O Brasil está parado, mas os bancos continuam lucrando
por Maria Lucia Fattorelli
[*]
entrevistada por Gabriel Brito e Paulo Silva Junior
Continua a crise generalizada do governo de Dilma Rousseff, que acumula reveses
em todas as frentes e sangra politicamente, atado por um Congresso abduzido
pelo interesse privado há muito tempo. Para falar de tamanha crise, que
agora registra o maior índice de desemprego desde 2010, conversamos com
e economista Maria Lucia Fattorelli, que aproveitou para contar seu trabalho de
auditoria sobre a dívida grega, ótimo exemplo do rumo que podemos
ver o Brasil tomar.
"O país não recebe dinheiro, mas sim papeis. E tem de
reembolsar a troika em dinheiro. De que forma? Aumentando impostos e cortando
salários, aposentadorias, pensões, além de privatizar
patrimônio. Um verdadeiro caos econômico e social, pois com tais
reduções e cortes o desemprego é brutal, atinge mais de
60% dos jovens e todas as outras faixas em 30%. Os que mantiveram seus empregos
sofreram redução forte nos salários. O PIB encolheu 22% de
2010 para cá. O orçamento reduziu-se em mais de 40 mil
milhões de euros, cifra elevadíssima na economia grega",
explicou.
Trazendo a discussão para o Brasil, Maria Lucia vê um quadro
devastador, capaz de devolver milhões de brasileiro aos nada saudosos
patamares de miséria. Sempre fazendo questão de desqualificar o
"economês", a auditora fiscal expõe toda a espiral
negativa determinada pelas políticas de ajuste fiscal, que anulam todas
as possibilidades de reação da economia. E, diante da imensa
perda de credibilidade do governo, não enxerga muita luz no fim do
túnel.
"Nada das pautas estruturais foi objeto de enfrentamento. O que se fez foi
política periférica, a exemplo do Bolsa Família e do
programa Minha Casa Minha Vida. O atual momento do governo resulta do fracasso
de todas as suas políticas. Tivessem sido enfrentadas as pautas
estruturais, não passaríamos hoje pelo que estamos passando. E no
momento, com toda a crise ética e política, aliada à crise
econômica gerada por um modelo que todos sabiam que ia dar nisso, dado
sua insustentabilidade, fica muito difícil segurar", lamentou.
A entrevista completa, realizada em parceria com a
webrádio Central3
, pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: Começando pelo plano internacional, o que
você pode nos contar da sua experiência na Grécia, como
membro da Comissão de Auditoria da Dívida daquele país, a
convite de seu próprio parlamento?
Maria Lucia Fattorelli:
Uma experiência muita rica e importante. Foi criada uma comissão
pra auditar a dívida grega, mola-mestra da crise por que passa o
país, composta por europeus, uma africana e duas latino-americanas. Uma
grande honra representar o Brasil neste processo. Embora tenhamos feito um
trabalho preliminar, porque tivemos apenas sete semanas, pouquíssimo
tempo pra auditar uma dívida nacional. Assim, focamos no período
de 2010 pra cá, quando começou a intervenção da
chamada troika. Focamos nos contratos feitos a partir de então.
Foi incrível o que observamos. Ficou evidente que a Grécia
não recebeu recursos. Foi um esquema para beneficiar bancos privados,
não só gregos, mas principalmente de outros países, que
haviam comprado títulos antigos da Grécia e, também, foram
atingidos pela crise financeira de 2008, dois anos antes da
intervenção. E aquela crise era localizada no sistema financeiro.
Assim, tais acordos de 2010 foram um verdadeiro esquema para reciclar os papeis
podres de posse dos bancos privados, transferindo-os à Grécia e
exigindo que o país tomasse novos empréstimos para liquidar tais
papeis, que se fossem negociados em mercado não valeriam nada.
Portanto, a situação demanda o aprofundamento da auditoria,
porque só o trabalho preliminar já demonstrou muitas ilegalidades
e ilegitimidades, geração de dívidas sem contrapartida
para a Grécia e o mais grave: a crise monetária se deve à
ilegitimidade de tais acordos. O país não recebe dinheiro, mas
sim papeis. E tem de reembolsar a troika em dinheiro. De que forma? Aumentando
impostos e cortando salários, aposentadorias, pensões,
além de privatizar patrimônio. Um verdadeiro caos econômico
e social, pois com tais reduções e cortes o desemprego é
brutal, atinge mais de 60% dos jovens e todas as outras faixas em 30%. Os que
mantiveram seus empregos sofreram redução forte nos
salários. O PIB encolheu 22% de 2010 para cá. O orçamento
reduziu-se em mais de 40 mil milhões de euros, cifra elevadíssima
na economia grega.
