A autodestruição da esquerda contaminada pelo lulismo
por Hamilton Octavio de Souza
[*]
Influenciados pelas artimanhas do lulismo, vários segmentos da esquerda
perderam, nos últimos anos, a própria capacidade de leitura
crítica da realidade, abriram mão da independência
política e embarcaram em processo suicida cada vez mais distanciado das
classes trabalhadoras, do povo, da sociedade e do potencial de militância
de esquerda latente na juventude brasileira. O mergulho equivocado no discurso
fantasioso da direção petista fragilizou projetos autônomos
e diferenciados de afirmação da esquerda partidária e
social e conduziu boa parte desse campo político-ideológico a uma
situação de subordinação cega a agrupamento que
beira o messianismo. Como é possível que parcela da esquerda
tenha perdido o fio condutor da racionalidade e da história?
Sem desprezar o mérito de análises mais amplas e detalhadas da
conjuntura econômica mundial, da crise do modelo neoliberal e das
inúmeras mutações do capitalismo no jogo internacional,
que está a exigir, permanentemente, apuradas e eficientes
estratégias na luta de classes, interessa concentrar a presente
avaliação nos marcos da luta política no interior do
Estado-Nação, aos acontecimentos locais que estão mudando
a face do Brasil no decorrer desse início de século 21, entre os
quais importa destacar:
1 - A eleição de Lula em 2002 com empresário como vice e a
Carta ao Povo Brasileiro
Após ser derrotado em três disputas eleitorais para a
presidência da República (1989, 94 e 98), Lula enfrentou a
campanha de 2002 com várias mudanças significativas, desde a
aliança com partidos tradicionais da direita, a inclusão de
grande empresário mineiro (José Alencar) na chapa, o discurso do
"Lulinha Paz e Amor" para agradar as classes médias, o apoio
de oligarquias do Nordeste e de parcela da elite industrial paulista e, claro,
a surpreendente Carta ao Povo Brasileiro, elaborada com aval da Odebrecht,
família Marinho e banqueiros, selando o compromisso do lulismo com o
modelo neoliberal e o jogo do mercado.
Era tudo o que os bancos e setores rentistas queriam. Evidentemente, o Lula de
2002 não tinha mais nada a ver com o Lula de 1989, o lulismo já
tinha o controle quase absoluto do partido e várias correntes e
militantes de esquerda já haviam sido empurrados para fora do PT.
É o caso dos petistas que constituíram o PSTU, o PCO e outras
organizações.
Opção: O papel da esquerda era ganhar a eleição a
qualquer
preço ou continuar defendendo suas propostas até conquistar a
população e acumular forças para realizar mudanças
estruturais no país?
2 - O escandaloso esquema do "mensalão" com compra de votos no
Congresso Nacional
O primeiro governo Lula, considerado "em disputa" por vários
analistas no campo da esquerda, rapidamente trilhou o caminho do oportunismo e
do
fisiologismo
: decidiu fazer reforma da previdência contra os
interesses dos trabalhadores, o que provocou a expulsão de parlamentares
fiéis ao programa partidário, os quais caminharam para a
construção do PSOL; abandonou a proposta original do programa
Fome Zero, que previa a adoção de reformas estruturais, para
lançar o programa Bolsa Família, tipicamente assistencialista e
que até hoje não livrou importante parcela da
população da reiterada exclusão econômica e social;
descartou o projeto de reforma agrária coordenado por Plínio de
Arruda Sampaio, que previa o assentamento de 1 milhão de famílias
e mudanças profundas na estrutura fundiária do país, para
aderir ao projeto do agronegócio, que gera violência no campo,
concentra a terra e é profundamente danoso ao meio ambiente. Vale
lembrar que o número de assentamentos no governo Lula ficou abaixo do
que foi realizado no governo anterior de Fernando Henrique Cardoso e que o MST
manteve a combatividade durante a maior parte do governo Lula e foi tratado
friamente como movimento de oposição.
