A manipulação das eleições burguesas e a Frente de
Esquerda
Nas eleições deste ano, repete-se o mesmo roteiro de sempre. As
classes dominantes escolhem seus candidatos e, valendo-se de sua hegemonia
política e econômica, os impõem ao eleitorado como as
únicas alternativas viáveis à sua disposição.
Entre os candidatos fora deste cardápio oficial há os que
são folclorizados, os laranjas a serviço de um dos escolhidos e
os que são invisibilizados, quanto mais denunciem e lutem contra o
sistema capitalista.
Na escolha dos candidatos do sistema, o principal critério é a
confiança de que vão assegurar e fortalecer os fundamentos do
capitalismo. Nunca escolhem apenas dois; é preciso um ou mais, como
reserva, para o caso de inviabilização, por qualquer motivo, de
uma das candidaturas. Para manter a hegemonia, contam com a divisão
favorável do tempo de televisão, financiamento privado
milionário e espaço privilegiado na mídia empresarial.
As pesquisas eleitorais, que só precisam ser sérias na boca de
urna, cumprem o papel de ajudar a moldar resultados, cristalizar
polarizações. Em função delas é que flutuam
as bolsas de financiamento privado e de apoios políticos.
Já os debates nos meios de comunicação particulares,
sobretudo nas redes de televisão, pautam e induzem os candidatos a se
comprometerem com as demandas do capital, num campeonato de promessas à
busca de mais financiamento privado para a campanha. Ganha mais recursos quem
garante manter a política econômica que vem desde os governos
neoliberais de Collor e FHC, a autonomia do Banco Central, as
privatizações, mais subsídios, isenções
fiscais, empréstimos de bancos públicos a fundo perdido e outras
medidas para desenvolver o capitalismo. Por outro lado, nenhum deles promete
aumentos salariais e direitos para os trabalhadores, reforma agrária,
fim das privatizações, combate à expansão da
saúde, da educação e do transporte público como
mercadorias.
A manipulação inclui dificultar que algum candidato ganhe no
primeiro turno, o que o tornaria forte e com alguma independência. O
segundo turno é fundamental para os interesses do capital e dos seus
representantes políticos. É o espaço para as grandes
transações para garantir mais apoio político,
financiamento privado e espaços na mídia. O maior exemplo foi a
chamada "Carta aos brasileiros", leia-se, aos banqueiros, que
garantiu a vitória de Lula no segundo turno, em 2002, e que marcou esses
doze anos de governo petista.
Proclamado o resultado do segundo turno, é hora de garantir a
governabilidade institucional. Nesse momento, o PMDB e seus satélites
estarão esperando o vencedor, seja quem for, para negociar o poder:
partilhar os milhares de cargos dos diversos escalões do governo, a
direção de empresas públicas, o comando da Câmara e
do Senado, tudo em troca de uma base de sustentação parlamentar
que será, como sempre, majoritariamente conservadora. Como o PMDB
privilegia as eleições estaduais e o PT tem que fazer
concessões estaduais para privilegiar as eleições
nacionais, as pesquisas têm apontado o crescimento do PMDB e o descenso
do PT em número de governadores, deputados e senadores. Desta forma, o
presidencialismo de coalisão vai se transformando num parlamentarismo de
fato.
Em que pesem as diferenças de história pessoal, princípios
e ideais dos candidatos escolhidos, o vitorioso não poderá mover
uma palha pelos direitos dos trabalhadores e demais proletários, exceto
rebaixadas políticas compensatórias. Governará com e para
aqueles que pagaram sua campanha, que lhe abriram os espaços e vierem a
garantir a governabilidade.
Basta ver os valores arrecadados pelos três candidatos escolhidos pelo
sistema, em geral de empresas privadas que dependem de ações e
decisões governamentais, como empreiteiras, bancos, saúde
privada, agronegócio. Eis os valores do financiamento privado,
até agora, mais de 95% do arrecadado por todos os onze candidatos, no
caso do PCB apenas de militantes e amigos:
Dilma: R$ 123,6 milhões
Aécio: R$ 44,5 milhões
E. Campos/Marina: R$ 24,7 milhões
A insignificância das diferenças políticas ou
ideológicas da farsa eleitoral é de tal ordem que a atual
Presidente, apresentada como candidata de esquerda, recebe mais financiamento
privado e dispõe de mais tempo de televisão que todos os demais
candidatos juntos! E alguns partidos tidos como progressistas reformistas que a
apoiam declaram, sem pudor, que são contra o financiamento privado de
campanha.
