Bolsonaro e a nova face do fascismo
O debate sobre a emergência do fascismo em várias partes do mundo
é um tema que está na ordem do dia, especialmente após a
crise sistêmica global que emergiu em 2008. No período anterior
à crise, o imperialismo também apoiava regimes de caráter
fascistas, como Franco na Espanha, Salazar em Portugal, bem como ditaduras
sanguinárias, a exemplo de Somoza na Nicarágua, Papa Doc no
Haiti, Mobutu no Congo ou os golpes militares na América Latina. Mas o
grande capital sempre procurou dissimular esses apoios em nome do mundo livre,
contra a ameaça do comunismo. Com a queda da União
Soviética esse discurso ficou enfraquecido. No entanto, desesperados
diante da crise mundial, que já castiga o sistema capitalista há
12 anos, sem que seus operadores encontrem uma saída para retomar o
crescimento econômico, as classes dominantes mundiais resolveram
radicalizar o discurso e a ação, deixar de lado as
aparências, e tirar a máscara de uma vez por todas. Agora vale
tudo para sair da crise e restabelecer o domínio do capital: não
só o apoio aos governos reacionários, de extrema-direita, ou
declaradamente fascistas, mas também a aliança com bandos
fascistas organizados em várias partes do mundo.
Já não fazem mais questão de dissimular a sua
política: pelo contrário, nessa fase de decadência do
imperialismo (como todas as fases decadentes dos impérios), seus
operadores orgânicos estão construindo um novo discurso
anticomunista muito mais amplo que no passado, sintetizado na luta contra o
chamado marxismo cultural e na defesa radical do individualismo.
Eles agora não veem apenas os comunistas como seus inimigos, mas todos
aqueles que se contrapõem aos seus objetivos, como os movimentos
democráticos, o movimento sindical, o movimentos juvenil, as
organizações das mulheres, as organizações
multilaterais criadas após a segunda guerra mundial, a ciência e a
universidade, a cultura e, inclusive a própria democracia formal.
Assumem abertamente uma postura obscurantista, como a negação da
ciência, a defesa de temas muitas vezes já superados pelo
renascimento e mesclam velhas fórmulas populistas com o que há de
mais sofisticado nas tecnologias da informação buscando
arregimentar as massas para suas propostas.
Portanto, a ideologia fascista, quer dissimulada, quer claramente aberta, em
várias partes do mundo, é resultado do desespero de uma classe
dominante mundial assustada porque não consegue resolver rapidamente a
crise como no passado. Os fascistas do século XXI muitas vezes
são caricatos como Mussolini e Hitler, mas incorporaram todo o arsenal
das tecnologias da informação. Como seus líderes do
passado, eles também gostam de pregar a liberdade individual, defender a
religião, os valores conservadores, ter a luta contra a
corrupção como uma de suas principais plataformas ou mesmo se
mostrar anti-sistêmicos. Isso é apenas uma parte da narrativa. Os
novos movimentos fascistas representam muito mais que isso: eles querem mesmo
é restabelecer o poder dos setores mais reacionários das classes
dominantes globais. Apesar das aparências e das fanfarronices de muitos
desses líderes, as equipes que estão por trás dessa nova
estratégia são muito sofisticadas e sabem perfeitamente onde
querem chegar. Recentemente, com a emergência da nova crise
sistêmica e da crise sanitária, além das perspectivas de
dificuldades no futuro, eles estão intensificando o discurso do
ódio, da intimidação, da violência e das
políticas regressivas contra os trabalhadores.
