A onda conservadora no mundo e as lutas atuais na América Latina
por Ivan Pinheiro
[*]
entrevistado por
O Poder Popular
O PODER POPULAR: A conjuntura mundial de aprofundamento da crise do
capitalismo aponta para o avanço dos atos imperialistas contra a
soberania dos povos e para o crescimento do pensamento conservador, com a
eclosão até de manifestações fascistas. Vivemos
hoje mais claramente a dicotomia entre socialismo e barbárie?
IVAN PINHEIRO: Essa dicotomia, evidenciada por Rosa Luxemburgo há um
século, é de uma atualidade angustiante. Quanto mais se aprofunda
sua crise, o capitalismo precisa retirar mais direitos sociais e trabalhistas
e, para isso, precisa cada vez mais de repressão às lutas
populares e proletárias e de restrição à liberdade
de organização política e sindical. O agravamento das
contradições interimperialistas radicaliza a disputa por
matérias-primas, mercados e posições estratégicas
entre as potências.
A barbárie já é uma realidade, com milhões de
mortos e mutilados pelas guerras imperialistas, sobretudo no Oriente
Médio e na África. Basta ver a catástrofe que atinge
milhares de vítimas da violência nessas duas regiões,
muitos morrendo nas águas do Mediterrâneo, fugindo do caos que a
"civilização ocidental" provoca em seus países,
em nome da "democracia", e o rastro de sangue contra
populações civis e a destruição de
patrimônios da humanidade provocados por organizações
terroristas criadas como falsas bandeiras da ação do
imperialismo.
Preocupam-nos as tendências fascistizantes, que vicejam mais na Europa,
onde a crise do capitalismo é mais acentuada. Como diz nossa camarada
Zuleide, o socialismo não é uma fatalidade, mas uma necessidade.
Diante do acirramento da luta de classes, urge que o sindicalismo classista e o
movimento comunista internacional revolucionário reforcem sua
articulação e unidade de ação, superando e
derrotando a atual hegemonia das organizações reformistas, que
semeiam ilusões de que é possível humanizar e democratizar
o capitalismo.
O PODER POPULAR: Na América Latina, o governo Obama, ao mesmo tempo
em que acena com a liberalização das relações com
Cuba, ameaça intervir militarmente na Venezuela. Como se explica esse
quadro?
IVAN PINHEIRO: A aproximação do governo norte americano com Cuba
não se inspira em razões nobres. Há uma
motivação estratégica, de olho na
reestruturação econômica em curso na Ilha. Os EUA precisam
disputar influência e mercado com capitais brasileiros, russos e chineses
e alimentam a obsessão por um abraço da morte, agora
"suave", no socialismo cubano. Há também uma tentativa
de simular que o imperialismo norte-americano "não é mais o
mesmo", tornando-se um vizinho amigo, com o objetivo de se aproximar de
governos e povos que lhe são hostis. A dupla moral fica clara quando, ao
mesmo tempo, os EUA insistem em desestabilizar a Venezuela e reforçam
sua presença militar no continente.
Em relação à Venezuela, o cínico decreto que
considera este país uma ameaça à segurança nacional
dos EUA foi um ato de desespero, após mais uma frustrada tentativa de
golpe contra o governo bolivariano, com vistas a se apropriar da
extraordinária reserva de petróleo venezuelana e destruir o
processo de mudanças mais avançado na América Latina, o
que impactaria negativamente a resistência dos povos da região e a
correlação de forças no tabuleiro mundial.
Creio que o tiro de Obama saiu pela culatra. Na Venezuela, uniu as massas em
torno do governo Maduro e da experiência bolivariana, reforçou as
milícias populares e ainda dividiu e enfraqueceu a
oposição conservadora. Na Cúpula das Américas, o
desastrado decreto isolou os EUA, chegando a obrigar Obama a vergonhosamente
negar a ameaça que fizera e ainda ouvir o corajoso discurso de Raul
Castro, denunciando o histórico de golpes do imperialismo contra Cuba e
outros países na região e marcando os limites da
aproximação entre os dois países, inclusive o respeito
à opção do povo cubano pela construção do
socialismo.
O PODER POPULAR: Quais as perspectivas das forças populares e
revolucionárias na América Latina, em especial com
relação à luta pela paz na Colômbia? Quais os
reflexos desta situação para o restante do continente?
IVAN PINHEIRO: A busca por uma solução política para o
conflito militar e social colombiano é de interesse de todos os povos da
América Latina, onde a Colômbia é a principal plataforma
militar a serviço do imperialismo.
A burguesia colombiana e o imperialismo norte-americano não tomaram a
iniciativa de propor conversações com as FARC-EP por pacifismo ou
qualquer motivação humanitária. A grande ofensiva
bélica dos oito anos de governo Uribe (em que, note-se, Santos foi
ministro da Defesa) não foi capaz de derrotar militarmente a
insurgência, mas gerou a ilusão de que a guerrilha estava
debilitada. Nesse quadro é que o atual governo imaginou ser
possível conquistar a sua versão de paz: rápida, sem
grandes custos políticos, econômicos e sociais e com a
desmobilização dos insurgentes. O objetivo principal do seu
"pacifismo" é melhorar a imagem da Colômbia como um
porto seguro para investimentos estrangeiros e entregar seu território
às multinacionais, para a exploração intensiva na
área de mineração, hidrocarburetos e agronegócio.
Em verdade, o fértil e cobiçado território guerrilheiro
(incluindo aí o do ELN e do EPL) é o centro da disputa.
O desafio dos diálogos de Havana é que as FARC não
estão dispostas a entregar as armas, nem serem vítimas de mais um
extermínio, como o da União Patriótica, nos anos 1980.
Entendem a paz num sentido para além do aspecto militar, como um
processo que signifique mudanças econômicas e sociais, em favor
dos trabalhadores e do povo, e políticas, com o fim do paramilitarismo e
da violência estatal, a libertação dos prisioneiros
políticos. O protagonismo do movimento de massas colombiano, em especial
da Marcha Patriótica, é que tem contribuído para garantir
os diálogos de Havana e levar para a mesa as aspirações
populares.
A solidariedade internacionalista ao povo colombiano não é por
uma paz a qualquer preço, uma paz de cemitérios. Não se
pode abrir mão do direito dos povos à insurreição
sem que sejam superadas as causas que deram origem ao conflito.
[*]
Secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro.
O original encontra-se em
pcb.org.br/portal2/8498
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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