Pré-teses para o XV Congresso do PCB
A Estratégia e a Tática da Revolução Socialista no
Brasil
Introdução
1)
A meta estratégica do Partido Comunista Brasileiro é a conquista
do poder político pela classe trabalhadora e seus aliados fundamentais,
organizados no Bloco Revolucionário do
Proletariado, cujo objetivo central é a construção da
sociedade socialista, período transitório para a
emancipação do proletariado na sociedade comunista. A conquista
revolucionária do poder político envolve dois aspectos
fundamentais: a) a participação das massas populares como sujeito
da ação histórica contra o capitalismo e a sociedade
burguesa; b) a organização e o fortalecimento dos instrumentos
políticos revolucionários capazes de dirigir a disputa pela
hegemonia do proletariado na sociedade, fazendo uso das
formulações teóricas e políticas que embasam o
método materialista histórico e dialético, desenvolvido
por Marx, Engels, Lênin e outros revolucionários.
2)
É no terreno concreto da luta de classes que o PCB trabalha para
consolidar-se como um dos principais instrumentos revolucionários,
desenvolvendo uma plataforma política capaz de construir uma alternativa
real de poder para os trabalhadores. Neste processo histórico, o Partido
objetiva se tornar um aglutinador da radicalidade da
transformação socialista, contribuindo para a unidade de
ação de todas as forças do Bloco Revolucionário,
como um formulador de uma política de classe, avançada e
independente, política esta que dirija as forças anticapitalistas
para a revolução socialista.
3)
Desde 1992, quando, após a ruptura com os setores liquidacionistas e
direitistas que atuavam no interior do Partido, demos início ao processo
de reconstrução revolucionária do PCB, vimos afirmando a
estratégia da Revolução Socialista como o caminho a ser
trilhado pela classe trabalhadora e seus aliados fundamentais para a
destruição do Estado capitalista e da sociedade burguesa, no rumo
do socialismo no Brasil. A estratégia da Revolução
Socialista consolidou-se definitivamente entre nós no XIV Congresso,
realizado em outubro de 2009. Nossas resoluções políticas
e de organização foram aprofundadas nas Conferências de
Organização (2008) e de Tática (2011).
4)
Se no XIII Congresso (2005) já havíamos rompido com o governo
Lula, no XIV Congresso avançamos para a formulação da
necessidade de construção do Bloco Revolucionário do
Proletariado, visando ao aprofundamento das lutas contra o bloco dominante,
formado hoje pela burguesia monopolista, pelo monopólio capitalista da
terra, pelo imperialismo e pelos aliados da pequena burguesia política
oriunda das burocracias partidárias e sindicais que hegemonizam setores
do proletariado. A orientação central da estratégia do PCB
pode ser assim resumida:
"uma vez constatado que o capitalismo no Brasil já atingiu a etapa
monopolista, fica claro que o processo revolucionário brasileiro
é de caráter socialista"
(Resoluções do XIII Congresso).
5)
No XIV Congresso, consideramos que o Brasil se tornou um país
capitalista completo, ou seja, uma formação social capitalista na
qual predominam as relações de trabalho assalariadas, a
propriedade privada burguesa dos meios de produção, as formas de
produção e acumulação ampliada de capitais que
completaram seu caminho até a formação dos
oligopólios, formas estas inseparavelmente ligadas ao modelo
imperialista que determina as relações econômicas mundiais.
O Brasil desenvolveu um parque industrial oligopolista, setores de
infraestrutura de mineração, energia, armazenagem, transporte,
portos e aeroportos, malhas urbanas, um comércio nacional e
internacional, capitalizou o campo, gerou a estrutura moderna da agricultura,
um sistema financeiro interligado ao mercado mundial e uma malha
logística de serviços e ações públicas
necessárias à reprodução das relações
burguesas de produção.
6)
Trata-se de uma economia capitalista que, mesmo subordinada ao imperialismo,
não pode mais ser caracterizada como "dependente", ou seja,
como uma economia que não atinge a forma madura por estar constrangida
por qualquer tipo de dominação externa. Pelo contrário, o
dinamismo da economia brasileira e sua forma derivam exatamente de seus
vínculos e subordinação à lógica do capital
monopolista internacional, sendo parte integrante de seu funcionamento. Deste
modo, o fato de a economia brasileira integrar o sistema
capitalista/imperialista mundial só faz acentuar o perfil de uma
sociedade de classes tipicamente capitalista, na qual o eixo central da luta de
classes passa pelo confronto de interesses entre o proletariado e a burguesia.
7)
A classe capitalista no Brasil é formada por diversas
frações: a industrial, a bancária/financeira, a comercial,
a agrária, o grande empresariado do setor de transportes, a oligarquia
que controla as comunicações no Brasil (toda a rede de TV,
controlada por oito famílias, e os maiores jornais e rádios do
país) e uma facção que conta serviços diversos
formados pela mercantilização crescente de setores como os da
saúde, educação e outros. Ao mesmo tempo, o capital
subordina ao mercado e ao processo ampliado de acumulação de
capitais todos os setores que mantêm, residualmente,
relações não capitalistas. É o que ocorre no campo,
onde predomina a proletarização promovida pela grande
produção agrária oligopolista (o chamado
agronegócio) associada à formação de um
proletariado precarizado, combinadas ou não com a pequena propriedade
dedicada à agricultura familiar ou com formas coletivas de trabalho
(cooperativas, assentamentos), as quais cada vez mais são
forçadas a se vincular ao mercado e à lógica do capital.
8)
Com o crescimento e a consolidação da moderna economia industrial
monopolista, generalizou-se o assalariamento e formou-se um numeroso
proletariado, caracterizado como o conjunto dos trabalhadores que só
podem viver mediante a venda de sua força de trabalho. O núcleo
central dos assalariados é o setor operário, formado pelos
trabalhadores produtivos, explorados diretamente pelo capital e que passou por
grandes transformações a partir dos anos 1990. Ao
contrário do que se apregoou com o suposto "fim do trabalho",
o operariado industrial brasileiro cresceu em números absolutos e
desconcentrou-se territorialmente, tendo ainda se fragmentado com a
terceirização e a descentralização das empresas. O
operariado industrial é o setor da classe trabalhadora estrategicamente
posicionado no coração da economia capitalista, do ponto de vista
da luta de classes.
9)
A urbanização crescente e a criação de uma
infraestrutura para o desenvolvimento da acumulação capitalista
geraram camadas urbanas intermediárias que vão desde setores
gerenciais, profissionais assalariados, pequenos e médios comerciantes,
técnicos especializados, professores, pesquisadores, médicos,
advogados e outros profissionais. Parte destas camadas médias passou,
nos últimos anos, por uma intensa proletarização,
transformando-se em assalariados do capital. Ao lado destes profissionais
proletarizados, somam-se funcionários públicos nos diferentes
setores de ação do Estado, compondo uma numerosa camada
heterogênea, com condições de trabalho e
remuneração diversas, a qual sofreu uma
precarização crescente nos últimos governos neoliberais.
10)
O exército industrial de reserva é formado por um proletariado
precarizado, submetido a relações de trabalho cada vez mais
precárias e incertas. Estes trabalhadores estão inseridos nas
condições gerais da acumulação de capitais, como
força de trabalho abundante e barata, como operadores da economia
"informal", como consumidores e agentes de uma economia
política da criminalidade ou base de massa e objeto de
ação de uma rede de assistencialismo filantropizado pelo chamado
terceiro setor. Parte desta superpopulação relativa mantém
vínculos políticos e culturais com o proletariado, uma vez que se
forma constantemente de expropriados, funcionalmente utilizados pelo capital
como forma de manter o valor da força de trabalho em níveis
aceitáveis para a acumulação de capitais.
