O sexto turno eleitoral
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"Os presidentes são eleitos pela televisão, como sabonetes,
e os poetas cumprem função decorativa. Não há maior
magia que a magia do mercado, nem heróis maiores que os banqueiros.
A democracia é um luxo do Norte. Ao Sul é permitido o
espetáculo".
Eduardo Galeano,
O livro dos abraços
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Uma vez mais o jogo previsível encontra seu desfecho esperado.
Circunscrita pelo poder econômico e midiático, as candidaturas da
ordem se encontrarão, mais uma vez, em um segundo turno. Um dos
elementos de garantia da ordem pode ser encontrado nos mecanismos de
segurança que limita as alternativas e depois as apresenta como
liberdade de escolha.
No campo político isso foi descrito por Gramsci como
"americanismo" e se expressa classicamente na alternância entre
um Partido Democrático e outro Republicano nos EUA, num jogo de imagens
no qual nem um é democrático, nem o outro é de fato
republicano. Ao sul do equador tal fenômeno pode ser visto historicamente
na suposta alternância entre liberais e conservadores, na
maldição já descrita na expressão "nada mais
conservador que um liberal no poder", ou na famosa ironia de que no ato de
posse o programa conservador é transferido para o partido de
oposição, que entrega o programa liberal para quem sai do governo.
Carlos Nelson Coutinho costumava chamar a versão brasileira desta
"democracia" de
americanalhamento.
A expressão parece pertinente.
A instituição do segundo turno no Brasil tem servido a este
propósito. No sistema norte americano todo mundo pode ser candidato, mas
os filtros vão se dando nas eleições dos convencionais
(que de fato elegem o presidente numa eleição indireta e
absurdamente antidemocrática), até que só chegam à
disputa de fato os dois partidos oficiais citados. No Brasil não
é necessário tal engenharia política. Os filtros de
segurança começam pelas clausulas de barreira que impedem a
organização partidária, depois a legislação
eleitoral absolutamente desigual e inconstitucional (mas isso nunca foi
problema em nosso país segundo o TSE), passa pelo financiamento privado
de campanha e chega na cobertura desigual da imprensa monopólica.
Não podemos esquecer o mecanismo que decide o voto antes da
eleição pelo controle dos cofres públicos, dos governos
estaduais, prefeituras e cabos eleitorais numa verdadeira chantagem de verbas,
financiamentos e facilidades que controlam regiões inteiras sem a
necessidade de uma único debate de programas ou ideias.
Como diz Galeano no texto que nos serve de epígrafe, a democracia
é um luxo reservado ao Norte, ao Sul cabe o espetáculo que
não é negado a ninguém, afinal, diz o autor uruguaio,
"ninguém se incomoda muito, que a política seja
democrática, desde que a economia não o seja". Quando as
urnas se fecham, prevalece a lei do mais forte, a lei do dinheiro.
Mas, é essencial ao espetáculo que você sinta a
sensação de estar decidindo. É neste campo que se inscreve
o chamado voto útil.
A máquina eleitoral burguesa não pode impedir movimentos de
opinião, que se expressam no primeiro turno e, mesmo, no segundo.
É perfeitamente compreensível que muitas pessoas pensem na
lógica do mal menor, numa análise comparativa entre as
alternativas que restaram. Como sempre há diferenças entre elas,
convencionou-se que a esquerda deve votar no mais progressista e evitar o risco
da direita.
Analisemos mais detidamente as alternativas que o poder econômico, a
legislação restritiva e os meios de comunicação
monopolizados selecionaram.
De um lado Aécio Neves do PSDB, legenda conhecida pelos mandatos de FHC
e do próprio político mineiro em seu estado, assim como a longa
dinastia paulista. Neste caso não há dúvida sobre seu
programa conservador, seu compromisso com o mercado e os grandes grupos
monopolistas, sua lógica privatista e sua subserviência ao
imperialismo. Trata-se de uma legenda que nada tem de social democrata e
tornou-se o centro aglutinador da direita representada na aliança com o
DEM, o PPS e outras que compuseram sua base de governabilidade quando no
governo, como o sempre presente PMDB, PTB e outros.
