O que dizer para um desempregado?
A desaparição do horizonte socialista na luta política e
partidária é expressão da hegemonia burguesa contra a qual
os revolucionários devem lutar. Nas últimas décadas, desde
a derrota do nacional-reformismo de João Goulart (1964) e da luta armada
(1974), a esquerda brasileira baniu o horizonte socialista de seu programa. A
luta pela Revolução Brasileira foi abandonada em favor da
atuação nos estreitos marcos da institucionalidade burguesa. No
entanto, o fracasso completo dessa empreitada não pode ser mais
ignorado. A "reação" do petismo ao processo de
destituição da presidente Dilma, revelou até mesmo para os
neófitos que a luta no terreno institucional não é
fácil e contém perigos até agora desprezados pela
consciência ingenua. Ora, num balanço sério, é
fácil perceber o essencial: o petismo a força
hegemônica no interior do liberalismo de esquerda jamais convocou
o povo para uma batalha sequer ao longo de 13 longos anos, da mesma maneira que
não arriscou convocatória para a luta de massas contra aquilo que
cinicamente denominaram "golpe". A destituição de Dilma
foi o ato final de um
enorme fracasso histórico
diante do qual a consciência ingenua cala como quem recusa confessar o
pecado capital.
A ausência do socialismo e da revolução na reflexão
e práxis dos partidos que alimentam a esquerda liberal não
é, portanto, produto do azar, do descuido ou da correlação
de forças. Ao contrário, é produto de uma decisão
longamente pensada e meticulosamente construída. No fundo, os partidos
que dominam a cena eleitoral simulam ser possível enfrentar a
miséria e exploração em que vive a maioria do nosso povo
com políticas públicas, sob severa razão de Estado.
Não podem! O fracasso histórico do PT consiste nessa verdade
elementar: a atuação
dentro da ordem
possui não somente limites evidentes e conhecidos pela razão
cínica e pelo cretinismo parlamentar, mas também representa o
terreno adverso na luta para a emancipação social e
política dos trabalhadores. Nas circunstâncias atuais no
turbilhão de uma crise cíclica do capitalismo em escala mundial
as exigências do processo de acumulação de capital e
suas crises recorrentes cobram seu preço e, de maneira
inapelável, exibem os limites da "autonomia da
política" ou do miserável voluntarismo expresso no
bordão preferido entre os liberais de esquerda: a "vontade
política".
Há poucos dias o filósofo Luis Carlos de Oliveira Filho saiu em
defesa de Ciro Gomes e levantou duas objeções à minha
crítica ao "projeto nacional" apresentado pelo candidato do
PDT.
Numa delas, afirmou:
"dizer, como Nildo sistematicamente diz, que não há
"solução" nesta "ordem" é, no seio do
povo, uma postura imobilista e, mesmo, conservadora. Dizer para uma mãe
com o filho no colo numa fila de atendimento de um hospital público ou
para um trabalhador "informal" que só com a ruptura com o
capitalismo os seus problemas imediatos seriam resolvidos, o que é isto
senão imobilismo?"
A pergunta tem óbvia extração sentimental, mas carrega
algo mais valioso para além do apelo moral. Na real, Luis Carlos quer
empurrar os marxistas para o terreno da passividade e, no limite, da falta de
ação diante de problemas concretos da classe trabalhadora, como o
desemprego, por exemplo. No limite, ele informa que nós, os marxistas,
poderíamos até ter alguma razão quanto ao horizonte
estratégico o socialismo mas tal verdade seria
diluída nas dores do abismo social que cresce sob nossos pés e
clama por algo concreto, "propostas para aqui e agora",
tangíveis, sem a qual as massas afundariam no desespero antes de
abraçar a Revolução.
É uma boa questão, sem dúvida.
A crise cíclica do capital que lentamente esta moendo milhões de
vidas no mundo deixou 40 milhões de estadunidenses no desemprego
em maio de 2020 agora castiga violentamente o Brasil. Aqui, vale
lembrar, o trabalhador com carteira assinada
[1]
jamais ultrapassou 50% da população economicamente ativa, pois a
superexploração da força de trabalho é a pedra
angular de sustento do capitalismo dependente, agora mais aguda em sua fase
rentística. Ademais, a crise joga na rua toda semana milhares de
desempregados, engrossando a fila do desespero em companhia daquela mãe
com filho no colo.
Afinal, contra o imobilismo de nós marxistas, o que o liberalismo de
esquerda oferece para a "mãe com o filho no colo"?
Eu pensei em algumas alternativas disponíveis.
A primeira proposta "concreta" é um projeto de lei do deputado
do meu partido, Glauber Braga (PSOL), apresentado no ano passado (PL-5491/2020)
que institui o Fundo Nacional de Garantia do Emprego (FNGE) destinado a
"assegurar o pleno emprego com estabilidade de preços e
redução das desigualdades sociais e regionais, bem como o
desenvolvimento econômico, social e ambiental".
Qual é a viabilidade do projeto de lei? Nula! Acaso, a
divulgação das bondades óbvias do PL consolaria a
"mãe com filho no colo" repleta de angustias e afundada no
desespero de garantir o almoço do filho que ao despertar já
sentia fome? Não, não consolaria; nem mesmo ofereceria um
horizonte de esperança necessário para no outro dia voltar
à mesma labuta e garantir sua refeição.
