Revolucionários sem rosto:
Uma história da Ação Popular
O golpe militar no Brasil, em 1964, implantou uma longa ditadura que durou 21
anos, sufocou as liberdades democráticas, criou um modelo
econômico concentrador de renda, prendeu milhares de pessoas, implantou a
tortura como método de investigação e assassinou centenas
de militantes nos porões de repressão, existindo hoje mais de
350 desaparecidos políticos. Também ao longo da ditadura o povo
brasileiro resistiu de diversas formas, desde o voto nos partidos de
oposição, às manifestações de ruas,
às greves operárias e estudantis até a luta armada.
A luta mais efetiva contra o regime militar envolveu dezenas de
organizações revolucionárias, todas clandestinas e com os
mais variados métodos de luta. Algumas organizações, como
o PCB, optaram pelo trabalho de massas e a constituição de uma
ampla frente democrática contra a ditadura; outras foram para o campo
organizar as guerrilhas rurais e a grande maioria, optou pela guerrilha urbana
como primeiro passo para construir as condições para a
organização da guerrilha no campo. A maioria dessas
organizações era constituída por jovens estudantes, a
grande maioria saídos de dissidências do PCB. Todas essas
organizações foram massacradas pelo regime militar, tanto do
ponto de vista militar quanto na tortura e tiveram breve existência.
Entre as organizações que lutaram contra a ditadura, uma delas
tem uma historia singular, tanto pela origem dos seus militantes, quanto pelo
trabalho de massas que realizou, além do fato de ter se
constituído numa organização que chegou a ter cerca de 25
mil membros, entre militantes orgânicos e simpatizantes, com
atuação em todos os Estados do País, sendo que pelos menos
mil de seus militantes foram deslocados para o trabalho nas fábricas e
no campo, processo que denominavam de proletarização. Trata-se da
Ação Popular (AP),
uma organização inicialmente vinculada à igreja
católica e que depois foi evoluindo ideologicamente até absorver
o marxismo.
A
Ação Popular
foi constituída a partir de organizações da igreja
católica, com o a Juventude Estudantil Católica (secundaristas),
Juventude Universitária Católica, Juventude Operária
Católica e Juventude Agrária Católica e do trabalho junto
ao Movimento de Educação de Base. Sua evolução
política teve a influência dos teóricos católicos
Emanuel Mounier, Jacques Maritain, Teilhard de Chardin e do padre brasileiro
Henrique Vaz, além de pensadores progressistas da igreja presbiteriana.
Nasceu como movimento, depois se transformou em organização
política e, influenciada pela visita de seus militantes à China,
optou pelo maoísmo. No início da década de 70, grande
parte dos seus militantes ingressaram no PC do B e hoje compõe a sua
direção, enquanto outra parte continuou na resistência
à ditadura até se dissolver posteriormente nos anos 80.
Essa história da
Ação Popular
agora está publicada num trabalho de excelente qualidade e resgate
histórico, de autoria do jornalista Otto Filgueiras. O trabalho foi
produzido em dois volumes, com 85 capítulos, cujo primeiro volume agora
está sendo publicado pelas Edições ICP. Trata-se de uma
pesquisa de mais de duas décadas, no qual o autor realizou entrevistas
com mais de 200 ex-dirigentes e ex-militantes da AP, pesquisou nos arquivos da
polícia política brasileira, nos arquivos pessoais de
ex-dirigentes, nos processos a que os militantes responderam na justiça
militar e nos acervos documentais da Universidade de Campinas, que reúne
a mais ampla documentação sobre o movimento operário
brasileiro e sobre o período da ditadura.
Portanto, trata-se de um trabalho de fôlego e uma enorme
contribuição para a história da resistência à
ditadura, especialmente porque este é um período muito pouco
conhecido pela geração atual, uma vez que o povo brasileiro ainda
não conseguiu fazer o ajuste de contas com seu passado ditatorial, como
já ocorreu nos outros países da América Latina que
também viveram períodos de repressão e ditadura.
Até hoje os militares resistem em abrir os arquivos do período
ditatorial. O primeiro volume, com 561 páginas e uma galeria de fotos
com momentos importantes da resistência ao golpe, está dividido
em 41 capítulos e envolve o período pré-1964 até
os anos 1968. Com prefácio do historiador Mario Maestri, o livro
reconstrói de maneira rigorosa a trajetória de uma das mais
importantes organizações revolucionárias brasileiras na
resistência à ditadura.
O livro começa relatando os primórdios da
organização, quando os jovens ainda estavam envolvidos pela
doutrina da igreja e, aos poucos, foram despertando para o entendimento da
realidade brasileira e para a luta contra as injustiças sociais. Essa
nova visão da realidade levou esses jovens militantes a ir rompendo aos
poucos com o conservadorismo da igreja, participando das lutas estudantis junto
com os marxistas, realizando o trabalho de alfabetização no
interior do País e posteriormente se constituindo em movimento
político com atuação independente da igreja, mas sem nunca
perder os contatos com os membros dessa instituição que estavam
participando dos trabalhos junto à população.