11)
Assim, a estrutura de classes no Brasil apresenta um polo burguês,
hegemonizado pela grande burguesia monopolista, setores médios que
tendem ao assalariamento e à proletarização, um
proletariado composto por uma imensa massa de assalariados urbanos e rurais, um
proletariado precarizado imerso em uma superpopulação relativa
inserida de maneira precária e brutal nas condições do
mercado capitalista e, residualmente, um campesinato heterogeneamente formado
pela agricultura familiar, cooperados, assentados e pequenos
proprietários, que combinam suas atividades com períodos de
proletarização.
O capitalismo contemporâneo: tendências gerais
12)
Nos últimos anos, o capitalismo tem vivido processos de crise e
expansão cada vez mais curtos e constantes. Todas as crises
econômicas recentes vivenciadas pelo capitalismo em nível mundial
repercutem o mesmo fenômeno analisado por Marx em
O Capital:
quanto mais cresce o capital, mais ele produz a crise que é
concernente a sua natureza, ou seja, de ser valor em constante processo de
valorização. As crises do capitalismo contemporâneo, a
partir, principalmente de sua maturidade, com a passagem para a fase
monopolista e imperialista no século XIX, são crises de
superacumulação que se combinam com manifestações
de superprodução e queda tendencial da taxa de lucro.
13)
Vejamos como Marx desvendou o fenômeno: a) quanto mais cresce a
concorrência entre os capitalistas, menor é a livre
concorrência e maior é a tendência ao monopólio; b)
nas condições de uma concorrência entre monopólios,
os capitalistas, para aumentar a produtividade do trabalho, tendem sempre a
investir mais em capital constante (máquinas, instalações,
novas matérias primas, etc) e menos em capital variável (compra
da força de trabalho), alterando drasticamente a
composição orgânica do capital em favor do trabalho morto;
c) o resultado é a tendência geral à queda na taxa de
lucro. Consequentemente, reduz-se a capacidade das empresas de reinvestirem
seus lucros na produção e explodem as crises.
14)
A crise econômica atual, propagada a partir de 2008, atingiu,
inicialmente, o coração do sistema, ou seja, os Estados Unidos,
rapidamente se alastrando pela Europa e impactando os mercados em todo o mundo.
Os efeitos mais violentos da crise foram verificados nos países mais
fragilizados economicamente na Europa: Grécia, Espanha, Portugal,
Irlanda, Itália, Chipre, tudo em decorrência da política
desenvolvida pela União Europeia em favor do Euro, a qual contribuiu
ainda mais para a concentração de capital e para o fortalecimento
das corporações monopolistas, favorecendo, acima de tudo, as
empresas da Alemanha, nação capitalista mais avançada da
região.
15)
As respostas apresentadas pelos governos dos países centrais à
crise que se generalizou após 2008 combinaram elementos de ajuda estatal
ao sistema financeiro, de estatização de bancos e socorro a
empresas de grande porte com o reforço ao desmonte das políticas
sociais e o ataque redobrado aos direitos dos trabalhadores. Enormes somas de
dinheiro público foram destinadas às grandes empresas afetadas
pela crise e ao sistema financeiro, ao passo que os trabalhadores voltavam a
sofrer com a retirada de direitos, desemprego em massa, redução
de salários e outras medidas que, sistematicamente, vêm sendo
adotadas pelos capitalistas desde o início do desmonte das
políticas de Bem Estar Social, nos anos 70/80.
16)
A tendência geral do capitalismo atual, em função do
acirramento da concorrência internacional e da expansão das
relações capitalistas em praticamente todas as áreas
físicas do planeta, é a de reduzir os mais amplos contingentes
populacionais à condição de força de trabalho
plenamente disponível e livre para servir aos interesses e às
necessidades do capital. Formas renovadas de expropriação
são criadas para destruir laços sociais e ordenamentos
jurídicos que, ao longo da história de lutas dos trabalhadores,
funcionaram como freios à dominação irrestrita do trabalho
pelo capital. Ao lado de persistir a expropriação sobre o
campesinato, tendo em vista subsistirem ainda grandes massas de pequenos
agricultores possíveis de se tornar assalariados (na China, Índia
e América Latina, por exemplo), outras expropriações
seguem conduzindo grande número de trabalhadores à plena
disponibilidade para o mercado de força de trabalho, buscando quebrar a
resistência dos trabalhadores à exploração.
17)
Uma das formas de intensificar a extração do valor e que mais
incide diretamente sobre a capacidade de organização e de
resistência do proletariado à exploração é a
que promove a fragmentação do espaço produtivo e a
separação dos trabalhadores em inúmeras unidades fabris.
Trata-se da expropriação da resistência operária por
proximidade no local de trabalho, decorrente da introdução de
novas tecnologias produtivas e de outros mecanismos que permitem aprofundar a
cooperação entre os trabalhadores dispensando sua reunião
física. No interior do processo produtivo, formas cada vez mais
sofisticadas de gerenciamento da produção, associadas à
utilização de tecnologias frequentemente renovadas, impõem
aos trabalhadores a submissão à lógica do capital dentro e
fora do espaço produtivo. Como disse Gramsci ao analisar o
fenômeno do fordismo, a "hegemonia nasce no chão da
fábrica".
18)
Outras formas de expropriação estão ligadas à
retirada dos direitos sociais e trabalhistas conquistados à custa de um
longo processo histórico de lutas operárias. Diferentes formatos
jurídicos foram criados para disciplinar a relação de
trabalho em favor de sua plena utilização pelo capital:
subcontratações, terceirizações,
formação de "cooperativas", trabalho
"informal", "voluntariado", renúncia ao contrato
formal, ou, ainda, a figura do trabalhador "pessoa jurídica",
que, mobilizado pela falácia do "empreendedorismo", se
converte individualmente numa empresa fictícia para vender sua
força de trabalho, sem os direitos associados legalmente à
contratação tradicional.
19)
Tais exemplos de "reestruturação produtiva" e
"desregulamentação do mercado de trabalho", com vistas
à plena "empregabilidade" ou "trabalhabilidade"
(para usar termos recorrentes no jargão burguês
pós-moderno) do sujeito obrigado a vender sua força de trabalho
para sobreviver, nada mais são do que formas atualizadas de
dominação, com o duplo sentido de disponibilizar grandes
contingentes de pessoas para o trabalho assalariado e de fazer valer a
hegemonia do capital, por meio de um processo alienante de difusão da
ideologia burguesa. Isto porque tais mecanismos de expropriação
do trabalho vêm acompanhados de intensa campanha ideológica
voltada a convencer a todos de que se trata da conquista da liberdade
individual perante a opressão do trabalho (não do
proprietário dos meios de produção). Propala-se a ideia,
difundida pelo "empreendedorismo", de que cada um pode ser
"patrão de si mesmo".
20)
As novas condições de exploração, que se
impõem tanto pela violência quanto pelo convencimento, obrigam
às mais abjetas sujeições em troca da subsistência
do trabalhador, a começar pela ameaça permanente do desemprego: a
requalificação dos trabalhadores, que devem interiorizar a
necessidade de uma autoempregabilidade; a instauração de formas
de "parceria" ocultando relações de
exploração, por meio de cooperativas, contratos
temporários, formas de "voluntariado", etc. Tudo isso
é difundido como se fosse absolutamente novo, como se não fosse
da natureza mesma das relações sociais de produção
capitalistas, desde seus primórdios, promover a separação
entre trabalhadores e condições sociais de trabalho, com vistas
à permanente criação de grandes contingentes de
"pobres laboriosos" livres, "essa obra de arte da
história moderna", como dizia Marx.
