Privatização: mito vs. realidade
O rompimento da barragem de Brumadinho, apenas três anos após
[a barragem de] Mariana, revela o saldo de duas décadas de privatização da
Vale: mortos, destruição e insegurança pública em
nome do lucro privado.
O QUE É UM MITO?
Um mito é uma mentira que se faz passar por verdade. O Brasil,
graças à justiça eleitoral, elegeu um mito para a
presidência da república. A eleição de Bolsonaro
é um bom exemplo de como a mitologia está presente na vida
política atual. Bolsonaro é exatamente uma mentira travestida de
verdade.
O QUE SUSTENTA UM MITO?
Um mito é sustentado por outros mitos, em uma trama mitológica
criada e propagada por pessoas com interesses e objetivos concretos. Assim, um
mito é útil como instrumento de marketing político. No
caso brasileiro, o mito-presidente foi eleito com base em diversos mitos
disseminados pelas mídias cotidianamente (as fake-news). 2018 foi um ano
mitológico. Tivemos, por exemplo, o mito de um sistema eleitoral
democrático, na realidade manipulado pelo poder judiciário para
favorecer as candidaturas da direita. Somado a este, o mito de que a
corrupção teria se generalizado durante os governos do PT e que
seria a causa da crise econômica que o país enfrenta. A resposta
para a crise, estampada o tempo todo nos jornais da grande imprensa e no
programa político de muitos candidatos eleitos, seria o mito da
privatização de estatais, acompanhado pelo mito da
flexibilização da legislação e
fiscalização tanto trabalhistas quanto ambientais, como
exigências do deus mercado.
O MITO DA PRIVATIZAÇÃO
Bolsonaro foi eleito defendendo o mito da privatização. Nada de
novo. Na década de 1990, os governos Collor, Itamar e FHC gastaram
milhões em publicidade para convencer a população que
privatizar as estatais e, assim, diminuir o tamanho do Estado seria algo
benéfico para toda a sociedade. Era a propagação do
neoliberalismo no Brasil, materializado no mito da privatização.
Esse mito, hoje, dá o tom do projeto político do atual governo
federal. O governo Bolsonaro afirma que seu objetivo é privatizar tudo.
E que isso é um bom negócio.
A PRIVATIZAÇÃO DA CIA. VALE DO RIO DOCE
A Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), foi criada em 1942, durante o primeiro
governo Vargas, quando o Brasil estava em plena guerra contra o nazi-fascismo,
com o objetivo de assegurar a soberania minerária brasileira,
fundamental para o processo de industrialização, bem como
garantir que os lucros da mineração servissem para o
benefício de toda a sociedade. Durante cinco décadas, o Estado
brasileiro seguiu uma linha política nacional-desenvolvimentista, com
uma forte presença de empresas estatais na economia, como a CVRD, a
Petrobrás (criada em 1953), a Embraer (criada em 1969 e privatizada em
janeiro de 2019), e muitas outras empresas. Os trabalhadores dessas estatais
contavam com direitos trabalhistas, como estabilidade, salários dignos e
condições de segurança no trabalho.
Em 1997, a CVRD, empresa superavitária, foi privatizada por pouco mais
de 3 bilhões de reais, como parte do processo de
privatizações promovido por FHC. A CVRD foi rebatizada pelos
compradores, em 1997, como apenas Vale, provavelmente para facilitar a
pronúncia dos gringos. A promessa mítica era que, uma vez
privatizada, a Vale seria uma empresa com mais eficiência e
competitividade e, portanto, contribuiria mais para o crescimento
econômico e geraria mais empregos.
O MITO DAS TERCEIRIZAÇÕES
Com a privatização, o lucro gerado pela Vale passou a ser
embolsado pelos seus diretores, como renda privada, e não mais
direcionado a uma finalidade social. Mas, isso não era suficiente.
Após a privatização, os donos da Vale não se
satisfaziam com os lucros que a empresa já gerava. Precisavam de mais
lucros, para realizar seus sonhos milionários, suas viagens
inesquecíveis, seus castelos principescos. Assim, passaram a cortar o
que consideravam como "despesas" e "custos do trabalho",
tornando as condições de trabalho mais precárias com as
terceirizações.
O trabalho que antes era feito diretamente pelos funcionários da
própria empresa, então pública, passou a ser feito por
trabalhadores de outras empresas subcontratadas. A grande diferença
estava no fato de que estes trabalhadores terceirizados seriam mais baratos.
Isso é possível com o pagamento de salários mais baixos e
com a flexibilização de diversas normas de segurança no
trabalho.
A REALIDADE
Já no primeiro mês de mandato, a realidade da
privatização toma o lugar do mito: outra barragem se rompe, desta
vez matando centenas de cidadãos brasileiros, além da fauna e
flora da região de Brumadinho. A verdade, como gostam de dizer os
bolsominions, prevaleceu. A privatização foi um péssimo
negócio. E as terceirizações matam. A barragem que se
rompeu havia sido vistoriada e considerada segura por uma empresa
terceirizada.
Em mais de 50 anos como empresa estatal, a CVRD foi orientada pelo interesse
público, vistoriada por trabalhadores bem remunerados, com estabilidade
no emprego e condições de trabalho decentes. Neste
período, nenhuma barragem se rompeu. Após apenas duas
décadas de privatização e terceirizações, o
resultado é a lama assassina.
SOLUÇÃO: REESTATIZAR A VALE E REVOGAR A REFORMA TRABALHISTA
Então, conhecendo a verdade, podemos nos libertar do mito da
privatização. É preciso defender a
reestatização da Vale, acabando com a terceirização
e as condições precárias de trabalho. Para isso, é
preciso que a reforma trabalhista seja revogada, com a
restauração plena dos direitos trabalhistas e a garantia de
condições seguras de trabalho. A cada dia, fica mais evidente que
isso só ocorrerá com uma revolução socialista!
Toda solidariedade às populações atingidas por barragens!
Toda solidariedade às vítimas das privatizações e
terceirizações! Toda solidariedade ao povo de Mariana e Vale do
Rio Doce! Toda solidariedade ao povo de Brumadinho! Pela
reestatização da Cia. Vale do Rio Doce! Pela
revolução socialista! Pelo poder popular!
07/Fevereiro/2019
Ver também:
Por uma ampla frente em defesa dos direitos e das liberdades democráticas
[*]
Professor de história e membro do CC do PCB.
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/22248/privatizacao-mito-vs-realidade/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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