Fora Alckmin!
O PCB contribuiu decisivamente para a formação da Frente de
Esquerda (PCB-PSOL-PSTU), que apresentou a candidatura da Senadora
Heloísa Helena à Presidência da República. A
campanha, apesar de não lograr uma vitória eleitoral, mostrou
para a sociedade brasileira que não existem apenas as sutis
diferenças entre o reformismo social-liberal do PT e o neoliberalismo
clássico do PSDB. Importantes setores do proletariado e das camadas
médias não acreditam na possibilidade de reformar o capitalismo,
o que faz com que a esquerda socialista tenha um importante espaço
político a ser ocupado.
As eleições foram marcadas pela despolitização. Os
dois principais candidatos disputaram quem propiciou mais ou menos
corrupção e quem é o melhor gerente dos interesses do
capital. Largas parcelas do eleitorado demonstraram uma ojeriza pela chamada
"classe política" e pela bandalheira promovida pelos governos
do PT e do PSDB. No entanto, este mal-estar difuso do eleitorado se expressou
pela passividade, pela abstenção e pelo voto
"cacareco", em personagens como Enéias e Clodovil.
A proibição de diversas formas de propaganda não coibiu o
abuso do poder econômico. O clientelismo e a compra de votos garantiram a
eleição de diversos parlamentares. O voto distrital prevaleceu na
prática. O voto de opinião foi derrotado. Teremos um Congresso
Nacional despolitizado, majoritariamente composto por "vereadores
federais" e despachantes de interesses específicos, alguns escusos.
Esta eleição evidenciou os piores vícios de uma
eleição burguesa. Os comunistas, mais do que quaisquer outras
forças políticas, têm consciência dos limites do
processo eleitoral, apesar de não subestimarem o papel das
eleições e da ação parlamentar para a luta dos
trabalhadores. Mas a luta institucional deve ser conjugada com a luta de
massas. Por isso, propusemos à Frente de Esquerda uma
"campanha-movimento", onde as ações de campanha
estariam estreitamente vinculadas à mobilização
política popular.
Entendemos que a Frente de Esquerda deve ter continuidade após o
processo eleitoral, como um instrumento de luta política dos
trabalhadores em torno de suas demandas específicas e gerais. Com Lula
ou com Alckmin, a luta será dura, em defesa dos direitos trabalhistas,
do patrimônio público, do direito de organização,
das liberdades democráticas. Com um ou com outro, a Frente de Esquerda
estará certamente na oposição ao novo governo. Na nossa
visão, a Frente deve ter uma perspectiva de mais fôlego, de mais
prazo, ou seja, constituir-se em um dos núcleos do Bloco
Histórico do proletariado, na construção do socialismo.
Mas para ter sobrevida e ampliar-se, a Frente tem que enfrentar a
questão programática, sob pena de limitar-se a
ações unitárias pontuais e sazonais.
Apesar da vitória da constituição da Frente, a campanha
não conseguiu ultrapassar os marcos da disputa eleitoral. A marca das
campanhas destas eleições foi a desmobilização, e a
Frente de Esquerda não fugiu à regra. A ausência de um
programa político da Frente contribuiu para a
desmobilização e a falta de diálogo com o movimento
operário e popular. A candidata expressou a unidade da Frente e
comportou-se com muita combatividade. Mas seu discurso, muitas vezes,
não se diferenciou da candidatura da oposição burguesa,
sobretudo nas questões internacionais.
O segundo turno acabou refletindo a pobre polarização entre PSDB
e PT. O projeto de fundo das duas correntes não se diferenciou, apesar
de nuances: a mesma política econômica, as mesmas políticas
sociais, a mesma visão do Estado brasileiro. A disputa parece limitar-se
à máquina governamental. O PT é o partido social-democrata
tardio, de origem operária e apoiado nas estruturas sindicais, que
assumiu, no governo, as posturas e o ideário social-liberal. O PSDB
é o partido da representação do grande capital, centrado
em São Paulo e com fortes ligações com o capital
internacional. As reformas sindical, trabalhista e previdenciária
serão levadas à frente, qualquer que seja o vitorioso, a menos
que os trabalhadores, como esperamos, se unam e se mobilizem para
barrá-las.
Geraldo Alckmin é o PSDB sem as tinturas democráticas da
resistência à ditadura. É ligado à Opus Dei e ao que
há de pior na direita paulista. É o candidato do PSDB da
preferência do PFL. Seu governo em São Paulo foi o pior em
educação e saúde. Sua política de segurança
é de uma truculência exemplar, resultando no recrudescimento do
crime organizado. Sua vitória representaria a privatização
dos serviços públicos, o império do capital financeiro,
uma ameaça real às liberdades democráticas. Sua
política internacional, certamente, representaria um grave retrocesso,
aprofundando o recuo na área internacional dos últimos anos do
mandato de Lula.
O crescimento de Alckmin na reta final se deu em cima de erros do PT e da
campanha de mídia em torno do escândalo do dossiê. Se o
governo Lula tivesse iniciado as mudanças prometidas em 2002, sua
reeleição em primeiro turno estaria assegurada e com o apoio da
maioria esmagadora da esquerda. Haverá segundo turno porque ele deu
continuidade às contra-reformas neoliberais e à política
econômica de FHC, acentuou a despolitização das massas e a
desorganização dos trabalhadores, com a degeneração
da CUT e de outras entidades sociais.
