por Ivan Pinheiro
Entrevistado por Paulo Passarinho
Programa Faixa Livre, Rádio Bandeirantes, Rio de Janeiro
Paulo Passarinho Tenho a honra de anunciar, para os nossos ouvintes, a
presença aqui na ponta da linha, do candidato do Partido Comunista
Brasileiro, PCB, à Presidência da República nas
últimas eleições, Ivan Pinheiro. Bom dia.
Ivan Pinheiro Bom dia, Paulo. Bom dia, ouvintes do Faixa Livre.
Paulo Vamos conversar hoje a respeito, inicialmente, dos resultados do
1º turno. Como você avalia estes resultados? Cá para
nós, eu acho que a esquerda sofreu uma bela derrota, hein, Ivan?
Ivan Foi uma vitória da direita, que tentou e conseguiu excluir a
esquerda revolucionária, a esquerda socialista, a esquerda que
não se rendeu, de qualquer possibilidade de aparecer, inclusive na
televisão, em jornalões e tal.
No nosso caso, a chapa própria não era o plano A, que era fazer
uma grande frente que ultrapassasse, inclusive, os partidos registrados no TSE,
no campo da esquerda, para tentar criar uma alternativa permanente, uma frente
permanente. Mas isso não sendo possível, optamos pela chapa
própria. E você é testemunha e os ouvintes também
que, desde o primeiro momento do registro, nós dissemos que não
estávamos fazendo uma campanha propriamente eleitoral, mas uma campanha
política. E que íamos analisar o resultado não apenas do
ponto de vista matemático, mas do ponto de vista político, do
saldo que deixou. E nós achamos que, apesar desta derrota
numérica, o saldo foi positivo. E eu acho que esta
fragmentação pode ter ensinamentos para as forças de
esquerda; já estão surgindo condições para
entendimentos, para possibilidades futuras.
Paulo Agora, Ivan, é verdade que a esquerda que não se
rendeu, conforme você apontou, teve muito pouco espaço nos meios
de comunicação, particularmente o PCB, o PSTU...
Ivan E o PCO também.
Paulo Agora, o que eu ia falar é que, destes partidos, o PSOL
teve um espaço, não idêntico, evidentemente, aos três
candidatos defendidos pela grande imprensa, o Serra, a Dilma e a Marina. Mas o
Plínio teve uma exposição. É interessante! Nas
eleições de 2006, a Heloísa Helena teve quase 7% dos
votos. Agora, o Plínio não conseguiu, inclusive sendo um nome
muito respeitável, não conseguiu sequer 1% dos votos. Você
não acha que isso é muito grave, não só para o
PSOL, mas para toda essa esquerda que, conforme você disse, não se
rendeu?
Ivan Realmente, a votação do PSOL este ano ficou bem
aquém em relação à de quatro anos atrás. Mas
tem que levar em conta que, há quatro anos atrás, quando foi a
Heloísa Helena, além de ter sido uma frente ampla, de
várias forças políticas, havia toda uma
emoção em torno da candidatura dela. Ela tinha pontificado
naquela CPI do mensalão, que todos assistimos, até de madrugada,
aqueles debates... Então, ela tinha uma mística. Heloísa
Helena, eu acho que foi um fenômeno eleitoral. Esses partidos (PSOL, PCB
e PSTU) já não tinham voto naquela eleição. Quem
teve voto foi a Heloísa Helena. Igual ao PV agora. O PV não tem
19% de votos. Eu acho que a Marina foi, em 2010, o fenômeno eleitoral que
a Heloísa foi, em 2006. Realmente o Plínio teve mais
espaço. Até porque tem um dispositivo recente na
legislação, que o favoreceu. As emissoras de televisão
podem convidar todos os candidatos, mas só são obrigadas a
convidar os dos partidos que tem representação eleitoral.
Eu acho, Paulo, que a burguesia brasileira conseguiu o que queria, o seu sonho.