De outro, o PT, partido que tem sua origem nos movimentos sociais e sindicais
dos anos 1970 e 1980, e que chegou à presidência em 2002 com a
eleição de Lula para aderir ao pacto e ao presidencialismo de
coalizão tornando-se o centro de um bloco do qual participam o PCdoB e o
PSB, garantindo sua governabilidade com o PMDB, o PTB, PP, PSC, e outras siglas
no mercado do fisiologismo político próprio do
americanalhamento
citado. Difere do PSDB na medida em que defende uma maior
presença do Estado para garantir a economia de
mercado, sustentando seu pacto de classes através de medidas
de cooptação e apassivamento, tais como a garantia do
nível de emprego e políticas sociais focalizadas e
compensatórias de combate aos efeitos mais agudos da miséria
absoluta.
A mera comparação justifica a tendência do voto em Dilma de
grande parte dos que temem um governo do PSDB como expressão mais clara
da política conservadora.
Coloquemos, entretanto, as coisas numa perspectiva histórica. Este
não é um mero segundo turno, é o sexto turno. É a
terceira vez que tal situação se apresenta. Nas duas primeiras,
em 2006 e 2010, o PCB, por exemplo, indicou o voto crítico no candidato
do PT, ou priorizou o combate à direita no momento eleitoral, ainda que
sempre se mantendo na oposição. Não seria o caso agora?
Lembremos quais os discursos que acompanharam este processo. Quando da passagem
para o segundo mandato do Lula o discurso é que o primeiro mandato havia
sido para acertar a casa, mas agora viria uma guinada em favor das demandas
populares, o governo Lula estaria em disputa. Quando da passagem para o mandato
de Dilma o discurso é que, agora viria a guinada na forma de uma
opção pelo mítico "neodesenvolvimentismo".
No entanto, o que vimos nas duas oportunidades não foi uma
reversão do rumo do pacto social e das medidas conservadoras, pelo
contrário. O fato é que cada governo subsequente foi sendo mais
à direita que o anterior. Os governos eleitos para "evitar a volta
da direita", a perda de direitos para os trabalhadores, o aprofundamento
das privatizações, a criminalização dos movimentos
sociais, o abandono da reforma agrária, acabaram por impor um
crescimento das privatizações, uma precarização do
trabalho, o ataque aos direitos dos trabalhadores (eufemisticamente chamado de
"flexibilização") e o aprofundamento da
criminalização dos movimentos sociais. Reforma da
previdência, privatização do campo de Libra,
imposição da EBSERH, rendição do Plano Nacional de
Educação à lógica dos empresários e do
sistema S, prioridade para o agronegócio, a farra da Copa, as
remoções, o aumento da violência urbana e a política
genocida das polícias militares contra a população jovem,
pobre e negra, a não demarcação das terras
indígenas, as concessões ao fundamentalismo religioso que impede
a legalização do aborto, a criminalização da
homofobia
Talvez a área mais emblemática seja a luta pela terra. Não
apenas reduz-se a cada mandato o número de famílias assentadas,
como cada vez mais assentamentos são abandonados à sua
própria sorte, e os pequenos produtores considerados
"economicamente irrelevantes" (nas palavras de um representante
do Ministério do Desenvolvimento Agrário em resposta às
demandas do MPA). Ao mesmo tempo dirige-se toda a política
agrária para a prioridade ao agronegócio, tornando aliado central
na governabilidade e na direção da política
econômica, como mostram os apoios, ainda no primeiro turno, de
Kátia Abreu e Eraí Maggi (o rei da soja).
Algo estranho ocorre por aqui. Primeiro, trata-se de fazer reformas
possíveis no lugar da revolução necessária. Para
tanto, um pacto social que leva o governo, que deveria ser reformista de
esquerda, para um perfil de centro-esquerda ou nos termos de
André Singer, de um reformismo de alta intensidade apoiado na classe
trabalhadora para um reformismo de baixa intensidade apoiado nas camadas mais
pobres. Em seguida trata-se de tomar medidas de um governo de centro-direita
para enfrentar a crise do capital com massivas doses de apoio ao capital por
parte do Estado para garantir a manutenção de um crescimento com
emprego e geração de renda. E agora uma clara
composição de direita apoiada nos grandes bancos, nos setores
monopolistas, nas empreiteiras, no agronegócio, numa
situação parlamentar ainda mais conservadora que empurrará
qualquer governo eleito para posição ainda mais conservadoras
para realizar os "ajustes necessários" para enfrentar a crise
que já se apresenta no horizonte.
