"Estamos assistindo a uma ofensiva final contra os povos
indígenas"
Madeireiros e mineradores ilegais funcionam como "carne de
canhão" para privatização da Amazônia
"A gente chegou numa situação no Brasil em que
você tem que usar um vocabulário da psicopatologia"
"Lula fez um pacto com o diabo para poder governar e o diabo cobrou
a conta, como sempre cobra"
"Belo Monte não tem perdão"
por Viveiros de Castro
[*]
entrevistado por Ciro Barros e Thiago Domenici
[**]
Um dos mais influentes antropólogos do planeta, Eduardo Viveiros de
Castro não se dá tanta importância. "Talvez seja uma
conjunção aleatória, um contingente de fatores que fez com
que eu me tornasse uma pessoa em evidência dentro da academia e, depois,
fora", diz com a franqueza habitual.
Escolhido pelos leitores aliados da Agência Pública como
entrevistado do mês, Viveiros de Castro recebeu na semana passada nossos
repórteres para uma conversa de mais de duas horas, em seu apartamento,
no Rio de Janeiro. A sua primeira entrevista após a
eleição de Jair Bolsonaro havia sido aceita com uma dose de
contragosto. "Não tenho visões especialmente inéditas
e profundas sobre tudo o que está acontecendo. Estou apenas perplexo,
como todo mundo", disse, ao descrever o cenário atual como "um
momento em que a palavra perdeu o fôlego, inclusive o valor. A gente
não consegue mais distinguir a verdade da mentira". Para ele, a
verdade se tornou inacreditável.
Apesar das necessárias ressalvas, Viveiros de Castro conversou com a
Pública sobre diferentes temas da atualidade da resistência
indígena à destruição da Amazônia. Do governo
Lula-Dilma a Bolsonaro e os militares. Da reforma agrária a Belo Monte.
Do terraplanismo à mamadeira de piroca. Da questão
climática ao fim do mundo. No início do papo, ao tentar
classificar sua perplexidade, ele afirma: "A gente chegou numa
situação no Brasil em que você tem que usar um
vocabulário da psicopatologia". A seguir, os principais trechos da
entrevista.
Thiago Domenici Um sujeito que o senhor admira, que é o Claude
Lévi-Strauss, tem uma frase assim: "Meu desejo é um pouco
mais de respeito para o mundo que começou sem o ser humano e vai
terminar sem ele. Isso é algo que sempre deveríamos ter
presente". Até que ponto o que ele diz se refere ao momento que a
gente está vivendo?
Essa frase está num livro publicado em 1955,
Tristes trópicos,
o livro talvez mais conhecido dele fora da antropologia mais especializada.
É um livro que reflete várias coisas, desde um certo pessimismo
filosófico muito importante dentro da imaginação
lévi-straussiana, como uma observação, em primeiro lugar,
absolutamente verdadeira. É interessante como é uma
observação que é, digamos assim, uma obviedade, porque o
mundo começou sem o homem e vai terminar sem ele, e, ao mesmo tempo
é uma obviedade que precisa ser lembrada. Primeiro porque é em
cima do esquecimento dela que muitas vezes se constroem vidas e, em segundo
lugar, porque nesse momento em particular algo que foi dito há 50 anos,
60 anos ganha, de repente, uma atualidade até certo ponto inesperada.
E mesmo que o Lévi-Strauss já tenha advertido para o fato de que
a marcha da chamada civilização ocidental, necessariamente,
envolvia uma destruição de suas próprias
condições materiais de existência e, portanto, ela era um
projeto civilizacional suicida, ele frequentemente localiza mais
especificamente na civilização ocidental de origem europeia essa
ideia de que é uma civilização que consome quantidades
absurdas de matéria e energia, e que está produzindo entropia,
está produzindo desorganização do cosmos terrestre e que,
portanto, não poderá prosseguir dessa forma. Ela, na verdade,
está colaborando para o fim da espécie, num certo sentido.
Essa ideia de que o mundo começou sem o homem e que, sabemos bem, vai
terminar sem ele, toda questão diz respeito a quão rápido
vai ser esse término. Vai terminar quando sem ele? A impressão
que se tem é que esse término está se aproximando de
nós com mais velocidade do que se imaginava. Mas, ainda que isso seja
verdade, a ideia de que a crise atual, a mudança climática
[1]
, a crise de todos os sistemas geofísicos, geoquímicos, do
planeta, implique, necessariamente, a desaparição da
espécie humana, talvez seja um pouco exagerado dizer isso. Porque
é provável que não desapareça toda a espécie
e que as condições de vida vão ser muito mais
difíceis do
que elas foram nos últimos 10 mil anos, que é o tempo que se tem
de história, o chamado Neolítico da história, essa fase
climática dentro da qual todas as coisas das quais nós nos
orgulhamos enquanto civilização surgiram: escrita, cidade, artes
etc.
E essas condições vão, muito provavelmente, implicar um
choque populacional na espécie que não se sabe exatamente quando,
como e o que vai acarretar. Então, a frase do Lévi-Strauss
é uma frase sombria, sobretudo, porque ganhou uma urgência, uma
qualidade que talvez não tivesse em 1955, e pudesse ser vista como uma
frase poética sombria, mas apenas poética. O tempo verbal
se tornou, de repente, mais complicado. Não é, talvez, "vai
terminar", mas "está terminando".
Thiago Domenici Em algumas entrevistas, já vi o senhor declarar
que é um pessimista, mas em que momento da sua trajetória o
senhor foi menos pessimista? E como é que o senhor se caracterizaria
hoje?