Como todos os movimentos fascistas, eles surgem nos momentos de crise aguda do
capitalismo. Nos momentos de calmaria e elevadas taxas de lucro, os fascistas
desaparecem porque, para os capitalistas, perdem a razão de existir como
movimento real capaz de influir na sociedade. Mas nas épocas de crise
representam a tropa de choque capaz de garantir a lei e a ordem, como os
salvadores da pátria em condições de restabelecer a
normalidade, disciplinar os trabalhadores e o movimento sindical, a esquerda em
geral e os comunistas em particular. Nesses períodos de incertezas e
turbulências sociais, onde grande parte da população
está descrente com a velha política, com a
corrupção, com os desmandos governamentais, com os
políticos em geral, ou seja, quando a velha ordem liberal está em
questionamento, o velho está morrendo e o novo ainda não nasceu,
como diria Gramsci, então eles aparecem como a salvação
para a pequena burguesia assustada e empobrecida, para os trabalhadores
desesperados diante da insegurança e do desemprego e para o lumpesinato
inconsequente e oportunista disposto a se aliar a quem pagar mais. São
perfeitamente funcionais para a burguesia mundial assustada diante da crise.
No Brasil, mas também em várias partes do mundo, os movimentos
fascistas ganharam um aliado especial: a maioria das igrejas pentecostais, que
cresceram e se desenvolveram com seus líderes espertamente pregando a
teoria da prosperidade, a partir da qual o sucesso na vida depende do
esforço individual e da fé de cada pessoa. Trata-se de um
discurso que, nesses tempos de crise, tem sido capaz de ganhar vastas parcelas
da população pobre, angustiada diante das dificuldades da vida
cotidiana. E se encaixam como uma luva no discurso fascista. Essas igrejas, em
sua maior parte, são dirigidas por pastores inescrupulosos, que prometem
curas milagrosas e a melhoria na vida da população. Mesmo que
nada disso tenha aderência à realidade, esses personagens ganharam
autoridade e poder sobre essa população desesperada, tanto que
suas recomendações se transformam em ordem unida para os seus
fiéis. Da mesma forma que os fascistas, eles também buscam
consolidar na população pobre os preconceitos, o senso comum, os
valores conservadores, o negacionismo em relação à
ciência, o que tem transformado a maior parte dos evangélicos em
massa de manobra dos seus pastores tanto nas questões eleitorais quanto
no engajamento dos temas levantados pelos fascistas.
A máquina de fake news
Um dos pontos fundamentais da nova face do fascismo é sua máquina
de comunicação, tanto nos meios de comunicação
tradicionais, mas principalmente nas redes sociais, onde construíram uma
estrutura muito bem articulada de informação e
desinformação, a partir da qual eles envenenam a
população, incentivam o discurso do ódio, reforçam
o senso comum e as pautas mais conservadoras e, especialmente, espalham
permanentemente notícias falsas para criar confusão, incerteza, o
caos, a desorientação visando manipular a
população. Para atingir seus objetivos, os fascistas não
têm escrúpulos: utilizam os métodos mais abjetos para
desmontar e destruir a razão e consolidar a irracionalidade e a
coerência, naturalizar qualquer tipo de aberração e
mentira, tudo isso para fanatizar, através do ódio, largas
parcelas da população contra inimigos meticulosamente
selecionados, principalmente a esquerda, os dirigentes sindicais e
políticos e os comunistas em particular. Nessa investida os fascistas
apostam na manipulação das comunicações e na
mentira como principal arma para atingir seus objetivos.
Para tanto, contam com uma máquina de comunicação
profissional muito bem organizada, com divisão de trabalho, e financiada
pelos empresários ligados a esses movimentos. Eles se apropriaram das
mais modernas técnicas de comunicação,
manipulação dos algoritmos de última geração
e possuem milhares de robôs telemáticos para potencializar e
impulsionar suas mensagens. Contam ainda com grupos permanentes e
especializados de produtores de conteúdo, regiamente remunerados, para
produzir diariamente informação, vídeos,
memes
e fake news. Eles escolhem diariamente os temas e alvos preferidos, como se
fosse uma reunião de pauta do jornalismo, e produzem as matérias
tanto favoráveis aos governos que dirigem ou apoiam quanto contra os
inimigos especialmente selecionados. Outra equipe se encarrega da
organização da rede de militantes nas
administrações municipais, estaduais e federal onde têm
influência e nos gabinetes dos seus parlamentares. Esses grupos repassam
essas informações para outros grupos de simpatizantes organizados
em grupos digitais que as disseminam pela rede, criando assim uma onda de
agitação e propaganda permanente e uma militância
voluntária e fanatizada disposta a realizar todo tipo de tarefa em nome
da causa.