Eles americanizaram as eleições brasileiras. Se você pensar
bem, essa polarização que vai acontecer agora no dia 31 já
existe há 16 anos no Brasil. Em 2006, o PCB, um mês depois das
eleições, alertou a esquerda: olha, em 2010 vai acontecer a
mesma coisa. E não deu outra. Estamos diante de um segundo turno
anunciado.
Paulo E é de acordo, inclusive, com o interesse de setores que
apostam que os tucanos possam retornar ao governo depois de um 1º turno,
onde, inclusive, alguns órgãos que apoiavam o José Serra
haviam admitido a própria derrota do mesmo. E aí, eu quero saber,
justamente, essa posição do PCB, onde há muita gente
aqui... Eu ouço aqui no programa, contestando. Eu acho que a
posição que o PCB defende, talvez seja igual à da maioria
do PSOL, que se diferencia da posição do PSTU. Agora, eu queria
que você colocasse aqui para os nossos ouvintes a posição
do Partido Comunista Brasileiro.
Ivan É uma boa oportunidade nesse espaço
democrático e para esse público progressista. Nós somos e
continuaremos a ser oposição ao governo petista. Os oito anos de
governo Lula não têm nada de socialista. A política
econômica é a mesma: é um governo que serve ao capital. Ele
ganha de FHC, inclusive, em índices macroeconômicos. Talvez ele
tenha alavancado mais o capitalismo que ninguém no Brasil.
Mais ainda existem algumas diferenças entre PT e PSDB. Na nossa leitura,
elas estão se diluindo, estão cada vez menores. Mas ainda existem
algumas diferenças que nos fazem indicar Dilma no segundo turno, sem
qualquer entusiasmo. Não é um apoio acrítico, como a
esquerda reformista está dando, sem qualquer reparo, sem qualquer
crítica. O que é um absurdo! Convalidam todos os oito anos de
governo Lula e dão um cheque em branco para a Dilma continuar ou piorar
esse projeto social-liberal.
Essas diferenças que ainda vemos são as seguintes, Paulo. Uma
delas é a questão da política externa. Não é
que a política externa do Lula seja anti-imperialista, socialista.
Não, nada disso. Ela é apenas menos ruim que a política
externa que faria o Serra. As restrições que este tem à
política externa do Lula são à direita. As nossas
são à esquerda. Nós achamos que essa política
externa é a mesma velha política da burguesia brasileira para
transformar o Brasil numa grande potência capitalista. Só que os
dois lados operam esta política de uma maneira diferente. A do Serra, a
do PSDB, é pior, porque expressa setores burgueses mais integrados ao
imperialismo norte-americano. No governo Lula, a política externa teve
mais independência, para favorecer outros setores burgueses que vem se
expandindo em outros países. De certa forma. Lula ajudou a enterrar a
ALCA. Mas, por outro lado, ele boicota a ALBA.
Na questão da privatização, também há
diferenças. Serra privatizaria mais que Dilma, como FHC privatizou mais
que Lula. Mas tem que ser dito que o governo Lula também é
privatizante. Implantou as PPPs, a ANP continuou funcionando; dos dez
leilões do petróleo, seis foram feitos no governo Lula. Esse
marco regulatório do petróleo que está sendo saudado
aí nas ruas pelo lulismo, ele é apenas um pequeno avanço
com relação ao anterior, pois só garante à
Petrobrás 30% do pré-sal.
Agora, há uma diferença importante, que temos que levar em conta.
Diz respeito à luta de massas: a criminalização dos
movimentos populares e da pobreza, a questão democrática. Nesse
tema, não restam dúvidas. Num governo Serra, a
criminalização vai ser intensa. Tanto é assim que ele vai
para a televisão e diz que quer um campo sem boné do MST. O PCB
hipoteca a sua mais irrestrita solidariedade ao MST. Este é um ponto que
nos sensibiliza muito. Ambos os projetos são do campo do capital, mas a
candidatura Serra é da direita política. Agora, deixando claro: o
nosso voto é contra o Serra. É um voto crítico na Dilma.
