Economia política para trabalhadores
Resenha do livro de Sofia Manzano
As últimas três décadas foram marcadas pela hegemonia do
pensamento único em todas as esferas da vida social, especialmente na
área da economia. Retornou-se nesse período a um estatuto
teórico do século XVIII fantasiado de modernidade, como o mercado
regulador das atividades econômicas, sociais e políticas da
humanidade, a retirada do Estado da economia, a desregulamentação
financeira e das leis de proteção social, as
privatizações do patrimônio público e o
estímulo permanente a um individualismo doentio na sociedade.
Esses mitos neoliberais, estimulados diariamente pelos meios de
comunicações a serviço do capital, fincaram raízes
profundas em vastos setores da população, inclusive entre os
trabalhadores. A televisão, o rádio e os jornais transformaram-se
em porta-vozes dos segmentos mais reacionários do capital, enquanto os
pós-modernos passaram a hegemonizar vários setores da
universidade. Especialmente nos cursos de economia, os currículos foram
alternados para se adaptar à nova ordem. Formaram-se assim duas
gerações sem oportunidades de conviver com outras teorias
econômicas, pois qualquer tentativa de questionar o pensamento
único era imediatamente desqualificada e retirada de cena.
No entanto, como sempre acontece historicamente, a realidade da vida termina se
impondo na conjuntura. E foi exatamente isso que ocorreu com a crise
sistêmica que emergiu em 2008. Quando menos o grande capital esperava, a
crise roubou-lhe os fundamentos e, como num passe de mágica, todos os
mitos construídos nestas três décadas neoliberais foram se
desmoralizando como um castelo de cartas. Em desespero, o capital financeiro
foi obrigado a pedir socorro ao Estado que tanto procurou espezinhá-lo
por mais de 30 anos. O mito do mercado como regulador das atividades
econômicas e sociais esfacelou-se, a eficiência da iniciativa
privada, que justificava as privatizações, também
evaporou-se. A crise deixou o rei inteiramente nu!
Nesse contexto em que o velho ainda não morreu e o novo ainda não
teve condições de se impor é que tem grande
importância o lançamento do livro "Economia Política
para Trabalhadores", da professora Sofia Manzano. Trata-se de um trabalho
introdutório sobre a economia política, mas bem justificado
teoricamente. O livro utiliza de vastas passagens dos clássicos num
diálogo que procura aproximar os principais pensadores das
ciências sociais com todos aqueles que estão se iniciando na
leitura da economia. Além disso, as longas citações dos
clássicos evitam as construções manualísticas
tão comum em trabalhos desse tipo.
Com esta publicação, o Instituto Caio Prado Jr. (ICP) não
apenas dá continuidade à publicação dos [seus]
Cadernos (este é o de número 2), como também contribui de
maneira efetiva para a construção contra-hegemônica num
campo em que há poucas publicações progressista, como
é o caso da economia. Com este trabalho, os leitores também
têm oportunidade de conhecer os intrincados caminhos tanto da
construção histórica do capitalismo como das principais
variáveis da política econômica praticada na atualidade.
O livro está dividido em cinco capítulos, todos integrados, que
possibilitam uma compreensão do estado da arte da economia
contemporânea. O primeiro capítulo faz um relato histórico
sobre o desenvolvimento do processo de produção, desde as
sociedades primitivas, envolvendo uma abordagem sobre a divisão social
do trabalho, o processo de troca e a formação do excedente, a
questão do valor, da moeda, bem como o processo em que o dinheiro se
transforma em capital para gerar a acumulação do capital.
O capítulo dois traça uma trajetória do desenvolvimento
capitalista, desde o processo de transição do feudalismo,
passando pela acumulação primitiva, o papel dos regimes
absolutistas, a centralização do Estado na figura do rei, a
unificação jurídica, tributária e monetária
e a relação dessa nova conjuntura com os interesses da burguesia
nascente. Um aspecto interessante é o fato de que, ao contrário
do que dizem os escribas do capitalismo, que procuram embelezar a
história e desenvolvimento desse modo de produção, o livro
relata, baseado nos clássicos, as barbaridades, a pilhagem e a
violência realizadas contra os camponeses e trabalhadores em geral para a
consolidação da burguesia. Pode-se constatar também que o
processo de assalariamento foi realizado a ferro e fogo, com a burguesia
obrigando os trabalhadores a trabalhar sob pena do açoite. Desprovidos
dos meios de produção, expulsos de suas terras e passando a vagar
pelas cidades, os trabalhadores não tinham outra opção a
não ser vender sua força de trabalho para ganhar a
sobrevivência, numa jornada de trabalho que não raro se estendia
por mais de 16/17 horas, com os trabalhadores tendo que comer ao pé da
máquina. Não é nada idílica a história do
capitalismo.