Acho que sou pessimista, sim, em vários níveis e de maneiras
diferentes. Num certo plano, sou pessimista num sentido que o
Lévi-Strauss era pessimista ao falar que a espécie estava
colaborando com sua própria extinção, a partir dos
representantes da espécie que se consideram os mais avançados, os
mais evoluídos, na vanguarda, e que são justamente aqueles que
estão contribuindo da maneira mais radical para a
deterioração das condições materiais de
sobrevivência da espécie.
Em outro sentido, sou pessimista pois não vejo com grande
esperança a capacidade dos Estados-nação, dos governos
mundiais, de efetivamente mudar com a radicalidade que se impõem as
condições de existência das sociedades avançadas
em particular, as tecnologicamente avançadas para que
você diminua a velocidade de deterioração do sistema
termodinâmico da Terra.
Então, é um pessimismo num sentido de que não ponho muita
fé na passagem da racionalidade individual, isto é, pessoas que
são capazes de perceber que as coisas estão indo muito mal do
ponto de vista das condições de existência, para a
racionalidade coletiva e, portanto, para que movimentos sociais, governo, ONU,
seja quem for, efetivamente tomem medidas que envolvem uma mudança
drástica, radical, dramática, do modo de vida que nós
consideramos como sendo o ideal e que, entretanto, é precisamente aquele
que está produzindo a destruição do planeta.
Estou falando de carro, estou falando de petróleo, estou
falando de uso de energia elétrica, estou falando do consumo de
energia, seja ela fóssil, seja ela de outras fontes, o consumo em geral,
per capita, de energia, o desperdício, produção de dejetos
e assim por diante.
É nesse sentido que eu sou pessimista.
Além do que nós estamos vendo algo que ninguém imaginava,
talvez, que é uma maré fascista mundial encabeçada pela
principal potência mundial [Os Estados Unidos], em breve, segunda
potência mundial. A outra [China] sempre foi o que é, há 5
mil anos, sempre foi um regime autocrático, sempre foi um regime
imperial, num certo sentido.
O Brasil, para mim, é um grande motivo de pessimismo, desde o fato de
nós jamais acertarmos as contas com a ditadura é uma
vergonha o Brasil não ter feito o que fez a Argentina, o Chile
e o fato de que nós vivemos e hoje está mais claro
do que há dez anos como uma democracia tutelada,
"consentida" pelos militares até certo ponto. Desde a
proclamação da República foi mais ou menos sempre isso que
aconteceu. O que é mais patético ainda, porque saímos de
uma monarquia estrangeira para uma república tutelada pelos militares.
Então, realmente não temos muito o que comemorar.
De outro lado, esse é um país que continua marcado por uma
estrutura profunda da sua natureza, a escravidão. Que continua, de certa
maneira, girando em torno de um modo de ser, de pensar, de agir, que se
contém à memória da escravidão. Não
só o racismo, mas a relação do poder público do
governo com as populações negras, pobres, do Brasil, o
genocídio entusiasmado praticado por governantes.
E agora a gente chegou numa situação no Brasil em que você
tem que usar um vocabulário da psicopatologia para falar dos que
estão no governo. Esse governador [do Rio, Wilson Witzel] é um
psicopata, esse presidente é louco, e coisa desse gênero. Cada vez
mais você vê um vocabulário
"As pessoas
estão loucas". "Isso é loucura". Então, o
que que aconteceu para que de repente a política tivesse virado na
psicopatologia?
Thiago Domenici É o que me pergunto todo dia.
Tem que chamar um psicanalista para fazer análise política hoje.
É que nem o Reich [Wilhelm Reich, autor e psicanalista] fez do fascismo.
Para analisar isso aqui, só uma pessoa que trabalha com questões
de psicopatologia.
Ciro Barros Em 2013, eu tinha 23 anos e foi um momento de certa
empolgação com o momento. E hoje se vê muito a
análise principalmente vindo da esquerda mais petista que estava
no poder de que, de alguma maneira, os protestos iniciaram uma onda de
acontecimentos que resultaria no governo que está hoje.
Você tinha uma situação em que o PT se comportou de uma
maneira, no meu entender, completamente equivocada. Em vez de incorporar as
bandeiras que estavam sendo levantadas em 2013
, nas jornadas, ele soltou uma Garantia da Lei e da Ordem e começou a se
comportar como se estivesse diante de baderneiros, terroristas, seja lá
o que for. Com isso, ele jogou o movimento nos braços da direita. A
direita se tornou revolucionária e a esquerda virou conservadora.
Entendendo-se o PT como um partido de esquerda, que eu sempre achei uma
associação um pouco apressada; só no Brasil se diz que o
Lula é um personagem da extrema-esquerda, quando na verdade o PT
é um partido social-democrata, enquanto chamar o PSDB de um partido
social-democrata é um absurdo, porque é um partido de
centro-direita.
O projeto do PT era, na verdade, melhorar as condições de vida da
população brasileira sem tocar nas chamadas
relações de produção e, se possível e
ele até fez isso , sem tocar nos lucros da classe dominante, do
grande capital. Tanto é que a burguesia, os bancos, o
agronegócio, todos eles lucraram muito, se deram muito bem durante o
governo do PT. Então, o que o PT queria era simplesmente que
caísse mais migalhas da mesa no chão para que o povo pudesse
comer mais dessas migalhas. Mas nunca pensou em pegar o bolo, dividir e
entregar, redistribuir o bolo radicalmente. Você tinha uma
redistribuição moderada e, sobretudo, sem meter a mão no
bolso dos ricos.
Como é que se conseguiria fazer um projeto de melhorar as
condições de vida da porção mais miserável
da população brasileira sem mexer no bolso dos ricos? Tinha que
tirar de algum lugar. Você tirou de onde? Da natureza. Das florestas, das
águas. Aí aumenta desmatamento, aumenta a
exploração da Amazônia, a devastação da
Amazônia, aumentam os grandes projetos que vão destruir
organizações sociais tradicionais, as populações
tradicionais.
