Operação de blindagem do Banco Central do Brasil
:
"Se ele for separado do poder político, o povo
poderá eleger quem quiser para a presidência que nada
mudará. É um golpe branco."
entrevista de César Benjamin
[*]
à Revista Sem Terra
Revista Sem Terra: Como você analisa a conjuntura internacional deste
início de século?
César Benjamin:
O grande desafio é tentar compreender a profundidade e a estabilidade da
hegemonia estadunidense. Há interpretações diversas sobre
isso. Alguns afirmam que é uma hegemonia muito firme, pois os Estados
Unidos têm uma economia poderosa e controlam a moeda mundial, as armas,
as principais instituições multilaterais e os meios de
comunicação. Outros afirmam que é uma hegemonia em crise,
que desestabiliza o mundo e necessita do uso contínuo da força.
Eu acho que os dois pontos de vista têm alguma razão. O mais
importante é tentar vê-los dinamicamente.
O aprofundamento da hegemonia estadunidense tem tido de fato um efeito
negativo, e às vezes fortemente desagregador, em vastas regiões.
Coincide com uma fase de grande estagnação na América
Latina, uma crise dramática na África e uma enorme instabilidade
no Oriente Médio. Há problemas também nos outros
pólos do mundo desenvolvido: o Japão está em
recessão há mais de dez anos e a Europa não consegue
crescer. Todas essas regiões, em princípio, teriam interesse em
uma nova ordem, embora não se veja bem como possam reagir. Mas é
preciso reconhecer que a ordem estadunidense ainda abre espaços para o
crescimento do Leste da Ásia, que é a atual área
dinâmica do sistema-mundo, onde está situado o grande Estado em
ascensão, a China. O gigantesco déficit comercial dos Estados
Unidos, sustentado em última análise com a emissão de
dólares, é o grande gerador de demanda mundial, e esse mecanismo
tem sido aproveitado especialmente pelos asiáticos. Aí há
uma dinâmica muito interessante em curso. Creio que ela será
determinante para o desdobramento da situação mundial.
Revista Sem Terra: Como você imagina a evolução dessa
relação
dos Estados Unidos com a Ásia?
César Benjamin:
Se a China mantiver suas taxas de crescimento atuais por mais uns quinze anos,
seu produto interno bruto se aproximará muito do produto dos Estados
Unidos, podendo até ultrapassá-lo. Esse cenário
contém uma ameaça à hegemonia militar estadunidense. Se a
capacidade produtiva de ambos os países ficar no mesmo patamar, os
investimentos militares chineses poderão equiparar-se aos investimentos
dos Estados Unidos. Se levarmos em conta que a Ásia abriga também
as grandes economias do Japão e da Índia, podemos ver que o jogo
se tornaria muito mais complicado.
Revista Sem Terra: O que isso quer dizer?
César Benjamin:
Por motivos geopolíticos, e não especificamente econômicos,
os Estados Unidos terão de bloquear o crescimento chinês. Isso
significa bloquear o crescimento de todo o Leste da Ásia, pois hoje a
economia chinesa é, de longe, o mais importante centro cíclico da
região. Falando de forma muito simplificada, o arranjo atual é o
seguinte: o déficit dos Estados Unidos cria demanda para as
exportações chinesas, e o superávit chinês ativa as
demais economias asiáticas. No momento em que os Estados Unidos tiverem
de bloquear o crescimento chinês, a hegemonia estadunidense
passará a ter um papel desagregador na área dinâmica do
sistema-mundo, cujo potencial de resposta não deve ser subestimado. O
Estado chinês sabe que elevadas taxas de crescimento serão, por
muito tempo, condição necessária para manter a
estabilidade interna no seu país. Ele terá de responder duramente
à nova situação. Não se deixará desconstruir
passivamente.
Revista Sem Terra: Como ele poderia reagir?
César Benjamin:
Ele já está reagindo preventivamente, com muita
competência, evitando um confronto prematuro e ampliando parcerias no
mundo inteiro. E tem vários trunfos na mão. Quem ainda sanciona o
papel do dólar como moeda mundial são os asiáticos. A
China, por exemplo, tem US$ 600 mil milhões em reservas. Se se desfizer
de 20% disso, o padrão dólar naufraga. Por outro lado, um arranjo
monetário que englobasse algumas economias asiáticas importantes,
em um mundo em que o euro já está presente, afirmando-se
gradativamente como moeda de reserva, também abriria uma
situação nova, com o dólar sendo remetido à
condição de uma moeda regional, entre outras. Em qualquer desses
casos, a economia estadunidense teria de fazer um ajuste recessivo numa escala
até hoje desconhecida, inaceitável para os padrões da sua
sociedade. Desapareceria o efeito-riqueza decorrente do controle da moeda
mundial. Este ajuste, por sua vez, jogaria a economia mundial em
depressão, atingindo fortemente a própria China... Como se
vê, é um quadro muito complicado, em que os interesses dos grandes
atores são ao mesmo tempo complementares e divergentes.
Revista Sem Terra: Como esse quadro tende a evoluir?
