Quando a democracia burguesa se despe das suas roupagens respeitáveis
A destruição do Brasil e sua decomposição moral
A consequência mais trágica do golpe [o impeachment da presidente
Roussef em 2016, NR] é a destruição do Brasil enquanto
nação e a decomposição moral das suas
instituições. Se o impeachment em si representou um ataque aos
fundamentos democráticos e republicanos da Constituição, o
trabalho de sapa do governo ilegítimo [de Temer, NR] consiste em
destruir de
forma implacável e impiedosa o sentido social que o país vinha
construindo desde a Constituição de 1988. As medidas do governo
falam por si e se sintetizam na PEC dos gastos [Proposta de Emenda
Constitucional destinada a congelar as despesas públicas durante 20
anos, NR], nas propostas de Reforma da Previdência e Trabalhista e na
lenta
destruição de programas sociais como o Prouni [bolsa de acesso ao
ensino superior, NR], Minha Casa Minha Vida [programa de habitação
popular, NR], o Bolsa Família [subsídio familiar, NR], o
financiamento
estudantil etc.
O governo federal, junto com governos de estados, particularmente do Rio de
Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, vêm destruindo a pesquisa
científica e a Cultura, cortando verbas, fechando
instituições e institutos de pesquisa, acabando com programas,
demitindo orquestras sinfônicas, minando as universidades
públicas. Há uma conjura deliberada anti-social, contra a
ciência, a pesquisa, cultura, a educação e a saúde
pública. Serão necessárias décadas de
reconstrução, com perdas incalculáveis em termos de
avanços, recursos e capacidades. O que está em curso é um
grande desastre social, com um massacre de direitos de tal magnitude poucas
vezes visto em nossa história.
Do ponto de vista econômico, em Brasília, o país
está à venda. Grupos de assalto cercam o governo pronto a
satisfazê-los, entregando-lhes petróleo e gás,
serviços e infraestrutura, previdência e direitos sociais,
perdoando dívidas do agronegócio, num devastador jogo de
pirataria econômica. O resultado é uma economia paralisada com
quase treze milhões de desempregados, com empresas fechando as portas e
com a capacidade ociosa nas alturas [a Ford acaba de impor férias
forçadas aos seus trabalhadores, NR]. O milagre da
recuperação
rápida se revelou uma grande mentira.
[1]
O mais grave é o trabalho deliberado de decomposição moral
das instituições. O governo perdeu qualquer pudor, qualquer senso
de limite, de razoabilidade, de respeito. É um governo de quadrilha que
promove criminosos a altos postos governamentais diariamente, comprovando que o
PMDB [partido do actual presidente Temer, NR], apoiado pelo PSDB [partido do
candidato vencido nas eleições presidenciais de 2014,
Aécio Neves, NR] e os partidos do centrão, promoveram o golpe para
buscar a proteção no foro privilegiado [o que equivale à
imunidade ministerial, uma vez que os ministros só podem ser julgados
pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e sabe-se no que se tornou o STF,
NR].
A perda de pudor se transformou em cinismo e em escárnio, sem
escrúpulos e sem decência. Esta é a consequência
lógica da grande farsa montada em torno do impeachment: ora, se a
sociedade se mobiliza [as manifestações
"anti-corrupção" orquestradas contra o governo Dilma
agora desapareceram misteriosamente] para entregar o governo nas mãos da
maior e mais bem organizada quadrilha de corruptos que o Brasil já teve,
esta quadrilha se sente à vontade em promover a sua
autoproteção, desprezando as exigências de moralidade
pública.
No Congresso, os corruptos se organizaram para tomar de assalto as principais
comissões da Câmara e do Senado, notadamente as comissões
de Constituição de Justiça. Ser delatado na Lava Jato
[2]
, ser denunciado por corrupção, se tornou condição
para a ascensão a postos de comando, em comissões que decidem.
Neste país tornou-se normal que o presidente da República, o
presidente da Câmara e o presidente do Senado tenham pesadas
denúncias sobre seus ombros. Isso tanto fez quanto tanto faz.
Extirpariam os fundamentos morais do Estado brasileiro.
As quadrilhas do governo e do Congresso se articularam para tornar juiz do STF
alguém que é acusado de advogar para o PCC [espécie de
cartel que controla o crime no estado de S. Paulo, NR], de receber propinas da
corrupção e de ter
plagiado livros de juristas espanhóis
. Se alguém assim se torna ministro da mais alta Corte de Justiça
do país, encarregada de zelar pela Constituição e pelo
sentido moral do Estado, que força terá um professor em sala para
solicitar que os alunos não plagiem trabalhos na internet? O que se
está assistindo é a destruição dos próprios
valores morais vinculantes da sociedade, pois parte desta sociedade,
anestesiada em sua hipocrisia, julga que tudo isto é normal e que faz
parte do jogo político.
Autoridades sem moral e desmoralizadas
Nada mais importa. Não importa se o futuro ministro [juiz do STF] se
refestelou na chalana da indecência
[3]
. E isto nem importa para vários dos atuais ministros do STF que, sem
pudor, sem virtudes, sem prudência e sem decência se manifestaram
favoráveis à entrada de Alexandre de Moraes
no egrégio colégio de capas pretas [togas] acovardados.