Além disso, o lulismo enfiou-se na lama com desvios de recursos
públicos e captação de propinas para comprar parlamentares
no Congresso Nacional, notadamente do PTB de Roberto Jefferson, do PP de Paulo
Maluf e do PR de Waldemar Costa Neto, entre outros. O escândalo do
"mensalão" abalou o governo Lula, que jogou toda a encrenca
nas costas de José Dirceu, José Genoíno, Delúbio
Soares e Sílvio Pereira. Embora seja difícil de acreditar que o
"dono" do partido e presidente da República não tivesse
conhecimento do esquema, o fato é que setores da burguesia, da grande
imprensa, da indústria e do sistema financeiro decidiram preservar Lula
como a solução "menos pior" naquele momento, o que o
deixou o lulismo mais enredado com os grupos econômicos e
políticos tradicionais. Ganhou a eleição de 2006 com arco
mais amplo de alianças à direita.
Opção: O papel da esquerda era insistir no projeto de
conciliação proposto pelo lulismo ou construir
oposição séria e firme ao neoliberalismo, às velhas
oligarquias e ao conservadorismo de direita?
3 - O sucesso popular das medidas sociais efêmeras do governo petista
O governo Lula aproveitou a maré econômica favorável com
crescimento puxado pela China, expansão do mercado internacional de
commodities
e razoável equilíbrio fiscal para adotar medidas de
grande significado popular, como o reajuste do salário mínimo
acima da inflação e a massificação do programa
Bolsa Família, que foram responsáveis pelo aumento do poder
aquisitivo na base da pirâmide social e grande expansão do
consumo, também estimulado por crédito farto oferecido por
agentes financeiros públicos e privados a juros extorsivos.
Os investimentos em obras de infraestrutura, repasses de recursos
públicos para os sistemas de saúde e de educação
privados (ProUni e FIES nas universidades particulares), isenções
fiscais e desonerações de vários setores industriais
foram medidas que contribuíram transitoriamente para diminuir a
miséria, a desnutrição e também criar expectativa
favorável ao início de nova era de bem-estar no país. Lula
surfou na onda do "ganha-ganha" (ganham os pobres e ganham os ricos),
quando boa parte da sociedade embarcou na ilusão de um mundo sem perdas,
com superação dos conflitos sociais, a domesticação
dos sindicatos e o isolamento de movimentos populares mais combativos.
Lula terminou o segundo mandato com índice de aprovação de
83%, elegeu seu "poste" Dilma Rousseff em 2010, impôs o vice
Michel Temer (MDB) na chapa presidencial e deixou o governo fortalecido por
amplo leque de partidos tradicionais, fisiológicos e de direita, desde o
PP de Maluf, o PRB da Igreja Universal, o MDB de José Sarney, Eduardo
Cunha, Romero Jucá, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Henrique Alves,
Geddel Vieira Lima, Sérgio Cabral, e mais uma dúzia de legendas
de aluguel. Vale lembrar que o esquema de propinas via diretorias da Petrobras
já estava funcionando a todo vapor, abastecendo políticos e os
caixas de pelo menos três partidos: PP, MDB e PT.
Opção: O papel da esquerda era silenciar e ficar conivente com a
euforia
temporária de inclusão sem consistência ou adotar postura
crítica contra a ilusória redução das desigualdades?
4 - A gestão Dilma Rousseff e a explosão de
insatisfação geral de junho de 2013.
O sonho de um Brasil próspero, de bem-estar generalizado com renda alta,
empregabilidade e paz social, acabou nos primeiros anos do governo Dilma.
Primeiro porque a economia mundial patinou na estagnação ainda
decorrente da crise de 2008, a China reduziu o ritmo de crescimento e as
commodities nacionais perderam espaço no mercado global. Os capitais
trataram de buscar portos mais seguros. Segundo porque, de um lado a
política de "desonerações" desencadeou enorme
queda da arrecadação federal, nos estados e municípios,
com aumento da desordem fiscal, inadimplência e quebradeira; e, de outro
lado, porque o caixa do BNDES, que durante anos foi usado para alavancar alguns
poucos e seletos grupos privados (entre os quais as chamadas "empresas
campeãs" da JBS e de Eike Batista), perdeu a capacidade de fomentar
a economia via Estado, depois de ter queimado investimentos em projetos
questionáveis para o desenvolvimento nacional, como o financiamento da
compra de frigoríficos nos Estados Unidos (JBS), obras de estradas,
portos e aeroportos em países da América Latina e da
África (Odebrecht, OAS, Camargo Correa etc.), os quais não
renderam empregos no Brasil e ainda estão com dívidas junto ao
BNDES e ao tesouro nacional.
