"Ao aprofundar seu programa, as classes dominantes aprofundam a
própria ingovernabilidade do Brasil"
por José Antônio Martins
[*]
entrevistado por Gabriel Brito
Para o economista José Antônio Martins, o estouro das
delações dos executivos da JBS Friboi que jogaram de vez o
governo Temer na fogueira não é ponto sem nó, após
seu governo completar um ano sem nenhuma "meta" alcançada. Na
entrevista que concedeu ao Correio, ele fala de uma incontrolável
estabilidade do regime político e econômico brasileiro, dentro de
uma dinâmica de reajustamento da posição do país na
divisão global da exploração capitalista, ainda em
gestação. Não há espaço para otimismo.
"(As revelações são) apenas providencial oportunidade
para ele ser descartado pelo mercado. Temer não conseguiu recuperar o
crescimento da economia e mostrava até dificuldades para aprovar as
'reformas'. Para o mercado Temer é um incompetente, até para
esconder suas falcatruas. Em termos práticos, acabou seu mandato. Mas,
é bom repetir, não porque acaba de ser revelado para o grande
público que ele seja apenas mais um ladrão de gravata a ocupar a
presidência da República", afirmou.
Martins também acredita numa intenção generalizada de
estancar a Lava Jato, operação que revela o descontrole das
disputas intercapitalistas, nacionais e estrangeiras, que colonizam o Brasil.
"Na luta para salvar da prisão seus mais brilhantes
empresários e suas mais importantes lideranças políticas,
os donos do poder prostituem não só seus representantes no
Executivo e no Legislativo. Agora, em um estágio mais avançado da
ingovernabilidade no país, prostituem também a maioria dos
ministros do Supremo Tribunal Federal. E o fazem descaradamente.
Abertamente", destacou.
Diante do quadro, e com as fracas manifestações que os grupos
identificados à esquerda têm realizado, o professor da UFSC e
editor do
Crítica da Economia
, considera impossível qualquer saída minimamente razoável
para a população, inclusive por meio das Diretas Já, e
é pessimista com os tempos vindouros.
"O claudicante lulopetismo começou a morrer por volta 2013, dois ou
três anos depois do último choque global. E morreu de vez com o
impeachment de Dilma Rousseff. Sobraram suas almas penadas. Essa forma de
populismo senil foi descartada pelos seus patrões capitalistas e
imperialistas da mesma forma como Temer está sendo agora. Mas as
assombrações do lulopetismo ainda pesam sobre a esquerda
democrática. As manifestações contra o governo, como as de
domingo passado, precisam se libertar do peso destes mortos insepultos. De todo
modo, só quem for totalmente incapaz de observar cuidadosamente o que se
passa na economia nacional e, consequentemente, o que vem pela frente no Estado
capitalista brasileiro, pode imaginar a possibilidade de mais um mandato de
Lula. Ou mesmo de uma eleição 'normal' em 2018. Isso é uma
grande bobagem", analisou.
A entrevista completa com José Antônio Martins pode ser lida a
seguir.
Correio da Cidadania: O que comenta das revelações trazidas
à tona com a investigação dos executivos da JBS-Friboi,
que praticamente implodem o governo Temer e respingam poderosamente em alguns
associados, como Aécio Neves?
José Antônio Martins:
Eacute; resultado de um estágio avançado de
putrefação na capacidade de governar das classes dominantes no
Brasil. O caso Friboi revela de maneira mais clara como verdadeiros donos do
poder têm dificuldades crescentes de garantir a governabilidade do seu
próprio Estado. Quer dizer, dificuldades crescentes de executar de forma
estável e previsível seus interesses econômicos e a
capacidade de administrar a luta de classes. Nas condições
clássicas de ingovernabilidade burguesa atualmente em curso no Brasil,
as coisas da administração pública e as pessoas envolvidas
ficam imprevisivelmente descontroladas. Cronicamente ingovernáveis. De
repente, tudo acontece de maneira surpreendente, inacreditável. As
perspectivas são de piora da situação.
Correio da Cidadania:
Globo
e
Veja
já "demitiram" Temer, ainda
que defendam suas reformas; outros como a
Folha
ainda tentam mantê-lo. O
que falar do comportamento da mídia empresarial ao considerarmos todos
os seus brados contra a corrupção, que tomaram conta de sua pauta
jornalística neste século?
