Nove teses sobre a contra-revolução neoliberal
por Juarez Guimarães
1) O que está em curso no Brasil não é apenas um golpe em
um governo legitimamente eleito mas uma contra-revolução
neoliberal, típica de uma terceira fase regressiva do neoliberalismo no
plano internacional. Se os anos oitenta marcaram a dominância de uma nova
corrente regressiva do liberalismo, crítica e corrosiva ao liberalismo
social que havia predominado no pós-guerra, se os anos noventa
expressaram já após a dissolução da URSS uma
desorganização avançada da tradição e do
programa social-democrata através das chamadas terceiras-vias, os anos
iniciais deste século evidenciam exatamente o surgimento de uma
radicalização regressiva do programa neoliberal que se organiza
em frente com forças e lideranças proto-fascistas. É por
um radical ataque aos princípios republicanos e democráticos
fundamentais que o neoliberalismo, em sua terceira fase, pretende resolver a
sua incapacidade de formar maiorias nas democracias e legitimar uma nova onda
de ataques aos direitos humanos e sociais.
2) Esta caracterização de uma contra-revolução
neoliberal internacional, em sua terceira fase regressiva, é fundamental
para entender o seu programa, a sua dinâmica, a sua força. A
esquerda latino-americana, vinculando luta social e luta democrática,
havia conseguido nos últimos quinze anos derrotar as forças
neoliberais, através de programas de democratização do
poder político, de inclusão e novos direitos sociais, de
afirmação das soberanias nacionais. Em diferentes processos e em
diferentes graus, ela foi colocada na defensiva e agora está sendo
derrotada pelas políticas organizadas pelo neoliberalismo nesta sua
terceira fase regressiva. Como esta ofensiva neoliberal utiliza-se
instrumentalmente de mecanismos internos às próprias
instituições democráticas, quanto mais institucionalizadas
estas forças de esquerda e progressistas, mais dificuldades elas
têm de enfrentar esta nova onda conservadora neoliberal-fascista.
3) É a partir deste enquadramento geral que devemos entender o programa
da contra revolução neoliberal-fascista que está em curso
no Brasil. Ela combina a derrubada inconstitucional do segundo governo Dilma, a
criminalização ampla da esquerda e dos movimentos sociais e a
imposição de um programa de reformas constitucionais que atinge
direitos democráticos fundamentais gravados na república
democrática fundada em 1988 e até mesmo direitos trabalhistas
consagrados na Constituição de 1946. A violência não
apenas anti-socialista mas anti-republicana e anti-democrática contida
neste programa contra os direitos humanos, os trabalhadores, os pobres, os
sem-terra e os sem-teto, os negros, as mulheres, os índios , os gays
exige qualificá-lo como a atualização de um programa de
barbárie.
4) A diferença entre uma posição ultra-conservadora e uma
posição fascista é que a primeira vale-se de juízos
e preconceitos arraigados contra a esquerda e suas bandeiras históricas
mas reconhece a existência de direitos civis e pluralismo e a segunda
não aceita sequer discutir e disputar com a esquerda mas deseja
construir a sua execração pública e exterminá-la da
cena política. Na conjuntura brasileira atual, tal
execração se faz pela generalização seletiva da
acusação de corrupção (o PT seria
neopatrimonialista, na versão de FHC, ou uma quadrilha criminosa
que assaltou o poder, como na versão mais vulgar de Aécio
Neves ou do Procurador- Geral Janot), pela via do fundamentalismo religioso (a
esquerda seria satanista) ou até pelo discurso explicitamente fascista
como na fala de Bolsonaro ou do MBL). O extermínio político da
esquerda na democracia se daria através da
criminalização ampla dos seus partidos, das suas
lideranças, dos movimentos sociais pela via jurídica repressiva.