Eu acho que o PT cometeu um erro histórico, e acho que o principal foi o
de não ter assumido o espírito das jornadas de 2013 e, ao
contrário, ter se colocado do lado da polícia, literalmente, e
com isso jogou o movimento na mão da direita oportunista e na mão
da fração considerável da classe média, que
é reacionária, que sempre foi admiradora da ditadura, que sempre
saiu na rua levantando cruzes e bandeiras, na Marcha pela Família com
Deus pela Liberdade, vestindo camisa do Brasil.
Isso só tirou esse pessoal do armário, no qual eles estavam desde
o fim da ditadura e, sobretudo, depois que o PT ganhou a eleição
em 2002. Ganhou, aliás, apenas porque o PT se obrigou a fazer
concessões. A
Carta aos Brasileiros
do Lula, em 2002, falou: não vamos tocar no sistema. E, apesar
disso, ele [o PT] foi apeado do governo por um golpe. Em parte por causa,
evidente, da crise econômica mundial.
De fato eu não sou especialmente otimista, acho que a gente nunca esteve
tão mal, do ponto de vista político, quanto agora. A
situação é propriamente surreal. Eu há pouco tempo
fiz uma brincadeira nas redes sociais dizendo que o sucesso nas fake news no
Brasil se deve ao fato de que a verdade se tornou inacreditável. As
notícias verdadeiras são inacreditáveis, então
você acredita nas falsas.
O Senado chamou o Steve Bannon para falar no Senado. Isso é
inacreditável. O Bolsonaro fala que o garimpo é fantástico
e tem que acabar com os índios e não sei o quê. Isso
é inacreditável. Então, você tem que acreditar em
mentiras. Está mais fácil acreditar em mamadeira de piroca
[2]
do que no Steve Bannon.
Thiago Domenici Tem uma entrevista que o Celso Furtado deu para a
revista
Caros Amigos
antes da primeira eleição do Lula [2002]. E
ele disse que, da visão dele, seria uma tarefa fundamental do PT, se
eleito, tentar impedir o processo de desagregação do Brasil. O
senhor já discorreu um pouco disso, mas quais outros pecados o PT
cometeu nesse caminho? E Belo Monte?
Primeiro, eu queria fazer uma ressalva. Não é nem dizer que
não é o momento de fazer essas críticas, mas é
questão de dizer que perto do que está aí o PT era o
paraíso, em termos de qualidade das relações
políticas, relações sociais. Aliás, com toda a
picaretagem, a mamata, a propina, a negociação no Congresso, o
mensalão e tudo, que o PT fez, não foi o primeiro partido de
esquerda a fazer isso na história.
Ele fez um pacto com o diabo para poder governar e o diabo cobrou a conta, como
sempre cobra.
Com o impeachment foi isso. Ele fez um pacto com as forças mais
reacionárias, mais corruptas do sistema político para poder
governar, e conseguiu isso até certo ponto. Dali pra frente, a conta
veio. E a conta vem da maneira mais atroz, mais absurda, essa prisão do
Lula, essa exposição do fato de que o sistema jurídico
é envenenado por pessoas de má qualidade ideológica, de
má qualidade cultural e de má qualidade política.
Isso tudo, evidentemente, faz com que a gente tenha que criticar o PT, mas
dizendo "olha, vejam bem". Lula livre pra começar essa
eleição foi fraudada nesse sentido de que o Lula foi preso para
evitar que ele ganhasse. Nem todo mundo que votaria no Lula e ele teria
ganho em primeiro turno era petista, e todo mundo sabe. Assim como nem
todo mundo que votou no Bolsonaro é bolsominion, mas muitas das pessoas
que votaram no Bolsonaro teriam votado no Lula se o Lula estivesse solto.
Isso, em parte, passa por um certo imaginário brasileiro que envolve a
figura do líder poderoso, do líder salvador, que foi transferida
do Lula para o Bolsonaro, ainda que eles encarnassem figuras muito diferentes
ao representar a esperança. O Lula era, essencialmente, o pai dos
pobres, de alguma forma, o Bolsa Família, e o outro é,
essencialmente, a figura do capitão, do policial que vai matar, prender
e arrebentar, como dizia o Figueiredo. E foi o policial que ganhou.
Estou usando "o policial" para não usar outra palavra, dos
amigos dele, pessoal que sai em fotografia com ele em tudo que é lugar.
Então nós estamos numa situação de um regime
criminoso. Não sei como definir de outra forma. Não estou falando
da criminalidade clássica da política, que é a
criminalidade dos contratos, dos grupos de favorecimento, que sempre houve e
que o PT também praticou, mas numa criminalidade num sentido de porta de
delegacia, criminalidade de assassinato, extorsão de
populações pobres
Essa criminalidade está no poder.
Isso é uma coisa inacreditável.
E está no poder, em parte, com o apoio e, em parte, com a perplexidade
do Judiciário, que está aparelhando todo o sistema, toda a
máquina pública, com as piores pessoas possíveis.
Você tem uma espécie de critério que é simples: dado
um determinado ministério, alguma tal secretaria, quem é a pior
pessoa possível para colocar ali? É essa pessoa que vai.
Então, você tem uma espécie de perversidade, e perversidade
quase no sentido psicopatológico mesmo, por isso que falei em
psicopatia. É uma espécie de perversidade de você colocar
exatamente a pessoa inimiga daquele tema para tocar a política de Estado
sobre aquele tema.
Isso está acontecendo no meio ambiente, nos direitos humanos, o direito
da mulher, da família, está acontecendo, de certa maneira, na
economia.
Thiago Domenici E Belo Monte?