21)
Longe do suposto "fim do trabalho", tais expropriações
demonstram a importância da força de trabalho no mundo capitalista
de hoje. À expropriação capitalista corresponde, no
extremo oposto da mesma relação, a gigantesca
concentração de recursos em mãos dos capitalistas,
recursos que precisam ser constantemente valorizados e aplicados na
própria exploração dos trabalhadores. A profunda
transformação da base tecnológica foi extremamente
útil não apenas para transferir capitais de um lado a outro,
posto que, isolado, o acúmulo de dinheiro não produz mais-valor,
mas para, simultaneamente, fragmentar o conjunto da classe trabalhadora. A
reestruturação produtiva do capitalismo contemporâneo,
portanto, é parte integrante do processo imperialista, resultante da
ação hoje hegemônica do capital financeiro.
22)
O capital financeiro ou monetário, ou ainda "capital portador de
juros" (Marx, Livro III de
O Capital
), apesar de ter-se amplamente disseminado o mito da existência de
atividades puramente monetárias e especulativas, sem envolvimento algum
com a produção, está completamente envolvido com os
processos de extração de mais-valor e somente pode continuar
existindo caso impulsione sem cessar essa extração. Na
perspectiva de Marx, o capital portador de juros resulta do processo
histórico de concentração capitalista, através do
qual os bancos passaram a cumprir uma nova função, deixando de
ser meros guardadores ou emprestadores de dinheiro, para se converter em
fomentadores de créditos voltados a impulsionar o processo produtivo.
Depositários ou intermediários dos lucros dos grandes
empresários capitalistas, os bancos tornaram-se também
proprietários de capital voltado ao investimento na
produção, precisando fazer expandir frequentemente as
relações sociais capitalistas.
23)
Por sua vez, a crescente concentração do capital
monetário favorece o intenso movimento especulativo, que passa a
integrar a dinâmica da expansão do capital, gerando um capital
fictício através da multiplicação de papéis
e títulos sem correspondência real com os capitais aos quais
supostamente remetem, aqueles respaldados efetivamente no processo de
produção. O descompasso entre o capital fictício e o
capital lastreado na produção direta de valor vem fomentando as
recorrentes crises capitalistas da atualidade. O crescimento mesmo das
atividades especulativas decorrentes do predomínio do capital
monetário na fase atual do capitalismo indica, de fato, que a base
social da acumulação capitalista permanece fundamental, pois a
concentração desses capitais só fez aprofundar a
exigência de valorização de tais massas de recursos sob
todas as formas de exploração da força de trabalho,
incentivando a generalização das expropriações, com
vistas à disponibilidade sem reservas de trabalhadores para o capital.
24)
A hegemonia do capital se constrói a partir mesmo das
relações de produção e busca envolver a totalidade
social. Ao mercantilizar tudo e todos à sua volta, o capital expande
seus domínios para o conjunto das relações sociais: as
expropriações avançam sobre diversas formas de
solidariedade comunitária e cultural, sobre conquistas sociais tais como
a saúde e a educação públicas (direitos sociais que
se transformam, cada vez mais, em produtos e serviços disponíveis
no mercado, como quaisquer mercadorias), sobre os movimentos sociais, que
sofrem renovados processos de criminalização, sobre os direitos
políticos, com a redução das conquistas
democráticas ao mero jogo eleitoral.
25)
Todo esse quadro nos leva a reflexões fundamentais para o avanço
da luta contra o capitalismo: em primeiro lugar, reafirma-se categoricamente a
contradição entre capital e trabalho como a
contradição fundamental a exigir a organização da
classe trabalhadora na luta contra o sistema capitalista. A luta central, pois,
é entre classes, não entre nações. Mais do que
nunca, coloca-se na ordem do dia a estratégia revolucionária de
luta pelo socialismo. Em segundo lugar, se as mutações sofridas
pela classe trabalhadora no quadro do redimensionamento global do capitalismo
contemporâneo acarretaram alterações muito expressivas no
conjunto do proletariado, fazendo com que, nos dias atuais, ela difira bastante
do proletariado industrial identificado como sujeito revolucionário do
Manifesto Comunista,
é ainda esse contingente humano de trabalhadores que identificamos,
por sua posição central no processo de produção de
riquezas, como capacitado a assumir o protagonismo na luta de classes, rumo
à construção do socialismo e da sociedade comunista.
A hegemonia burguesa no Brasil
26)
No Brasil, a construção da sociedade burguesa e de seu Estado se
insere no processo tardio de formação do capitalismo e da
própria burguesia enquanto classe dominante, como resultado da
herança histórica colonial. Daí que o Estado burguês
tenha se desenvolvido não como fruto de uma revolução
burguesa clássica, mas em consequência de disputas e conflitos
gestados e solucionados entre os grupos e classes dirigentes sem a
participação das classes populares. Cabe ressaltar que, ao longo
da história nacional, essas classes dirigentes exerceram o controle do
poder político em decorrência do monopólio dos principais
meios de produção. Nesta forma particular de
constituição da hegemonia capitalista, em que pesem as diferentes
formas assumidas de poder político, a característica central foi
a predominância dos aspectos repressivos e coercitivos no
exercício da dominação. Prova disso foi o constante
recurso aos golpes e às intervenções armadas da parte da
classe dominante, desde a proclamação da República
até a ditadura empresarial-militar inaugurada com o golpe de 1964.
27)
O período ditatorial mais recente marcou a consolidação
do bloco dominante burguês, hegemonizado pela burguesia monopolista, em
aliança com o latifúndio tradicional e o imperialismo. Este bloco
organizou o assalto ao poder de Estado em 1964, dando fim ao período
populista e interrompendo o ascenso das massas populares verificado desde a
década anterior. O golpe objetivava transformar o Estado no instrumento
de classe capaz de conduzir o Brasil ao pleno desenvolvimento do capitalismo
monopolista, a serviço dos interesses e necessidades dos setores mais
dinâmicos da burguesia brasileira associada ao imperialismo. Consolidado
este objetivo, o processo de dominação burguesa se completaria
com a queda da ditadura. A abertura política promoveu a
incorporação das massas urbanas, setores amplos do proletariado e
do operariado ao ordenamento jurídico-político burguês, de
que são expressões significativas a afirmação de um
conjunto de regras democráticas e, em especial, a
ampliação do direito ao voto, sacramentadas na
Constituição de 1988.
28)
Trata-se de um Estado burguês fundado em um ordenamento jurídico
reconhecido e legitimado, com instituições igualmente
consolidadas fazendo a mediação entre a sociedade e suas
demandas e os órgãos do Estado como expressão
institucional e política. Formou-se, assim, uma sociedade civil-burguesa
com um conjunto de instituições enraizadas e, em parte,
legitimadas no corpo da sociedade, tendo se afirmado a hegemonia liberal
burguesa através de um regime formalmente democrático, num
processo que se completa com o estabelecimento de poderoso monopólio
capitalista nas telecomunicações, na informação e
na organização da cultura, responsável por aprimorar e
fortalecer a dominação ideológica em favor da burguesia.