Apesar de ter feito uma política que beneficiou o grande capital, Lula
não conquistou totalmente a confiança da burguesia, que agora
pode querer acabar com a "terceirização", botando na
Presidência um burguês original. Lula conquistou os mais pobres,
representando uma identidade popular difusa, calcada na sua
relação direta com as massas e em programas clientelistas.
O PT que emerge das urnas caiu mais para a direita. A esquerda remanescente do
PT perdeu diversos parlamentares, reduzindo a sua já mínima
influência no partido e no governo. Lula procurou se afastar do PT,
atribuindo ao partido todas as mazelas de sua gestão. Uma eventual base
parlamentar de Lula será muito mais dependente do PMDB e dos partidos
fisiológicos. Um segundo governo Lula tende a ser pior do que o
primeiro, até porque as principais entidades de massa estarão
ainda mais aparelhadas e dependentes. Daí a necessidade de a esquerda
socialista construir organizações sociais classistas, sobretudo
de natureza intersindical.
Mas os comunistas não se omitem nos principais momentos da vida
nacional. Não nos furtaremos a dar nossa opinião. Não
cairemos no oportunismo do silêncio nem "lavaremos as
mãos", para "liberar" o voto dos militantes e
simpatizantes do nosso Partido. Nos dias 13 e 14 do corrente, reuniremos nosso
Comitê Central para se posicionar claramente sobre o segundo turno.
Até lá, estaremos ouvindo nossas bases, nossos aliados e amigos.
Procuraremos organizar uma reunião da Frente de Esquerda e do
Fórum de Unidade dos Comunistas para discutir o tema.
Mas, de antemão, queremos deixar claro. Não podemos tergiversar
nem vacilar: Alckmin é a direita. A vitória dele é a
vitória de Bush e a derrota da Bolívia, de Cuba e da Venezuela.
É a desintegração do Mercosul e a sobrevida à ALCA.
Pode ser a instalação de uma base militar na Tríplice
Fronteira, sonho de consumo do imperialismo norte-americano, de olho nas
reservas minerais da região (os hidro-carburetos da Bolívia, o
aqüífero Guarani).
Estas constatações não significam concordância com a
dúbia e vacilante política externa do governo Lula, que
"dá uma no cravo e outra na ferradura". Ao mesmo tempo em que
corretamente ajudou Chavez em alguns momentos, diante da pressão
norte-americana, manda tropas para o Haiti, a pedido do imperialismo, para
garantir um governo fantoche. Enquanto tem um comportamento correto no caso da
nacionalização das riquezas naturais da Bolívia, nomeia o
ex-Presidente do Banco de Boston para a presidência do Banco Central.
Mas, apesar disso, não podemos recomendar voto em Lula no segundo turno,
se não ficarem claras algumas questões, como o seu programa, suas
alianças. Não se pode descartar que o comando da campanha de
Lula, hoje muito mais conservador que em 2002, opte no segundo turno por uma
ampliação pela direita, de olho no eleitorado de Alckmin.
Foi evidente o esforço da mídia burguesa, às
vésperas do 1º de outubro, para levar a eleição para
o segundo turno, aproveitando-se da degeneração da corrente
hegemônica do PT, marcada pela arrogância, a
corrupção, o aparelhamento das entidades e do Estado, a
impunidade. Para o grande capital, portanto, para o imperialismo, levar a
eleição para o segundo turno foi uma grande jogada para tentar
ganhar com qualquer um: com Alckmin, como ele é, ou com Lula mais
dócil, fazendo ainda mais concessões, refém dos caciques
do PMDB. Ou seja: há o risco de termos dois candidatos e um só
programa!
Por todas essas razões, para a Comissão Política Nacional
do PCB, é cedo para adotar uma posição conclusiva a
respeito do segundo turno, além do FORA ALCKMIN. O PCB não
endossará a eleição de um segundo governo Lula piorado.
Não colocará sua chancela, só para dar um exemplo, na
diminuição de direitos trabalhistas. De outro lado, na
hipótese de vir a apoiar criticamente Lula, não participaremos de
aliança política nem de eventual governo.
O que mais vai pesar na decisão do Comitê Central do PCB
certamente será o pronunciamento público de Lula sobre alguns
compromissos que, para nós, são pré-requisitos para
podermos admitir a possibilidade de um apoio crítico a ele:
1 - Unidade progressista da América Latina e Caribe; solidariedade aos
governos e povos da Bolívia, Cuba e Venezuela; ampliação
do Mercosul e não à Alca!
2 - Nenhum direito a menos para os trabalhadores. Não às
contra-reformas trabalhista e previdenciária. Reforma sindical decidida
pelos trabalhadores.
3 - Mudança imediata na política econômica, com
redução da taxa de juros e fim do superavit primário:
aplicação de seus recursos na saúde,
educação, infra-estrutura, reforma agrária e moradia.
4 - Desmonte do esquema de corrupção, com
investigação rigorosa e punição dos
responsáveis.
5 - Fim dos leilões da Petrobrás; revisão das
privatizações; defesa do patrimônio público.
fortalecimento da função social dos bancos públicos,
contra a autonomia do banco central.
Rio de Janeiro, 6 de outubro de 2006
Comitê Central do PCB
[*]
Resolução Política do Partido Comunista Brasileiro sobre o
segundo turno das eleições presidenciais.
O original encontra-se em
http://www.pcb.org.br/fora%20alkimin.html
Este comunicado encontra-se em
http://resistir.info/
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