Assim mesmo, com todas as condições favoráveis, gozando da
preferência da burguesia, ainda pedem cinicamente que o eleitorado
verdadeiramente de esquerda renuncie à sua opção eleitoral
ideológica para dar um "voto útil" à Presidente,
para evitar um "golpe de direita" ou que assuma a Presidência
alguém que vá privatizar mais e dar mais benesses ao capital do
que ela, em seu primeiro mandato.
Os outros dois candidatos da ordem, Aécio e Marina, disputam entre si
quem vai para o eventual segundo turno, tendo como quesitos o "quem
dá mais" ao "mercado" e qual o mais competente e que
oferece melhores condições de governabilidade. As
diferenças entre os três se movem pelas contradições
e disputas intermonopolistas e interimperialistas. Dilma, candidata e
presidente ao mesmo tempo também participa deste campeonato. Agora
mesmo, seu ministro da Fazenda acaba de reduzir a alíquota do imposto de
renda sobre os lucros das chamadas "multinacionais brasileiras".
Nessa "democracia" que os comunistas chamamos de burguesa, os grandes
eleitores são os que dominam o financiamento privado dos candidatos e a
mídia como empresa.
Com toda esta manipulação, certamente já é
possível saber que o próximo governo será de
coalizão com as classes dominantes e de colisão com os
trabalhadores e demais explorados. O agravamento da crise do capitalismo
acirrará a luta de classes e levará o estado burguês a
tentar retirar mais direitos sociais e trabalhistas; para isso,
aumentarão a repressão e tentarão restringir as chamadas
liberdades democráticas, em especial os direitos de
organização, de greve e de manifestação.
Esse quadro eleitoral viciado não desmotiva os comunistas da
participação na disputa. Pelo contrário, seria um
principismo infantil abrir mão dos espaços, mesmo que limitados,
que se abrem neste momento. Seria renunciar ao dever de denunciar as
desigualdades sociais, a exploração dos trabalhadores, a fome e a
miséria provocadas pelo capitalismo e as atrocidades e barbáries
contra os povos que caracterizam sua fase imperialista.
Por isso, os militantes do PCB em todo o país, candidatos ou não,
participam ativamente desta campanha política e ideológica,
dialogando com os trabalhadores, a juventude, os proletários em geral,
conscientizando, denunciando o sistema, apontando caminhos de
organização e luta por seus direitos, pela
construção do Poder Popular como transição a uma
sociedade socialista.
Mesmo sem manter ilusões, é muito importante que o PCB tenha um
número expressivo de votos, nas eleições estaduais e
sobretudo nas eleições para a Presidência da
República, coroando com êxito a impecável campanha
didática, agitativa e organizativa levada a efeito por nossos camaradas
Mauro Iasi e Sofia Manzano. Não se trata apenas de ter uma
votação expressiva, mas sobretudo de marcar um programa e um
campo socialista.
Para que a correlação de forças não seja
desfavorável para os trabalhadores nos próximos anos, mais
importante de quem será eleito, será a unidade da esquerda
socialista em torno de uma frente com base num programa e numa pauta comum.
Desta forma, o PCB disputa politicamente apenas contra os partidos e candidatos
do sistema e faz votos de que os demais partidos da esquerda socialista (PCO,
PSOL e PSTU) tenham também um expressivo desempenho eleitoral.
O fato de os partidos deste campo não terem ainda logrado constituir uma
coligação eleitoral e, portanto, apresentarem várias
candidaturas à Presidência não significa que não
possam promover ações unitárias ainda durante a campanha.
Pelo contrário, podem e devem fazê-lo.
Mesmo sem ilusões no processo eleitoral, é preciso que os
partidos, organizações e movimentos de orientação
anticapitalista, ainda antes do primeiro turno, promovam atos unitários
nas grandes cidades, em torno da pauta unitária construída nas
ruas a partir de junho de 2013, contribuindo para a formação de
uma ampla frente de esquerda para as lutas cotidianas.
PCB - Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central (9 de setembro de 2014)
O original encontra-se em
www.pcb.org.br/...
Esta nota política encontra-se em
http://resistir.info/
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