A crise subiu ao telhado
por Gilberto Maringoni
[*]
O que era um problema localizado transformou-se num imbróglio que coloca
em xeque a institucionalidade democrática construída nos
últimos 20 anos. É uma crise de regime, mas ainda não
é uma crise de dominação. Os desdobramentos não
serão fáceis.
A crise mudou de patamar nos últimos dias. Deixou de ser um
escândalo de corrupção restrito a partidos governistas para
se espalhar pelo Congresso, bancos, empresas de publicidade e telefonia e ONGs
como mancha de óleo em mar aberto. Uma crise sistêmica. Talvez a
mais grave desde o final da ditadura, há 20 anos. Recapitulemos um pouco.
O que era inicialmente uma denúncia contra um funcionário
secundário dos Correios, flagrado ao receber 3 mil reais de propina,
logo alcançou importantes dirigentes do Partido dos Trabalhadores e
membros do governo federal que, tudo indica, atuavam em linha. Denunciou-se um
esquema de tráfico de influência que operava a partir da Casa
Civil em relações nada ortodoxas com o Congresso Nacional,
articulado com lideranças do partido oficial e com
agremiações da chamada base aliada.
O governo e o comando do partido tudo fizeram para evitar as
investigações. Falharam. Puxado o fio da meada, vieram na rede
destacados parlamentares do PP, PTB e do PL, enredados através de
contas, saques, malas e cuecas oriundas de uma agência de publicidade e
de dois bancos de médio porte.
Parlamentares, empresas, ONGs
Montada a CPI, elegeram-se os vilões da história. Personagens
maiores e menores foram massacrados diante das câmeras de
televisão, tendo como coadjuvantes secretárias, ex-mulheres,
assessores e burocratas vários. Foi aí que a crise adquiriu uma
dinâmica aparentemente incontrolável. Logo apareceram saques
feitos por membros do PFL e do PSDB, seguidos por depósitos destinados
à Associação Brasileira de Organizações
Não Governamentais (Abong). E vieram à luz os nomes de
vários depositantes: Grupo Opportunity, Visanet, Fiat Automóveis,
Construtora Norberto Odebrecht, Banco Santander, TV Globo, Empresa Folha da
Manhã, Editora Abril e Editora JB. Há marcas de disputas
graúdas entre empresas de telefonia e fundos de pensão, algo
imperceptível no início, que viriam de pendengas do governo FHC.
Todos apresentaram suas explicações para tamanho
numerário. Desde compra de gado e hortaliças, até
pagamentos por serviços prestados, passando por contratos feitos com o
governo federal etc. etc. Pode ser tudo muito legal e correto. As
investigações têm de averiguar o que representa cada
operação dessas, para que criminosos não se misturem com
inocentes úteis ou inúteis.
Todo mundo faz
A chave para o entendimento do tentacular esquema veio da boca do presidente
Lula, em Paris: "O que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o
que é feito no Brasil sistematicamente".
Ou seja, é assim que as coisas funcionam no que toca ao financiamento de
campanhas e ao funcionamento do Congresso Nacional. É caixa 2 e
mensalão. No fundo, a crise apenas expõe o custo embutido no
funcionamento da democracia à brasileira, movida a
eleições baseadas no marketing e em maiorias legislativas pouco
claras.
Pedaços dessa evidência apareceram nos escândalos do governo
Collor e no dos anões do orçamento. Outros tantos foram abafados
ao longo dos oito anos de FHC. A vida é assim e a institucionalidade tem
seu preço. Eleger um vereador, prefeito, governador, deputado, senador
ou presidente custa caro. E o dinheiro grosso acaba sempre aparecendo. Agora
aparece mais do que uns poucos gostariam.
A natureza da crise
A novidade dessa crise é a exibição de várias
vísceras do sistema. Isso não acontecia na época do
impeachment,
quando corruptos foram execrados mas corruptores tiveram seus bons nomes
resguardados. Agora temos as indicações dos recebedores e dos
doadores. Acabar com caixa 2 e com mensalão significa atacar as bases de
funcionamento da democracia brasileira realmente existente.
