Brasil: Balanço de 2005 e perspectivas para 2006
Caros amigos e amigas do MST:
Para que tenhamos muitas conquistas neste ano que começa, o MST
está planejando lutas e mobilizações. São formas de
pressão social organizada, onde queremos que haja menos restaurantes de
fast food
em cada esquina e mais bibliotecas e livrarias; acesso à terra para
produzir alimentos saudáveis e baratos; emprego e renda mínima
para todas as famílias; educação de qualidade e gratuita;
acesso à informação; resgate da cultura popular e
fortalecimento da saúde. Para isso será necessário debater
em todos os espaços possíveis a construção um
projeto que seja anti-neoliberal, anti-imperialista, popular e nacional. O novo
modelo somente será viabilizado a partir de um verdadeiro mutirão
de discussões que acumulará energias, forças e consensos
em torno de idéias. Sem dúvida, será preciso que o
movimento de massas se fortaleça para que a atual
correlação de forças adversas seja alterada. A luta do MST
e a vida de quem dela participa são para ver esse sonho virar realidade
em terra brasileira.
O ano que passou foi duro para os trabalhadores e as trabalhadoras rurais
e urbanos e para a Reforma Agrária. Felizmente, ao longo de 2005, o MST
recebeu muito apoio e solidariedade da sociedade para com a luta das 160 mil
famílias acampadas embaixo de lonas pretas em beira de estradas
ou em latifúndios improdutivos e das 350 mil famílias
assentadas.
O MST considera importante socializar sua avaliação sobre o
ano que passou e os desafios traçados para esse que começa. A
preocupação com a gravidade da crise brasileira tem sido
constantemente manifestada em conjunto com outros movimentos sociais. O quadro
é dramático. A crise não se limita a um problema
político-partidário. Toca intensamente a questão
ideológica, refletida na ausência de projetos, e mergulha o Brasil
no abismo social. Lamentavelmente não há pensamento
estratégico e a longo prazo voltado para resolver os verdadeiros
problemas estruturais do país, o que arrasta essas questões para
o futuro.
Os reflexos da política econômica adotada, que convive com
taxas de juros bárbaras, estão no desemprego. A felicidade
é requisito de um seleto clube, que reúne banqueiros e
especuladores internacionais. Segundo o professor da Unicamp, Eduardo Fagnani,
o pagamento de três dias de juros das dívidas interna e externa
consome o orçamento de um ano da Reforma Agrária. Os gastos com
20 dias de juros são equivalentes ao que foi investido durante 10 anos
com habitação popular e saneamento básico.
O MST tem-se esforçado para construir uma unidade em torno dos
movimentos sociais do campo e da cidade para forjar coletivamente uma
alternativa popular para o Brasil. Os resultados foram sentidos ao longo desse
período: 1) a Coordenação dos Movimentos Sociais realizou
nos estados diversas manifestações e atividades pela
mudança do modelo econômico, demonstrando a capacidade dos
movimentos de pensar além das pautas específicas de
reivindicação; 2) o Fórum Nacional pela Reforma
Agrária se consolidou como espaço de encontro, reflexão e
articulação de todos os movimentos e entidades que seguiram
lutando em torno dos compromissos que assumimos na "Carta da Terra"
de 2004; 3) a Assembléia Popular Nacional, juntamente com a 4ª
Semana Social Brasileira/CNBB, uniu milhares de brasileiros e brasileiras na
luta por propostas concretas de mudanças para o país.
Para o nosso Movimento, 2005 também foi um ano de aprendizado. O
desafio de colocar 12 mil marchantes em movimento por dezessete dias - de forma
organizada e séria - fez da Marcha Nacional pela Reforma Agrária
um feito inesquecível. O sacrifício da caminhada foi amenizado de
um lado pelo apoio dos amigos do MST e de outro pelos momentos de estudos e de
formação ao longo do trajeto de 200 quilômetros, que
separam Goiânia de Brasília.
Mas se a Marcha deixou o aprendizado da organização e da
solidariedade, o governo decepcionou mais uma vez: não cumpriu os sete
compromissos assumidos na chegada da manifestação em
Brasília.