Inicialmente constituída como sociedade civil
Ação Popular
, a primeira reunião de pré-fundação foi realizada
em 1962, no Convento dos dominicanos, em Belo Horizonte, sob forte
influência do padre Henrique Vaz, onde foi eleita uma
coordenação nacional e elaborado o
Estatuto Ideológico
da organização. No entanto, a fundação oficial da
AP como organização política só veio a ocorrer em
1963, em Salvador, na Bahia, ocasião em que foi aprovado o
Documento Base
da organização, ainda com base filosófica idealista, como
constata o autor, e onde se elegeu um Comitê Nacional, coordenado por
Herbert de Souza, O Betinho, figura carismática imortalizada em uma bela
música de João Bosco e Aldir Blanc.
Vale destacar que a Ação Popular, a partir de sua
organização, passou a ter uma grande influência no
movimento estudantil brasileiro e, em aliança com o PCB, dirigiu a
União Nacional dos Estudantes (UNE)
no período anterior ao golpe e manteve essa influência, chegando
a eleger vários presidentes da UNE no período após o golpe
militar. Influenciada pelas teses maoístas, a AP decidiu proletarizar
seus militantes e cerca de um milhar deles foram deslocados para trabalhos de
base nas fábricas e entre os camponeses brasileiros.
Nas mais duras condições de clandestinidade, a AP contribuiu de
forma militante para um conjunto de lutas contra a ditadura, como a
reorganização da UNE, as comemorações do primeiro
de maio, no qual expulsou do palanque em São Paulo os pelegos e o
governador Abreu Sodré, o atentado no aeroporto de Guararapes, as lutas
camponesas pelo interior do País e nas lutas do ABC paulista, muito
embora o forte da organização fosse mesmo o trabalho entre a
juventude estudantil.
A partir de meados da década de 60, a AP começou a enviar
delegações para a China com o objetivo de realizar treinamento
militar e cada vez mais começou a ser influenciada pelas ideias do
Partido Comunista Chinês e sua estratégia de guerra popular
prolongada, o que levou a organização a um impasse, uma vez que
nem todos concordavam com essa orientação, o que levaria ao
primeiro dos muitos rachas que a organização enfrentaria ao longo
de sua história. O primeiro racha ocorreu no segundo semestre de 1968
quando a organização fez sua opção pela luta
armada.
A origem desta grande cisão ocorreu a partir do debate no interior da
organização sobre as duas teses que disputavam os rumos da AP: a
Tese 1,
foi elaborada pela corrente majoritária e fortemente influenciada
pelas teses maoístas, avaliava que
"a sociedade brasileira é semifeudal e semicolonial, que as
forças
produtivas são entravadas pelo monopólio da terra, pelas formas
de exploração do trabalho, resultando numa ditadura do conjunto
do poder latifundiário burguês".
Por isso,
"a guerra revolucionária é total e prolongada, cercando as
cidades
a partir do campo, para toma-las em conjugação com as
forças da cidade".
Já a
Tese 2, Duas Posições,
tinha visão completamente diferente do Brasil. Para a corrente
minoritária, o Brasil era um país com a dominância do modo
de produção capitalista, onde há "
a subordinação da agricultura pela indústria e ao mercado
capitalista, pela dominação do campo pela cidade, pela
predominância da grande produção sobre a pequena, tanto na
indústria quanto na agricultura ... pela predominância do capital
financeiro sobre as outras formas de capital e pelo grau de
transformação da propriedade fundiária em uma forma de
propriedade correspondente ao modo capitalista de produção
...
Opera-se um poderoso movimento de concentração e
centralização do capital que aumenta a dependência da
agricultura ao capital financeiro".
Com essas características diz a
Tese 2,
a revolução seria de cunho marcadamente antimperialista e
democrática e a força principal da revolução
brasileira era o proletariado urbano e rural e seus aliados, os camponeses,
trabalhadores explorados e a pequena burguesia em processo de
proletarização.
Eram duas interpretações do Brasil radicalmente diferentes e
é natural que não poderiam conviver na mesma
organização, tanto que a corrente minoritária foi expulsa.
Lendo com os olhos de hoje pode-se dizer que, mesmo derrotados, aquela corrente
estava mais próxima da realidade brasileira que os jovens apaixonados
pelas teses maoístas. Com essa cisão, a AP perdeu importantes
dirigentes históricos da organização, além de
militantes em várias regiões do País.
Para se ter ideia da importância que a
Ação Popular
teve no Brasil, vale ressaltar que uma parcela expressiva dos personagens que
militam na política brasileira, independente de suas
posições da juventude, são até hoje figuras de
expressão nacional. Muito embora estejam do outro lado das barricadas,
foram ou são ministros, grandes empresários, executivos de
grandes empresas, governadores, senadores e deputados.
Por isso, o primeiro volume de
Revolucionários sem rosto: uma história da Ação
Popular
deve ser lido por todos aqueles que querem compreender a história da
resistência à ditadura no Brasil. Escrito de maneira envolvente,
com um rigor documental extraordinário, recupera para a história
as lutas e a trajetória de uma geração de brasileiros que
doou generosamente o melhor de suas vidas, inclusive sacrificando a
própria vida, para a conquista da democracia e de uma sociedade
próspera e justa. Aguardem o segundo volume.
Nota:
Dentro em breve resistir.info disporá deste livro para venda em Portugal.
Os interessados podem desde já reservar o seu exemplar através do email
resistir[arroba]resistir.info.
[*]
Diretor do
Instituto Caio Prado Junior
Esta resenha encontra-se em
http://resistir.info/
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