Foi quando começou o tiroteio generalizado para ver quem iria pagar pela
crise. Só mesmo o séquito de Brasília não percebeu
as consequências negativas de tais políticas governamentais para a
queda do padrão de vida das pessoas e o aumento acelerado do
descontentamento. No final de 2012 e início de 2013 já se
percebia, nos grandes centros urbanos do país, os primeiros ensaios das
grandes manifestações que ocorreram em junho de 2013
quando, ficou claro e patente, que a política de
conciliação promovida pelo lulismo estava com os dias contados,
que a explosão de insatisfação revogava o monopólio
do PT sobre as manifestações de rua e, mais do que isso, que o
modelo adotado pelo lulismo gerou enorme frustração não
apenas nas classes médias, mas também na juventude, no operariado
e em segmentos populares.
Vale lembrar que nesse período, de 2011 a 2013, o ex-presidente estava
empenhado em viagens pela América Latina e países da
África, nos jatinhos da Odebrecht e Camargo Corrêa (os registros
da Infraero, depoimentos de pilotos das aeronaves e de diretores das
empreiteiras podem atestar todos os voos e destinos), fazendo lobby para obras
financiadas pelo BNDES, enquanto recebia vultosas doações para o
Instituto Lula e pagamentos para a empresa de palestras
LILS
, além de curtir merecido descanso no sítio de Atibaia.
Sobre a efervescência política e o quadro de crise, o governo
Dilma tratou de enrolar o país com promessas evasivas e medidas jamais
colocadas em prática, entre as quais a realização de
suposto plebiscito para a reforma política. O PT, através de seus
movimentos sociais, conseguiu conter parte da rebeldia. A esquerda não
soube dar direção ao movimento das ruas, a grande imprensa
criminalizou/fantasiou os Black Blocs e o governo Dilma retomou a frágil
governabilidade com inúmeras concessões ao empresariado
(mais isenções fiscais), aos banqueiros (elevação
dos juros), ao agronegócio (anistia e refinanciamento de dívidas)
e aos políticos (benesses nas emendas de deputados e senadores)
até as eleições de 2014.
O lulismo tratou de caracterizar as
manifestações de 2013
como "coisa da direita", estimulada pela grande mídia e pelo
"imperialismo". É o que Lula afirma até hoje sobre as
jornadas de 2013.
Opção: O papel da esquerda era desconsiderar o grau de
insatisfação da população, inclusive das classes
médias, ou aprofundar a crítica ao lulismo e ao governo Dilma com
ampliação e organização dos trabalhadores e dos
movimentos sociais?
5 - A fraude eleitoral de 2014 e a rendição ao ajuste neoliberal
A eleição de 2014 foi, provavelmente, a mais suja do
período pós-ditadura militar. Não só pela
quantidade de dinheiro colocada nas campanhas dos principais candidatos, mas
pelo baixo nível dos ataques pessoais nas redes sociais, a montagem de
agências de mentiras e intrigas e a ausência de debate sobre os
reais problemas do país. O que vigorou foi um jogo sórdido de
armações sem precedentes. Os eleitores foram enganados em todos
os sentidos, tanto no discurso da situação (Dilma negava qualquer
problema econômico e social) como no discurso da oposição
(Aécio negava qualquer medida restritiva contra projetos sociais). As
campanhas mais honestas de Marina Silva, então no PSB, e de Luciana
Genro, do PSOL, não chegaram ao segundo turno. Dilma foi eleita com
apoio de apenas 38% do eleitorado, a maioria ficou na oposição,
no voto em branco, no voto nulo e na abstenção.
A fraude foi consumada nas primeiras semanas após o segundo turno,
quando a presidente reeleita interferiu no câmbio, aprovou os cortes de
benefícios sociais e colocou no Ministério da Fazenda o
vice-diretor do Bradesco, Joaquim Levy, conhecido economista neoliberal e
defensor de medidas ortodoxas de austeridade. Ou seja, Dilma ganhou com
discurso contrário ao de Aécio, mas logo depois das
eleições assumiu o programa de Aécio, fortemente
bombardeado pela esquerda no processo eleitoral. Em pouco tempo, no final de
2014 e primeiros meses de 2015, a base de sustentação de Dilma
(38% do eleitorado) ficou reduzida a pó.
