Brasil: Um novo pacto empresarial-militar?
Vivemos um rearranjo da luta de classes no país e uma tentativa de
alinhamento do Brasil em um ciclo de acumulação capitalista
mundial. O período que se iniciou com o governo Bolsonaro é o fim
do interlúdio histórico que foram os anos 2016-2018, na
sequência do golpe judicial-parlamentar contra a Presidência de
Dilma Rousseff. Primeiro com a farsa do impeachment, segundo com a
tragédia econômica e eleitoral. Um novo pacto entre o empresariado
e os militares se desenha. No Brasil, o século XX está, enfim,
morto.
- x -
Os jornais noticiam que no atual governo cerca de cem militares compõem
a alta cúpula do executivo em Brasília, sem contar os demais
espalhados em cargos estaduais e municipais. No primeiro escalão do
governo federal são cerca de um terço. Uma inteira
geração do oficialato que nunca teve experiência na
administração pública agora ocupa cargos decisivos na
operação da institucionalidade e de seu jogo com a economia.
Pesquisas de 2014-2015 já anunciavam que o exército era a segunda
instituição que os brasileiros depositam mais confiança,
seguindo a Igreja em primeiro lugar. No entanto, desde o primeiro governo civil
de José Sarney, não havia militares no núcleo duro do
governo central. Seriam estes trinta anos apenas um
entreatos
histórico?
O Regime de 1964
O fim do regime militar coincidiu sem coincidência alguma com o fim de um
grande ciclo econômico mundial, aquele gerado no pós-guerra do
ocidente sob o imperialismo estadunidense. Um cenário marcado pela luta
de manutenção do desenvolvimentismo e da
industrialização dos países periféricos do
capitalismo global, que herdavam do entre guerras a oportunidade, que nos
parece cada vez mais assombrosa, de inverter o papel subalterno da economia
periférica por meio da substituição de
importações.
Em particular no Brasil, a partir do golpe militar de 1964, formou-se uma
grande aliança entre os militares que assaltaram o estado e amplos
setores empresariais do capital nacional e internacional, voltada a aumentar a
taxa geral de lucros pela manutenção de algum desenvolvimentismo
e pela espoliação das classes trabalhadoras, sob a estabilidade
política do autoritarismo. O fim da década de sessenta já
anunciava o fim dos "anos dourados" do capitalismo fordista, mas foi
somente anos depois, no fim dos oitenta em que foi possível ao
capitalismo global iniciar um novo ciclo de acumulação, baseado
na derrocada do bloco socialista e em sua espoliação, nas novas
tecnologias e seus usos econômicos e no estabelecimento de uma nova
pax
política e ideológica mundial, sonhada por
gerações de burgueses, tão saudosos do século XIX,
quando imperou no globo o liberalismo britânico.
O pacto empresarial-militar consumado após 1964 no Brasil ocorreu em um
contexto de fim de um ciclo de acumulação mundial do capitalismo
e em especial da América Latina. A grandiosa transformação
da economia vivida desde os anos trinta encontrava óbices ao seu
prosseguimento em virtude do fim da guerra, da reconstrução
europeia, da retomada de uma economia de paz e do novo modelo de imperialismo
estadunidense, baseado na presença massiva de multinacionais nas
economias do resto do globo. Em um cenário em que o trabalhismo
varguista e o crescimento da classe média pressionavam os ganhos
empresariais e alimentavam agitações políticas, viu-se
necessário à burguesia nacional
[1]
e interessante ao grande capital internacional, que o estado fosse controlado
diretamente por um pacto empresarial-militar. Por essa mesma razão, o
que se viu não foi uma ruptura prematura com o ciclo então
vigente, mas uma tentativa autoritária de retomada dos ganhos do
empresariado, da aristocracia alijada do poder pelo varguismo e dos interesses
imperialistas no país. A fisionomia econômica permaneceu, metade
do PIB brasileiro no fim dos anos oitenta ainda era oriundo da indústria.