César Benjamin:
Ainda vivemos uma conjuntura em que há mais convergência do que
divergência entre os dois grandes pólos, os Estados Unidos (o
pólo maduro) e o Leste da Ásia (o pólo em
ascensão). Mas o tempo conspira contra isso. Se, em algum momento, a
divergência predominar, a conjuntura mundial mudará, talvez
dramaticamente. Os que dizem que já vivemos em instabilidade e crise
verão o que é uma verdadeira situação de
instabilidade e crise. Isso, como eu disse, poderá ocorrer nos
próximos dez anos.
Não afasto a hipótese de um novo arranjo, e acredito que os
melhores estrategistas dos Estados Unidos e da China estão envolvidos na
tentativa de encontrá-lo. Essa gente é treinada para pensar muito
na frente. Mas, neste momento, ele não está claro. Quanto
à hipótese de um confronto, o estopim pode ser a questão
de Taiwan. A China aprovou uma lei que exige ação militar contra
Taiwan em caso de declaração de independência. Em
Washington, uma outra lei obriga os Estados Unidos a defenderem Taiwan em caso
de intervenção. Se algum dos lados decidir que chegou a hora do
confronto, o pretexto está ao alcance da mão. Nos próximos
anos, esse lado só poderá ser os Estados Unidos, pois a China
ainda quer ganhar tempo.
Revista Sem Terra: Como a Guerra do Iraque entra nesse cenário?
César Benjamin:
O Iraque está mostrando que a hegemonia militar também tem
limites. Os Estados Unidos são capazes de destruir um Estado não
detentor de armas nucleares, um sistema produtivo, uma rede de infra-estrutura,
praticamente sem sofrer perdas, mas não são capazes de ocupar uma
sociedade que não lhe oferece base política interna para isso.
Eles não conseguirão ficar dentro do Iraque, expostos à
ação de uma resistência legítima e crescente.
Já estão terceirizando a guerra, aumentando o recrutamento de
mercenários ou de gente pobre na América Central e na
África. Esse aspecto lembra um pouco a fase final do Império
Romano. Quando Roma caiu, há muito tempo os romanos não lutavam.
Contratavam soldados entre os povos conquistados.
Os Estados Unidos já devem ter percebido que Saddam Hussein era um homem
deles. Pois, quando eles tiverem de sair do Iraque, o caminho ficará
aberto para formar-se uma vasta área predominantemente xiita que vem do
sudoeste da Ásia até a fronteira da Arábia Saudita. O
regime de Saddam é que impedia isso. Parece-me claro que, diante da
deterioração da situação no Iraque, os Estados
Unidos vão bombardear instalações estratégicas do
Irã, para fazê-lo regredir tecnologicamente e ter de dedicar-se
durante muitos anos à própria reconstrução. Por
isso já colocaram o Irã dentro do eixo do mal.
Revista Sem Terra: Já se pode ver alguma alternativa ao poder militar
dos Estados Unidos?
César Benjamin:
Os Estados Unidos se manterão por muito tempo como a superpotência
militar. Pois, ao contrário do que se pensa, o fator decisivo no
equilíbrio do poder mundial não é o controle das grandes
massas terrestres, mas sim o controle dos oceanos, que é o que permite
controlar o deslocamento de grandes cargas (inclusive as matérias-primas
estratégicas) e projetar força. Quem controla os oceanos tem
poder de veto sobre os fluxos que movem a economia mundial e tem capacidade de
deslocar suas próprias forças para qualquer região do
planeta. Esse controle está solidamente colocado nas mãos dos
Estados Unidos. Construir uma marinha de guerra de alcance mundial, centrada em
porta-aviões e submarinos movidos a propulsão nuclear, é
um empreendimento caríssimo e de longo prazo. Nenhum outro Estado, neste
momento, pode trilhar esse caminho. Quando a antiga União
Soviética começou a fazer isso, os Estados Unidos a
atraíram para uma guerra terrestre no Afeganistão, no interior da
Ásia, para mudar o foco do esforço militar soviético. Foi
um lance de gênio.
Os grandes países asiáticos são por natureza
potências terrestres, seja pela massa territorial e demográfica do
continente, que eles precisam gerenciar e controlar, seja pelos seus enormes e
complexos contenciosos internos. Os Estados Unidos, por sua vez, só
têm dois vizinhos, que não o ameaçam. Do ponto de vista
geopolítico, são uma ilha. Podem construir forças armadas
totalmente desenhadas para projeção de força, sem
preocupações defensivas territoriais relevantes. O
Exército estadunidense é fraco. Fortes são a
Aeronáutica e a Marinha, que fazem bombardeios e desembarques. Mas, se
eles não conseguem manter ocupado um país pequeno e pouco povoado,
como o Iraque, muito menos conseguirão fazer isso num país
asiático relevante. A hegemonia militar, repito, tem
limitações. O que decide o processo são as
condições políticas internas de cada sociedade.
Revista Sem Terra: E a possibilidade de guerra nuclear?
