Governo Lula e banqueiros brasileiros contribuem para a
espoliação do povo grego
por Renato Nucci Junior
[*]
O povo grego tem protagonizado, nas últimas semanas, uma luta
heróica contra as medidas aprovadas a toque de caixa por seu parlamento,
dirigido pelos social-democratas do PASOK, para receber ajuda financeira
internacional que retire o país da crise. As exigências impostas
pela União Européia e o FMI para que a Grécia tenha acesso
ao pacote de "ajuda" da ordem de 110 mil milhões de euros
são duríssimas e quem pagará a conta é o povo
grego. Elas incluem a redução dos salários, corte nas
aposentadorias, ataque aos serviços públicos, aumento dos
impostos e a retirada de direitos sociais e trabalhistas.
Esse imenso volume de recursos servirá para que o governo grego
faça frente ao pagamento de sua dívida, de mais de 270 mil
milhões de euros, cerca de 115% do seu PIB. O dinheiro que se pretende
emprestar à Grécia servirá para a mesma cumprir suas
obrigações com os especuladores e credores de títulos de
sua dívida pública, que levaram o país à
falência. Em suma, sacrifica-se o povo grego, com um corte de 30 mil
milhões de euros em seus gastos públicos até 2012, para
que meia dúzia de ricaços tenham os seus lucros garantidos.
É contra essa tentativa de fazê-los pagar pela crise que os
trabalhadores gregos, com destacado papel dos comunistas, tem se mobilizado.
Só nesse ano foram sete greves gerais com ampla adesão de massa.
O temor de que a crise grega se alastre e torne ainda mais demorada a
recuperação econômica mundial, tem mobilizado os
esforços das principais potências capitalistas. A União
Européia aprovou um pacote de ajuda de 750 mil milhões de euros,
o equivalente à metade do PIB brasileiro. O próprio FMI
disponibilizará cerca de 250 mil milhões. Tudo em nome da
manutenção de um modelo econômico cuja fatura, em termos de
ajuste das contas públicas, implicará em novos ataques aos
direitos dos trabalhadores em todo o mundo.
O Brasil também participa desse esforço mundial para conter a
crise grega. O governo Lula anunciou na última sexta-feira, 7 de maio,
que fará um aporte de 286 milhões de dólares ao FMI para
ajudar a debelar a crise. Esse volume de recursos não representa sequer
1% do total de recursos do Fundo destinados à Grécia, de 30 mil
milhões de euros. Trata-se de um aporte pequeno se comparado ao volume
total. Porém, o que mais importa não é o tamanho da
contribuição, mas o gesto em si.
O aporte ao FMI mais uma vez sinaliza o compromisso do governo Lula com a
manutenção de um modelo econômico, baseado na lógica
financista e especulativa. Motivado por essa lógica, a
intenção do governo nesse aporte de recursos serve tanto para
manter o bom funcionamento do capitalismo, como também salvar os
interesses dos bancos privados brasileiros. Questionado se o Brasil teria
títulos da dívida grega, o ministro da Fazenda, Guido Mantega
declarou "que alguns bancos privados brasileiros podem ter esses
papéis, mas em um percentual baixo" (
Folha de São Paulo,
08/05/2010).
Independente do percentual que os bancos brasileiros possuem de títulos
da dívida grega, reafirmamos que o mais importante é o gesto em
si. E novamente, com tal gesto, o governo Lula, como faz desde o seu primeiro
mandato, não confronta os interesses dos banqueiros brasileiros, cujos
lucros em 2009, mesmo com a crise econômica, foram de R$ 23 mil
milhões, 26% a mais do que no ano anterior. Um lucro obtido na base de
juros extorsivos, de taxas de serviços abusivas e de uma
exploração brutal sobre os bancários. Como a
espoliação do povo brasileiro não é suficiente para
ampliar a acumulação de capital, os banqueiros tupiniquins
alçam vôos maiores e se lançam ao mundo, explorando
oportunidades abertas em outros países. Contam nessa empreitada com o
apoio do governo Lula, cujo aporte de recursos ao FMI no caso da crise grega,
destina-se a salvar os seus preciosos lucros. E como sempre ocorre, o recurso
para esse aporte virá dos cofres públicos, mais uma vez usados
para atender grandes interesses privados nacionais. É assim que os
banqueiros brasileiros e o governo Lula, não satisfeitos em explorar o
povo brasileiro, agora contribuem na espoliação do povo grego.
Maio/2010/Campinas.
[*]
Do Comitê Central do
Partido Comunista Brasileiro
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