A situação dela se complicou ainda mais porque tentou assumir o
controle da Câmara dos Deputados com candidato do PT contra a
articulação do MDB, que tinha maior número de
parlamentares e amplo apoio no leque partidário mais conservador, o
qual, diga-se de passagem, foi eleito em aliança com o PT e com recursos
financeiros captados ilicitamente nos governos do PT.
Vale lembrar que no processo eleitoral o PT deu muita força à
Rede Record, da Igreja Universal, e a vários grupos evangélicos
extremamente conservadores, como contraponto às correntes influenciadas
pela Teologia da Libertação mais críticas e identificadas
com os movimentos sociais e partidos de esquerda. Ou seja, o lulismo construiu
a sua própria forca na traição aos eleitores, com a
mudança radical de programa econômico e no racha com a
articulação do aliado Eduardo Cunha, do MDB. Mais uma vez, vale
lembrar, foi Lula quem impôs o nome de Michel Temer para compor a chapa
com Dilma.
Todos eles, na comemoração eleitoral de 2014, estavam felizes com
a continuidade de um esquema bem sucedido desde os idos do
"mensalão". Vale lembrar, também, que o bispo Edir
Macedo foi o único "capo" da grande mídia a comparecer
ao beija-mão de Dilma no dia 1º de janeiro de 2015. Parece
fácil e cômodo dizer que as manifestações pelo
impeachment eram coisa de "coxinhas" da classe média, da
direita, fomentada pela TV Globo, pela FIESP e pelo imperialismo dos Estados
Unidos.
Pode ter tudo isso mesmo, mas bem antes disso algo já estava errado
não no campo conservador e de direita, mas especialmente na conduta
política e ética do lulismo e no fracasso das políticas
sociais precárias, no fim do projeto de conciliação e na
incompetência política e econômica dos governos Dilma.
Não é por acaso que em tais governos tenham crescido a direita e
o conservadorismo, e que nesses governos tiveram destaques figuras como
José Sarney, Edison Lobão, Renan Calheiros, Romero Jucá,
Jader Barbalho, Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima etc.
Opção: O papel da esquerda era incorporar o discurso vitimista do
lulismo
contra o racha da aliança PT-PMDB ou denunciar o caráter
fisiológico e conservador da aliança que governou o Brasil
durante 13 anos?
6 - O avanço da Lava Jato e o novo protagonismo da Polícia
Federal, do Ministério Público, do Judiciário e do Supremo
Tribunal Federal
Em meio ao desgaste e esgotamento do projeto de poder do lulismo, ganha
protagonismo, em meados de 2014, as investigações da
força-tarefa da Lava Jato, que, a partir de esquemas de
sonegação e evasão de divisas, operados por doleiros,
desvenda o esquema de propinas e superfaturamento de obras e serviços na
Petrobras, onde três diretorias atuavam na captação de
recursos ilícitos para políticos do PP, MDB e PT.
Dessa vez, ao contrário do que tinha ocorrido em operações
anteriores em casos escabrosos de corrupção (Banestado
2003; Satiagraha 2008; Castelo de Areia 2009), a nova
força-tarefa (integrada pela Polícia Federal, Ministério
Público Federal, Judiciário Federal, Receita Federal) teve o
cuidado de dar cada passo nos limites dos novos recursos legais
disponíveis e com ampla exposição na mídia, de
maneira a evitar que tais ações fossem invalidadas ou arquivadas
nas instâncias superiores.
O grande avanço em relação às
operações anteriores é que uma lei de 2013, sancionada
pela presidente Dilma, possibilitou a utilização de
colaborações (delações) premiadas como forma de
negociar benefícios aos criminosos confessos que revelassem os crimes de
outros participantes nos esquemas de corrupção. Com tais
instrumentos legais, a Operação Lava Jato conseguiu condenar mais
de 100 envolvidos nos desvios de recursos públicos da Petrobras, entre
os quais grandes empresários, lobistas, doleiros, altos
funcionários e políticos de vários partidos.