José Antônio Martins:
A mídia dos capitalistas e do imperialismo procura encontrar uma
saída para garantir as indefectíveis "reformas
necessárias". Mas o que está mais do que claro é que
a roubalheira não é o maior problema atual da política
brasileira. Corrupção a gente encontra em toda parte. É da
natureza do regime capitalista. Até recentemente ela era transformada
pelos donos do poder e sua mídia em tapa-olho político para
esconder os verdadeiros crimes econômicos e sociais que eles praticam
quotidianamente.
Em momentos de crise de governabilidade, esse tapa-olho é mais utilizado
que em épocas normais.
Globo, Veja, Folha de S. Paulo
e outros
representantes maiores da mídia dos donos do poder no Brasil continuam
repercutindo essa mistificação. É importante desviar a
opinião e o imaginário do grande público do verdadeiro
problema político atual. Mas tal expediente já perde sua
força frente à gravidade da situação
econômica e social.
Os capitalistas e rentistas em geral, por seu lado, não se iludem com
bobagens moralizantes. Sabem que o grande problema criado com a iminente queda
de Michel Temer perfeitamente esperada pelas pessoas bem informadas,
diga-se de passagem é que, além de outros flagrantes
delitos capitalistas, as sagradas "reformas" trabalhistas e da
Previdência, aparentemente tão bem encaminhadas, até o dia
17 de maio, poderiam cair junto com o atual governo.
Correio da Cidadania: Enxerga relação entre as
revelações da JBS e a falta de resultados práticos do
governo?
José Antônio Martins:
Enxergo. Mas não como uma conspiração minuciosamente
planejada, como alardeia o próprio Temer. Apenas como providencial
oportunidade para ele ser descartado pelo mercado. Temer não conseguiu
recuperar o crescimento da economia e mostrava até dificuldades para
aprovar as "reformas". Antes mesmo do terremoto de
delações da última semana, o homens do mercado já
tinham perdido grande parte da confiança de que esse governo
provisório tivesse força política suficiente para
administrar seus negócios.
As provas agora apresentadas de que ele também é um grande
ladrão do erário público só fizeram agravar aquela
desconfiança. Para o mercado Temer é um incompetente até
para esconder suas falcatruas. Em termos práticos, acabou seu mandato.
Mas, é bom repetir, não porque acaba de ser revelado para o
grande público que ele seja apenas mais um ladrão de gravata a
ocupar a presidência da República.
O problema Temer para os capitalistas é outro. E que vai pautar todo o
desdobramento político dos próximos meses. Qual, neste momento,
é a utilidade de um presidente da República incapaz de constituir
um verdadeiro governo, quer dizer, um comitê de negócios das
classes dominantes capaz de descarregar sucessivas "reformas" nas
costas da classe trabalhadora? Dá para pensar na estabilidade de algum
governo que não seja capaz de garantir a paz social e, consequentemente,
os lucros dos patrões? Foi pela incompetência de cumprir essas
tarefas que Temer caiu em desgraça.
Correio da Cidadania: Como fica a Lava Jato e seus principais protagonistas do
poder judiciário com a eclosão deste escândalo, vinculado
à outra investigação da Polícia Federal, a Carne
Fraca?
José Antônio Martins:
Creio que todos os grupos capitalistas que agem no Brasil, tanto os
nacionais quanto estrangeiros, embora muito divididos pelos seus interesses
econômicos particulares, estão mais unidos do que nunca na
intenção de interromper a chamada Lava Jato. A Lava Jato
tornou-se apenas um foco de descontrole da administração dos
negócios. Justamente a Lava Jato que até pouco tempo atrás
eles amavam tanto. Inclua-se aí a alta classe média conservadora
que saía às ruas batendo panela e pedindo o fim da
corrupção.
Mas não se trata apenas da Lava Jato. Na luta para salvar da
prisão seus mais brilhantes empresários e suas mais importantes
lideranças políticas, os donos do poder prostituem não
só seus representantes no Executivo e no Legislativo. Agora, em um
estágio mais avançado da ingovernabilidade no país,
prostituem também a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal. E
o fazem descaradamente. Abertamente.
Assim, transformam de fato todos os protagonistas do Poder Judiciário,
em todas as suas instâncias, em todo o país, em meros bonecos
decorativos, sem qualquer autonomia. Mais do que em qualquer ditadura militar
do passado.
Correio da Cidadania: Qual o balanço deste ano de governo Temer, em
especial em termos econômicos e os supostos remédios para a crise
ministrados por Henrique Meirelles?