Em outras palavras, os líderes desses movimentos podem ser toscos e
caricatos, mas a estrutura por trás deles é muito profissional e
organizada. Promovem cursos de especialização no Brasil e no
exterior para seus quadros mais engajados, estabelecem divisão, controle
e responsabilidades para cada tarefa. Conseguiram construir uma poderosa
máquina de comunicação, tanto na mídia tradicional
quanto paralela, com enorme influência que pode atingir diariamente
até 60 milhões de pessoas no Brasil, segundo cálculos de
especialistas nessa área. O poder mundial dessa rede heterodoxa foi
demonstrado com muita eficiência nas eleições de Trump, nos
Estados Unidos, e de Bolsonaro, no Brasil. Eles seguem o
manual de orientação de Gene Sharp
, um estrategista da guerra híbrida, e dos operadores nos Estados
Unidos, Steve Bannon e Andrew Breitbart. Os dois foram responsáveis pelo
site direitista norte-americano
Breitbart News,
com grande influência no movimento da nova direita dos Estados Unidos e
que teve papel importante na última eleição de Trump,
tanto que Bannon foi convocado pelo próprio Trump para ocupar um dos
postos chaves em seu governo.
A tática utilizada por essa milícia digital no Brasil
também é muito sofisticada e incorpora elemento da mais
avançada tecnologia digital, da psicologia de massas, misturando
notícias falsas e verdadeiras (para ampliar a confusão), a
disseminação do ódio à esquerda e aos comunistas,
as velhas técnicas fascistas adaptadas aos novos tempos, como a
utilização de símbolos e mensagens patrióticas, o
reforço de preconceitos, da moral e dos bons costumes arraigados junto
à população desinformada, a luta contra a
corrupção e a religiosidade popular. Mas o forte mesmo dessa
milícia sem qualquer escrúpulo são as notícias
falsas (fake news), através das quais buscam desmoralizar e criar uma
imagem negativa dos adversários, incentivar a xenofobia, a misoginia e
os preconceitos contra os pobres, nordestinos, negros, indígenas,
quilombolas e a juventude periférica. Com a confusão e o caos
desorientam até mesmo as vítimas de seus preconceitos e
arregimentam largos setores da população para suas plataformas,
como aconteceu recentemente nas eleições no Brasil. Basta lembrar
o efeito catastrófico que as
fake news
tipo
mamadeira de piroca
e
kit gay
causaram na última eleição presidencial.
Essa milícia digital fascista opera de duas formas: a) atua
clandestinamente, produzindo as
fakes news
e dissemina as informações através de perfis e
páginas falsas na internet, a partir de vastos recursos financeiros
fornecidos por empresas e simpatizantes que as alimentam por fora dos canais
institucionais e jurídicos de financiamento, de forma a escapar da
legislação, o que lhe permite com esses perfis falsos impulsionar
e melhorar a disseminação desses conteúdos; b) opera
legalmente através de sites, blogs e páginas de blogueiros e
simpatizantes direitistas nas redes sociais, que reproduzem as principais
mensagens elaboradas pelos produtores de conteúdo clandestinos e as
misturam com comentários sobre notícias reais sempre do ponto de
vista conservador. Uma boa parte dessa rede encontra-se agora incrustada no
Palácio do Planalto, naquele espaço que se tornou conhecido como
gabinete do ódio
. Um dado importante a se constatar é que muitas dessas páginas
legalizadas chegam a alcançar milhares ou milhões de seguidores e
conseguem, inclusive, se monetizar e receber expressiva soma de recursos
financeiros legais, tanto do governo quanto das empresas privadas, dada a
política de monetização das principais plataformas
digitais.
Fascismo e trabalho sujo para a burguesia
Atualmente, quem são essas figuras políticas dessa nova fase da
ofensiva do grande capital? Eles podem ser figuras toscas como Jair Bolsonaro
no Brasil, Orban, na Hungria, os bandos fascistas da Praça Maidam, podem
ser ainda executivos de grandes corporações transnacionais, como
Elon Musk, ministros como Paulo Guedes ou agitadores nas redes sociais como
Steve Bannon. Em termos concretos, são apenas agentes dos interesses das
classes dominantes que se dispõem a fazer o trabalho sujo para o grande
capital e, especialmente, para os especuladores internacionais e nacionais.