Um escândalo desse tipo é uma crise institucional. A legitimidade
da democracia brasileira é colocada em xeque. É uma crise de
regime.
Ainda não é uma crise de dominação. Ou seja,
ninguém discute quais as classes que mandam e quais obedecem na
sociedade. Em 1930 tivemos uma crise de dominação. A oligarquia
agrária e a nascente burguesia industrial foram atropeladas por um setor
da pequena-burguesia militar e perdeu parte do poder político. Em 1985,
no fim da ditadura, as classes dominantes foram espertas e, em poucos meses,
retiraram seu apoio ao regime fardado, mudando de lado. Temendo serem
atropeladas por um formidável movimento de massas, impediram as
diretas-já, mas souberam manietar a candidatura civil para não
perder o controle da situação. Em ambos os casos, vivia-se sob o
signo de uma aguda crise econômica.
Agora a economia não está em crise. Do ponto de vista do grande
capital, a economia brasileira vai muito bem. Os lucros são
estratosféricos, o fluxo de capitais para o Brasil é expressivo,
os indicadores macroeconômicos risco-país,
inflação, balança comercial etc. são
positivos, não há no médio prazo possibilidade de
interrupção do pagamento dos compromissos financeiros e o
país cresce. Cresce a índices medíocres, concentrando
renda e desempregando, mas isso pouco importa para o grande capital.
A crise institucional só se tornará uma crise de
dominação se a economia for atingida pelas denúncias e se
a política de oferecer tranqüilidade aos banqueiros, especuladores
e exportadores for colocada em risco. O presidente Lula e seus companheiros
Palocci e Meirelles já garantiram uma sólida blindagem à
política econômica adotada há quase uma década e
meia.
Cenários à canhota e à destra
Que cenários se abrem a partir dessas constatações?
De imediato, há a desmoralização de uma maneira de se
fazer política e a falência de um projeto de esquerda que tinha
como estratégia central a chegada de Lula à presidência, a
qualquer custo, em aliança com o grande capital. Esta
desmoralização pode significar o fim do PT como instrumento de
transformação social, caso a atual direção se
mantenha. A legenda pode continuar por anos a fio, mas desossada do significado
que teve por um largo período da história.
Uma saída pela esquerda implicaria uma coesão e uma força
política que a esquerda do PT, outros partidos de esquerda e os
movimentos populares não têm no momento. Essa alternativa passa
pelo entendimento da crise institucional como subproduto da política
econômica. Em outras palavras, sua superação passaria pela
mudança da orientação neoliberal.
Pela direita, é bem possível que prospere uma tentativa de grande
acordo para salvar as aparências. Esse acordo possui mil e uma nuances.
Entrega-se a cabeça de alguns notáveis e o governo Lula segue
sangrando até 2006, quando será batido nas urnas. Esta é a
saída que mais interessa ao presidente da República, à
cúpula do PT e aos principais atores em cena.
A possibilidade de um segundo mandato tornou-se remota. Apesar de bons
índices de popularidade, Lula sabe que não agüentaria uma
semana de campanha eleitoral pela televisão. Num acordo desse tipo,
impeachment
é palavra fora do baralho. O denominador comum de todas as
variáveis desse cenário é manter intocada a
política econômica, custe o que custar.
Para essa gente, perder mandatos e credibilidades é um prejuízo
suportável até certo ponto. O que não dá mesmo
é para perder dinheiro.
01/Agosto/2005
[*]
Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Agência Carta Maior,
é autor de "A Venezuela que se inventa poder,
petróleo e intriga nos tempos de Chávez" (Editora
Fundação Perseu Abramo). Foi observador, a convite do CNE, no
processo do referendo revogatório na Venezuela.
O original encontra-se em
http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=1398&coluna=boletim
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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