O lulismo tratou de espalhar a versão de perseguição
política ao governo Dilma e ao PT. Mais adiante ampliou a versão
de perseguição ao Lula, tornado candidato do PT, e aos
políticos em geral. Mas, na verdade, o maior número de condenados
pela Lava Jato não é de políticos e, entre os
políticos, o maior número de envolvidos nos processos não
é do PT. O PT e Lula jamais deram respostas minimamente convincentes aos
crimes denunciados. Trataram apenas de se colocarem como vítimas, ora da
Polícia Federal, ora do Ministério Público, ora do juiz
Sérgio Moro, ora do TRF-4, ora do STF, ora do "Partido da
Justiça", como se o desvio de recursos da Petrobras não
tivesse tirado milhares de milhões de reais do povo brasileiro,
não tivesse
sustentado campanhas milionárias de coligações
partidárias e não tivesse abastecido os bolsos de inúmeras
pessoas, inclusive de políticos do PT. Que a direita pratique
corrupção é a praxe no Brasil, mas que o PT tenha se
envolvido foi algo muito mais danoso ao processo político, na medida em
que frustrou a esperança de milhões de trabalhadores e destruiu a
credibilidade pública de vários segmentos da esquerda.
A Lava Jato, queiramos ou não, mudou o olhar de boa parte da sociedade
brasileira sobre o modo de fazer política e as relações do
capital privado com o Estado. A esquerda não pode desconhecer algo
tão concreto apontado por pesquisa recente do Datafolha, de abril de
2018, na qual 84% dos entrevistados aprovam a continuidade da Lava Jato no
combate à corrupção. O que fazer?
Opção: O papel da esquerda é passar por vítima da
Lava Jato,
ignorar os desvios do lulismo, ou mobilizar e conscientizar os trabalhadores
contra a corrupção dos empresários, banqueiros,
latifundiários e das velhas oligarquias da política?
7 A derrocada da conciliação lulista e da precária
estabilidade econômica e política
Em 2015, com as grandes manifestações contra o governo Dilma, com
foco no impeachment da presidente reeleita, o PT conseguiu arrastar alguns
setores da esquerda (partidos, movimentos sociais, entidades de classe etc.) na
defesa do seu projeto contra o ataque de instituições da
República e do conservadorismo de direita. No final do ano o lulismo
sentiu o estrago provocado por seus próprios erros, em especial sobre a
aliança com o MDB de Eduardo Cunha e de Michel Temer. O primeiro porque
comandou o processo de impeachment na Câmara dos Deputados e o segundo
porque traiu a coligação, a presidente Dilma, o PT e
principalmente o lulismo, que havia colocado Michel Temer na linha da
sucessão presidencial.
Ao sentir a barra pesada, o desastre acelerado em 2016 e 2017, o lulismo criou
nova história para a sua própria trajetória:
1º) diante das investigações da Lava Jato sobre o
ex-presidente, com vários processos em Curitiba, Brasília e
São Paulo, adotou a figura do pré-candidato presidencial para
fazer caravanas pelo Brasil e tentar blindá-lo de
condenações por corrupção;
2º) diante do impeachment, apelou para partidos e movimentos de esquerda,
que há muito tempo não tinham relações com o
lulismo, em busca de unidade emergencial sob a alegação de que
todos estavam ameaçados pelos "golpistas" e
"fascistas";
3º) diante da iminência de Lula se tornar inelegível, por
causa da Lei da Ficha Limpa, e da própria prisão do
ex-presidente, o lulismo tratou de sensibilizar a sua militância e outros
setores da sociedade com foco nas eleições (Eleição
sem Lula é fraude), na democracia (Direito de Lula ser candidato) e na
liberdade (Lula livre), de maneira que os erros do lulismo, o fracassado
governo Dilma, os escândalos da Petrobras, os processos e
condenações por corrupção, caíssem
rapidamente no esquecimento da população.