O que é forçoso constatar é que a política do
acumulo de forças não acumulou forças. Pelo contrario,
desarmou a classe trabalhadora e abriu espaço para o crescimento da
direita. O que era uma estratégia para evitar a direita pode ter se
tornado o caminho pelo qual pôde se garantir sua "volta". De
fato, ela nunca teve seus interesses ameaçados porque nos
referimos a interesses de classe e não das legendas políticas que
representam seguimentos e facções das classes dominantes. A
classe dominante apoia as duas alternativas, fato que fica evidente na
distribuição dos financiamentos de campanha.
O tão falado crescimento da direita, ou a "onda conservadora",
não se dá por acidente, mas é o resultado
previsível dos governos de pacto social e da profunda
despolitização que resulta de doze anos de governos petistas.
Como disse Ruy Braga
em artigo recente, que a burguesia e a classe média sejam
conservadoras é perfeitamente compreensível, mas o que precisa
ser explicado é porque o conservadorismo tomou a consciência de
setores da classe trabalhadora. A candidata do PT perdeu no ABC paulista,
somando os votos de Aécio e Marina, perdeu em São Paulo, Rio,
Minas e Rio Grande do Sul.
Parte da classe trabalhadora, equivocadamente, aposta em candidaturas
conservadoras que são contra seus interesses de classe. Veja, ao
invés de infantilmente culpar a esquerda, os governistas deviam se
perguntar por que isso ocorreu. Parte da classe quer o fim do ciclo do PT e
não há discurso da esquerda que possa convencer este segmento que
o governo atual é que o representa, pelo simples fato que a
sequência de medidas que descrevemos indicam claramente outra coisa.
O que está acontecendo é que os meios de apassivamento e
cooptação são insuficientes para continuar mantendo o
governo do PT com a aparência de esquerda enquanto opera uma
política de direita. Mantêm-se o nível de emprego, mas os
precariza, garante acesso ao crédito para manter o consumo, mas gera
endividamento das famílias, garante acesso precário às
universidades privadas ou através de uma expansão que não
garante a permanência e a qualidade necessária no setor
público, tira-se as pessoas da miséria absoluta para
colocá-las na miséria.
A explosão do ano passado foi didaticamente um alerta, mas as
forças políticas, governistas ou de oposição no
campo da ordem, literalmente ignoraram as demandas que ali surgiram. Nenhuma
demanda foi considerada, desde a questão do transporte urbano, os gastos
do Estado priorizando as empreiteiras e bancos e não
educação e saúde, a violência policial e os limites
da democracia de representação. Silencio total.
A esquerda aquela que resistiu a este caminho suicida, foi
estigmatizada, atacada, criminalizada e excluída do centro do jogo
político no seu conjunto não chegou aos 2% dos votos, e
mesmo o voto nulo e a abstenção ficaram nos níveis
históricos das últimas eleições. Não pode,
portanto ser culpabilizada por uma eventual derrota do PT. A
insatisfação de 2013 se apresenta nas eleições como
caldo de cultura da necessidade de uma mudança e é atraída
pelo canto da sereia da direita que numa eventual vitória
governará com a mesma base de sustentação do governo atual.
Alguns afirmam que o que há de diverso agora é que o PT
terá que vencer o PSDB enfrentando-o pela esquerda. Não é
o que parece, nem o que o cenário político anuncia com a
composição do novo Congresso Nacional. Ao que parece, Dilma
investe em se apresentar como ainda mais confiável ao grande capital e
seus atuais aliados prioritários, ignorando solenemente as demandas
populares para recompor seu governo à esquerda. Respondam rapidamente:
quantas vezes, nos últimos debates, a presidente tocou no tema da
Reforma Agrária?