29)
Este processo de consolidação da ordem burguesa no Brasil
não se deu sem conflitos. Nos estertores da ditadura, travou-se uma luta
entre os grupos burgueses dominantes e o bloco de forças
políticas e sociais formado pelos trabalhadores e setores das camadas
médias, à época sob a forte influência do PT e de
outros setores de esquerda, juntamente a inúmeras entidades de massas e
movimentos e organizações políticas que se destacaram na
resistência ao regime ditatorial e nas lutas democráticas do
período anterior. Mas o resultado final deste embate, em meio a um
contexto internacional de crise do movimento socialista e de ofensiva
neoliberal, foi o amoldamento das instituições forjadas na luta
democrática à ordem liberal burguesa.
30)
O transformismo operado no interior das principais organizações
de esquerda do período com destaque para o PT e a CUT
conduziu-as a uma postura de abandono das propostas radicalizadas de sua origem
e de limitação da luta dos trabalhadores aos marcos impostos pela
ordem hegemônica burguesa. Isto representou, na esfera política, a
sanção das principais organizações representativas
dos trabalhadores ao poder instituído, culminando, na década de
1990, com a franca afirmação de uma democracia reduzida às
estratégias ditadas pelo capital. Esta situação se explica
em parte pela burocratização e acomodação das
direções partidárias e sindicais e das principais
organizações representativas dos trabalhadores e da juventude
(vide CUT e UNE) e, por outra, pela tendência a considerar, como um fim
em si mesmo, a participação em espaços institucionais e no
interior do Estado burguês (em cargos nas esferas de governo e do
parlamento).
31)
Ao longo dos últimos trinta anos, o espaço político
conquistado através das lutas democráticas e sociais contra a
ditadura transformou-se em formas de apassivamento das massas trabalhadoras
às regras de um jogo eleitoral calcado nos velhos vícios
fisiológicos, na corrupção, na manipulação
ideológica, no mercado de votos e no
marketing
elaborado por grandes empresas de publicidade, que vendem candidatos como
produtos ligados à competência administrativa e à
capacidade de melhor gerenciar a crise produzida pelo capital. Para além
dos períodos dedicados às campanhas eleitorais, a
participação política restringe-se ao modelo de cidadania
incapaz de abalar as estruturas do sistema, pois dedicado à
administração de problemas de maneira não conflituosa, por
meio de mecanismos institucionais, iniciativas legislativas e
ações judiciais.
32)
O eixo das lutas de massas foi, assim, deslocado para a
representação política e institucional, buscando-se
quebrar o protagonismo dos trabalhadores e seus movimentos autônomos, com
vistas à consolidação da hegemonia do bloco conservador e
dominante. Estimula-se ainda que os movimentos sociais articulem-se em torno de
lutas fragmentadas, isoladas, ligadas ao atendimento a demandas
específicas, como as de gênero, etnia, opção sexual,
culturais, etc., desvinculadas das lutas gerais contra a
exploração capitalista. Estas bandeiras têm sua
importância, inclusive para os comunistas, mas a atuação em
seu interior não pode ser desvinculada da luta contra o capital.
33)
A ascensão do PT ao poder só fez avançar a proposta de
realização de um "pacto nacional" de submissão
consentida do conjunto da sociedade à hegemonia burguesa, por meio de
programas como o Fome Zero e outros, que deveriam mobilizar ONGs, empresas,
instituições religiosas, sindicatos e escolas num mutirão
de combate à fome, instituindo a parceria da "sociedade civil
organizada" com o Estado. O apelo ao tratamento compensatório
à fome e à miséria de parte da população
integra a estratégia de construção do consenso em torno do
projeto de transformação do Brasil em um país de
capitalismo avançado com "face humana". A economia
política do capital e a economia política da
refilantropização da questão social encontram sua unidade
na manutenção da economia de mercado capitalista, ou seja, a
economia privada deve dar lucros, o Estado arrecadar e, depois de garantir os
prioritários interesses do grande capital, deve chegar, de maneira
focalizada, até pontos da miserabilidade, para amortecer a explosividade
da miséria.
34)
Esta estratégia ajuda a encobrir, de um lado, o processo avançado
de privatização dos serviços públicos e de
transferência da responsabilidade do Estado para a esfera privada
(através de contratos com Organizações Sociais OSs,
por exemplo), acompanhado da retirada dos direitos sociais. De outro,
percebe-se a tentativa de evitar o acirramento da luta de classes, criando
espaços institucionais de participação dos
indivíduos e entidades associativas para o encaminhamento de
reivindicações e a resolução de problemas de forma
pragmática, na lógica da colaboração e sem resvalar
para o campo da contestação ao
status quo.
35)
A combinação eficiente de consenso e coerção
garante a reprodução do domínio da ordem monopolista
burguesa. A subordinação dos trabalhadores à ordem
institucional burguesa e aos imperativos do capital e do mercado se processa
por um conjunto de mecanismos de dominação:
manipulação dos corações e mentes pelos meios de
comunicação, ações permanentes no interior da
empresa para a colaboração de classe, promoção da
cultura do individualismo, incentivos materiais como participação
nos lucros e resultados e cooptação pura e simples das
lideranças sindicais. Quando esses métodos não funcionam,
as classes dominantes lançam mão da repressão e da
violência policial sobre todos aqueles que se levantam contra essa ordem,
promovendo a criminalização dos movimentos sociais, da pobreza e
da militância anticapitalista.
36)
Mas é preciso reconhecer a existência de disputas
políticas entre distintas frações de classe no interior do
bloco hegemônico burguês. A disputa política institucional
principal no Brasil de hoje se dá entre duas alternativas no campo do
capital: uma representada, fundamentalmente, pela aliança liderada pelo
PSDB (que inclui o DEM e o PPS), e outra representada pela aliança PT-PC
do B-PDT-PSB-PMBD-PTB-PP. Esta disputa se faz dentro dos limites de um grande
consenso burguês, que tem por base a manutenção da
macropolítica econômica, a manutenção e
aprofundamento da lógica de mercado, o papel do Estado como garantidor
dos interesses do capital monopolista e amortecedor da luta de classes e o
abandono de qualquer alternativa, mesmo reformista, que possa implicar em
mudança dos marcos do "novo pacto social".
37)
Em outras palavras, em que pesem algumas diferenças, o bloco liberal
burguês encontra uma unidade estratégica em forças
políticas que divergem na tática. PSDB e PT, como polos dessas
alternativas, disputam a confiança das classes dominantes e o controle
da máquina de governo e, a partir daí, a
ocupação de cargos e o manejo do jogo político tradicional
que se perpetua não como dois projetos essencialmente
antagônicos, mas como forças políticas diferentes de um
mesmo projeto, que tem por base a manutenção das
relações capitalistas de produção, a propriedade
privada, a economia de mercado e a integração do capitalismo
brasileiro ao sistema imperialista.
38)
Por trás destas expressões políticas, formou-se um bloco
de classes que, mesmo com disputas internas, mantém a hegemonia
conservadora: a burguesia monopolista, a nova burguesia monopolista
agrária, o capital financeiro e a pequena burguesia política
recrutada nas burocracias partidárias e sindicais e que tem por
função essencial garantir a governabilidade deste modelo. O
posicionamento do governo atual na dinâmica da luta de classes deve ser
entendido pelo caráter do programa e da ação
política objetiva, não pela origem de classe de seus atores.
Neste sentido, ele representa uma posição política que,
partindo de setores proletários, distanciou-se para uma postura que
busca harmonizar o capital e o trabalho nos marcos de uma política
"republicana" que supostamente atenderia os interesses de
"toda" a sociedade. A lógica política é a da
conciliação de classe, do interesse da
"nação" acima dos particularismos de classe, da
harmonização dos conflitos e, principalmente, da crença de
que o desenvolvimento da economia capitalista resolve as desigualdades sociais
através do ciclo virtuoso da produção, emprego, consumo e
que, aos mais miseráveis, o Estado contempla com políticas
compensatórias. Em poucas palavras: um projeto pequeno burguês.