Qual o sentido desse fascismo moderno? O objetivo do fascismo atual, onde uma
de suas faces é o ultra-neoliberalismo atual, ou fascismo de mercado,
é o enquadramento, a disciplina e o aumento da exploração
dos trabalhadores, a destruição dos órgãos de
representação do proletariado e da juventude, a
alienação da maioria da população, de forma a que a
burguesia possa sair da crise colocando todo o ônus na conta dos
trabalhadores, retomar as taxas de lucro e restaurar a ordem capitalista. Os
fanfarrões que se encontram nos governos são personagens menores,
que recebem apenas migalhas em troca do serviço sujo que realizam. Os
grandes lucros ficarão com as classes dominantes. Depois esses
personagens podem ser descartados e até humilhados ou presos por quem os
colocou no poder, isso se não forem justiçados pelo povo como
ocorreu no passado.
Nessa ofensiva desesperada para sair da crise, o grande capital vem combinando
também duas táticas principais: a) realiza uma ofensiva
mundial
para impor a agenda neoliberal em praticamente todos os países
subordinados ou aliados da economia líder, visando estabilizar a
economia, retomar o crescimento econômico, restabelecer as taxas de lucro
e construir uma nova ordem econômica internacional baseada no poder do
setor mais parasitário da oligarquia financeira internacional; b)
se
aliam ou nomeiam para os governos tanto dos países centrais quanto da
periferia líderes populistas, oportunistas ou fascistas para realizar o
trabalho sujo contra os trabalhadores, a juventude e a população
pobre, desmantelar as conquistas sociais duramente conquistadas no passado, as
regulamentações institucionais, bem como desmontar o Estado como
regulador e indutor do crescimento econômico, de forma a que possam
avançar mais facilmente sobre o fundo público.
Em termos concretos, quais as principais medidas das políticas
neoliberais que estão sendo implementadas e quais os argumentos para
justificá-las? Os neoliberais costumam argumentar que os Estados
estão quebrados financeiramente, que os custos com os
funcionários e com os gastos sociais e previdenciários são
muito elevados. Que as regulamentações distorcem as leis do
mercado, estabelecem privilégios e que a intervenção do
Estado na economia impede que o mercado possa alocar de forma mais racional e
eficiente os investimentos. Numa situação dessa ordem é
necessário reformular o papel do Estado e acabar com os déficits
e descontroles das finanças públicas porque, do contrário,
a inflação explodirá e desorganizará a economia.
É fundamental ainda a retirada do Estado da economia, tanto como indutor
do crescimento econômico quanto como regulador dos direitos sociais, bem
como é necessário uma forte política de
privatizações do patrimônio público, com a venda das
empresas para a iniciativa privada, que é mais racional e eficiente.
A partir desses pressupostos, defendem a necessidade da austeridade fiscal,
mediante um conjunto de leis e regulamentos que impeçam os governantes
de gastar mais do que for arrecadado (no Brasil a lei do teto dos gastos),
além do enxugamento da máquina pública, com a
demissão de funcionários, redução de
salários e precarização de direitos. Isso deve ser
realizado mediante um conjunto de reforma nas quais se destacam: a reforma da
previdência, que deverá aumentar a idade de aposentadoria das
pessoas e reduzir os custos para o Estado. De preferência que as pessoas
façam uma poupança para a própria aposentadoria; a
redução dos gastos sociais, especialmente aqueles ligados a
políticas universais que possam ser entendidos pela
população como direitos conquistados; reforma administrativa, com
quebra da estabilidade, redução de salários e
transformação da máquina pública num instrumento a
serviço das oligarquias. Para a área privada da economia,
é fundamental a desregulamentação da economia,
especialmente, para o setor financeiro; e a reforma trabalhista, com a
liquidação dos direitos e garantias, desestimulo à
atividade sindical e um conjunto de regras para quebrar a solidariedade no
chão da fábrica.