Dessa forma, as pessoas que têm condições, são bem
formadas, falam outras línguas, saem do país. Mais de 110 mil
pessoas abandonaram o país para procurar emprego em outros lugares,
outra perda muito grande, pois sabemos o quanto custa formar profissionais de
nível superior, com mestrado, doutorado etc. Enfim, uma verdadeira
tragédia.
Outro ponto grave: diante de tudo que comprovamos na auditoria, o governo
chegou a resistir ao terceiro acordo proposto pela troika e os países da
União Europeia e convocou o referendo de 5 de julho. O próprio
primeiro-ministro, Alexis Tsipras, disse que se o povo dissesse "sim"
ao novo acordo de austeridade ele renunciaria. O povo disse
"não" e, logo em seguida, ele passou a defender o acordo que
repudiava! Ninguém entendeu nada. Tsipras acabou assinando o acordo em
20 de julho e renunciou.
Agora o país fez novas eleições e a sociedade vive um
grande desânimo. Foi feita toda uma apuração para que no
final se assinasse o terceiro acordo, que aprofunda ainda mais os problemas
sociais e econômicos do país. Uma verdadeira tragédia, e
tudo para salvar bancos, que transferem sua crise aos países. Isso
mostra a urgência de analisarmos tal assunto.
Correio da Cidadania: Como enxergou a renúncia do primeiro-ministro
Alexis Tsipras e o desmembramento do próprio partido que vencera as
eleições em janeiro, o Syriza, culminando em nova
eleição que o reelegeu?
Maria Lucia Fattorelli:
Terrível. Todos nós acompanhamos a tremenda pressão que a
Grécia sofreu. Todos os jornais do mundo tinham a Grécia na
manchete nas semanas do referendo e que antecederam o acordo. Diziam que se
não tivesse acordo toda a economia europeia, e de outras partes do
mundo, seria abalada. Terrorismo total.
E quando analisamos bem, perguntamos: a economia da Grécia é 2%
da europeia. Como 2% derrubam 98%? Não há qualquer
coerência nessa pressão toda. Por que não deixar o
país resistir? Fizeram uma verdadeira tortura, exigiram a saída
do Varoufakis e chegou-se à capitulação. Isso se
não houve outro tipo de ameaça. Não temos provas, mas
evidencia-se a capitulação porque o primeiro-ministro passou a
defender outra ideia. Mas por que, que tipo de ameaça ele pode ter
recebido, ou o próprio país? Sabemos que é brutal a
pressão exercida pelo sistema financeiro mundial.
Uma pena, porque a Grécia tinha apoio popular e
formulação. O Syriza chegou ao poder com a proposta de
resistência. Puxa vida, organizam tudo, ganham eleições, o
parlamento convoca auditoria, que prova as ilegalidades; convoca-se referendo,
que respalda o "não" à política de austeridade.
Para depois capitular? Claro que houve grande abstenção nas
eleições.
O povo está muito desanimado e abalado. O índice de
suicídios é uma calamidade, tem até programa do
Ministério da Saúde para demover as pessoas da ideia, quase em
tom de clamor. As pessoas estão desesperadas, não enxergam
saída alguma, principalmente depois da capitulação.
É um quadro dificílimo para o país se recuperar, depois do
alento da chegada do Syriza ao poder. Agora temos o racha já mencionado
no Syriza e dificilmente se conseguirá construir outra força para
reagir
[NR]
. Não à toa a troika comemorou efusivamente a renúncia do
Tsipras e a assinatura do acordo.
Correio da Cidadania: Vindo ao Brasil, o caráter da nossa dívida
pública é similar ao que você viu na Europa?
Maria Lucia Fattorelli:
Em todas as oportunidades que já tivemos de auditar a dívida
oficialmente, como no caso da Grécia e do Equador, assim como no
próprio Brasil durante a CPI da Dívida (que foi uma
investigação bem aprofundada), sempre comprovamos a
existência de um mesmo sistema de dívida. Claro que cada lugar tem
suas peculiaridades, mas o
modus operandi
do "sistema da dívida" é igual.
Sistema da dívida é a utilização do instrumento de
endividamento público às avessas. Tal instrumento é muito
importante. É legítimo que o Estado, em qualquer nível
municipal, estadual ou federal lance mão de
empréstimos para complementar os recursos necessários aos seus
investimentos. Mas o que verificamos? Os recursos não chegam, a
dívida não tem contrapartida e há um esquema que meramente
transfere dinheiro para o setor financeiro. Tais características se
dão em todos os lugares por que passamos.
A Grécia não recebeu dinheiro. Eram papeis a serem reciclados.