José Antônio Martins:
O ano de governo Temer foi um enorme fracasso econômico. A economia
permaneceu estagnada, o desemprego aumentou no mesmo ritmo em que se acelerava
a deflação dos preços, dos salários e da
utilização da capacidade instalada. Sem falar em um aumento dos
desequilíbrios das contas públicas, exatamente os
desequilíbrios que o governo prometia eliminar. Os remédios
ministrados por Meirelles durante o primeiro ano de governo Temer foram os
mesmos de Joaquim Levy durante o segundo governo de Dilma Rousseff.
Remédios totalmente equivocados para se enfrentar uma crise
cíclica.
Os dois últimos governos brasileiros são os únicos no
mundo, junto com o atual da Argentina, que fazem neste momento uma
política econômica contracionista. Até as outras grandes
economias dominadas do sistema global, como China, Índia, Rússia,
Turquia etc. fazem política fiscal e monetária
anticíclica, quer dizer, redução da taxa básica de
juros, aumento dos gastos do governo etc. Só no Brasil de Dilma e de
Temer, junto com a Argentina de Macri, aplica-se a sangue frio a
política da morte, a política dos juros e do "ajuste"
dos parasitas.
As economias do Brasil e da Argentina ainda permanecem "apenas"
estagnadas porque estão esperando passivamente o próximo choque
cíclico global. Quando este último ocorrer, muitas vezes mais
potente que o último ocorrido em 2008/2009, as duas maiores economias da
América do Sul afundarão abraçadas. Isso é
inescapável. É nesta perspectiva econômica que se deve
projetar a perspectiva política do curto e médio prazo. A
autonomia relativa desta última já está quase que
totalmente consumida.
Correio da Cidadania: Como analisa o comportamento do lulopetismo em meio a
isso tudo? O que achou das manifestações contra o governo neste
domingo?
José Antônio Martins:
O claudicante lulopetismo começou a morrer por volta 2013, dois ou
três anos depois do último choque global. E morreu de vez com o
impeachment de Dilma Rousseff. Sobraram suas almas penadas. Essa forma de
populismo senil foi descartada pelos seus patrões capitalistas e
imperialistas da mesma forma como Temer está sendo agora. Os motivos da
repentina inutilidade do lulopetismo para os capitalistas são exatamente
os mesmos que agora selam o destino de Temer.
Mas as assombrações do lulo-petismo ainda pesam sobre a esquerda
democrática. As manifestações contra o governo, como as de
domingo passado, precisam se libertar do peso destes mortos insepultos. Caso
contrário, continuarão muito tímidas e sem jogar o
importante papel que poderiam representar nas batalhas decisivas da luta de
classes que já se anunciam no nosso dia a dia.
Correio da Cidadania: Você considera que toda a esquerda já
está rendida à ideia de mais um mandato de Lula? Neste caso, o
que comentaria do comportamento de Lula e dos que formulam os discursos do
petismo, no sentido de um eventual terceiro mandato?
José Antônio Martins:
Creio que nem toda a esquerda democrática esteja rendida a essa
ideia sem sentido na realidade das coisas. Acho que começam a surgir
sinais alentadores de que partes crescentes da esquerda democrática se
distanciam do populismo assistencialista de triste memória.
Distanciam-se, inteligentemente, de uma ilusória perspectiva eleitoreira
e da agenda política burguesa. São camadas sérias de
revolucionários que, nos últimos quinze anos, sobreviveram
dignamente ao terrorismo colaboracionista dos governos e pelegos
lulopetistas.
De todo modo, só quem for totalmente incapaz de observar cuidadosamente
o que se passa na economia nacional e, consequentemente, o que vem pela frente
no Estado capitalista brasileiro, pode imaginar a possibilidade de mais um
mandato de Lula. Ou mesmo de uma eleição "normal" em
2018. Isso é uma grande bobagem.
Correio da Cidadania: O que considera do atual momento das esquerdas e seus
discursos em meio à crise de um modelo econômico que já
completa uma década no planeta?
José Antônio Martins:
A economia brasileira vive neste momento um impasse histórico.
Encontra-se travada a capacidade de acumulação do capital na
antiga forma como vinha se realizando até o choque de 2008/2009.
Problemas insolúveis de produtividade, preços, salários e
taxa de lucro que correspondam às novas condições de
valorização do capital global depois deste último choque
de 2008/2009. O mesmo problema é enfrentado pelas demais grandes
economias dominadas dos BRICS, assim como as da Argentina, do México, da
periferia da União Europeia etc.