39)
O drama da pequena burguesia política é que, sendo um setor de
transição que defende um projeto que supostamente estaria acima
dos interesses das classes em luta, acaba oscilando entre o interesse
proletário e o burguês. No caso brasileiro, a pequena burguesia
política, cuja base social é a burocracia partidária e
sindical, essencialmente preocupada com as condições de
governabilidade, adere ao projeto burguês e se rende perante os
interesses do grande capital monopolista, o que é comprovado pela
participação de parte de seus integrantes nos conselhos de
administração de grandes empresas, como representantes de fundos
de pensão. Oriundos do movimento sindical, fazem valer o interesse dos
"acionistas" (o patronato). Só podemos concluir que o governo
e seu projeto de pacto alinharam-se aos interesses do capital monopolista, na
cidade e campo, e ajudaram a consolidar e legitimar a hegemonia burguesa
liberal, compondo assim o bloco conservador e a aliança com a burguesia
monopolista (que inclui o agronegócio e a burguesia bancária) e o
imperialismo.
A Estratégia Socialista da Revolução Brasileira
40)
Afirmamos que a Revolução Brasileira é uma
Revolução Socialista, considerando que o Brasil é uma
formação social capitalista desenvolvida e monopolista, que a
burguesia monopolista nacional/internacional constituiu-se em classe
hegemônica e dominante; que o Estado brasileiro é um Estado
burguês e que o processo político da luta de classes no ciclo
recente produziu um bloco liberal burguês hegemônico e dominante,
formado pela aliança entre a grande burguesia monopolista, o
monopólio capitalista da terra, o imperialismo e um setor
político da pequena burguesia política que, através de
burocracias partidárias e sindicais e o controle de mecanismos de
governo, buscam cooptar o proletariado e neutralizar suas ações;
considerando ainda que um bloco proletário procura resistir na
direção de uma contra-hegemonia que aponta para uma meta de
superação do capitalismo e da necessidade de uma sociedade
socialista.
41)
Sob todos os aspectos, a hegemonia burguesa consolidou-se plenamente no
Brasil. A economia capitalista desenvolveu-se até o estágio
monopolista, tendo se constituído uma sociedade civil-burguesa e um
"Estado de Direito". O capitalismo brasileiro é parte do
processo de acumulação mundial e parte constitutiva do sistema de
poder imperialista no mundo, e as classes dominantes brasileiras estão
associadas umbilicalmente ao capital internacional. A burguesia não
disputa sua hegemonia contra nenhum setor pré-capitalista; pelo
contrário, a luta burguesa se volta contra a possibilidade de uma
revolução proletária. As "tarefas em atraso",
como a reforma agrária, não são mais tarefas em atraso,
mas tarefas deixadas para trás e que não serão realizadas
nos limites de uma sociedade capitalista. As contradições
objetivas que estão na base das demandas imediatas das massas
trabalhadoras não se devem ao baixo desenvolvimento de forças
produtivas capitalistas, mas exatamente pelo próprio desenvolvimento e
natureza de uma sociedade hegemonizada pelo capital.
42)
Portanto, as tarefas colocadas ao conjunto dos trabalhadores e, em especial,
da classe operária, núcleo estratégico e central do
sujeito revolucionário, o proletariado, não podem se realizar nos
limites de uma sociedade capitalista. O grau de desenvolvimento das
forças produtivas materiais, no Brasil e no mundo, já se coloca
em contradição com a atual forma capitalista das
relações sociais de produção, que ameaçam a
produção social e a própria existência das
condições que permitem a vida humana no planeta. A
transição para o socialismo e para a formação de um
Estado Proletário que garanta a existência de novas formas de
propriedade e de relações sociais representa o único meio
de libertar os trabalhadores das mazelas que hoje os afligem, contribuindo para
livrar o mundo do desastre ambiental e social que a ordem capitalista mundial
impõe.
43)
Toda a experiência histórica dos trabalhadores demonstrou que
qualquer forma de pacto com a burguesia é uma miragem que confunde os
trabalhadores, desorienta a luta de classes e apaga o horizonte socialista.
Seja a clássica socialdemocracia, que, após a Segunda Guerra
Mundial, garantiu, sob pressão da luta organizada dos trabalhadores,
direitos e políticas públicas, mas que se domesticou diante do
capital; seja a atual versão do social-liberalismo ou
"socialdemocracia tardia", adoradora do mercado, que passou a gerir o
neoliberalismo, refilantropizar a questão social e aplicar com
mão de ferro as políticas mais regressivas do grande capital,
conforme pudemos verificar nos últimos 30 anos. Esses pactos não
nos levarão a conquistas parciais que cumulativamente poderiam
desembocar em uma sociedade justa e igualitária. Pelo contrário,
fortalecerão ainda mais o capital e seu sistema de poder mundial. Toda
experiência histórica e presente nos comprova que o capital e a
propriedade privada capitalista, ao se perpetuarem, concentram riquezas,
acumulam desigualdades e geram periodicamente as crises que terão que
ser pagas pelos trabalhadores para salvar o lucro dos grandes capitalistas.
44)
A definição da etapa socialista da Revolução
Brasileira não implica ausência de mediações
políticas na luta concreta para enfrentamento das conjunturas que se
apresentam na dinâmica da luta de classes imediata. No entanto, a
estratégia socialista determina o caráter da luta imediata, ou
seja, a estratégia subordina a tática e não o inverso,
como formulam equivocadamente algumas organizações
políticas e sociais. A estratégia socialista não nega as
lutas imediatas, mas não aceita a forma atual de sociabilidade como
capaz de dar soluções estruturais e duradouras a estas
questões, pois os problemas vividos pelas massas são
manifestações da contradição entre a forma
capitalista de organização da sociedade e as necessidades da
produção e reprodução da vida em um novo patamar.
45)
Tampouco descartamos os campos institucional e eleitoral como espaços a
serem ocupados pelos comunistas na luta de classes, mas sabemos das suas
crescentes limitações e precisamos determinar com clareza como
ocupá-los. Nossas ações táticas e nossa
política de alianças devem ser moldadas pela necessidade de
superação revolucionária do capitalismo e pela
construção da sociedade socialista. Tal construção
dependerá de uma ação permanente dos comunistas e
revolucionários para intensificar a luta política e
ideológica na sociedade atual e fazer avançar o projeto
contra-hegemônico do proletariado. Este projeto será
construído no calor da luta de classes, em meio aos embates sociais e ao
processo de conscientização das massas populares em torno de uma
nova visão de mundo que se contraponha ao consenso conservador
burguês.
46)
Na perspectiva do socialismo, é preciso pensar a
construção da hegemonia proletária como a
formação de um modo de produção alternativo sob
controle dos trabalhadores, o que significa dizer que ela se assenta no mundo
da produção, não ficando restrita à sua
dimensão política e cultural. O conceito de Bloco
Histórico nos remete à compreensão da sociedade como
unidade orgânica entre a estrutura econômica e a superestrutura,
cimentada por uma determinada hegemonia, na qual ocupam papel fundamental os
intelectuais, artistas e organizadores da cultura. Os trabalhadores, em sua
luta contra a ordem do capital, devem apresentar-se como classe capaz de
contrapor à atual sociedade desde formas de produção
social da vida anticapitalistas, base para novas relações sociais
de produção, até formas políticas de
participação democrática que correspondam à
profunda socialização da produção e da vida social.