O capítulo três vai analisar o capitalismo contemporâneo,
não sem antes explicar a transição do capitalismo
concorrencial para o capitalismo monopolista. O livro analisa a
importância das descobertas tecnológicas como fator importante
para a formação das grandes empresas, bem como o processo de
concentração e centralização do capital e a
formação da sociedade por ações, fator fundamental
para aglutinar capitais e dar um salto de qualidade no desenvolvimento do
capitalismo.
Essa nova fase do capitalismo, que os clássicos denominaram de
imperialismo, é objeto de cuidadosa análise, onde se demonstra
que a formação dos monopólios é um processo natural
do capitalismo, em função da concentração e
centralização do capital. O livro analisa, ainda, os elementos
constitutivos que levam às crises no capitalismo, ressaltando que,
quando mais esse modo de produção se desenvolve, mais entra em
contradição com as bases estreitas do consumo, o que faz a crise
ser uma companheira inseparável deste modo de produção.
A autora avalia ainda que o capitalismo, em função da
concorrência acirrada entre os monopólios, tende a levar a uma
queda da taxa de lucro, em função da composição
orgânica do capital, que é a relação existente entre
o capital constante e o capital variável: "A queda da taxa de lucro
é, portanto, resultado, em última instância, da
tendência à substituição do "trabalho
vivo" (trabalhadores) pelo trabalho morto (máquinas, equipamentos),
fazendo reduzir a fonte de mais-valia, o que acaba por
originar uma super-acumulação de capital e de mercadorias, ao
mesmo tempo em que promove uma restrição na capacidade de consumo
da sociedade, por causa do desemprego que desencadeia".
O livro trata ainda da questão do capitalismo do pós-guerra,
período em que a burguesia sai enfraquecida dos conflitos e os
trabalhadores emergem com grande força, pelo fato de que foram os
principais baluartes da luta contra o nazi-fascismo. Essa conjuntura, aliada ao
fato de que a União Soviética também saiu da Segunda
Guerra com enorme prestígio, em função de ter sido a
principal força para a derrota do nazismo, vai explicar porque os
trabalhadores tiveram condições de impor ao capital uma
série de direitos e garantias, constituindo-se aquilo que ficou
conhecido como Estado do Bem Estar Social.
Ainda neste capítulo o livro aborda um conjunto de crises mais recentes
do capitalismo, desde a crise na Bolsa de Valores em 1987, passando pela crise
asiática, crise da Rússia, Brasil, Argentina até
desembocar na crise sistêmica global, que já dura cerca de seis
anos: "A crise econômica atual se alastrou rapidamente por todo o
sistema capitalista e todos os países do mundo, pois como o capitalismo
está globalizado, seja no comércio de bens e serviços, nas
cadeias produtivas, no caráter mundial das grandes empresas ou na
movimentação financeira, a crise atinge simultaneamente o centro
do sistema, ou seja, Estados Unidos Europa e Japão, assim como os demais
países como China Rússia, Índia e Brasil".
Como em todas as crises, o capital procura jogar todo o ônus na conta dos
trabalhadores, fazendo uma espécie de socialização dos
prejuízos e colocando o Estado mais abertamente a serviço do
capital para sair da crise: "Nesse quadro, aprofunda-se a ofensiva contra
os salários, direitos e garantias dos trabalhadores, assim como ganham
maior expressão posturas direitistas e fascistizantes em favor de
modelos autoritários de exercício de poder", o que já
vem acontecendo em vários países da Europa.
Nos capítulos quatro e cinco a autora trata do funcionamento do sistema
econômico, dos mercados capitalistas, bem como da política
econômica desenvolvida nos vários países atualmente.
Elaborado de forma didática, esses dois capítulos abordam o
mercado da terra, o mercado de trabalho, o mercado de capitais, o sistema
financeiro, bem como um conjunto de variáveis macroeconômicas como
o Produto Interno Bruto, o balanço de pagamentos e as políticas
econômicas práticas desenvolvidas no capitalismo atual.
Dessa forma, "Economia Política para Trabalhadores" cumpre um
papel fundamental não apenas por se contrapor ao pensamento único
que vigorou nos últimos 30 anos, mas especialmente se constitui numa
ferramenta importante para a formação dos trabalhadores e dos
estudantes num terreno (a economia) dominado pelos neoclássicos e
escribas do capital, tanto nas escolas e universidades quando nos meios de
comunicação. Esperamos que os movimentos sociais (não
fragmentários) e os sindicatos em geral se apropriem das
informações contidas neste livro para melhor desenvolverem as
suas lutas cotidianas.
07/Agosto/2019
[*]
Secretário-geral do PCB, doutorado em Economia pela Universidade
Estadual de Campinas. Artigo publicado em 2013, aquando da primeira
edição da obra.
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/23740/economia-politica-para-trabalhadores/
e em
lavrapalavra.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|