A Terceira República
O que se viu a partir daí, a despeito da tentativa neodesenvolvimentista
dos anos 2000, foi o lento e silencioso desmantelamento da indústria
nacional. Como já mencionado, o início do período
institucionalmente democrático coincidiu sem coincidências com um
novo regime de acumulação mundial, amparado por
relações multilaterais globais, onde as matérias primas
brasileiras, em especial o ferro, a soja e o gado, simbolizaram a paulatina
concretização do novo papel do Brasil na economia mundial,
condenado a não ser mais do que uma pedreira e uma fazenda tropicais,
como ocorrido por toda sua história com exceção do
século XX. Mesmo sob o lulismo a indústria paulatinamente
diminuiu e perdeu importância na economia nacional frente ao crescimento
vertiginoso do 'agrobusiness' esta impressionante retomada, meio
século depois, da primazia aristocrática, do poder
terratenente
no Brasil , sob o impulso da mecanização e da
modernização do campo. Ainda assim, houve estabilidade
política e ideológica enquanto foi possível ao estado, em
especial o lulista, manter a espoliação das conquistas seculares
das classes trabalhadoras (como a previdência social, as leis do
trabalho, os serviços públicos) fonte de acumulação
de capital característica do neoliberalismo ainda vigente, e ao mesmo
tempo, políticas de distribuição de renda
[2]
, amplamente apoiadas nos tributos da União oriundos das crescentes
exportações de
commodities.
Com a crise do regime global de acumulação em 2008, a crise do
sub-prime,
lentamente no caso brasileiro, viu-se o esgotamento do pacto de classes
lulista que havia garantido um grande crescimento da economia durante pouco
mais de uma década. A partir de 2013 a crise foi deflagrada no terreno
político, mas ela está, antes de tudo, determinada por dados
fundamentais da história e da economia.
Em primeiro lugar, está a queda substancial de exportações
de matérias-primas, influenciada pelo "desaquecimento" geral
da economia mundial no pós-crise de 2008, que, obviamente, gerou o
decrescimento do consumo mundial e da produção industrial
oriental, em especial a chinesa, e, consequentemente, de sua demanda por
matérias primas, principais mercadorias responsáveis por irrigar
os cofres do estado brasileiro no período anterior. O estado, por sua
vez, mantinha um mercado interno "aquecido", por meio de
políticas de distribuição de renda
[2]
, como o demonizado bolsa-família, responsáveis por alimentar um
regime interno de acumulação de capital, sobretudo no setor
de serviços e na agonizante indústria nacional de baixo valor
agregado, que contribuiu com o senso de modernização que marcou a
época.
Concomitante à crise política, as receitas oriundas do
petróleo também sofreram com a queda induzida de seu preço
pelos Estados Unidos em aliança com a Arábia Saudita, almejando
alavancar sua retomada econômica e ao mesmo tempo atacar regimes como os
do Irã, Rússia, Venezuela e talvez o próprio Brasil
(lembre-se do episódio divulgado por Julian Assange sobre a espionagem
da Petrobras e do gabinete de Dilma Rousseff), onde há pouco se havia
sedimentado um avançado regime de exploração do
pré-sal, que destinava imensa parte dos ganhos à
educação e saúde. É verdade que a tecnologia de
extração de petróleo do xisto, denominada
fracking,
também influenciou o preço do petróleo, ainda que
não tanto quanto o imenso aporte saudita ao mercado global por volta de
2010, sem nenhuma justifica econômica plausível, derrubando seu
preço para cerca de quarenta dólares, algo impressionante: menos
da metade do preço praticado na primeira década do milênio.