Bom, uma das grandes divergências, um dos grandes problemas que eu tenho
com o PT é
Belo Monte
, que foi enfiada pela garganta adentro dos ribeirinhos, dos indígenas
da região, pelo Lula, pela Dilma. Então, eu não consigo
aceitar um partido, um governo que fez Belo Monte. Daí não se
segue que eu tenha que aceitar o que está no poder agora, muito pelo
contrário, mas Belo Monte não tem perdão.
Eu trabalhei lá, conheço lá, não tem perdão
o que eles fizeram ali. Aquilo representa uma ideia de Brasil em que, num certo
sentido, há uma continuidade em algum nível entre o projeto do PT
e o projeto desse governo no que diz respeito à relação
com a Amazônia, com os povos tradicionais, com o Brasil profundo.
Tem que modernizar, tem que civilizar, tem que industrializar, tem que
derrubar, tem que gerar renda, tem que gerar valor, gerar emprego, e a gente
ouve isso há séculos e só vê o pessoal se fodendo.
Lula livre, sim; Belo Monte, não. Belo Monte jamais.
Thiago Domenici O governo Bolsonaro elegeu alguns inimigos diretos, seja
territorialmente, seja de pessoas ou grupos sociais. Estou falando da
Amazônia e dos indígenas. Por que este governo tem tanto medo dos
índios?
O problema dos índios, para esse governo e para as frações
da sociedade brasileira que ele representa em particular, o grande
capital, o agronegócio , é que as terras dos índios
não estão no mercado fundiário. E o projeto desse governo
é de privatizar 100%. Se possível, o Brasil inteiro.
Parque nacional, reserva ecológica, todas as terras que têm uso
especial estão na mira desse governo. Daí a importância do
Ministério do Meio Ambiente para destruir os sistemas de terras
protegidas e para o ataque aos povos indígenas. Esse ataque, na verdade,
exprime um desejo de transformar o Brasil inteiro em propriedade privada.
É um Estado cujo objetivo é retirar do Estado a sua soberania
efetiva sobre seu território, ou melhor, transformar a soberania em
apenas poder de supervisão, mas entregar as terras ao capital privado,
seja nacional, seja estrangeiro.
Daí essa conversa para boi dormir dos militares: "Ah, a
invasão da Amazônia pelos estrangeiros". Eles estão
vendendo as terras da Amazônia para um monte de proprietários
estrangeiros, o problema deles não é esse. Isso é mentira.
O problema dos índios é que as terras dos índios
são terras da União, e o objetivo do governo é privatizar.
E mais do que do governo, das classes que o governo representa, das quais ele
é o jagunço, porque é isso que ele é: o
jagunço da burguesia.
O segundo motivo, acho, está numa declaração absurda que o
Mourão, o vice-presidente, deu há pouco tempo, louvando as
capitanias hereditárias
e os bandeirantes, dizendo que aquilo é o melhor da nossa origem, o
melhor da nossa história, empreendedorismo e tal.
Isso soa como uma provocação, uma provocação
especificamente anti-indígena, porque ele está celebrando o
genocídio ameríndio, celebrando o bandeirante, que é uma
figura que foi transformada, evidentemente, a partir de São Paulo, em
herói da nacionalidade, quando o que ele fez, efetivamente, foi arrancar
o Brasil da mão dos seus ocupantes originais. Não conseguiu
arrancar todos, ainda tem 13% aí de terra [indígena].
E o objetivo, agora, é completar o processo iniciado com a
invasão da América pelos portugueses. Isso é muito claro.
Os militares, agora, estão se identificando com a Europa. É muito
estranho, se você for olhar a composição racial das
Forças Armadas brasileiras. Não vai achar muito louro. A
começar pelo Mourão, que é mestiço de índio.
Mas pelo jeito não gosta.
Então, você tem uma concepção que vê o Brasil
como um país essencialmente europeu, num sentido assim, do que é
o melhor da nossa formação, da nossa história. Como diz o
Mourão, o melhor é a Europa. É isso que ele está
dizendo.
Talvez o momento culminante do filme
Bacurau
, que está fazendo sucesso, é o momento do diálogo em que
os gringos assassinos dizem para dois puxa-sacos brasileiros que eles
não são brancos coisa nenhuma. O Mourão, na verdade,
estava falando como aquele motociclista: o melhor da nossa história
são as capitanias. Aí vem o gringo: "Para começar,
português nem é branco. E, segundo, você não é
nem português". Então, bum!
E as celebrações do caráter mestiço, no meu
entender, são pura demonstração de hipocrisia. O que se
chama de mestiçagem no Brasil, o nome certo é branqueamento.
Então, você tem um ódio do não branco no Brasil,
racismo contra os negros, e um racismo dobrado, de um racismo territorial, em
relação aos índios. Essas são as razões
principais, eu diria.
Ciro Barros E a Amazônia?
A Amazônia é um objeto imaginário, complicadíssimo
no Brasil. Primeiro que a gente precisa sempre lembrar: a Amazônia
não é brasileira. A Amazônia é de nove países.
As cabeceiras, as formadoras do Solimões e de grande parte dos afluentes
da Amazônia, estão fora do território brasileiro. Se o
Peru, a Colômbia, a Bolívia resolverem fechar a torneira, seca.
Vão sobrar os rios que são formados no Cerrado, no Brasil
central, o Xingu, Tocantins, Araguaia, Tapajós
Que estão
sendo destruídos. O Cerrado está sendo arrebentado, esses rios
também estão ferrados.