Em outras palavras, as políticas neoliberais impõem uma ordem
econômica regressiva, com aumento da taxa de lucro dos capitalistas e a
concentração da riqueza, redução da massa de
salários, aumento da pobreza, da precarização do trabalho
e da miséria dos setores mais pobres da população. Como
eles sabem que essas políticas significam uma declaração
de guerra contra os trabalhadores e que haverá forte resistência
popular, torna-se também fundamental restringir as liberdades
públicas e criminalizar os movimentos sociais. Está assim aberto
o caminho para a repressão aberta contra os trabalhadores, os movimentos
grevistas e às manifestações nas ruas. Em muitos casos,
quando essas manifestações fogem do controle, os governos
recorrem a bandos fascistas para agredir dirigentes sindicais e
políticos, espalhar o terror nas manifestações das ruas e
perseguir a esquerda em geral. Por isso, estamos observando cotidianamente uma
incompatibilidade cada vez maior entre o neoliberalismo e a democracia formal,
bem como as constantes restrições aos direitos de
organização, mobilização e greve. O capitalismo,
nessa fase atual de decadência, já não consegue mais
conviver com a própria legislação que ele criou.
Uma agenda para derrotar o fascismo
Antes de tudo, é necessário compreender o sentido dessa
conjuntura. Apelar para o fascismo não significa que o grande capital
esteja mais forte: pelo contrário, representa um prova concreta da
gravidade da crise e da grande decadência do capitalismo. Se o sistema
estivesse forte, como em momentos anteriores, quando exercia sua hegemonia com
o consenso da grande maioria da população, não era
necessário romper com os próprios postulados institucionais que
lhe proporcionavam legitimidade. A aliança aberta com o fascismo
é prova do desespero das classes dominantes globais e da
decadência cada vez maior do sistema imperialista mundial, bem como do
medo dos levantes sociais e do socialismo, um fantasma permanente que perturba
corações e mentes dos capitalistas.
O apelo permanente a notícias falsas demonstra também que nessa
fase as classes dominantes só conseguem se impor mediante as
fake news,
um recurso desesperado de quem não tem mais nada a oferecer à
humanidade a não ser a falsificação permanente da
realidade. As duas crises que se abatem sobre o sistema capitalista (a
sanitária e a crise sistêmica) podem ter consequências
bastante graves, tanto do ponto de vista econômico quanto social, afinal
crises dessa magnitude sempre provocaram mudanças profundas na ordem do
capital. Se a essa conjuntura avaliarmos que estamos diante de um ambiente
social inflamável, poderemos prever grandes lutas e mudanças no
pós-pandemia. Aliada a essas dificuldades, surge um novo problema:
a disputa contra a China, que emerge na geopolítica mundial como
um contraponto real à hegemonia mundial dos Estados Unidos. Tudo isso,
nos leva a crer numa intensificação da violência e da
repressão por parte das classes dominantes e seus governos.
Como o Brasil é parte do sistema capitalista mundial e como
também sofre os impactos dessas crises, além das singularidades
da própria crise nacional, poderemos prever que em nosso País
teremos também um acirramento da luta de classes e uma disputa cada vez
mais intensa entre as forças populares e democráticas, o grande
capital e os fascistas. Entendemos que é fundamental não
subestimar nem temer os fascistas. Eles sempre procuram parecer maior do que
realmente são, mostrar uma agressividade maior do que têm
condições de realizar e fazem mais ameaças do que
realmente podem concretizar. Mas não podemos vacilar um segundo sequer
contra os fascistas, nem nos intimidar contra suas ameaças e
fanfarronices. Quanto mais nos intimidarmos, mais eles se tornarão
ousados e se sentirão fortalecidos para atingir seus objetivos.
Não se pode também esquecer a dimensão paramilitar do
fascismo. Por isso, a luta das forças classistas e
revolucionárias não deve se restringir apenas aos espaços
institucionais, como os discursos nos Parlamentos e notas políticas das
instituições. Isso é importante, mas não
detém os fascistas. O que efetivamente pode deter os fascistas é
a luta organizada dos trabalhadores, da juventude e da população
pobre nas ruas, nos locais de trabalho, moradia e estudo. Só a
organização e mobilização do proletariado e seus
aliados serão capazes de mudar a correlação de
forças e derrotar os fascistas.