Mais uma vez, compreendo e respeito aqueles que votarão em Dilma para
evitar o governo do PSDB. Apenas preocupa-me que pouco se analisa do que
consiste o conteúdo desta suposta alternativa. Talvez algumas perguntas,
na linha da nota do PCB, ajudem na reflexão:
-
O eventual segundo mandato de Dilma reverterá a prioridade do
agronegócio e avançará na linha de uma reforma
agrária popular tal como proposta pelo MST e uma política
agrícola que considere os interesses dos pequenos camponeses como
preconiza o documento do MPA?
-
Romperá com a política de superávits primários,
de responsabilidade fiscal e de reforma do Estado que tem imposto a prioridade
ao pagamento da dívida que consome cerca de 42% do orçamento?
-
Demarcará as terras indígenas se chocando com os interesses do
agronegócio e dos madeireiros?
-
Romperá com a dependência em relação à
bancada evangélica avançando nas questões relativas ao
aborto, ao combate à homofobia e a política retrograda de combate
às drogas?
-
Alterará o rumo da política de segurança fincada no
tripé: endurecimento penal, repressão e encarceramento?
-
Vai administrar a crise do capital revertendo a tendência à
precarização das condições de trabalho e ataque aos
direitos dos trabalhadores?
-
Vai mudar a lógica de criminalização dos movimentos
sociais na linha da Portaria Normativa do Ministério da Defesa que
iguala manifestante a membro de quadrilha e traficante, ou estenderá o
fundamento desta política de garantia da Lei e da Ordem na forma de uma
Lei de Segurança Nacional que torna permanente a presença das
Forças Armadas como instrumento de garantia da ordem?
-
Vai alterar a linha geral do Plano Nacional de Educação que
institucionaliza a transferência do recurso público para
educação privada, se entrega à concepção
empresarial de ONGs e outras instituições empresariais e adia por
vinte anos a meta dos 10% para educação?
-
Vai fazer uma reforma política nos termos indicados pelo plebiscito
que reuniu 7 milhões de assinaturas, ou aplicará o acordo com o
PMDB que produziu um texto conservador e ainda mais concentrador de poder nas
atuais siglas do Congresso Nacional tornando mais eficiente o presidencialismo
de coalizão?
Nós que podemos interferir pouco no resultado eleitoral só
podemos alertar que quem votar em Dilma não estará apenas
evitando a vitória de uma opção mais conservadora
objetivo louvável mas, também, referendando os atos que
vierem a ser aplicados. O próximo governo Dilma, se ganhar, não
responderá positivamente, na perspectiva da classe trabalhadora, a
nenhuma destas nove questões. Por isso o PCB não pode empenhar
seu apoio, mais uma vez, nem que seja crítico, pois os governos petistas
já responderam a estas questões com doze anos de governo.
E se perder? Neste cenário, que não depende de nós e nem
pode ser atribuído à esquerda, que não é
desejável, mas possível, o PT teria que voltar à
oposição. Neste caso temos a dizer que aqui a
situação está muito difícil. A
criminalização se intensifica, a polícia militar e as UPPs
matam pobre todo dia. O Estado Burguês se armou, graças aos
últimos governos, de todo um arcabouço jurídico e
repressivo para nos combater, os assentamentos da reforma agrária
estão abandonados, os serviços públicos foram direta ou
indiretamente precarizados através de parcerias públicos
privadas, as Universidades estão sendo mercantilizadas e sucateadas, o
governo prefere negociar com sindicatos domesticados do que com as
organizações de classe, os meios de comunicação
reinam incontestes e impõem um real que nos torna invisíveis,
reina o preconceito, a violência, a homofobia e a transfobia, parte da
classe trabalhadora vivencia uma inflexão conservadora na sua
consciência de classe e ataca o marxismo e o pensamento de esquerda como
seu inimigo, imperando a ofensiva irracional da pós-modernidade que se
revela cada vez mais fascista nos levando para a barbárie.
Bom, mas isso vocês sabem, não é? Talvez só
não saibam de onde veio este retrocesso. Bom, procurem nos seis turnos,
naquilo que foi anunciado e no que foi posto em prática
é
uma boa pista.
15/Outubro/2014
Ver também:
Nem Aécio nem Dilma
[*]
Professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ,
pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP
13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do
livro
O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência
(Boitempo, 2002) e colabora com os livros
Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as
ruas do Brasil
e
György Lukács e a emancipação humana
(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o
Blog da Boitempo
mensalmente, às quartas.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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