Com um batalhão de advogados e fortíssimo esquema de
comunicação nas redes sociais, o lulismo tratou de atacar as
ações e os personagens da Lava Jato, a grande imprensa, os
integrantes das instituições do Estado (desde juízes e
procuradores até ministros do STF) e ao mesmo tempo realizar atos e
manifestações pelo país afora, principalmente com massas
mobilizadas pelo MST e MTST. Tais ações visam principalmente
desqualificar todas as forças políticas que se opõem ao
lulismo, ao PT e às manobras de impunidade pelos crimes de
corrupção; tratam de rotular e estigmatizar todo mundo como sendo
"golpista" e "fascista". Não é só a
direita que critica o lulismo e o PT, mas também os liberais, os
socialdemocratas, os anarquistas, os autonomistas, pessoas sem
definição político-ideológica e muita gente da
esquerda socialista e comunista.
Ao mesmo tempo em que consegue sensibilizar com discursos cada vez mais
emocionais e messiânicos, o lulismo também estimula forte
oposição ao PT e a seus novos e velhos aliados, contribui para a
radicalização das posições e embaralha um processo
eleitoral que poderia (poderia?) ter conteúdo renovador e promissor para
a esquerda se não fosse a figura emblemática de Lula, que
está preso, condenado, inelegível, mas ainda assim interfere no
processo eleitoral não para liderar um projeto de Nação,
mas para tentar salvar a própria pele; não para superar todo o
estrago feito por seu aliado Michel Temer, mas para restaurar a velha ordem de
alianças com as oligarquias políticas que participaram dos
governos Lula e Dilma.
O que o lulismo propõe que não seja restabelecer a
"harmoniosa conciliação" de antes da Lava Jato e da
traição de Cunha e Temer?
Opção: O papel da esquerda é reforçar o lulismo como
salvação do Brasil ou retomar o debate de luta anticapitalista e
de sociedade justa, igualitária, livre e democrática?
8 A fase mística do lulismo aprisiona a esquerda no processo
eleitoral de 2018
Depois do fracassado projeto de conciliação de classes, da
explosão de insatisfação da população, do
impeachment de Dilma, do envolvimento da cúpula do lulismo junto
com seus aliados da direita nas bandalheiras da Petrobras, BNDES, CEF,
fundos de pensão etc., era de se esperar que o PT fizesse um processo de
autocrítica, avaliasse seus erros e desvios e promovesse uma
renovação geral de seu programa e de seus quadros dirigentes.
Nada disso foi feito. Ao contrário, subordinado ao lulismo, o PT insiste
que foi vítima de golpe, é vítima de
perseguição, é vítima do fascismo e se
contrapõe a tudo isso com o martírio em praça
pública de sua maior liderança, que não seria mais um ser
humano, mas um mito no patamar de Tiradentes, Mandela, Gandhi, Luther King e
Jesus Cristo.
A derradeira exortação de messianismo ativa o emocional das
massas, clama pelo fanatismo, abandona em definitivo qualquer expectativa de
projeto político construído coletivamente com a
elevação das consciências, análise crítica e
dialética, baseada na correlação de forças e na
conjuntura; mas, ao contrário, o discurso do lulismo se atém na
profissão de fé contra todas as evidências da realidade.
Como tal fanfarronice mesclada na mística religiosa e dosada pelo
egocentrismo pode contribuir para a caminhada da esquerda? O que pretende? Que
a salvação virá pelo sacrifício humano transposto
à condição divina? O que sobra de reflexão e de
proposta política a esses setores da esquerda que ficaram atolados nos
escombros do lulismo? Como sair da arapuca para retomar ao Projeto de
Nação? Com quais princípios e valores a esquerda se
apresenta para a sociedade brasileira?
A essa altura dos acontecimentos, com todas as informações
disponíveis, parece sem sentido que algum cidadão ou
cidadã ainda consiga aceitar que o ex-presidente Lula e seu grupo dentro
do PT não tenham responsabilidades sobre os inúmeros erros
políticos e gravíssimos desvios éticos praticados pelo
lulismo. Querer inverter os fatos e esconder a verdade é manobra que
atenta contra a inteligência dos brasileiros.
Ninguém com alguma dose de sensatez, conhecimento e consciência
aceita mais o cinismo desenfreado e egocêntrico do lulismo, que jogou o
PT numa arapuca desastrosa (vide eleições de 2016), tenta
imobilizar o jogo político-eleitoral de 2018 e ainda quer arrastar toda
a esquerda movimentos sociais e partidos para a marcha delirante
da autodestruição. O que sobrará além da ladainha
dos beatos?