Além disso, o declínio industrial brasileiro anestesiado
durante duas décadas pelo preciso arranjo de classes lulista em
função da economia mundial tão vertiginoso quanto
seu surgimento, foi crescentemente aparecendo na situação social
como um sintoma do mal-estar na vida das grandes cidades. A vida citadina
brasileira, criada pela indústria e para a indústria, viu sua
estrutura e equipamentos urbanos serem abandonados, bem como seu poder de
investimento. Todo o imenso contingente populacional que desde os anos trinta
havia migrado para a vida urbana do país, atendendo às demandas
industriais por força de trabalho e por seu barateamento, tornou-se
crescentemente "órfão" de emprego e renda, e por
consequência, todo o estado-social gestado sobre esta
relação econômica. A esperança de que as cidades
pudessem transformar a vida social brasileira
tropicano-periférica, herdeira da escravidão tardia
tornando camponeses, marginalizados, ex-escravos e desgarrados em
proletários assalariados de um mundo desenvolvido, durou pouco afinal.
Com o declínio da indústria, este imenso contingente populacional
urbanizado vive agora ao puro sabor das sucessivas ondas neo-liberais. As
cidades e a burguesia nacional não necessitam e não são
capazes de lidar com o contingente populacional urbano, mas tampouco a
aristocracia modernizada rural. Esta população, que havia
constituído as classes médias do país, viu sua qualidade
de vida decair brutalmente. O desemprego aumentou, bem como sua precariedade. A
falta de emprego e sua precariedade pressionam a vida das classes
médias, mas também os recursos estatais, cujos impostos incidem
sobre a atividade econômica, em especial para o estado-social, que
é assentado sobre o emprego formal, celetista
[3]
. As cidades foram,
então, paulatinamente perdendo seu poder de investimento e de
transformação urbana, aliando-se à
precarização das condições de emprego e renda,
crucialmente no setor de serviços, deteriorando em geral a vida nas
grandes cidades brasileiras. Não foi outro o estopim das jornadas de
2013
[4]
, oriundas das manifestações pela manutenção do
preço do transporte público.
Junho
marcou também o declínio relativo das tradicionais
organizações políticas, especialmente as legitimadas com o
processo de redemocratização durante os anos oitenta. Não
apenas o arranjo político que representava os setores conservadores e
reacionários foi afetado ao redor do PSDB , mas sobretudo o
arranjo político das organizações políticas
progressistas e trabalhistas, como movimentos sociais, sindicatos e partidos
ao redor do PT , que durante mais de três décadas
desfrutaram de legalidade e legitimidade política, mas também
jurídica e estatal, especialmente durante o período lulista. As
organizações de esquerda, perdidas nos labirintos do estado,
divididas em pautas isoladas e identitárias, foram incapazes de
representar o que se anunciava. O pacto político oriundo da grande
demonstração popular das
diretas já,
enfim, caducava.
O Interlúdio 2016-2018
O golpe de estado contra a presidência de Dilma Rousseff marca a
re-apresentação do processo que as jornadas de junho de 2013
haviam deflagrado. O movimento vitorioso de genuíno engajamento
político foi habilmente manobrado por amplos e distintos setores
burgueses, tornando-se o ventríloquo da insurgência da elite e de
setores das camadas altas da classe média contra o pacto de classes
lulista. A conjunção material da situação
histórico-econômica do país, sobretudo no centro imperial
sudestino,
tornou possível uma ofensiva em busca da retomada das decrescentes
taxas de lucro. A efervescência da política de rua, o bloqueio
institucional estabelecido pelo Congresso Nacional após 2014,
imortalizado na figura de Eduardo Cunha, o deterioro econômico, bem como
a já mencionada pressão sobre as contas e políticas
públicas do estado lulista, concretizou aos setores burgueses a
necessária correlação de forças para a derrubada do
governo eleito. Derrubada esta, ocorrida especificamente sob o manto da
ideologia jurídica e da legalidade, orquestrada brilhantemente pelo
oligopólio midiático.