O escândalo sobre a França falando da Amazônia
A
Guiana Francesa é francesa. A França é amazônica, o
que vão fazer com isso? Podemos fazer nada. Podemos tentar invadir a
França, que nem a Argentina fez com as Malvinas, vai dar super
certo
E a Amazônia tem essa coisa: você, ao mesmo tempo, utiliza aquilo
como um cartão de visitas, como um orgulho "Olha só o
verde, o paraíso, muitas árvores
" e, de outro
lado, você quer destruir a Amazônia para os outros não
pegarem.
Então você tem aquela atitude de um infantilismo absurdo: "A
Amazônia é nossa, e eu faço dela o que quiser. Então
vou tocar fogo nela porque ela é minha". Eu posso fazer como a
criança que vai quebrar o brinquedo porque o brinquedo é dela,
entendeu?
É um pouco isso que os militares falam, que não tem que se meter
com a Amazônia, a Amazônia é nossa. Nossa para fazer o
quê?
Por que as Forças Armadas não quiseram intervir em três
denúncias recentes de ataque de garimpeiros ao
Ibama
? Porque eles estão do lado dos garimpeiros.
Não é só essa admiração ridícula do
Bolsonaro pelo garimpo, que vem desde a amizade dele, em Serra Pelada, com o
Curió
, não. Isso é só a parte mais, digamos assim, grotesca.
Mas a ideia de utilizar a população pobre, miserável,
desesperada, como carne de canhão, para entrar lá, pegar
malária, matar índio, ser morto, destruir, ferrar e tudo,
é uma ideia que na verdade está na cabeça dos militares.
Na verdade, isso faz parte da ideologia nacional. O garimpeiro é mais
brasileiro do que o índio para o militar. Agora, quando você chega
nesse pessoal que está fora, tipo os índios, a
população tradicional, os ribeirinhos, os caboclos, os
sertanejos, o pessoal cujo modo de vida é contraditório, no
sentido forte da palavra, a esse projeto de país, aí a coisa pega.
O que está acontecendo, também, é que em parte esse
genocídio que está sendo praticado no Rio de Janeiro em cima das
favelas, com a polícia atirando de helicóptero, é porque,
em larga medida, o chamado "proletariado" se tornou meio
dispensável. Não é preciso tanto trabalhador assim, e
você tem uma quantidade de pessoas, hoje, que são consideradas
supérfluas dentro do sistema econômico. E essas pessoas
estão sendo massacradas.
Ciro Barros Um grande traço desse governo que me parece diferente
dos anteriores é essa coisa de apresentar lideranças e
populações como "ah, olha aqui, os
Paresi
[etnia do Mato Grosso] querem plantar soja". Essa narrativa do
índio do século 21.
De um lado, acho que nós estamos assistindo a uma espécie de
ofensiva final contra os povos indígenas.
É a grande onda agora, e vai por todos os lados. Se não for
comprando eles com dinheiro, vai ser metendo os evangélicos malucos
lá para quebrar, para proibir
pajelança
, fazer o diabo, acusar os índios das coisas mais loucas.
Porque é o seguinte: índio não é santo.
Ninguém é. Tem filho da puta entre os índios, não
sei se tanto quanto, mas eles não estão excluídos,
digamos, do hall da filhadaputice humana. Então sempre vai ter algum
índio, alguma pessoa indígena, que vai servir de traidor, como
é o caso dessa moça, essa mulher Kalapalo que o Bolsonaro
arrastou para lá e para cá e que foi, inclusive, renegada pela
sua aldeia, pelo seu povo.
Sem contar outra coisa: os povos indígenas raramente possuem uma
estrutura política que tem um porta-voz, uma pessoa que fala em nome da
população. Então, o que acontece é que se tem um
cara que fala alguma coisa, vai chegar outro que vai dizer o contrário,
porque tem as lutas políticas internas. Se não é luta
política interna, o fulano de tal se alia com o agronegociante para
ferrar o outro. Ele vai fazer isso.
Para começar, os povos indígenas são trezentos e poucos no
Brasil. Chamar todos eles de indígenas não diz muita coisa sobre
eles, diz muito mais sobre a Constituição brasileira, sobre
legislação, que chama de indígena uma coisa. A
noção de indígena, na verdade, é uma palavra,
principalmente, de significado jurídico.
Daí a confusão: isso é índio, isso não
é índio, não sei o quê. Quando, na verdade,
índio é uma forma de relação com o Estado. É
claro, tem uma dimensão histórica, são
populações descendentes, remanescentes, e que se pensam como
ligadas às comunidades pré-colombianas. Mas são
também comunidades que têm uma certa relação de
exterioridade em relação ao Estado nacional e à etnia
dominante, que é uma relação muito particular. E essa
relação passa, principalmente, por uma certa
relação com a terra.
E que, na verdade, é o nó do problema, porque o que acontece
é o seguinte: a Amazônia é a parte do Brasil que representa
o que era todo o Brasil em 1500. Não que ela seja exatamente igual,
longe disso. Mas essa é a parte que ainda não foi
destruída, que ainda não foi civilizada, que ainda não foi
"conquistada". E agora é: "Temos que acabar os
serviços começados em 1500".
E como a Amazônia virou um foco de atenção internacional
por conta do fato de que é a maior floresta tropical do mundo, porque
tem uma importância grande no equilíbrio geoquímico e
termodinâmico do planeta, evidentemente está todo mundo olhando
para ela.
Esse seria o momento em que o Brasil poderia, se tivesse uma diplomacia menos
alucinada do que a desses malucos que estão no ministério
Ela estaria naturalmente faturando, no sentido positivo da palavra, utilizando
isso como um trunfo importante na sua posição no cenário
internacional. Mas, ao contrário, eles estão batendo o pé,
fazendo uma birra absolutamente ridícula. E vão sofrer as
consequências. Agora eles têm um inimigo importante, que é o
papa, que, evidentemente, não tem tantas legiões, como dizia o
Stálin, não tem um exército, mas exerce um poder grande
sobre a opinião pública.