5) A dinâmica da contra-revolução neoliberal-fascista
combina quatro dimensões decisivas. A primeira é o processo de
radicalização neoliberal do programa do PSDB que o empurrou para
a aliança com a direita proto-fascista e se combinou com uma
estratégia golpista de não reconhecimento do resultado das
eleições presidenciais de 2014. Este deslocamento é
fundamental para entender a dinâmica da contra-revolução
não apenas em seu sentido programático mas, devido à
grande inserção financeira e empresarial, midiática e
institucional deste partido, por sua capacidade de organizar uma
coalizão golpista majoritária no Congresso Nacional,
articulando-se inclusive nas corporações jurídicas e na
Polícia Federal. Esta radicalização neoliberal do programa
do PSDB levou a uma forte impopularidade de seus governos estaduais (ver
São Paulo e principalmente Paraná), deslocou a base
histórica de sua intelectualidade que ainda mantinha alguns
traços progressistas, renovou à direita sua base de
representação parlamentar, acentuou a sua retórica
anti-pluralista.
6) A segunda dimensão decisiva é o novo papel e o novo discurso
dos oligopólios de mídia que dominam a comunicação
pública no Brasil muito orgânicos à inteligência
política do PSDB. Eles têm sido fundamentais para a
legitimação do processo de judicialização da
democracia, para a mobilização de massas e para a
disseminação social de um discurso de ódio contra a
esquerda brasileira. O chamado discurso do ódio, que se caracteriza pela
execração e linchamento moral do oponente, autorizando e
incentivando o seu extermínio, é bastante típico dos
grandes momentos históricos regressivos da democracia, como no fascismo,
nazismo, franquismo e salazarismo. É um passo além da
parcialidade e anti-pluralismo vigentes nos oligopólios de mídia
nas últimas décadas brasileiras. Trata-se da
legitimação de um regime anti-republicano e
anti-democrático, de tipo neoliberal-fascista.
7) A terceira dimensão decisiva é o processo de
judicialização, em estágio avançado, da democracia
brasileira que se organiza em torno a um concepção policial do
combate à corrupção sistêmica existente na
democracia brasileira. Esta concepção policial do combate
à corrupção propõe abolir o devido processo legal,
a presunção de inocência e os direitos humanos em troca de
uma sistemática violação da constituição e
das leis penais, de uma condenação pública e inclusive
aprisionamento antes do julgamento e de um máximo estreitamento dos
direitos de defesa do acusado. Esta concepção policial, que
organiza a Operação Lava-jato e a ação da
Procuradoria Geral da República, tem sido legitimada na prática
pelo STF, tornando-se dominante no Judiciário brasileiro. Ela é
partidarizada, arbitrária e seletiva, formando jurisprudências e
tribunais de exceção, típicos de períodos
regressivos da democracia e da república.
8) A quarta dimensão decisiva é a formação de uma
base de massas neoliberal-fascista, que publicita, organiza e protagoniza
ataques públicos à esquerda e às suas lideranças.
Fazem parte deste fenômeno manifestações de centenas de
milhares de pessoas, unificadas pelo discurso do ódio, grupos ativistas
fortemente ancorados nas redes sociais, grupos evangélicos
fundamentalistas, além de ataques terroristas a sedes e símbolos
da esquerda e dos movimentos sociais que se tornaram frequentes no
último período.
9) O que está se organizando mais além de um novo governo
é uma refundação do Estado brasileiro a partir de
fundamentos neoliberais-fascistas, um novo regime de organização
do poder e de direitos que se propõe a substituir o regime nascido da
Constituição de 1988. Este novo pacto de poder é
orgânico às classes dominantes internacionais, solda em uma
unidade classista os setores financeiros, industriais, comerciais e do
agro-negócio da grande burguesia brasileira, tem o apoio orgânico
dos grandes oligopólios de mídia, pretende controle o executivo,
formar uma sólida maioria conservadora no Congresso nacional,
além de dominar as posições chaves do Judiciário e
da Procuraria Geral do Estado brasileiro. A sua base de massas é
fundamentalmente classista, articulando os estratos sociais burgueses e mais
privilegiados da sociedade brasileira, inclusive nas classes médias, mas
organiza um apoio popular principalmente através das igrejas
evangélicas fundamentalistas.
O original encontra-se em
cartamaior.com.br/...
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