É um tipificado desvio de
direita. O proletariado deve libertar-se do imperialismo tomando o poder,
não entregando o poder aos sócios do imperialismo no dia anterior
que decidiram reclamar uma maior fatia do bolo que nem eles, nem o
imperialismo, confeccionam.
E por isso houve aumentos salariais, reforço da protecção
social, Bolsa-Família, e toda uma soma de outras medidas. Em termos
objectivos conjunturais, isso permitiu um grau de melhoria da vida dos
trabalhadores considerável. Mas o objectivo final, que tinha nestas
medidas uma etapa e não um fim em si, era outro: voltar a economia
brasileira da exportação para o mercado interno, protegendo-a
assim da concorrência, até que o nível de
acumulação da burguesia brasileira lhe permitisse ombrear com os
Estados Unidos. Assim ocorreu, e o PT era, a diversos títulos, o partido
ideal para fazer isso. Não apenas no plano interno, acrescente-se:
não há um ano atrás, um dirigente da FIESP afirmava, na
televisão, que Dilma era a figura ideal para mediar as
relações económicas entre o Brasil e Cuba, onde a
brasileira Odebrecht tem obtido bons negócios na
construção, comparados pelo citado industrial às primeiras
incursões do capital estrangeiro nos países socialistas cujo
regime entrava em agonia deliquescente.
As consequências deste processo estão a revelar-se
dramáticas. O desenvolvimento pela direita fascista de um processo de
exploração moralista desta situação, que engloba
num mesmo pacote a mentira do PT, a corrupção do PT, a
traição do PT, com um discurso obscurantista, homofóbico,
machista, saudoso da ditadura militar, em que associa o actual estado da vida
dos brasileiros não a causas materiais e objectivas mas a uma
generalista dissolução de costumes, e essa
dissolução de costumes... à esquerda. Do ponto de vista da
esquerda brasileira, dos partidos e organizações comprometidos
com a libertação dos trabalhadores, a situação
ainda se torna pior: se acusam (com justiça) o PT das suas
traições e mentiras, chovem acusações de que faz o
jogo do fascismo; se por outro lado toma a palavra para denunciar o fascismo,
é-lhe arremessada a invectiva de que faz o jogo do PT. O esforço
para assegurar uma autonomia crucial neste momento, sem se tornar presa nem da
defesa de um Governo antipopular, reaccionário, neoliberal e
burguês, nem do regresso sinistro da ditadura, é hercúleo.
E é-o por força da especificidade do processo político do
Brasil, e dos aspectos mais vergonhosos da traição do PT. Partido
forjado na luta contra a ditadura, na luta da classe operária do ABC
paulista, dos morros, dos sindicatos, das organizações populares,
o PT descreveu, desde inícios dos anos 90, em nome de um projecto
eleitoralista de poder a qualquer custo, uma curva descendente da
condição de partido de classe dos trabalhadores para partido da
burguesia quer a local, residente no Brasil, quer a sua associada
estrangeira com o bónus de conseguir conter e inutilizar a luta
dos trabalhadores. O choque de ver o partido edificado pelas mãos da sua
própria classe transformado no agente da política do capital
brasileiro, no elemento central de um processo de desmantelamento das mesmas
conquistas sociais que, com esse mesmo partido em lugar destacado, foram
obtidas nos últimos 30 anos, vê-lo anunciar cortes no apoio na
doença, no apoio no desemprego, nos salários, e
degradação de outros direitos laborais isso tem de ser
absolutamente devastador. Se somarmos a isso a ingerência estadunidense,
que tem sido claramente quem tem agitado as massas contra o PT, com o
prestimoso auxílio de classes e camadas intermédias da sociedade
(que curiosamente foram feitas e vão agora ser desfeitas pelo mesmo PT),
encontramos uma sociedade onde o proletariado, desorganizado, abatido, cuja
direcção política lhe voltou as costas para se pôr
ao serviço dos grandes capitalistas brasileiros contra a burguesia
estadunidense, se constitui numa fácil massa de
manipulação e manobra que a direita fascista pode utilizar.
Extrai-se um precioso ensinamento deste processo: a capitulação
da direcção de um movimento popular, e a sua
transformação em representante já não dos
trabalhadores mas da burguesia (local & estrangeira) tem efeitos
catastróficos, e de uma velocidade absolutamente espantosa, em termos de
desorganização e recuo ideológico das massas. As massas
desorganizadas, sabemo-lo desde o Manifesto, não são uma
inexistência política:
são organizadas pela burguesia de acordo com os seus interesses
. Diligentemente, pacientemente, com todo um arsenal de escolas, de igrejas, de
telejornais, novelas, rádios e jornais pagos a peso de ouro para o
efeito. E quando é necessário, são um exército
cuidadosamente preparado para combater quaisquer focos de rebelião.
Mas aprende-se uma outra coisa, aprendida amargamente ao longo de todo o
século XX, desde a capitulação social-democrata à
degeneração e implosão dos países socialistas: que
os deveres de disciplina revolucionária devem ser cumpridos com a plena
consciência de que a palavra revolucionária não consta dos
termos do conceito para o enfeitar, ou para efeitos retóricos. O
conceito esclarece com clareza quando se deve disciplina: quando se marcha para
a revolução. Quando a marcha é flagrantemente
contra-revolucionária, como Lenine fez com a II Internacional, como
Cunhal fez com o desvio de direita, como tantas vezes ocorreu ao longo da
história do movimento operário, a disciplina é para atirar
pela janela e todos, todos, todos os expedientes são lícitos para
restabelecer uma orientação revolucionária e
desembaraçar o proletariado da crosta de escória
burocrática que pesa sobre ele e o impede de continuar. Porque o caso
brasileiro (como o caso francês com o ascenso da Frente Nacional, o caso
italiano com o crescimento do Movimento Cinco Estrelas, e tantos outros)
indicam uma forte probabilidade de o "amarelecer" da
direcção do movimento operário e popular estar
directamente relacionado com o reforço prodigioso do fascismo. Uma
classe trabalhadora desorganizada não se torna automaticamente uma base
do fascismo: mas fica exposta a sê-lo. O cumprimento dos deveres de
educação política das massas, e o exercício
permanente por estas da vigilância revolucionária das suas
lideranças são os dois polos indispensáveis para que se
possa chegar ao socialismo. Sem isso, o risco da burocratização
é forte e o da derrota é imenso. Como diz o Programa do PCP,
"[a] experiência revela assim que a intervenção
consciente e criadora das massas populares é condição
necessária e indispensável na construção da
sociedade socialista". Princípio que não tem validade apenas
após a revolução: começa ainda antes, na luta por
ela.
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