Thiago Domenici O senhor falou da questão da liderança
indígena, que não tem uma voz que fale por todos, mas a gente tem
a figura do Raoni, por exemplo. Eu queria que o senhor comentasse o papel dele
nesse processo da
resistência indígena atualmente
. E, sobre a questão da terra, queria que o senhor falasse do papel que
tem a reforma agrária.
A reforma agrária é um caso especialmente importante. O Brasil
não fez reforma agrária, e tudo o que acontece no Brasil, em
parte, se explica por isso. Se optou por jogar a população rural
nas cidades e entregar o campo à agricultura mecanizada e concentrada. O
que acontece na Amazônia é que você ainda tem uma
porção grande de população tradicional,
ribeirinhos, que não sei o que vai ser dela, porque a soja já
chegou na Amazônia faz tempo. A fronteira econômica está
subindo e, à medida que ela sobe, vai expulsando gente, jogando fora
árvore, colocando boi o Brasil tem mais boi do que gente. E esse
boi, evidentemente, não vai todo para a barriga da
população brasileira. Então nós estamos, na
verdade, alimentando o mundo. E o engraçado é que vejo,
frequentemente, o governo se orgulhar de que o Brasil está alimentando o
mundo. Devia estar alimentando os brasileiros, não é? Para
começar.
Thiago Domenici A
fome voltou
É, a fome voltou, e nós nos orgulhamos de que estamos alimentando
a China. Que orgulho é esse? Se a população brasileira
inteira estivesse, de fato, em saúde nutricional espetacular, você
poderia se dar ao luxo de se orgulhar de também estar alimentando outros
países, não é?
Na verdade, nós estamos queimando os móveis da casa para nos
aquecermos, digamos assim. A gente está destruindo o Brasil, exportando
água, exportando solo para fora do Brasil, e estamos mais ricos por
causa disso? A desigualdade diminuiu depois de anos de destruição
do Cerrado, da Amazônia? O ciclo do ouro, o ciclo do café, o ciclo
da borracha, o ciclo da soja, todos esses ciclos com a mesma estrutura, a
saber: o Brasil como exportador de produtos primários para as
metrópoles capitalistas. Estamos na mesma posição em que
estávamos em 1500. É uma colônia de
exportação de
commodities.
Agora é
commodities high-tech,
não é? Não é
mais o braço escravo, não é mais o índio amarrado,
agora é a colheitadeira, é o grande trator, é a feira de
Barretos.
O Brasil continua sendo uma colônia que consegue o prodígio de ser
uma autocolônia, colônia dos outros e a colônia de si mesmo.
Enfim, e a reforma agrária, o que aconteceu com o MST? Acho que o MST se
deu mal no governo Dilma. Ele perdeu o fôlego, perdeu o pique, perdeu a
capacidade política, em parte porque ficou nas mãos da sua
relação com o governo do PT.
Eu sou otimista numa coisa: acho que o Trump não vai ser reeleito. Mas
eu falei que o Bolsonaro não ia ser eleito, e ele foi, não
é? Eu falei que, se ele fosse eleito, eu saía do país. Eu
não saí, não é?
Mas, se o Trump não for reeleito, a situação do Brasil vai
mudar muito, porque não tem mais um outro maluco. Essa aposta total da
Presidência numa relação carnal com os EUA do Trump
é bem arriscada.
Thiago Domenici Essa extrema-direita mundial aflorando assim parece que
é algo cíclico, não é?
O fato é que isso está ligado, evidentemente, a uma crise
econômica mundial, a crise do capitalismo. Não por acaso teve a
crise de 1929, em seguida tem o fascismo. E hoje você tem a crise que
começou em 2008 e que, na verdade, não acabou. Esse é um
ponto de mudança: estamos numa crise econômica mundial, que
está se manifestando no Brasil de uma maneira particularmente
dramática não se sabe o que vem depois dela. Essas
reações de extrema-direita são claramente
reações, parece que são movimentos reativos diante de uma
crise, de uma precarização, em relação às
condições de vida, e também uma reação
à crise ambiental.
Boa parte dos refugiados que estão saindo dos seus países de
origem estão saindo por causa de questões de
destruição das condições materiais: secas brutais,
enchentes. Então, são refugiados do clima, em larga medida. Esse
pessoal que está indo para os Estados Unidos, tentando pular o muro de
qualquer jeito, em grande medida, é refugiado do clima.
O que me preocupa mais de tudo é a crise ecológica. O problema
é que ela atinge o que a gente pode chamar de condições
realmente materiais de existência. Não é o salário;
é o ar. Não é o emprego; é a água.
Então, são coisas que atingem um nível de fundamentalidade
para animais reais, pessoas reais, como nós somos, que precisam de ar,
de água, de uma porção de coisas materiais. É nesse
nível que a crise se manifesta. No esgotamento dos recursos pesqueiros,
na acidificação dos oceanos, na subida no nível do mar, no
aquecimento da temperatura, que provoca secas, que provoca enchentes, que
provoca furacão, que provoca refugiados.
Esse tipo de crise é uma crise que, para que se possa sobreviver a ela,
você precisa de uma radicalidade nas mudanças da forma que se
tornou hegemônica no mundo.
Mudanças muito radicais, que não vão ser três torres
eólicas que vão resolver. Vai precisar de muito mais que isso,
vai precisar de uma mudança radical nos padrões de consumo, das
sociedades desenvolvidas, de uma redistribuição radical dos
recursos pela população do planeta.
Mas é mais fácil, em vez de acontecer isso, que aconteça
outra coisa, guerras genocidas, extermínios maciços de
população, destruições gigantescas de meio
ambientes inteiros
É por isso que eu não sou muito
otimista, não é?