O MST se ressente que a Reforma Agrária não seja vista como
mecanismo de democratização da terra (em nosso país apenas
1% dos proprietários detém 46% das terras) e de
geração e distribuição de riqueza e renda. Ela
é tida como mera política de compensação social em
uma economia que prioriza as exportações de grãos para os
países ricos, enquanto o povo não tem acesso fácil aos
produtos da cesta básica. A simples aprovação de uma
portaria que atualiza os índices de produtividade, conforme a
média calculada pelo IBGE, já seria suficiente para fazer o
processo de Reforma Agrária avançar. No entanto, esta
decisão, que não implica gastos e está exclusivamente nas
mãos do Poder Executivo, não foi tomada. Faltou vontade
política.
A Reforma Agrária segue lentamente, apesar de o governo alardear
números que não existem. O Rio Grande do Sul em três anos
teve apenas 100 famílias assentadas. No Maranhão, estado que
exibe os maiores índices de concentração de terra, nenhuma
família foi assentada. A inércia serve como estímulo para
o latifúndio.
A CPMI da Terra desperdiçou uma oportunidade histórica de
desvendar a estrutura agrária do país e propor medidas coerentes.
Preferiu subordinar-se à UDR (União Democrática Ruralista)
e inverter os papéis. Para os parlamentares da CPMI, concentrar terras
em um país com problemas sociais não é hediondo. Hediondo
é lutar contra a fome e a desigualdade. A comissão quis
transformar as vítimas em promotores da violência. Simplesmente
ignorou os 38 mortos em conflitos no campo ao longo do ano, 16 deles no
Pará. Simbolicamente, no dia da votação do
relatório, um trabalhador Sem Terra foi assassinado por pistoleiros em
Alagoas. A tentativa de criminalizar os movimentos sociais ganhou fôlego
assim como trabalhadores e trabalhadoras vivendo em regime de escravidão
nas grandes fazendas.
O MST não acredita em milagre. Sabe que é tempo de muita
luta, sem deixar de lado a esperança. A mudança não
virá de gabinetes e palácios, mas do povo organizado e
mobilizado. O Movimento tem a certeza que o novo projeto para o país
será fruto da participação popular na
democratização da terra, das riquezas e dos meios de
comunicação. Buscamos forças para esta tarefa nas
lições de Apolônio de Carvalho, que partiu no ano que
terminou. Poucas semanas antes de falecer, Apolônio nos disse, com sua
motivação incansável: "Não vale apenas a gente
olhar para a realidade e protestar contra ela. Queremos um mundo não
apenas melhor, mas um mundo mais jovem, mais cheio de criatividade, de
abnegação, paz, justiça, relações humanas
amplas e puras. O ideal de uma sociedade nova, na qual se corrigiriam
paulatinamente as injustiças e crueldades, projetando o ideal em um
horizonte de mais igualdade, fraternidade e solidariedade". O MST acredita
na construção dessa nova realidade.
Um forte abraço,
Secretaria Nacional do MST
Breves
11 trabalhadores rurais morreram por exploração excessiva de
trabalho
Segundo a Relatoria Nacional para o Direito Humano ao Trabalho, nos
últimos dois anos 11 catadores de cana morreram por
condições de trabalho deficitárias nos canaviais de
Ribeirão Preto (SP). Para Cândida Costa, as
condições em que os trabalhadores estavam são
análogas a escravidão, com alimentação inadequada,
jornadas de trabalho de dez horas e meta de colheita individual de 10 a 12
toneladas por dia.
Ministério da Agricultura confirma lavoura de milho
transgênico no RS
Depois de comprovada a venda ilegal de semente de milho transgênico
no Rio Grande do Sul, o Ministério da Agricultura agora confirma o
plantio dos grãos no estado. A primeira denúncia confirmada no
estado foi feita pela Via Campesina em novembro do ano passado. Com o receio de
perder mercados importantes, como a Europa, 21 frigoríficos
gaúchos farão testes de transgenia no milho que fornecem aos seus
aviários integrados a partir desta safra, que começa a ser
colhida na metade de janeiro. As empresas querem garantir o status de produto
livre de organismos geneticamente modificados.
2005 teve mais indígenas assassinados
Segundo levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) 38
pessoas foram mortas - 28 delas no estado do Mato Grosso do Sul. A soma dos 11
anos de pesquisa chega a 240 casos de assassinatos, uma média de mais de
21 por ano. Em três anos de governo Lula, apenas cinco terras foram
declaradas.
O original encontra-se em
MST Informa,
ano V - nº 106, 06/janeiro/2006. Publicação quinzenal do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, enviada por correio
eletrônico.
semterra@mst.org.br
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Este documento encontra-se em
http://resistir.info/
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