47)
Contra o bloco histórico capitalista, portanto, devemos atuar visando
à construção do
Bloco Revolucionário do Proletariado,
ou seja: o conjunto de ações e transformações
econômicas, políticas, jurídicas e formas de
consciência que apontem para a superação do capitalismo e
para a construção da sociedade socialista no rumo do comunismo.
Isto exige a formação de um bloco de classes e setores sociais e
suas representações político-organizativas, que, nas lutas
concretas específicas ou gerais contra a ordem do capital,
vá se constituindo como um poderoso instrumento de luta e de
organização dos trabalhadores, com uma ação que
extrapole o campo dos interesses econômicos para se apresentar como o
contraponto unitário de forças à hegemonia burguesa. A
construção do bloco contra-hegemônico, portanto,
pressupõe a articulação das dimensões
econômicas e políticas na conformação da proposta
emancipadora, capacitando o proletariado ao exercício do poder
político e da direção cultural de toda a sociedade.
48)
O PCB reafirma que esta transformação histórica não
se dará através de reformas, mas por uma ruptura, na qual
desempenha papel central a questão do poder, ou seja, a
destruição do poder e da dominação política
burguesa e a construção de um novo Estado do proletariado da
cidade e do campo, comprometido com a construção histórica
da capacidade dos trabalhadores em chegar ao autogoverno e, portanto, à
superação do Estado. Isto implica que nossa política de
alianças deve se materializar no campo proletário e popular. A
aliança de classes capaz de formar o Bloco Revolucionário do
Proletariado deve ser fundamentalmente estruturada entre os trabalhadores
urbanos e rurais, os setores médios proletarizados e as massas de
proletários precarizados que compõem a
superpopulação relativa.
49)
A força deste bloco está diretamente ligada à capacidade
de a classe trabalhadora entrar em cena com independência e autonomia
histórica, mas depende, da mesma forma, da iniciativa de vanguardas que
resistam à acomodação e mantenham-se em luta contra a
ofensiva crescente e criminalizadora do capital monopolista e seus aliados da
pequena burguesia. A fragmentação atual do bloco popular expressa
a fragmentação da própria classe trabalhadora, dada a
inflexão política das vanguardas que a hegemonizaram neste ciclo
que se encerra. A unidade do bloco proletário deve ser buscada
fundamentalmente na capacidade de organização e luta dos
trabalhadores contra a hegemonia liberal burguesa.
50)
Este bloco é, portanto, um projeto político a ser
construído. Os elementos dispersos e fragmentados não constituem
nem econômica nem politicamente uma classe. Apresentam-se como
indivíduos em disputa no mercado de trabalho, espaço no qual seu
adversário imediato às vezes é outro proletário e
não a burguesia. A fusão de classe exige que estes setores
sociais se coloquem em luta e sejam capazes de ver, por trás das
expressões fenomênicas, as causas comuns de seus problemas e a
solução, como consequência direta de sua ação
independente e constituição, enquanto classe portadora de um
projeto histórico próprio: o socialismo. Nossa política de
alianças deve ser firme e ampla: ao mesmo tempo em que não
há alianças estratégicas com a burguesia e seus aliados,
todo aquele que na luta concreta se colocar em movimento contra a ordem do
capital, se contrapondo aos interesses do bloco liberal burguês, é
um aliado em nossa luta.
51)
Mas é preciso não confundir a necessidade de unidade dos
trabalhadores e sua fusão em classe social com a unidade das
forças políticas que representam ou dizem representar os
trabalhadores. Enquanto militantes da classe trabalhadora em suas lutas
imediatas e concretas, devemos apresentar o ponto de vista do proletariado,
apontando as causas dos problemas imediatos e relacionando-as com a
lógica do capital, defendendo uma alternativa socialista. É de se
esperar que, no acirrar das lutas sociais sobretudo com o agravamento da
crise do capitalismo e a rendição do governo de plantão
às receitas do capital para combater seus efeitos setores hoje
hegemonizados pelas organizações reformistas e
burocráticas possam vir a se deslocar para o bloco proletário,
passando à condição de aliados quando se contrapuserem, na
prática, às iniciativas e políticas antipopulares do bloco
burguês liberal e de seu governo.
52)
O PCB precisa aprofundar a sua organização interna e dar um
enorme salto qualitativo no seu trabalho de inserção no interior
dos movimentos dos trabalhadores e da juventude, para poder assumir como
perspectiva futura um importante protagonismo na direção do bloco
contra-hegemônico. Não se trata de fazermos a
autoproclamação do Partido como organização
revolucionária da classe, mas de nos apresentarmos como uma vanguarda
que, no interior de um bloco amplo de forças políticas e sociais,
seja capaz de jogar todas as energias na direção da
construção do projeto revolucionário e na
contraposição às saídas reformistas, "nacional
desenvolvimentistas", "democrático-populares" ou outras,
que não levem às últimas consequências a ruptura com
a ordem capitalista. Todavia, tal objetivo somente será alcançado
se, na condição de parte integrante do proletariado e respaldado
pelas condições objetivas, soubermos agir no sentido de
conquistar o reconhecimento e o apoio das massas ao nosso Partido e ao projeto
revolucionário.
53)
O Partido será capaz de participar da direção da classe
trabalhadora se penetrar nas organizações nas quais a massa
trabalhadora se agrupa, realizando nelas e através delas uma
sistemática mobilização de energias segundo um programa de
lutas anticapitalistas e anti-imperialistas. Lênin deixava claro
não existir uma única forma de luta capaz de conduzir à
vitória do socialismo, que pudesse ser copiada pelos movimentos
revolucionários em todo o mundo,
"na base de regras táticas de luta estereotipadas, mecanicamente
niveladas e idênticas".
Tampouco basta a ação isolada da vanguarda ou um trabalho
voltado apenas à agitação e à propaganda, pois
somente através da própria experiência política das
massas será possível desenvolver formas de abordagem da
revolução proletária, ou seja, formas de luta eficazes na
mobilização popular e no enfrentamento às classes
dominantes.
As Mediações Táticas da Revolução Socialista
54)
Assim como expresso no
Manifesto Comunista
de Marx e Engels, devemos reafirmar que os comunistas do PCB não lutam
para criar um partido à parte do proletariado, mas devem apresentar, no
conjunto da luta dos trabalhadores, ali onde ela se expressar, os interesses
gerais da classe. Esta representação se associa à
necessária compreensão da sociedade capitalista e suas
determinações mais profundas, assim como se articula à
dimensão internacional da luta e do horizonte socialista e comunista de
nossa proposta. A tarefa central dos militantes do PCB é a
construção do nosso Partido em bases de fato
revolucionárias, sem o que não será possível agir
no interior da luta de classes com uma perspectiva política que
vá além das reivindicações e necessidades
imediatas. Da mesma forma, a organização do PCB só tem
sentido se for ao mesmo tempo organização de um setor da classe
trabalhadora profunda e organicamente ligado às lutas reais do
proletariado.
55)
Desta maneira, respondemos da seguinte forma a principal questão
tática: como organizar o Bloco Revolucionário do Proletariado?
Organizando os trabalhadores e suas lutas imediatas, ao mesmo tempo em que
organizamos o PCB como expressão de um setor dos trabalhadores
organizados que, compreendendo as determinações mais profundas da
sociedade capitalista, se dispõem a lutar pelo socialismo como
transição para uma sociedade sem classes e sem Estado opressor de
classe: o comunismo. Nossas ações de classe devem se constituir
como germes da luta contra-hegemônica e de formação do
Bloco Revolucionário do Proletariado, tal como se manifestam na Frente
contra a Privatização da Saúde, na luta em defesa da
educação pública, na luta por nenhum direito a menos para
os trabalhadores, na luta pela Reforma Agrária, na luta pela
redução da jornada de trabalho sem redução
salarial, etc.