Os setores burgueses, uma vez apossados do estado este, que desde a
instauração da república nunca deixou de ter a
própria
forma
da burguesia trataram de levar a cabo uma nova onda neoliberal,
espoliando uma vez mais o que restava do estado-social construído por
três ou quatro gerações das classes trabalhadoras
brasileiras ao longo do grandioso século XX. A reforma
liberal-trabalhista de 2017, a nova lei do petróleo, que abdicou de
praticamente toda a receita do pré-sal prevista pelo supracitado marco
legal de exploração aprovado pelo lulismo, as sucessivas reformas
previdenciárias, a privatização das restantes empresas
públicas, o contingenciamento orçamentário, são
exemplos dos despojos conquistados no interlúdio entre o processo de
deposição de Dilma Rousseff e a eleição de Jair
Bolsonaro. Mas a vitória foi se dando também no campo
ideológico, na visão geral de mundo da população,
em seu balanço moral e imaginativo. Viu-se o desenvolvimento do
revisionismo histórico acerca da ditadura militar, o surgimento de
destacamentos fascistas de fato mobilizados, os movimentos de direita, a
ascensão evangélica, enfim, as bases da eleição de
Bolsonaro.
A toupeira havia cavado por demasiado tempo o subsolo. A fisionomia da
política brasileira fora alterada, acompanhando a culminância dos
processos econômicos e históricos do último período.
Se o século XX na periferia sul-americana foi marcado pelo sonho do
desenvolvimento, da modernização, da
industrialização, da soberania nacional, da ação do
estado para educar, promover a saúde, diminuir as desigualdades, incluir
as minorias, estabilizar a economia, então o século XX
está, enfim, morto. A destruição direta do projeto
nacional de desenvolvimento deflagrada por Bolsonaro, re-apresenta na
situação atual o que o golpe contra Dilma Rousseff havia primeiro
apresentado. Fim não somente do lulismo, mas do que responde pelo
próprio nome de século XX no Brasil.
Ainda no interlúdio de 2016-2018, quanto ao cenário
internacional, viu-se a ascensão dos partidos e governos de
extrema-direita em todo o mundo. Não apenas a tecnologia, em especial, a
experiência massificada do acesso à internet por
smarphones,
mas também a continuidade da estagnação do mercado
mundial após 2008, alterou as regras do jogo político e
possibilitou novas formas de organização, as quais foram
majoritariamente capturadas e financiadas por obscuros movimentos de extrema
direita global. Lembremos o nome de Steve Bannon, que, mais do que um
marqueteiro, é também um próprio ideólogo e
conselheiro dos governos de extrema direita eleitos ao redor do mundo nesse
período, na sequência de Donald Trump nos Estados Unidos. Este
movimento global altamente reacionário é certamente obra de
setores da alta burguesia ocidental, mas sua vitória é
também fruto da continuidade e agravamento da crise econômica em
alguns países e da estagnação do mercado mundial,
provavelmente, por responsabilidade da própria burguesia e do estado
norte-americano, interessados tão somente em recuperar a hegemonia
global contestada após 2008. Os episódios da guerra comercial
entre Estados Unidos e China a partir de 2018, com as mais altas
sanções econômicas mutuamente aplicadas da história,
é o sintoma da continuidade da estagnação do mercado
mundial e de seu possível agravamento.
Internamente, os instrumentos construídos ou fortalecidos para o golpe
de estado não cessaram sua ação, gestada para a
desestabilização política. Os meios midiáticos e as
novas forças conservadoras continuaram a impulsionar a
mobilização política da população. O governo
de Temer, altamente rejeitado, não negou esforços para aprovar
políticas antipopulares, como a reforma trabalhista, o congelamento dos
gastos sociais por 20 anos, a venda da Embraer, reforma da previdência,
etc. Estes fatores foram responsáveis por manter no país o clima
de instabilidade gerado a partir da crise econômica e da
deposição do governo eleito, instabilidade esta tão
sensível aos mercados especulativos internacionalizados e aos fluxos de
capital. A possibilidade de retomada do projeto nacional anterior e a aposta
petista no lançamento do altamente rejeitado Lula, ainda tanto quanto
amado, levou o país ao clima político de prévio
desmantelamento do tecido social visto nas eleições de 2018,
quando Jair Bolsonaro concretizou sua vitória, que não se tratou,
definitivamente, de uma simples vitória eleitoral, mas principalmente de
uma vitória política e ideológica sobre o balanço
geral de valores da sociedade. Parlamentar insignificante por quase trinta
anos, Bolsonaro não foi eleito apenas por encarnar o antipetismo e
apresentar um projeto de continuidade do desmantelamento do estado social, mas
também por representar a defesa e afirmação da identidade
conservadora e reacionária, ferida pelas recentes vitórias das
formas majoritariamente identitárias de luta política da esquerda.