Qual é o sentido moral que resta neste país quando se nomeia um
ministro da Corte Suprema com a intenção manifesta de que sua
função será a de proteger corruptos? O que se pode esperar
da moralidade social quando os juízes são íntimos daqueles
que deveriam julgar, como é o caso de Gilmar Mendes [juiz do STF e
apoiante do PSDB, NR] com Temer e com tucanos [este pássaro é o
símbolo do PSDB, NR] de alta plumagem? O fato é que as nossas mais
altas autoridades perderam todas as medidas, todos os critérios, toda a
sensatez, toda prudência, toda a vergonha. Sem metros e sem limites
morais, sem sentido social, sem senso de Justiça, sem os valores da
dignidade e dos direitos humanos, o Brasil pós-golpe se decompõem
diariamente a olhos vistos, exalando putrefação pelos seus poros.
Estados, a exemplo do Rio de Janeiro e Espírito Santo
[4]
, estão em
situação de convulsão. O governador Pezão
[destituído do seu mandato pela Justiça, por
corrupção, mas que permanece no lugar enquanto durar o seu
recurso, ou seja provavelmente até ao fim do mandato em 2018] classifica
os manifestantes de "vândalos". Vândalos são os
peemedebistas do Rio, que saquearam os cofres do estado. Já o governador
Hartung [do estado do Espírito Santo, NR] afirma que a "sociedade se
tornou refém da polícia". Mas a verdade é que
polícia e sociedade são reféns de governadores
incompetentes que, em tempos de trágica normalidade, jogam a
polícia contra a sociedade e, em tempo de banhos de sangue por motim
armados, jogam a sociedade contra as polícias. Sociedade e
polícias são vítimas de um atroz jogo de violência,
manipulado pelos interesses políticos dos governantes. E, após de
sete dias de banho de sangue, Temer se manifesta colocando tanques nas ruas,
numa demonstração de força estúpida e impotente.
[5]
Selvageria nas prisões, violência e desordem nas ruas, confrontos
crescentes entre manifestantes e polícias, crescimento do desemprego e
da pobreza, destruição das instituições do Estado
é o legado crescente de um governo sedicioso que premia o crime com os
altos cargos públicos. Ao assim proceder, sem escrúpulos e sem
moral, o governo vai autorizando a barbárie social, a desmesura, a
desordem. É preciso reagir antes que o estrago se torne medonho. As
oposições e os movimentos sociais precisam sair das letargias de
suas próprias crises. Precisam se refazer nas lutas, nas ruas, nas
praças, pois são estes os melhores remédios para
restabelecer as virtudes cívicas. As batalhas pela cidadania, pelos
direitos, pela justiça e pela liberdade são as melhores formas de
fazer autocrítica. O ensimesmamento da derrota é o
benefício do inimigo.
O Brasil não pode continuar nas mãos daqueles que o estão
destruindo. Os jovens precisam de esperança, os trabalhadores querem
emprego e os idosos estão desamparados, temendo uma velhice
desassistida. É preciso reconduzir o Brasil no leito da democracia, no
sentido social, na busca de direitos, de justiça e de igualdade. O
Brasil precisa, com urgência, de um governo decente que seja capaz de
conduzir moral e politicamente a sociedade. Este governo que ai está,
pela imoralidade manifesta que representa, merece uma danação da
memória, um esquecimento eterno.
[1]
Em 2016, só no sector do comércio a recessão de Temer provocou o encerramento de 1087 estabelecimentos e eliminou 182 mil postos de trabalho
.
Um estudo do Banco Mundial mostra que o governo Temer lançará na pobreza extrema 3,6 milhões de pessoas
.
[2] Lava Jato: enorme operação judicial
anti-corrupção, cujos resultados mais flagrantes tem sido
paralisar a economia, atacar os políticos do PT e tentar impedir Lula de
concorrer às eleições presidenciais de 2018 mas a
Lava Jato extravasa seus objectivos iniciais e muitos políticos em altos
cargos são indiciados (Temer é citado 43 vezes).
[3] O ministro Alexandre de Moraes passou uma noite com uma dezena de senadores
parece não importar que o Senado tivesse de ouvi-lo dali a poucos
antes tendo em vista a sua nomeação para o STF num
love boat
bem conhecido, um motel flutuante. [nota da versão em francês].
[4] Ver
Espírito Santo: o modelo de uma tragédia brasileira
e
Nota do Comitê Regional do PCB-ES e UJC-ES sobre a paralisação da Polícia Militar do Espírito Santo
[5] O estado do Espírito Santo ficou 10 dias sem força policial,
deixando a sua população no caos, com uma vaga de ajustes de
contas e assassinatos, roubos de lojas, encerramento de escolas e
estabelecimentos públicos. Note-se que no Rio de Janeiro já
há cerca de 60 quartéis da Polícia Militar bloqueados
pelas famílias dos polícias pois estes não
têm o direito de fazer greve... e o Carnaval vem aí [nota da
versão em francês].
[*]
Professor da Escola de Sociologia e Política, S. Paulo.
O original encontra-se em
jornalggn.com.br/...
e a versão em francês em
www.legrandsoir.info/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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