Aqui no Brasil, temos uma investigação histórica,
principalmente da década de 70 para cá. Já vimos dados bem
antigos. Nossa primeira dívida, da Independência, lá em
1822, já foi dentro desse esquema. Sem contrapartida. Quando o Brasil se
tornou independente, Portugal havia contraído uma dívida junto a
Inglaterra para evitar nossa independência. Ao não conseguir
barrá-la, nos transferiram tal débito, de mais de 3
milhões de libras esterlinas. E esse dinheiro nunca chegou aqui.
Registramos a dívida e já nascemos devedores, com juros, de um
dinheiro que nunca recebemos. Isso que se chama de sistema da dívida: o
empréstimo sem contrapartida.
Hoje em dia temos verificado vários mecanismos geradores de
dívida sem contrapartida. Tanto interna quanto externa. No Equador
também vimos o mesmo, assim como nos âmbitos estaduais e
municipais. Cada um tem suas peculiaridades, mas os mecanismos se repetem.
É uma usurpação do instrumento, que onera o Estado e
beneficia sempre, invariavelmente, o setor financeiro privado.
Correio da Cidadania: Dentro de tal contexto, como você enxerga a
ausência desse assunto em nossos debates, em um ano de severos cortes de
orçamento social, anunciados seguidamente pelo governo e sua equipe
econômica?
Maria Lucia Fattorelli:
É um ponto importante, porque diante da ausência de tal debate
quem paga toda a conta é o conjunto da sociedade. E justamente ela
não sabe como a dívida afeta sua vida. Agora vemos todo o
esforço do ajuste fiscal. Falam todos os dias sobre o ajuste, mas
não para que. O que é o ajuste? É o corte de vários
gastos e despesas, investimentos públicos que recaem principalmente
sobre as pastas sociais. Os cortes mais representativos atingem saúde,
educação, segurança, assistência, além de
subsídios que influenciam na vida das pessoas, como nos transportes.
Até investimentos sociais básicos como o Minha Casa Minha Vida e
o Bolsa Família, sobre qual anunciaram o corte de 70 mil bolsas, e
depois 180 mil. Imagine quantas pessoas só não passam fome
graças a esse programa...
Além de tais cortes, vemos aumento de tributos e
privatizações. E todo recurso advindo das
privatizações se direciona ao pagamento da dívida. Todo o
ajuste é feito em prol da dívida. Qual, afinal? Vemos os
servidores públicos com salários congelados, trabalhadores da
iniciativa privada tendo salários cortados ou sendo demitidos, os
aposentados tiveram seu reajuste vetado que chegou a ser aprovado no
Congresso, mas não pela Dilma... Os comerciantes e industriais
também sofrem. Passamos por um processo de
desindustrialização e vimos o índice de atividade
comercial cair pela sétima vez seguida...
Veja bem: toda a atividade econômica do país está em queda,
exceto a bancária. Eles lucraram mais de 80 mil milhões de reais
em 2014. E no primeiro semestre os lucros superam em mais de 15% os do ano
passado. Toda a atividade do país está em queda, o PIB vai
encolhendo e os bancos se mantêm lucrando? É evidente a
transferência de recursos públicos para o setor financeiro
privado. Isso acontece, principalmente, através dos mecanismos de
política monetária do Banco Central, sob desculpas de controle da
inflação etc. Assim, geram dívida pública sem
nenhuma contrapartida, sem que o país receba absolutamente nenhum
centavo. Geram dívida pública e repassam o dinheiro aos bancos
privados.
Assim, todas as pessoas que pagam a conta precisam tomar conhecimento da
situação, a fim de criarmos consciência coletiva e uma
pressão capaz de promover mudanças. É um debate que tem de
ganhar não apenas entidades da sociedade civil organizada, sindicatos,
associações de todos os tipos, a mídia chamada alternativa
etc. (já que são informações que não saem na
"grande" mídia). É preciso envolver mais pessoas para
multiplicar tais informações e derrubar o mito de que o tema
é só para especialistas. Não é verdade.
Normalmente, se tenta criar o famoso "economês", apenas para
tentar afastar as pessoas, exatamente para que ninguém se interesse,
articule alguma ação e eles fiquem à vontade para
continuar levando essa vantagem toda.
Nosso papel é exatamente o de fazer o contraponto. No âmbito da
Auditoria Cidadã, tudo que produzimos e publicamos, as diversas
palestras, artigos, livros, cursos que promovemos, sempre são feitos com
linguagem popular e esclarecedora para a população. São
mecanismos que lesam não só as pessoas como a economia nacional
por completo. O Brasil é o sétimo mais rico do mundo e passa por
enormes dificuldades. É um grande absurdo. E a dívida está
no centro de toda a problemática.