Bases do Novo Pacto
A instabilidade do interlúdio histórico de 2016-2018 foi o
principal impulsor da, até então inacreditável, retomada
das forças militares na política institucional. Temer não
só iniciou o processo de nomeação de militares para cargos
do alto escalação governamental, como promoveu a inconstitucional
e já fracassada intervenção militar na cidade do Rio de
Janeiro, inserindo os militares definitivamente de volta à vida
pública brasileira. Com a ascensão de Jair Bolsonaro,
concretizou-se também a massiva eleição de militares para
diversos cargos públicos, do legislativo e executivo de outras unidades
federadas.
Entretanto, a grande coalizão de direita que elegeu Bolsonaro em outubro
de 2018, que se apresentava então de forma monolítica,
congregando setores religiosos reacionários de diversas classes,
militares, revisionistas, empresários, o capital internacional, a classe
política, funcionários públicos, dentre tantos outros
setores, não tardou a revelar suas já conhecidas fissuras e
contradições. Empossado, o governo não levou um mês
a desatar uma primeira crise política, com o caso das candidaturas
laranjas do PSL e a queda fulminante do ex-ministro Bebiano (Diga-se de
passagem, nos áudios de
whatsapp
vazados de sua conversa com o presidente, Bebiano apontou como os militares
rejeitaram sua presença e de outros civis em suas reuniões no
palácio, denotando que formam um grupo a parte dentro do governo). A
verdade é que o burlesco cenário de um governo composto por uma
família de trato estúpido e paranoico, pela influência de
um astrólogo de formação duvidosa, e a
participação de múltiplos setores empresariais, militares,
evangélicos, com visões de mundo e interesses conflitantes
não pode muito contribuir com a suposta estabilidade política e
institucional necessária a radicalidade das alterações
legais e econômicas propostas.
A impossibilidade de promover as prometidas reformas radicais do estado,
principalmente a da previdência social, que entrega a
administração dos valores arrecadados e a poupança popular
ao mercado financeiro, foi paulatinamente solapando a euforia especulativa do
capital e das altas camadas da sociedade. Os episódios dantescos dos
bolsonaros nas redes sociais, as falas de seus ministros de estado, a guerra
contra o Congresso e a inabilidade administrativa e política, foram
passo a passo afetando a legitimidade do governo, que em menos de seis meses
viu sua rejeição beirar cinquenta por cento. As
manifestações de maio contra o corte no orçamento da
educação foram uma imensa demonstração de
reação aos rumos do governo. Talvez, desde os anos oitenta e com
o movimento das diretas não tenha havido uma manifestação
tão significativa por pautas razoavelmente progressistas, foram
às ruas mais de um milhão de pessoas em todas os estados
federados.
Os militares aparentemente nunca estiveram totalmente alinhados com o
núcleo bolsonarista, lembremos da crise gerada pela
perseguição desmedida do setor do astrólogo aos generais
em maio de 2019. Estes passaram a demonstrar publicamente cada vez mais sua
independência e suposta imparcialidade em relação ao
conjunto desvairado dos civis no governo. O vice-presidente, Hamilton
Mourão, que até agosto de 2018 falava em acabar com o 13ª
salário, ou em intervenção militar caso Lula fosse
candidato, por exemplo, em fevereiro de 2019 passou a ,sem cerimonias, defender
o aborto em alguns casos, recebeu no governo o sindicalismo (tão
combatido pelo governo) e passou a demonstrar à cada
situação um pretenso equilíbrio e maturidade
política, que soam como música aos ouvidos de diversos setores da
sociedade diante da mediocridade do núcleo do governo. Mourão
tornou-se rapidamente um hábil ventríloquo das necessidades das
elites com o falso discurso conciliador esperado dos gestores do capitalismo
mundial, manifestando a cada falha de Bolsonaro qual seria a linha correta,
apontando que pode se converter em um verdadeiro príncipe de Maquiavel,
pairando sobre os incessantes conflitos de classe. Não bastasse,
notícias do primeiro semestre apontam que Mourão mantém
conexões diretas com amplos e poderosos setores empresariais (o
Valor Econômico
notícia em março que [o empresário] Skaf o recebeu em sua
mansão com "representantes dos 30 maiores grupos empresariais do
país).
