O lumpesinato no poder: os 100 dias de Bolsonaro
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O lúmpen é avesso a qualquer projeto de longo prazo, não
é classe, não é coletivo. Atualmente, sua principal
representação é o próprio presidente da
República: nunca representou um setor social específico,
mas
surfou em ondas de insatisfação difusas. E agora quer
'descontruir' o país
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por Gilberto Maringoni
[*]
e Artur Araújo
[**]
O governo de Jair Messias Bolsonaro representa um feito inédito em
termos mundiais. Trata-se da primeira vez em que o lumpesinato, de forma
organizada, chega ao poder de Estado. Não existe experiência
semelhante em países da dimensão do Brasil.
O lumpesinato (ou lumpemproletariado) não é exatamente uma
classe. O conceito inicial referia-se a uma fração de classe
constituída por trabalhadores muito pobres sem qualquer lugar ou
vínculo com a produção ou com o mercado de trabalho
formal. Sobrevivem à custa de pequenos expedientes e atividades
intermitentes. Por sua própria fragmentação, é uma
camada que tende a realizar ações individuais em detrimento de
iniciativas coletivas. Raramente atua de forma organizada.
Karl Marx e Friedrich Engels o descrevem no
Manifesto Comunista
(1848): "O lumpemproletariado, esse produto passivo da
putrefação das camadas mais baixas da velha sociedade pode,
às vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolução
proletária; todavia, suas condições de vida o
predispõem mais a vender-se à reação".
Marx voltaria a se referir ao lumpemproletariado no
Dezoito de Brumário Luís Bonaparte
(1852). Trata-se de uma análise profunda sobre o processo social
compreendido entre a Revolução de 1848 e o golpe de Estado de
1851, na França. O autor amplia o conceito, ao descrever os apoiantes de
Luís Bonaparte: "Esse Bonaparte se constitui como chefe do
lumpemproletariado, porque é nele que identifica maciçamente os
interesses que persegue pessoalmente, reconhecendo, nessa escória, nesse
dejeto, nesse refugo de todas as classes, a única classe na qual pode se
apoiar incondicionalmente".
Mais adiante, Marx mostra que o conceito não se referia apenas às
camadas mais baixas da sociedade, ao se referir ao sobrinho de Napoleão
como "lumpemproletário principesco". N'
As lutas de classes na França
(1850), Marx estenderia ainda mais a classificação: "A
aristocracia financeira, tanto no modo de obter seus ganhos quanto no modo de
desfrutar deles, nada mais é que o renascimento do lumpemproletariado
nas camadas mais altas da sociedade burguesa".
Quase um século mais tarde, no final dos anos 1950, o belga Ernest
Mandel cria a definição de lumpemburguesia. Em 1973, o
alemão André Gunder Frank lança
Lumpemburguesia: lumpemdesenvolvimento Dependência, classe e
política na América Latina.
Sua argumentação mostra que: "A partir da conquista, a
dinâmica colonial do sistema capitalista forma na América Latina a
estrutura de classes e a estrutura econômica, de modo que quanto mais
estreitas são as relações econômicas e coloniais
entre a metrópole e sua lumpemburguesia satélite (
), tanto
mais as políticas econômicas intensificam um
lumpendesenvolvimento".
A partir de tais definições, vale a pena tentar entender que
classes e frações de classe compõem o primeiro
escalão da administração eleita em 2018.
Grupos de interesse
O governo Bolsonaro resulta de uma confluência de interesses solidamente
enraizados na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, a
representação institucional ou expressão
política dessa coalizão parece materializar profundas
alterações ocorridas desde o final da ditadura (1964-1985) na
composição social do país.
O período é marcado por um processo de
desindustrialização, privatização e
desnacionalização de empresas que se soma à
desregulamentação e fragmentação do mundo do
trabalho. Ramos inteiros da produção deixaram de existir, a
indústria de transformação reduziu sua
participação na formação do Produto Interno Bruto
(PIB) e o país assistiu sua burguesia industrial vender empresas e
tornar-se mera montadora, maquiadora, empacotadora e, principalmente,
especuladora no mercado financeiro, beneficiando-se de uma das mais altas taxas
de juros do planeta. A burguesia associada do capital externo vai se tornando
uma burguesia compradora e rentista. Podem-se vislumbrar pelo menos quatro
grandes grupos de interesse contemplados no primeiro escalão do atual
governo.
Em primeiro lugar está o círculo próximo a Jair Bolsonaro.
Forma a vertente mais ideológica do poder, com nomes indicados por
igrejas fundamentalistas e pelo autoproclamado filósofo Olavo de
Carvalho. Entram nessa conta os ministros Ernesto Araújo
(Relações Exteriores), Ricardo Vélez Rodríguez
[NR]
(Educação), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos
Humanos) e Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). Agregam-se a essa
equipe os três filhos do capitão, que teriam
ligações com milícias armadas do Rio de Janeiro e com
representantes da extrema direita dos Estados Unidos, como o ex-ideólogo
de Donald Trump, Steve Bannon. É o grupo que dirige politicamente o
governo.