Opção: o papel da esquerda é fazer coro ao lulismo durante
o processo
eleitoral ou disputar as eleições com propostas próprias e
independentes, expondo visão crítica sobre o lulismo e a direita?
9 O que não dá para esquecer sobre a trajetória do
lulismo
O lulismo entregou para a direita, seguidamente, várias bandeiras que
já foram empunhadas pela esquerda, entre as quais a bandeira da
ética na política, a bandeira do combate à
corrupção e a bandeira da luta contra a impunidade em
particular a impunidade aos ricos e poderosos praticantes dos crimes do
colarinho branco, como a sonegação fiscal, evasão de
divisas, desvio do dinheiro público e as várias formas da
corrupção. E como o lulismo deixou de atuar nessas
questões, transferiu para o conjunto da esquerda a visão
equivocada de que lutar por ética, contra a corrupção e a
impunidade é coisa da direita, de "coxinhas" e da elite. Por
isso mesmo tanta gente comprometida politicamente com a esquerda não se
manifesta contra as bandalheiras comprovadamente praticadas pelo lulismo. Temem
ser chamados de "golpistas".
A verdade é que o lulismo em nada contribui para o avanço da
esquerda. Ao contrário, só atrapalha. A esquerda patina há
muitos anos por obra da contaminação do lulismo, que empata a
luta, impede o livre debate e anula o surgimento de novos protagonistas e novas
lideranças. Não se trata de uma questão de fé, mas
de racionalidade e consciência das pessoas. Em entrevista recente para a
Folha de S. Paulo,
em 02/05/2018, o pensador de esquerda Noam Chomsky voltou a
lembrar o que nos incomoda há vários anos. Disse ele: "a
esquerda deveria fazer uma autocrítica, pensar nas oportunidades que
foram desperdiçadas porque sucumbiu à
corrupção".
Enquanto isso não acontece, vale recordar o que não pode ser
esquecido sobre o lulismo:
1) Desde a campanha eleitoral de 2002, e nas disputas
municipais e estaduais, o lulismo sempre optou em alianças com a direita
e pelo isolamento da esquerda.
2) O lulismo combateu e expulsou as correntes de esquerda do
PT, além de ter atuado para enfraquecer os movimentos sociais e o
sindicalismo combativo em seus governos.
3) Os governos Lula e Dilma abandonaram os programas de
reforma agrária e fortaleceram muito mais o agronegócio do que a
agricultura familiar.
4) Os governos Lula e Dilma não demarcaram as reservas
dos povos indígenas e deixaram de regularizar milhares de áreas
dos
quilombolas
.
5) Os governos Lula e Dilma aprovaram inúmeras obras
altamente danosas ao meio ambiente, inclusive as centrais hidroeléctricas de
Belo Monte e no rio Madeira.
6) Os governos Lula e Dilma mantiveram as taxas de juros
sempre acima de 7,5% e cortaram verbas sociais para pagamento da dívida
pública aos banqueiros e rentistas.
7) Os governos Lula e Dilma promoveram ampla
"desoneração" (isenção de impostos) dos
grandes grupos empresariais com enorme desfalque aos cofres públicos.
8) Os governos Lula e Dilma fizeram reforma da
previdência danosa aos trabalhadores e cortaram benefícios sociais
(auxílio saúde, salário desemprego etc.) dos mais pobres.
9) Os governos Lula e Dilma não reajustaram no mesmo
nível da inflação as faixas de pagamento do imposto de
renda
[NR]
, o que retirou recursos dos trabalhadores e dos assalariados em geral.
10) Os governos Lula e Dilma usaram milhares de
milhões de
recursos públicos do BNDES para financiar obras em outros países,
que favoreceram as grandes empreiteiras e deixaram de gerar empregos no Brasil.
Tudo isso é verdade.
15/Maio/2018
[NR]
Imposto sobre o rendimento. No Brasil chamam de "renda" a quaisquer
rendimentos, não apenas os dos rentistas.
[*]
Jornalista e professor universitário.
O original encontra-se em
www.correiocidadania.com.br/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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