Paulo É. Fica perfeitamente entendido. Inclusive, vocês tem
uma palavra de ordem que eu achei muito interessante que é
derrotar Serra nas urnas e depois derrotar Dilma nas ruas. É
sobre isso que eu queria explorar. Com esta situação da esquerda,
da esquerda que não se rendeu, me parece que esse isolamento dessa
esquerda não se dá apenas no plano eleitoral. Ele se dá no
plano dos movimentos sociais. Você pode ponderar que o governo Lula tem
uma política de cooptação espetacular. O problema é
o seguinte: esta é a vida que nós estamos tendo. O que fazer?
Ivan Há um sentimento, nessa esquerda que não se rendeu,
inclusive no PCB, de que o próximo governo, seja qual for, vai ser pior
que o governo Lula. Na nossa avaliação, também levamos em
conta isso. Um governo Serra pode ser pior ainda, mas o governo Dilma pode ser
pior que o governo Lula, do ponto de vista da esquerda. A crise do capitalismo
está se agravando, está se espalhando pela Europa. Por mais que
no Brasil se diga que aqui a crise não vai chegar, você sabe
melhor do que eu que há um risco sério. Num governo Dilma, o PMDB
vai ter um peso maior que no governo Lula. O vice-presidente do Lula é o
José de Alencar, que fica só reclamando de juros. Enquanto o vice
da Dilma é da máquina do PMDB, que já tem seis
ministérios no governo Lula. Imagine quantos terá num governo
Dilma.
Mas queremos dizer o seguinte: nós, do PCB, estamos muito mais
próximos dos companheiros que estão com o voto nulo do que os que
estão com o voto acrítico em Dilma. Nós respeitamos, como
legítima, a posição dos companheiros que estão
propondo o voto nulo, mas achamos que neste caso estão incorretos. A
maioria dos documentos propondo o voto nulo tem uma contradição.
Começam dizendo assim: não queremos que os tucanos voltem, o FHC
foi um terror e tal. Reclamam do governo Lula, com toda a razão, e
concluem com o voto nulo. Se não queremos que voltem os tucanos, usando
uma expressão italiana, vamos tampar o nariz e votar na
Dilma.
Nós achamos que quanto pior, pior; não quanto pior, melhor.
É disso que se trata.
Os companheiros da esquerda que estão com o voto crítico ou com o
voto nulo estarão muito mais próximos de nós, nas lutas,
nas ruas, do que os que estão com o voto acrítico em Dilma.
Porque estes, se Dilma vencer, vão continuar conciliando, babando o ovo
do governo, que é um governo social-liberal.
Paulo Bem, é isso, Ivan. Acho que ficou absolutamente bem
entendida a posição do Partido Comunista Brasileiro e eu te
saúdo por este esforço que você fez aí, à
frente do PCB, para manter uma campanha presidencial no 1º turno, que
nós sabemos que foi bastante difícil. Espero que a gente possa
colher frutos num futuro próximo. Confesso que me preocupa muito a
situação brasileira.
Ivan Mas veja só, Paulo Passarinho. Se estivéssemos na
França, na Espanha, há um ano atrás, também
não estaríamos desanimados? E olha o povo nas ruas... Porque a
crise do capitalismo vai se agravar e a luta de classes vai voltar com
força, o sindicalismo também. Eu não tenho a menor
dúvida. Eu só queria, se você me permite, dizer como o PCB
opera este apoio crítico à Dilma. É absolutamente
unilateral. Não conversamos com ninguém. E não
participamos da campanha, dessa campanha acrítica, que vai para as ruas,
em passeatas, louvando o governo Lula e dando um cheque em branco ao eventual
governo Dilma. Não! Nós deixamos claro que estamos votando no
menos ruim. E que vamos continuar na oposição, lutando por uma
frente anticapitalista e anti-imperialista permanente.
Paulo Obrigado, Ivan. Um abraço.
Ivan Obrigado, Paulo.
22/Outubro/2010
O original encontra-se em
www.pcb.org.br
. Transcrição: Maria Fernanda M. Scelza
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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