No que se refere especificamente ao Brasil, também não podemos
nos enganar: Bolsonaro é um fascista e só não conseguiu
implantar um regime fascista no País em função da
resistência da população e de vários setores
institucionais e democráticos. Mas ele conspira permanentemente contra
as liberdades democráticas e seu recuo em alguns momentos da conjuntura
é por temor ao seu envolvimento em relação às
investigações sobre seu passado e sua família, como no
caso Queiroz, suas ligações com as milícias e mesmo o
temor de um impeachment. Bolsonaro tem como objetivo a
implantação de um regime autoritário: é uma
espécie de escorpião com DNA fascista e tão logo se sinta
fortalecido voltará novamente à ofensiva. Por isso, a nossa luta
deverá envolver duas táticas principais: a) unidade de
ação com todas as forças que estejam objetivamente lutando
contra o fascismo e sua política de terra arrasada; b) no interior dessa
luta, organizar de maneira firme as forças classistas, que são as
mais consequentes e mais determinadas na luta não só contra os
fascistas mas também na batalha pela emancipação dos
trabalhadores.
A luta política contra o fascismo, para colocar em movimento a grande
maioria da população, envolve um trabalho de base nas
fábricas e outros locais de trabalho, nos bairros, nas escolas e
universidades. A militância classista deve arregaçar as mangas e
se vincular às entidades de massa em todas as instâncias, bem como
construir, onde for possível, novas instituições de luta
que correspondam ao estado de ânimo das massas. Não podemos
esquecer que o proletariado e seus aliados são a nossa principal
proteção e, ao mesmo tempo, nossa principal trincheira contra o
fascismo. É imprescindível nesse trabalho que as forças
classistas construam também um programa estratégico para disputar
com a burguesia e com os setores vacilantes e conciliadores os rumos do
País no pós-pandemia. Um programa que seja uma alternativa clara
para a crise: que responda, ao mesmo tempo, às questões
cotidianas da população, mas que aponte no sentido da
construção de um futuro diferente para os trabalhadores, a
juventude e a população pobre das periferias, na perspectiva do
poder popular e do socialismo.
Como os fascistas combinam a luta política, a mentira e a
violência contra seus adversários, temos que estar preparados para
todo tipo de conjuntura nessa luta. Por isso, é fundamental desenvolver
também um trabalho paciente mas determinado de construção
da autodefesa das massas, a partir dos sindicatos, das
organizações populares nos bairros, no movimento da juventude e
no movimento popular em geral. Criar as brigadas de segurança que tenham
capacidade efetiva de garantir as manifestações, a integridade
dos manifestantes e dos dirigentes políticos, alvos principais dos
fascistas, e com disposição para derrotá-los nas ruas. A
organização das forças de nosso campo é
fundamental, pois cada vitória tanto no campo político quanto em
outras áreas, será importante para levantar a moral das
forças antifascistas, estimular novos lutadores e entrarem na luta e,
especialmente, mostrar para os fascistas que não os tememos e podemos
vencê-los.
Só uma estratégia desse porte, com formulação
teórico-prática e organização política,
será capaz de atrair os trabalhadores, a juventude e o povo pobre das
periferias e os setores vacilantes e descontentes com a conjuntura, para o
programa popular e classista. Essa é a condição não
apenas para derrotar o fascismo, mas para abrir caminhos para a
construção da sociedade da abundância e da felicidade
humana, que é a sociedade socialista.
11/Outubro/2020
[*]
Secretário-geral do PCB, doutor em economia pela Unicamp, com
pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
mesma instituição. É autor, entre outros de
A globalização e o capitalismo contemporâneo
(Expressão Popular, 2008),
A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil
(Edições ICP, 2013) e
Reflexões sobre a crise brasileira
(Edições ICP, 2020), além de vários ensaios e
artigos públicos no Brasil e no exterior.
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