56)
Assim, afirmamos que o eixo tático/estratégico de
constituição do Bloco Revolucionário do Proletariado e a
organização do PCB são elementos indissociáveis,
uma vez que não faz sentido organizar nosso partido fora do processo de
constituição da classe trabalhadora como um sujeito
histórico da revolução socialista. Não basta
organizar os trabalhadores sem que isso se vincule à radical
negação da ordem capitalista e à
apresentação da necessidade e atualidade da alternativa
socialista.
57)
Diante da forte hegemonia burguesa, torna-se essencial a ação
política organizativa dos trabalhadores na luta por seus interesses
imediatos, ainda que não esteja totalmente visível, para a
maioria, a real vinculação dos problemas específicos com
as determinações mais gerais da ordem capitalista. O isolamento e
a fragmentação da esquerda revolucionária não devem
ser encarados somente como problemas de ordem moral, de carência de
formulação ou de falta de entendimento político entre
aqueles que hoje enfrentam a ordem burguesa e aqueles que hoje a personificam.
Tais problemas têm raízes objetivas na própria
fragmentação da classe trabalhadora, o que nos impõe um
esforço de aglutinação e unidade no máximo que for
possível e através da ação concreta de
enfrentamento contra os aspectos que vão se tornando mais evidentes,
derivados da contradição da ordem capitalista e do caminho
político trilhado pela aliança de classes hegemônica.
58)
Uma vez que o domínio do bloco conservador construiu uma hegemonia que
se expressa em todos os níveis da sociedade (na aceitação
da economia capitalista de mercado; no limite das políticas sociais
não mais percebidas como direitos conquistados; na
privatização dos serviços e desmonte das políticas
públicas, etc.) torna-se necessário um intenso trabalho de
informação, de formação política e de
ação cultural, no sentido de desvelar os reais fundamentos da
ordem do capital, apostando no desenvolvimento de valores calcados na
solidariedade de classe, que resgatem a história das lutas e da
resistência dos trabalhadores e das massas por seus objetivos, com
autonomia e independência. De igual modo, o caráter integrado do
capitalismo brasileiro à ordem internacional do capital imperialista
implica numa interdependência da luta contra-hegemônica. Este
aspecto leva à tática de aprofundar os laços de
solidariedade internacional diferenciando aquelas forças que atuam na
perspectiva anticapitalista e anti-imperialista e, ainda mais sólida e
profundamente, àquelas forças socialistas e comunistas.
59)
A construção do poder proletário/popular não se
resume à mera negação institucional ou qualquer tipo de
paralelismo autonomista, mas ocupa ativamente todos os poros da
institucionalidade atual, guiada por um projeto histórico de
negação da ordem capitalista, portanto, partindo da
afirmação revolucionária segundo a qual os meios
necessários à vida não podem ser apropriados privadamente,
que nenhum ser humano pode se apropriar de outro para transformá-lo em
mercadoria, que os bens de primeira necessidade e os serviços
necessários à produção e reprodução
social da vida são patrimônio de toda a humanidade e não
podem ser apropriados privadamente. É necessário ir construindo,
a partir de agora, a partir da velha ordem, um duplo poder, uma ordem
institucional e política própria dos trabalhadores, fundada e
fundante de uma nova cultura proletária e popular, capaz de dar unidade
ao bloco proletário e colocá-lo em movimento na luta contra a
ordem conservadora.
60)
Portanto, é preciso criar uma nova forma de associação e
sociabilidade através das manifestações de
resistência da classe trabalhadora, dotando-a de dimensão
política, pela compreensão das raízes e
determinações de cada problema particular e ao
relacioná-los com a totalidade da ordem capitalista a ser negada.
É preciso dotar as ações políticas de uma
dimensão organizativa e disciplinada, culturalmente solidificada, e
somar na construção de um grande movimento político de
massas que tenha por objetivo a implantação do socialismo no
Brasil. Por tudo isso, torna-se prioritária a ação da
militância comunista nos espaços onde seja possível fazer
avançar a organização dos trabalhadores e da juventude na
luta por seus interesses e necessidades, contribuindo efetivamente para a
formação e aprofundamento da consciência de classe contra a
dominação imposta pelo capital. Para isto, é preciso estar
colado com as massas, participando ativamente dos embates diários da
classe trabalhadora, seja por dentro dos sindicatos, no interior das empresas e
das escolas, nos bairros, por meio dos movimentos sociais e
comunitários, nas lutas políticas gerais, etc.
61)
Construir o Poder Popular significa instituir a democracia participativa
direta, de forma a que os trabalhadores e as massas passem a exercer a
direção política da sociedade, através dos
Conselhos Populares.
A construção do Poder Popular não acontecerá do
dia para a noite: trata-se de um longo percurso, no qual os trabalhadores devem
ir construindo no interior da velha ordem os elementos constitutivos e
organizativos da nova ordem. As lutas populares no âmbito do poder local,
que constituem o núcleo do Poder Popular, não serão
realizadas plenamente sem alteração das formas de propriedade e
das relações capitalistas de produção, mas a
construção deste instrumento funda-se na necessidade de colocar
na ordem dia o protagonismo dos trabalhadores e das massas populares e de criar
meios institucionais para que seus interesses sejam defendidos com
independência e autonomia, não se prendendo aos limites da atual
ordem institucional, mas inovando e criando novas formas de poder
político, no sentido da democracia direta.
62)
Estes instrumentos de direção política proletária,
que deverão atuar no sentido de fazer avançar a
construção do poder popular alternativo à ordem
capitalista, nascerão das experiências concretas de lutas dos
trabalhadores, partindo mesmo de organismos já existentes, como
associações de moradores, conselhos comunitários nos
bairros, sindicatos, organizações nos locais de trabalho,
comitês da juventude, movimentos de moradia, luta contra o desemprego,
contra privatizações, luta pela terra, fóruns comuns de
mobilização envolvendo bandeiras gerais como a saúde, a
educação, os transportes, a defesa do meio ambiente etc). Cabe
aos militantes comunistas a intervenção organizada nestes
espaços, promovendo sempre a denúncia da ação do
capital em todas as esferas da sociedade e da vida e apontando para a
solução radical dos problemas vividos pelos trabalhadores.
63)
Será preciso desenvolver uma solidariedade ativa entre as categorias e
setores sociais, fomentar interesses comuns e a necessidade de uma nova forma
de organização da produção social da vida para
além do mercado e da lógica do capital. Onde os limites da
institucionalidade liberal burguesa impedirem a plena realização
da humanidade, é necessário criar experiências inovadoras
de ação. Trata-se de tomar uma atitude ativa diante dos diversos
problemas concretos que surgirem e radicalizar soluções, ocupando
e tomando para o poder proletário e popular a tarefa de enfrentar estes
problemas, não no sentido de substituir as políticas
públicas e o dever do Estado, mas de denunciar sua omissão
criminosa e construir outra institucionalidade.
64)
As classes que hoje disputam a política brasileira excluíram a
questão proletária da pauta, maquiando uma posição
pequeno-burguesa rebaixada como sendo a representante dos trabalhadores. Nossa
tarefa é garantir que o projeto proletário e socialista entre
novamente no debate, como expressão dos interesses reais, imediatos e
históricos das classes trabalhadoras sob seu protagonismo direto. O
desfecho da Estratégia Socialista de construção de um
Poder Popular não pode ser definido de antemão, mas é
nosso dever e responsabilidade nos preparar para os diversos cenários
que podem se apresentar. Assim, devemos estar preparados para defender a
alternativa socialista contra a violência da reação
burguesa e seus aliados, desenvolvendo a autodefesa e o direito de
rebelião.
