Rumo a uma nova sociedade
por Heloisa Fernandes Silveira
[*]
É com muita honra e emoção que comparecemos aqui, Paulo e
eu, representando a família de Florestan Fernandes; representando minha
mãe, Miriam, meus irmãos, Noêmia, Beatriz, Sílvia,
Miriam Lúcia e Florestan Júnior, seus netos, bisnetos, uma grande
família!
Começo pedindo desculpas por ler essa minha fala que,
propositadamente, não quis formal, acadêmica, mas afetiva e,
mesmo, íntima. Recorro à leitura porque ela me preserva
não só dos lapsos da memória como, mais ainda, da minha
própria emoção.
Inicio retomando a questão da minha honra e emoção. De
fato, neste ano de 2005 vai completar dez anos da morte do meu pai. Nesse
período foram muitas, de fato inúmeras, as homenagens que ele
recebeu, mas não creio que tenha havido alguma que lhe faça maior
justiça e que pudesse lhe despertar maior orgulho.
Falo de justiça e de orgulho porque acredito que, hoje, com a
inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes, meu pai
retorna às suas três casas: não só aquelas que
habitou e ajudou a construir como àquela outra, àquela casa
primeira, à casa dos seus ancestrais.
[1]
Retorna à primeira casa, à casa do saber; retorna à
escola, ao ensino, à universidade. Não àquela casa onde o
saber é privilégio que, como dizia Mariátegui,
condena as classes pobres à inferioridade cultural porque faz da
instrução o monopólio da riqueza. Retorna,
realizado, àquela casa que ele sonhou e pela qual tanto lutou: onde o
saber visa à libertação daqueles que, com Fanon, ele
costumava chamar os deserdados da terra. Adentra uma casa do saber onde
estão resgatados os melhores ideais pedagógicos do humanismo
democrático e socialista.
Retorna, também, à sua segunda casa, àquela onde fixou
sua morada e seus mais fervorosos projetos; retorna à casa do
socialismo. Ao socialismo da solidariedade internacional, que tornou
financeiramente possível a realização desta Escola, e,
mais ainda, ao socialismo do trabalho dessas brigadas anônimas de
sem-terra, desses herdeiros da tradição
revolucionária da luta pela democratização da posse da
terra e da política agrária
[2]
que, tijolo a tijolo,
garantiram a construção desta Escola.
Retorna, enfim, à sua terceira casa, à casa dos seus
ancestrais, à sua herança mais íntima e verdadeira:
à casa dos camponeses. Desses camponeses que dormiam em choças
construídas acima do curral onde ficam umas poucas vacas que garantem
seu sustento e calor. Desses camponeses portugueses que, no início do
século vinte, migraram da província do Minho, distrito de Braga,
neste extremo norte de Portugal, embarcando num daqueles navios de emigrantes
para desembarcar em Santos com destino a Bragança, onde esses meus
bisavós, minha avó Maria, ainda criança, mãe de meu
pai, e seus sete irmãos, foram trabalhar, como colonos, numa fazenda de
café. Desta história familiar restou uma dívida que meu
pai assumiu com esses trabalhadores da terra nos quais reconhecia sua gente.
Não por acaso, quando acabava de nascer minha filha, seu primeiro neto,
meu pai entrou no quarto e me fez um pedido que, na época, julguei
surpreendente: Heloísa, gostaria que você soubesse
que muito me alegraria se ela se chamasse Ana, nome da sua avó
camponesa, cuja bravura ele tanto amou e admirou. Mal sabia eu, quando aceitei,
que, quase quarenta anos depois, estaria aqui, hoje, para atestar essa
herança camponesa que foi a dele, como é a minha.
Enfim, como essa é uma fala afetiva, íntima e, até,
familiar, permito-me relatar os restos de um sonho que tive na noite desta
última sexta-feira. Um sonho que condensa quase tudo que quis dizer
aqui. Durmo eu ainda, já de manhãzinha, lá pelas cinco
horas, quando ouço o barulho de um caminhão que adentra a minha
rua e um vozerio que vai aumentando conforme se aproxima da minha casa.
Levanto, sonolenta, e procuro descobrir, pelas frestas da janela, o que
é que se passa lá fora, o porquê deste barulho! E eis que
vejo muitas pessoas, homens, mulheres, crianças, descendo da carroceria
do caminhão. À frente deles, decidido, alegre, sorridente, meu
pai: -Acorda, Heloísa, hoje é o dia do seu
aniversário! E é mesmo! Hoje é dia de festa,
é o dia do primeiro dia, meu, do meu pai, de todos nós, rumo,
como ele dizia, a uma nova sociedade, a uma nova
civilização, a um novo ser humano.
[3]
[*]
Discurso pronunciado na inauguração da Escola Nacional Florestan
Fernandes, do MST, em 23 de janeiro de 2005.
Notas
1- Citado em Fernandes, F.,
A contestação necessária,
organização e pesquisa de Vladimir Sacchetta, Editora
Ática, S.P., 1995, p. 75
2- Fernandes, F.,
A contestação necessária,
ob. cit.,
p. 38.
3- Fernandes, F.,
A contestação necessária,
ob. cit.,
p. 64.
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