A segunda equipe em importância é representada por oito altos
oficiais militares de direita, além do vice-presidente Hamilton
Mourão. São eles: Augusto Heleno (Gabinete de Segurança
Institucional), Carlos Alberto Santos Cruz (Secretaria de Governo), Floriano
Peixoto Vieira Neto (Secretaria Geral da Presidência), Fernando Azevedo e
Silva (Defesa), Bento Costa Lima de Albuquerque (Minas e Energia), Marcos
Pontes (Ciência e Tecnologia), e Wagner Campos Rosário
(Transparência e Controladoria Geral da União).
O plantel dos militares tem duas vozes principais, Mourão e Augusto
Heleno, e forma o polo organizativo central da gestão. O ex-comandante
da missão da ONU no Haiti é o militar mais próximo de
Bolsonaro.
Um terceiro campo compõe o que poderia ser denominado de
"Ministério da Intimidação e Punitivismo". Aqui
brilha a constelação do ex-juiz Sergio Moro, ligado à
extrema-direita do Judiciário.
Há, por fim, a grande pasta dos negócios, firmemente
alicerçada no capital financeiro. Sua estrela é o economista e
especulador Paulo Guedes, ministro da Economia. Seguem-se a ele o executivo do
grupo Santander, Roberto Campos Neto, que pilota o Banco Central, e o
ex-diretor do Bradesco, Joaquim Levy.
Os dois primeiros grupos ideológicos e militares disputam
publicamente espaços e diretrizes na máquina pública.
A força da farda
A presença das Forças Armadas no governo revela um sério
problema político: Bolsonaro não tem um partido que lhe dê
sustentação. Sarney valia-se do PMDB, FHC contava com o PSDB e
Lula com o PT. Não se tratavam de meras legendas parlamentares para
encaminhar e votar projetos no Congresso. As agremiações eram
vetores orgânicos com presença na política institucional e
real inserção na sociedade.
O PMDB dos anos 1980 contava com alguns dos mais relevantes intelectuais
brasileiros, mantinha intervenção no movimento sindical e no
empresariado. O mesmo pode ser dito dos dois outros casos. PMDB, PSDB e PT,
além disso, expressam demandas de determinadas classes sociais e as
representam no embate político e no conflito distributivo.
No caso de Bolsonaro, qual é o vetor que sintetiza demandas de classe
que o sustentam na disputa institucional? Não é o PSL,
evidentemente! Esta é uma legenda artificial e um agregado de
aventureiros, sem expressão social clara. Expressão social
é diferente de ter votos. O PSL tem votos, mas é incapaz de
organizar minimamente uma administração.
Estamos em uma situação semelhante às dos governos da
ditadura militar. Eles tinham um partido (a Arena) que não formava um
corpo de ideias muito definido, a não ser dar voz às oligarquias
regionais. O vetor organizador dos governos ditatoriais eram as Forças
Armadas, com destaque para o Exército, de onde saíram seus cinco
presidentes. É o que ocorre hoje.
O Exército, a força mais numerosa e mais capilarizada social e
geograficamente, vocaliza uma reivindicação difusa da classe
média e de parcela dos pobres por ordem, segurança e moralidade.
Seria o que o cientista político e jornalista Oliveiros Ferreira
denominou de
partido fardado,
entre os anos 1970-80. Vale uma ressalva: os setores militares que ascendem
com Bolsonaro são caudatários dos porões (Garrastazu
Médici e Silvio Frota, ligados à repressão) e não
aos ideólogos da ditadura (Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel).
Assim, Bolsonaro não tem saída. Ou apela para as Forças
Armadas ou não existe governo que pare em pé. Não
há escapatória a não ser ele colocar cerca de cem
militares em cargos de primeiro e segundo escalão.
O terceiro (Justiça) e o quarto (Economia) grupo materializam o grande
consenso interno do governo. A facção ideológica e a
militar têm até aqui pleno acordo com o projeto punitivista de
Sergio Moro e com a opção ultraliberal de Paulo Guedes.
São também os fiadores da sustentação do governo
entre o capital financeiro, os especuladores internacionais, a grande
mídia e um setor da classe média que, desde 2013, bradava por
intervenção militar.
Mas a existência desses consensos não tira de cena a renhida
disputa de rumos. Voltemos ao início deste texto: o sentido principal do
jogo de forças intramuros é o embate entre um corpo profissional
do Estado e a inédita chegada do lumpesinato ao palácio.
Detalhemos.