Ciro Barros No seu livro
Há mundo por vir?
, que você escreveu com a Débora [Danowski, filósofa e
companheira de Viveiros de Castro] se fala que essa catástrofe
climática impõe ao ser humano uma mudança
metafísica de não pensar o mundo inteiro a partir de si mesmo,
com uma centralidade no homem.
Não basta ficar dizendo: "Ah, a culpa é do cristianismo, a
culpa é de quem botou o homem acima de outras criaturas". Isso tudo
não deixa de ser verdade, mas acho que o fundamental não é
isso.
Acho que o que marca a modernidade ocidental é uma certa
confiança de que o homem, através da tecnologia, é capaz
de resolver qualquer problema que surja, de que sempre haverá uma
solução. O pessoal está cada vez mais aceitando que
há uma crise ecológica, mas [pensa que] alguém vai dar um
jeito nisso. E se não der? Por que tem que dar? Nem tudo tem
solução.
Acho que a crise ecológica não tem solução no
sentido de manter o status quo atual. Isso é fora de questão. E
todo mundo sabe: se o mundo inteiro consumisse a quantidade de energia per
capita que consome um cidadão americano, você precisava de cinco
planetas Terra para sustentar a humanidade inteira. Qual é a alternativa?
Ciro Barros Você falou que a gente deveria perguntar aos
índios a respeito do fim do mundo porque o mundo deles está
acabando desde 1500. Que lições concretas os povos
indígenas podem nos dar a respeito dessa convivência com esse fim
do mundo, que é gradual, não acontece de uma vez?
É evidente que os 7 mil milhões de pessoas humanas que vivem no
planeta Terra não podem viver como vivem, hoje, uma
população de 500 pessoas na Amazônia. Mas os povos
indígenas, em geral no mundo inteiro, e não só os povos
indígenas brasileiros, têm uma relação com o resto
da realidade, particularmente com a realidade biológica, viva, outros
seres vivos, que é muito diferente daquela que está
implícita no nosso modo de vida e explícita em várias
doutrinas religiosas, filosóficas etc.
Qual é essa relação? Essas populações se
veem como parte de um universo no qual elas estão no mesmo nível
que os demais seres. Não quer dizer que eles preferem ser outros seres.
Eles só se percebem como no mesmo nível, como sujeitos às
mesmas condições metafísicas de existência, digamos
assim.
O que acontece na modernidade ocidental é que o homem se considera como
um ser de exceção. Ele é um animal, mas ele tem alguma
coisa que os animais não têm. Antigamente chamava de alma, agora
é cultura, ciência, tecnologia
Mas é alguma coisa que
torna o homem metade animal, metade anjo, alguma coisa assim. E o lado
extra-animal, superanimal do homem, compensa, cancela, libera a espécie
dessa imanência terrestre transcende a realidade material.
Já os povos tradicionais, porque a história os conduziu a outra
direção, não se veem acima das demais criaturas. Eles
podem achar que os homens são mais inteligentes do que os
jacarés, mas eles acham que essa diferença é uma
diferença de grau, não é uma diferença de natureza.
Para nós, é uma diferença de natureza. É uma
espécie de hipocrisia. Porque a gente tem essa sensação de
que a gente é dotado de alguma coisa que nos tira de qualquer problema,
que as outras espécies vão se extinguir, mas a nossa não
quando a gente sabe que vai se extinguir também.
É como se a espécie humana fosse o único animal que,
porque ela sabe que é um animal, ela não é um animal.
Porque, como ela sabe que é um animal, isso a torna diferente de todos
os outros animais e, portanto, não é animal.
O que é uma contradição em termos. Ao saber que é
um animal, devia torná-la mais atenta às condições
que a aproximam dos outros animais: da necessidade de um ambiente
tolerável pela espécie.
Thiago Domenici O senhor até usou a expressão de que a
espécie humana está se suicidando.
Num certo sentido. Talvez toda espécie se extinga porque se suicide, a
menos que caia um meteoro na cabeça dela, é claro. Quando a gente
fala "espécie", também precisa ter cuidado, porque,
quando a gente fala "espécie", nove vezes em dez está
falando é dos países superdesenvolvidos, seu modo de vida
superdesenvolvido.
Essa é outra palavra que eu gosto de usar, que é
superdesenvolvimento. O que a gente chama de [país] desenvolvido, na
verdade, é superdesenvolvido, no sentido de excessivamente desenvolvido.
No sentido de que consome muito mais do que é necessário, muito
mais do que é razoável e muito mais do que é
possível, dadas as condições materiais deste planeta.
Então, esses países são países superdesenvolvidos.
Eles têm que se "desdesenvolver" para que outros países,
outros povos, possam se desenvolver um pouco mais, de modo a equalizar um pouco
as condições de existência de Bangladesh com a
Califórnia.
Quer dizer que Bangladesh tem que virar a Califórnia? Não. Quer
dizer que a Califórnia tem que virar Bangladesh? Também
não. Mas tem que haver um meio-termo aí, tem que haver uma certa
aproximação entre esses dois povos, entre o camponês de
Bangladesh, a favela carioca e os condomínios de luxo de Miami e de Los
Angeles. Porque, se não aproximar, o planeta vai explodir.
O Brasil é um país que está sendo usado pelo sistema
econômico mundial para fazer um experimento científico, que
é: o quanto você pode ferrar uma população sem
produzir uma insurreição sangrenta? Até quando você
pode ir tirando direitos, ferrando, explorando, expropriando, matando, jogando
na informalidade, sem que isso produza um motim, uma revolução,
uma explosão de violência popular? É quase como se fosse um
experimento científico: o quanto eu posso torturar esse bicho antes dele
morrer, sem que ele morra?