65)
O principal desafio do PCB é construir as pontes táticas que nos
permitam criar as condições de desenvolver nosso projeto
estratégico pelo socialismo no Brasil. Enquanto parte das forças
políticas que atuam no cenário brasileiro, inclusive do campo de
esquerda, jogam suas fichas cada vez mais na pauta do processo eleitoral, o PCB
afirma ser essencial que os próximos períodos sejam marcados por
intensas mobilizações, resistências, lutas e árduas
tarefas de organização e formação política,
capazes de lançar as bases de um projeto de Poder Popular para o Brasil.
66)
O PCB deve incentivar a elaboração de um calendário
nacional de lutas centrado na resistência dos trabalhadores à
ofensiva do capital em função da crise, tendo como lema
nenhum direito a menos,
a defesa do emprego e do poder de compra dos salários, a luta pela
redução da jornada de trabalho sem redução
salarial, pela manutenção e ampliação das verbas
para educação e saúde, pela garantia da moradia e contra a
especulação imobiliária, pela melhoria e expansão
dos transportes de massa em contraponto aos benefícios dados ao uso do
automóvel individual, visando atrair para a luta os trabalhadores e os
setores mais necessitados da população, além de combater
qualquer forma de subsídio para o capital, o uso do FGTS em
benefício das empresas e a manutenção de cerca de metade
do Orçamento para pagamento dos serviços da dívida
pública.
67)
Apontamos ainda para a necessidade de constituição de uma frente
política de caráter permanente, organizada em torno de um
programa capaz de dar unidade às lutas anticapitalistas e de
oposição às manifestações do imperialismo no
Brasil e no mundo. Tal articulação, a que denominamos
Frente Anticapitalista e Anti-imperialista
, não pode ser confundida com uma frente eleitoral. A vitória
eleitoral e as possibilidades de governabilidade de forças de esquerda
somente ocorrerão se estiver fincada sobre um forte movimento de massas.
Portanto, o projeto de constituição da Frente Anticapitalista e
Anti-imperialista depende da formação de um amplo movimento de
caráter permanente, estruturado por partidos políticos,
organizações de massa e movimentos populares reunidos em torno do
programa contra-hegemônico, no qual esteja prevista a ruptura com o
capitalismo.
68)
Para a conformação desta Frente, devemos priorizar o
diálogo com as forças políticas e sociais que têm se
posicionado, nas inúmeras frentes de luta, em franca
oposição ao Estado burguês e sua opressão de classe,
mesmo aquelas que hoje ainda se mantêm reticentes a abraçar a
ideia de um movimento com caráter anticapitalista. Algumas dessas
forças se opõem à ideia pelo entendimento de que ainda
há "tarefas nacionais" a cumprir no Brasil, e que
estaríamos (nós, do PCB) nos adiantando ao processo
histórico, propondo a luta anticapitalista como central. Estes grupos
partem do princípio de que é preciso, primeiro, desenvolver a
luta antilatifúndio e antimonopólio e que, portanto, o atual
estágio da luta de classes no Brasil demandaria um movimento
primordialmente anti-imperialista. Trata-se, de fato, de uma
concepção "etapista" disfarçada.
69)
Entendemos que todas as lutas populares no Brasil, seja contra a
exploração, seja contra o poder do latifúndio ou contra os
monopólios, são lutas anticapitalistas, pois o capital exerce seu
domínio em todas as esferas da vida social. Qualquer "tarefa
nacional" ou "popular-democrática" a ser cumprida
será uma tarefa anticapitalista. Todo e qualquer movimento popular
encontra do outro lado da trincheira a organização do capital,
tentando obstaculizar as conquistas por parte dos trabalhadores. As lutas
sociais e a resistência dos trabalhadores na defesa de seus direitos mais
imediatos, como o salário, as condições de trabalho, a
aposentadoria, a assistência, os direitos previdenciários, assim
como a luta pela qualidade de vida e pelo direito a uma educação
pública de qualidade, ao atendimento de saúde, à moradia
digna, à mobilidade urbana e/ou deslocamento nas zonas rurais, ao acesso
à informação, aos bens culturais e ao lazer se chocam hoje
com a lógica privatista e de mercado, que vê todos estes bens e
serviços como mercadorias a ser adquiridas prioritariamente no mercado
privado, gerando lucros enormes para as grandes corporações e,
secundária e supletivamente, pelo Estado, na forma de políticas
públicas.
70)
Mas não contrapomos a luta anticapitalista à luta contra o
imperialismo. No caso do Brasil, as duas lutas se unem no mesmo processo de
enfrentamento à ordem imposta pelo grande capital e pela burguesia. Pois
sabemos que o desenvolvimento do capitalismo brasileiro está, de forma
profunda e incontornável, associado ao capitalismo internacional, sendo
impossível separar onde começa e onde acaba o capital
"nacional" e aquele ligado à internacionalização
das grandes empresas transnacionais. O desenvolvimento dos monopólios e
oligopólios, das fusões, da concentração e
centralização dos principais meios de produção nas
mãos de grandes corporações monopolistas, nos setores
industrial, bancário e comercial, torna impossível separar o
capital de origem brasileira ou estrangeira, assim como o chamado capital
produtivo do especulativo, já que, nesta fase, o capital financeiro
funde seus investimentos tanto na produção direta como no chamado
capital portador de juros e flui de um campo para outro de acordo com as
necessidades e interesses da acumulação privada, sendo avesso a
qualquer tipo de planejamento e controle. Por isso a luta anticapitalista hoje
é, necessariamente, uma luta anti-imperialista.
71)
A afirmação do caráter anti-imperialista não
advém de nenhuma afirmação de um capitalismo nacional em
contraposição à dominação estrangeira de
potências desenvolvidas, o que poderia nos levar a reapresentar um
elemento essencial da estratégia das etapas ou do desenho mais geral de
uma estratégia nacional-democrática ou
democrático-popular. O caráter anti-imperialista da frente
proposta, pelo contrário, parte da constatação do
caráter internacional do capitalismo monopolista e daí seu
caráter imperialista, de forma que as lutas anticapitalistas que se
desenvolvem no Brasil, na América Latina e no mundo se chocam
necessariamente com a ordem capitalista/imperialista mundial, o que aumenta a
necessidade de articulação política ativa e da
solidariedade internacionalista.
72)
A hegemonia burguesa só pode se impor e se prolongar no Brasil pela
divisão das forças anticapitalistas e anti-imperialistas. Urge um
salto de qualidade na busca pela unidade de ação dos movimentos
populares, das forças de esquerda e entidades representativas dos
trabalhadores, no interior e para além do mundo sindical corporativo,
sem hegemonismos ou práticas excludentes, com a promoção
de iniciativas conjuntas de resistência e de confrontação
que sejam os passos necessários para a constituição de um
bloco proletário capaz de contrapor à hegemonia conservadora uma
real alternativa de poder popular e socialista em nosso país. Nosso
papel é continuar insistindo, junto a todas as forças
políticas e organizações sociais que se contraponham ao
poder do capital, sobre a necessidade de conformação da Frente
Anticapitalista e Anti-imperialista, que não necessariamente terá
este nome, mas que tenha, em essência, o caráter de um amplo
movimento político permanente de lutas, voltado a enfrentar os ditames
do capital e da ordem burguesa em nosso país, preparando o caminho para
a disputa pelo poder e a construção da sociedade socialista.
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