Correio da Cidadania: Como você imagina que caminhará o governo
Dilma diante de um arranjo político que praticamente a deixa de
mãos atadas em relação ao PMDB, em meio ainda a grandes
pressões sugerindo sua queda ou renúncia? Como isso deve se
refletir na vida da população nos próximos anos?
Maria Lucia Fattorelli:
O governo Dilma é continuidade dos governos Lula, que
também foram de grande capitulação. É muito triste
a constatação, mas tal capitulação aconteceu
lá em 2003. Quando de sua primeira eleição não
havia o financiamento bancário na campanha. Havia, sim, certo
financiamento empresarial, até por conta do vice-presidente José
de Alencar.
Mas o que o elegeu foi toda uma construção, de mais de 20 anos,
de lutas por mudanças efetivas. E todos os governos do PT acabaram
seguindo a agenda neoliberal, das privatizações etc. Não
enfrentaram o sistema da dívida, não enfrentaram o modelo
tributário regressivo do país, onde quanto mais rico se é,
menos se paga imposto proporcionalmente. Promoveram uma brutal
concentração de rendimento, fazendo do Brasil o país mais
desigual do mundo, onde a concentração de rendimento é a
mais cruel.
Nada das pautas estruturais foi objeto de enfrentamento. O que se fez foi
política periférica, a exemplo do Bolsa Família e do
programa Minha Casa Minha Vida. Muito pouco, algo superperiférico, ao
passo que os lucros dos bancos nos governos petistas foram exponenciais.
O atual momento do governo resulta do fracasso de todas as suas
políticas. Tivessem sido enfrentadas as pautas estruturais, não
passaríamos hoje pelo que estamos passando. E no momento, com toda a
crise ética e política, aliada à crise econômica
gerada por um modelo que todos sabiam que ia dar nisso, dado sua
insustentabilidade, fica muito difícil segurar.
Porque se fosse apenas econômico o problema, mas o governo tivesse
forças políticas bem sustentadas e articuladas e seguisse um
plano conjunto com a sociedade, a situação seria diferente.
Mas não tem nada disso. Todas as promessas de campanha viraram do
avesso. Tudo que foi dito em favor do social e em termos de colocar o
país na trilha de mais justiça social e desenvolvimento virou do
avesso. O que vimos das eleições pra cá foi aumento brutal
de juros. A taxa
Selic
, em relação a outubro do ano passado, subiu 30% e já
atinge 14,5%.
O orçamento é um só. Por que tem dinheiro para subir 30%
dos juros e corta-se gasto social? Ao mesmo tempo, as políticas do BC de
reconhecer e garantir variação cambial aos bancos, através
das operações de swap, nada mais são que garantias aos
bancos. Nada mais. O dólar sobe e o BC vem pagar a diferença para
bancos e grandes empresas, gerando grandes prejuízos. Como se cobre tal
prejuízo? Com geração de dívida. Hoje o BC remunera
toda sobra de caixa dos bancos, nas operações compromissadas.
Olha o custo dessa política! É insana. E sem apoio da sociedade,
diante do não atendimento das pautas de campanha, junto da crise
ética e política, cria-se uma situação
complicadíssima. É dificílimo reverter tal quadro.
Exigiria uma virada total do governo, de modo a assumir de fato a pauta social,
da classe trabalhadora e dizer "não" ao sistema financeiro.
Mas vemos o contrário. Arrocho geral para cumprir ajuste fiscal e
continuar dizendo "sim" ao mercado financeiro, apesar de todas as
denúncias e ilegalidades do processo. É muito difícil ter
solução nesse quadro.
O ajuste fiscal joga a economia numa espiral rumo ao fundo do poço.
Tributa-se mais a sociedade, logo, tira-se recursos das mãos das
pessoas, cortam-se os salários e gera-se desemprego. As pessoas
não consomem, o comércio cai, demanda-se menos da
indústria, que por sua vez demite... É o fundo do poço. Os
países que melhor enfrentaram crises econômicas injetaram dinheiro
na economia, ativaram o emprego e o investimento. Aqui fazem o
contrário. O acirramento do ajuste fiscal corta todas as possibilidades
de reação da economia.
E, ao se juntar a crise econômica às crises ética e
política, ficamos numa situação muito complicada.
09/Outubro/2015
Áudio da entrevista
[NR] O derrotismo da autora deve-se provavelmente à influência
recebida do Syriza. O KKE manteve-se firme nas últimas
eleições e o PAME continua a ser uma central sindical poderosa.
Não é preciso construir "outra" força
política e sim fortalecer as já existentes.
[*]
Economista, brasileira, da Comissão Auditoria Cidadã da Dívida.
O original encontra-se em
www.correiocidadania.com.br/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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