O recrudescimento da crise no mercado internacional com a nova rodada de
sanções na guerra comercial entre EUA e China, que pressiona a
já anunciada recessão da economia brasileira no primeiro
semestre, somado à retomada da política de rua com face
progressista, a instabilidade oriunda da disputa entre o governo e o Congresso,
dentre outros fatores desagregadores, fortalecerá cada vez mais a
possibilidade de um impedimento ou de descredito e falta de legitimidade do
governo de Jair Bolsonaro. Ao manter sua independência mesmo ocupando
parte do executivo, os militares se apresentam cada vez mais dotados da
unidade, autoridade e legitimidade necessárias à
implementação dessa tentativa de inserção do Brasil
no novo arranjo geopolítico mundial capitaneado pelo ocidente trumpista,
que almeja, ainda sem sucesso, a instauração de um novo ciclo de
acumulação mundial capitalista, novamente liderado pela economia
estadunidense através da consequente reorganização da
divisão internacional do trabalho como sinaliza a tentativa de
Trump de reindustrializar o país, com a taxação de
produtos industrializados orientais e mexicanos. Um ciclo não mais
baseado em um arranjo econômico mundial multilateral e
livre-alfandegário, mas sim, protecionista e bilateral, ao menos
enquanto o estado norte-americano buscar a hegemonia mundial contestada
após 2008 e sua independência em face da economia chinesa.
No Brasil, delineia-se no horizonte a silhueta de um novo pacto
empresarial-militar. A espoliação do estado social iniciada pelo
capital com o golpe de 2016, que é parte causa da instabilidade
política e parte consequência da estagnação do
mercado mundial deixando as altas camadas impossibilitadas de obter seu
mais-valor pelo crescimento da economia, senão pela
espoliação das conquistas obreiras do século XX
não pode continuar a se desenvolver sem estabilidade. As disputas
públicas entre os setores do governo (empresarial, capitaneado por
Guedes, o bolsonarista-olavista e o militar) contribuem com a instabilidade,
mas também demonstram que as reformas necessitam em alguma medida de um
projeto político autoritário. A cada ato desastroso do
núcleo bolsonarista-olavista, condutor do governo, o núcleo
militar se apresenta como o único capaz de oferecê-lo. Entretanto,
as sinalizações parcimoniosas dos militares, especialmente de
Mourão, demonstram que é muito improvável que ocorra uma
ditadura militar, como muitos temem frente aos fantasmas do passado. O que
parece mais possível do que nunca é um governo militar
institucional ou democraticamente eleito, ainda que seja, mais uma vez, escolha
da opção autoritária para a condução do
país através da forte turbulência que parece se avizinhar
no horizonte do capitalismo global.
03/Junho/2019
NR
[1] É duvidoso que no Brasil exista uma burguesia nacional, no sentido
de uma burguesia antagónica ao imperialismo. A burguesia brasileira
é caudatária do capital multinacional.
[2] No Brasil chamam de renda a qualquer espécie de rendimento.
[3] Celetista: de CLT, Consolidação das Leis do Trabalho.
[4] Jornadas de 2013: ver
Extraordinária jornada de lutas
[*]
Jurista.
O original encontra-se em
lavrapalavra.com/2019/06/03/um-novo-pacto-empresarial-militar/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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