E a gente sabe que a humanidade aguenta muita coisa, então é
difícil imaginar
Tem a famosa ideia de que um dia o morro vai
descer
Mas e se não descer?
Thiago Domenici E tem a resistência indígena
Você me perguntou do Raoni, esqueci de responder a isso. O que acontece
é o seguinte: sim, o Raoni se tornou um símbolo, esse
símbolo é capaz de catalisar a luta indígena, ele é
um símbolo essencialmente para fora, um símbolo para os
não índios, sobretudo. Em parte, por causa do visual que é
muito marcado, em parte porque ele é um senhor, já está
há muito tempo na luta, literalmente. E os índios estão se
vendo obrigados a construir alianças, causas comuns. Eu me lembro de uma
frase do Daniel Munduruku, que é um escritor: "Eu não sou
índio, eu sou Munduruku. Índio é uma coisa de vocês,
eu sou Munduruku". Tem toda a razão.
Mas os Munduruku agora estão se juntando com, sei lá,
Kayapó, com os Araweté, com os Parakanã
Para que
todos esses povos, que não são uma coisa só, possam
apresentar uma frente só diante de um outro lado, que, esse sim,
é uma coisa só, nós, o Estado brasileiro, a etnia
dominante, que é branca.
Por que eles nos chamam de brancos? Inclusive, palavra que, muitas vezes, pode
ser aplicada a um negro? Porque o problema não é de cor. Uma
metonímia, branco para falar de brancos, negros, amarelos e azuis, mas
ao mesmo tempo é porque o branco é de fato a figura central. O
branco é uma coisa só para eles: é o Estado.
As sociedades indígenas situadas no Brasil sempre foram sociedades com
grande potencial anárquico. No sentido de que, dadas as
condições demográficas e ecológicas do Brasil
pré-colombiano, numa sociedade indígena, se você não
está satisfeito com a aldeia, com o teu pessoal, você pega as tuas
coisas, pega a rede e vai embora, faz a aldeia do outro lado. Ou seja, eram
sociedades que não tinham necessidade de produzir sistemas
políticos piramidais com um líder fundamental. Porque, se
não está contente com o líder, vai embora e faz outra
aldeia. Isso permanece nas sociedades indígenas como um impulso
refratário a qualquer pessoa que fale em nome do todo, que, ao mesmo
tempo, é contraditório com o que eles precisam agora, que
são nomes que possam falar em nome deles todos contra esse Estado
etnocida.
Os índios estão, de fato, numa situação complicada.
Eles têm ao mesmo tempo que produzir lideranças, às vezes
até supraétnicas. O Raoni, por exemplo, que é um
Kayapó, mas não está falando ali em nome dos
Kayapó. Ele está falando em nome dos índios, de todos os
povos indígenas, e, ao mesmo tempo, isso é uma coisa que vai um
pouco na contramão da própria sensibilidade política
indígena. E eles têm que negociar isso, não vai ter outro
jeito, porque eles estão enfrentando um inimigo que os obriga a se unir.
Eles só estão unidos por causa dos brancos. São os
índios que estão segurando a Amazônia da força
destrutiva do agronegócio, do grande capital e desses malucos militares
que acham que Brasil bom é criar um deserto, que governar é criar
um deserto.
Ciro Barros Hoje a gente vê um obscurantismo que chegou ao ponto
de se questionar o formato da Terra.
Acho que tudo está naquela frase do
Darcy Ribeiro
, que todo mundo cita com razão, que é: a má
educação no Brasil, a destruição, o péssimo
sistema educacional no Brasil, não é um defeito, é um
projeto. Acho que existe, sim, um projeto de deseducar a
população brasileira, exceto quando se
trata de formar mão de obra qualificada para certas
funções específicas do mercado de trabalho capitalista.
Mas, do ponto de vista do que a gente chama de cultura em geral, acho que
existe um projeto de impedir o povo de aprender.
Por que esse ataque às universidades está se dando agora que a
política de cotas
entrou para valer? Tem cursinho de pré-vestibular na [favela da]
Maré, aprovando todo mundo no vestibular das universidades
públicas. "Não pode isso. Se esse povo começar a
pensar, vai dar um problema." Tem que manter a população sob
controle.
E agora você tem essas coisas loucas, tipo terraplanismo,
revisionismo histórico
, negacionismo climático. De onde é que vem isso? Principalmente
dos Estados Unidos, vem do [Steve] Bannon, vem do alt-right, vem da nova
direita. E vem junto com o quê? Com uma certa fantasia da Idade
Média, cruzados e
Deus-vult
e não sei o quê. Então acho que existe uma espécie
de projeto de regressão histórica alucinada, mítica.
Acho que não é por acaso que chamam o Bolsonaro de
"mito", porque existe aí uma mobilização de
certas estruturas míticas que são politicamente
reacionárias e que estão sendo difundidas, no meu entender,
deliberadamente, por uma elite que, evidentemente, não acredita nisso.
Você acha que o Olavo de Carvalho acha que a Terra é plana? Claro
que não.
Acho que em parte tem um projeto deliberado de introduzir a confusão, o
terraplanismo, negacionismo e tal, e que passa por um projeto político
mais amplo, de regressão cultural antiliberal, antidemocrático.
10/Outubro/2019
NR
[1] Não é preciso recorrer à dita "mudança
climática" para corroborar o exterminismo promovido pelo modo de
produção capitalista. Ver
Acerca do chamado "aquecimento global"
e
Acerca da impostura global
.
[2] Alusão a uma
fake news
propalada pelos bolsonaristas na campanha presidencial.
[*]
Obras de Viveiros de Castro
[**]
cirobarros@apublica.org
,
thiago@apublica.org
O original encontra-se em
apublica.org/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
|