É um problema muito amplo cujo detalhamento e esclarecimentos não
cabem nesta rápida entrevista. Sugerimos que acessem nosso site da
Crítica da Economia
, onde tratamos exaustivamente deste problema. Basta dizer, por hoje, que as
classes dominantes e imperialistas contam com uma única carta para
tentar resolver esse cabeçudo problema. Ou, melhor dizendo, se defrontam
com uma verdadeira sinuca de bico para destravar a acumulação de
capital no país e voltar a crescer a altas taxas de lucro e de produto
interno bruto.
Trata-se de integrar competitivamente a economia nacional às imundas
cadeias produtivas globais de capital. Indústrias montadoras,
maquiadoras, plataformas de exportação, zonas econômicas
especiais e outras barbaridades da produção imperialista global.
Barbaridades, diga-se de passagem, reservadas exclusivamente para economias
dominadas na hierarquia imperialista global. Para tanto os salários da
classe operária no Brasil (ou do exército industrial de reserva
no Brasil, de maneira mais ampla) deveriam ser reduzidos a níveis
haitianos, indianos, vietnamitas e outras coisas absurdas da
globalização capitalista.
Isto já vem sendo realizado desde o segundo governo Dilma. Este é
também o sentido das famigeradas "reformas
necessárias", que eles tratam com um fanatismo que ninguém
vai encontrar nem na mais fundamentalista religião que se tenha
notícia em todo o mundo. Vide principalmente as novas
legislações de terceirização, da jornada de
trabalho, das negociações de salários etc.
A política econômica aparentemente suicida que falamos antes
também é executada de maneira orgânica a essa arquitetura
da destruição: só uma brutal e longa
desaceleração da produção, acompanhada de
correspondente desemprego, pode reduzir os salários aos níveis
necessários aos capitalistas. Mas isso só pode ser executado
passando pelo crivo da luta de classes.
Correio da Cidadania: Voltando à mídia, um mandato presidencial
identificado à esquerda teria o direito de não debater a
questão da democratização da mídia e de fazer uma
dura revisão a respeito da concessão da Rede Globo, após
exercer enorme papel político na queda de Dilma, a vencer em 2022?
José Antônio Martins:
Essa ideia de um mandato presidencial identificado à esquerda é
absurda, totalmente vazia, devido às condicionantes materiais
absolutamente inéditas na sociedade brasileira que observamos brevemente
acima. Mais absurdo ainda é se pensar em democratização da
mídia, revisão da concessão da Rede Globo em 2022 e outras
gritantes ingenuidades frente ao apodrecido quadro político atual. Sem
levar as inéditas condições materiais atuais em
consideração, qualquer tentativa de se pensar as perspectivas
políticas brasileiras, mesmo para o curtíssimo prazo,
estará totalmente falseada.
Procurando ser o mais didático possível: ao aprofundar sua atual
política econômica e social, as classes dominantes aprofundam na
mesma proporção sua ingovernabilidade política. Isso
ocorre porque a matança da classe operária atualmente em curso
eleva a miséria da população em geral e a luta de classes
a níveis altamente explosivos. Não é apenas uma
hipótese, é resultado de uma insubstituível necessidade
das classes dominantes no Brasil.
Já pode ser claramente verificada no dia a dia da política
brasileira. Basta prestar atenção nas coisas reais que
estão acontecendo na nossa cara. É no bojo desta
contradição entre necessidades do capital e sistemático
assassinato de grandes contingentes do exército industrial de reserva
que as classes dominantes perdem o controle até das maiores
instituições da administração burocrática do
governo e do seu próprio aparelho policial de repressão. E
aproximam celeremente o país de uma guerra civil.
Correio da Cidadania: Quais seriam as melhores saídas no curto prazo para
essa enorme crise de legitimidade da política e até da democracia?
José Antônio Martins:
Creio que a resposta depende de qual lado da luta de classes você se
encontra e da sua preocupação pessoal com os destinos da
democracia e a salvação de outras instâncias deste regime
político burguês. Mas isso ainda é insuficiente. A despeito
da melhor formulação pessoal a respeito das inúmeras
saídas políticas no curto prazo para a burguesia e sua carinhosa
governabilidade, creio que doravante, dada a gravidade da
situação, mais do que em outras situações menos
turbulentas, só a luta de classes e o proletariado em ação
poderão dar uma resposta mais precisa a essas indagações.
24/Maio/2017
Ver também:
Fora Temer! Abaixo a repressão e as contra-reformas!
Cai, não cai
mas, afinal, o que deve cair?
, de Mauro Luís Iasi
O original encontra-se em
www.correiocidadania.com.br/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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