A segunda alternativa "concreta" disponível pode ser
encontrada no livro de Ciro Gomes
[2]
. Na prática a receita ali condensada representa o senso comum de
medidas monetárias, fiscais, cambiárias que
fracassaram
precisamente na experiência do petismo com a
contribuição militante do próprio Ciro. O desespero da
"mãe com o filho no colo", ao tomar consciência das boas
promessas daquele programa, acaso renovaria suas esperanças para
além da angústia que aumenta com a mesma velocidade com a qual a
hora do jantar se aproxima? Não, definitivamente, não seria uma
resposta satisfatória.
A terceira alternativa "concreta" é apresentada pelo governo
ao indicar que a partir de 2021 e mais seguramente em 2022 a economia
voltará a crescer e, em consequência, os empregos também
voltarão. Até lá o governo apresenta nova proposta
"concreta" de R$600
[3]
divididos em... três prestações. É claro que a
"mãe com o filho no colo" tomará a filantropia
anunciada pelo monopólio televisivo não como o que de fato
é, ou seja, uma "humilhante esmola opressora" mas como
parte de um programa de "renda mínima" tão fugaz quanto
suas esperanças de um dia sair desse vale de lágrimas. Mas ela,
acaso, elevará sua consciência e fé em dias melhores?
Não, definitivamente não!
Os três exemplos indicam que na voracidade da crise, as propostas
"concretas" disponíveis são tão fantasiosas que
apenas a última parece cumprir alguma função na guerra de
classes: o governo busca apoio no setor mais empobrecido do proletariado;
precisamente aquele setor onde podemos encontrar a "mãe com o filho
no colo" que não possui sindicato, nem partido, nem amigos, nem
marido, nem parentes, nem nada... Ela esta sujeita a humilhação
perene e lentamente vê suas possibilidades diminuírem a cada
manhã. Um cenário desesperador, repleto de angústias
pessoais que, não obstante, alcançam milhões de
trabalhadores.
Foi nesse contexto de aparente falta de alternativas concretas que recordei um
artigo de Rosa Luxemburgo publicado em 1913 mas, extremamente útil para
pensar e atuar em nossa época. A revolucionária polaca que
dominava com maestria os segredos da economia política refletia
sobre o efeito do terrível desemprego sobre a consciência e
organização dos trabalhadores.
"Contra essa tendência opressora, dizia Rosa temos
apenas um meio eficaz: o revolucionamento socialista dos
espíritos. De
fato, com ideais revolucionárias não conseguimos satisfazer os
famintos. Seriamos charlatões, porém, sem merecer a
confianças das massas, se quiséssemos iludir os famintos com a
menor esperança, como se tivéssemos em nossos bolsos uma
poção mágica contra a fome, crônica ou aguda, das
massas no presente período de desenvolvimento capitalista".
Ademais, Rosa alertava para algo valioso na experiência histórica
que ela conhecia como poucos: "o proletário que passa fome
é, dependendo do caso, capaz da maior derrocada espiritual ou,
também, do maior heroísmo revolucionário". No ano em
que Rosa publicou o artigo mencionado os trabalhadores da Alemanha amargavam
grave desemprego e a revolucionária não vacila em afirmar a
importância da agitação de massas destinada ao apelo do que
há de "melhor no proletariado moderno: ao seu idealismo
revolucionário inesgotável; que desperte o que há de mais
forte nele:
o desejo pela ação e a crença em seu próprio poder
".
O Brasil em 2020 não é, certamente, a Alemanha de 1913. No
entanto, ninguém poderia afirmar que a classe trabalhadora aqui
está
tão destituída de virtudes revolucionárias que seria
incapaz de sustentar imensos sacrifícios em favor do socialismo.
Nega-lo, seria não somente um ato arrogante, mas uma sentença de
que o "fim da História" anunciado por um medíocre
acadêmico estadunidense teria ao menos uma molécula de verdade.
Afinal, são tantos os combates que nosso povo travou no século
passado (e também neste início de século!) que negar o
poder de fogo de nosso povo, em especial dos trabalhadores, representaria
não somente arrogância letrada mas sobretudo enorme
ignorância de nossa história comum.
O recado dos marxistas entre os quais figura o belo exemplo de Rosa
indica claramente que se podemos ter um papel ativo nessa
situação aparentemente sem saída dominada por
políticos vulgares porém hábeis em alimentar
ilusões no sistema na mesma medida em que desprezam o potencial
revolucionário de nosso povo consiste precisamente em indicar o
caminho da Revolução Brasileira e, no limite de nossas
forças, trabalhar diuturnamente para elevação de sua
consciência revolucionária e no fomento de uma tenacidade que
já se expressa na sua luta cotidiana pela própria
sobrevivência.
Portanto, para fazer política aqui e agora não precisamos meter a
mão na merda, tal como me desafia Luiz Carlos. O esforço
é, precisamente, na direção oposta: sair da cloaca
em que
as ilusões do liberalismo de esquerda nos confinou momentaneamente como
se nosso povo não fosse capaz de levantar-se e, por seu próprio
esforço e de suas vanguardas , colocar um fim definitivo na
republica burguesa apodrecida da cabeça aos pés.
30/Junho/2020
[1] Trabalhador formalmente contratado.
[2]
Projeto Nacional: O dever da esperança,
Ed. Leya, 2020, 274 p., ISBN 9786556430034
[3] 600 reais = 91,87 euros (em 19/Agosto/20)
[*]
Da Direcção Nacional do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade)
O original encontra-se em
nildouriques.blogspot.com/2020/06/o-que-dizer-para-um-desempregado.html
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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