O lumpesinato com a caneta na mão
O principal representante do lumpesinato nas esferas do poder é o
próprio presidente da República. Expulso do Exército por
indisciplina, Jair Bolsonaro buscou a carreira parlamentar como meio de vida.
Em 28 anos de Congresso, teve atuação apagada e agregou-se ao
chamado baixo clero da instituição.
Bolsonaro nunca representou um setor social específico, mas surfou em
ondas de insatisfação difusas do eleitorado pobre do Rio de
Janeiro e no corporativismo da massa militar. Seu mentor, Olavo de Carvalho,
sujeito sem ocupação definida, é um lúmpen da
intelectualidade, misto de astrólogo e guru de vasta legião
conservadora. Damares fez sua carreira nas igrejas pentecostais e não se
sabe de seus vínculos claros com o mundo formal do trabalho. O mesmo se
dá com outro ativista pentecostal, Marcelo Álvaro Antônio,
chefe da pasta do Turismo. Vélez Rodríguez, por sua vez, é
um obscuro professor universitário, sem publicações
relevantes e desconhecido em seu meio. Araújo expressa uma ínfima
minoria no Itamaraty.
O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, é um economista
marginal, tanto na academia quanto no mercado. Pérsio Arida, um dos
criadores do plano Cruzado (1986) e ex-presidente do BNDES e do Banco Central
no governo FHC, tem opiniões arrasadoras sobre ele. Em setembro de 2018,
Arida declarou ao jornal
O Estado de S. Paulo
que "Paulo Guedes é um mitômano (
). Nunca escreveu um
artigo acadêmico de relevo e tornou-se um pregador liberal. (
) Ele
nunca dedicou um minuto à vida pública, não tem
noção das dificuldades. Partiu para uma campanha de
difamação que é de um grau de incivilidade que não
se vê em outro assessor econômico". Envolvido em
acusações de fraudes em fundos de pensão, Guedes pode ser
classificado sem erro como um lumpenfinancista.
Entre os militares, o astronauta Marcos Pontes foi para a reserva após
seu voo orbital em 2006. Tornou-se palestrante de autoajuda, vendedor de
travesseiros e guia turístico na Flórida. Ou seja, passou a viver
de expedientes que não deram muito certo até ser recolhido por
Bolsonaro.
O PSL, partido do presidente, por sua vez, é quase todo composto por
aquilo que Marx classificou como lumpesinato no
Dezoito brumário:
"Rufiões decadentes, com meios de subsistência duvidosos
(
), rebentos arruinados e aventurescos da burguesia (
) vagabundos,
soldados exonerados (
), trapaceiros, (
) donos de bordel, (
)
em suma, toda essa massa indefinida, desestruturada e jogada de um lado para
outro, que os franceses denominam
la bohème
[a boemia]".
Qual o problema de um governo ser dirigido pelo lumpesinato de diversas classes?
O lumpesinato, por característica inata, é avesso a qualquer
projeto coletivo de longo prazo. Não é classe, não
é coletivo, não forma grupos. Não há
previsibilidade ou rotina possível em um conjunto de indivíduos
para os quais vigoram as saídas individuais e a disputa de cada um
contra todos.
Pode-se afirmar que o lumpesinato vive no Estado de Natureza conceituado por
Thomas Hobbes, em
Leviatã
(1651). Trata-se de uma situação anterior à
criação do Estado, sem regras ou normas, em que "todo homem
é inimigo de todo homem".
Nas palavras de Hobbes: "Numa tal situação não
há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto;
consequentemente não há cultivo da terra, nem
navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo
mar; não há construções confortáveis, nem
instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande
força; não há conhecimento da face da Terra, nem
cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade;
e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte
violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida,
embrutecida e curta".
Não há descrição mais apropriada para um mundo
traçado por Jair Bolsonaro em discurso proferido para uma plateia de
extrema direita em Washington, em março último: "O Brasil
não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir
coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita
coisa. Desfazer muita coisa".
Não se trata de deslize de um improviso mal feito. Hamilton
Mourão já havia declarado ao jornal
Valor Econômico
em fins de 2018 que o governo faria "um desmanche do Estado".
São frases-síntese de um governo lúmpen que se move por
pequenos e grandes negócios de ocasião. Em geral, eles se
dão por fora da política institucional e de suas regras e,
não raro, apelando para situações de força. Uma
administração de todos contra todos.
10/Abril/2019
[NR] Foi demitido em 08/Abril/2019 e substituído por Abraham
Bragança Weintraub.
Ver também:
Origem e apogeu das lumpen-burguesias latino-americanas
, de Jorge Beinstein
Lula e a ilusão da mudança
, de Miguel Urbano Rodrigues
[*]
Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do
ABC
[**]
Ex-diretor da Embratur e consultor da Federação Nacional dos
Engenheiros
O original encontra-se em
diplomatique.org.br/o-lumpesinato-no-poder/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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