César Benjamin:
No atual estágio tecnológico, os arsenais nucleares não
são tão importantes em termos de ação ofensiva,
porque apenas neutralizam os arsenais dos outros. As armas nucleares são
feitas para não serem usadas. Uma pequena potência nuclear, como a
Coréia do Norte, consegue paralisar a máquina de guerra dos
Estados Unidos.
Revista Sem Terra: Nesse cenário, o que o Brasil pode fazer?
César Benjamin:
Não pode fazer muito. Tem de preservar sua capacidade de agir, que
é pequena e reduziu-se na última década, e tentar aumentar
seus graus de liberdade. Historicamente, eles aumentam quando a hegemonia
mundial está em disputa: obtivemos [a siderurgia de] Volta Redonda em
plena crise que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Nossa margem de manobra
pode aumentar também se a América do Sul assumir um projeto
próprio. É um continente com enorme potencial. Os Estados Unidos,
com a Alca, o Plano Colômbia e outras iniciativas, pretendem consolidar
sua hegemonia regional e nos encaixar solidamente em uma subárea sob seu
controle, que no futuro poderá vir a ser a área do dólar.
Mas um eixo formado por Venezuela, Brasil e Argentina, constituído de
forma consistente, apresentaria uma alternativa de aglutinação. A
complementaridade das economias é enorme. A Venezuela é o segundo
país mais importante do mundo em recursos energéticos, só
atrás da Rússia. A Argentina tem uma agricultura
fortíssima. Dos dez países mais bem dotados em recursos
biológicos, seis estão na Amazônia. Temos gás,
petróleo, minérios, capacidade de geração
elétrica, água, terras, insolação abundante. Nossos
povos podem construir com facilidade uma identidade comum. Um projeto
sul-americano é necessário e viável. O Brasil tem um papel
central nisso. É a maior economia do continente, faz a ponte
geográfica, tem um grande mercado, a base industrial mais completa, boa
capacidade técnica. Mas ainda não assumiu de fato o seu papel.
Revista Sem Terra: Como você vê a ação do governo
argentino no caso da sua dívida externa?
César Benjamin:
Até o início da década de 1990, os papéis das
dívidas externas dos países latino-americanos estavam
concentrados nas mãos de poucos grandes bancos, que acabaram ficando
muito expostos. Isso se tornou um problema para eles. Créditos
considerados duvidosos geravam grande incerteza, e eventuais moratórias
implicavam perdas consideráveis. Mas, ao mesmo tempo, aquela
situação conferia grande poder de pressão a esses mesmos
credores. Oito ou dez grandes bancos sentavam em torno de uma mesa, definiam
posições comuns, telefonavam para o secretário do Tesouro
do governo dos Estados Unidos e, a partir daí, pressionavam fortemente
cada devedor. Os credores eram frágeis economicamente, mas fortes
politicamente. Aproveitaram-se disso para impor condições
duríssimas aos nossos países.
Com as renegociações, na primeira metade da década de
1990, as dívidas foram securitizadas, ou seja, pulverizadas em milhares
de pequenas dívidas cujos papéis passaram a ser negociados nos
mercados secundários. Os grandes bancos deixaram de ficar expostos, mas
ao mesmo tempo os credores se fragilizaram politicamente. Agora são
milhares, dispersos, anônimos, cada um com um pedacinho das
dívidas. Não podem mais formar um cartel. Com a Argentina
já em moratória, Kirchner compreendeu que era a hora de dar o
troco. Repudiou de vez os papéis velhos e propôs a troca deles por
papéis novos, com cerca de 25% do valor dos anteriores. Obteve um enorme
êxito. Afinal, é melhor receber 25% do que nada. Terminada a
operação, curiosamente, a Argentina passou a obter uma
classificação de risco melhor que a do Brasil, que vem pagando
tudo religiosamente...
Revista Sem Terra: E a política externa do governo brasileiro?
César Benjamin:
Lula gosta de fazer afirmações bombásticas: Vamos
reconstruir a geografia comercial do mundo, ou Vamos fazer uma
parceria estratégica com a China. Parte da esquerda adora isso,
mas os profissionais sabem que é tudo uma imensa bobagem. O Brasil
não tem peso para refazer geografia comercial nenhuma nossa
participação no comércio internacional gira em torno de 1%
--, e se quisesse fazer uma parceria estratégica com alguém
especialmente com a China nunca deveria anunciar isso
prematuramente. Talvez não devesse anunciar nunca.
Não teremos política externa forte se não tivermos
controle sobre nossa própria base produtiva, capacidade de defesa,
estoques estratégicos de alimentos e de matérias-primas
essenciais, capacidade de produzir nossas sementes e remédios, alto grau
de cidadania, e assim por diante. Esse conjunto de condições
é vital para podermos tomar decisões com uma boa margem de
autonomia. Sabotar tudo isso dentro do Brasil e transformar a política
externa numa
griffe
é pura demagogia. Quando o nosso governo sai da retórica para a
ação é um desastre, como mostra a
intervenção no Haiti. Os argentinos, aliás, acusam o
governo Lula de ter atuado para que a reestruturação de sua
dívida não desse certo. Os representantes do Brasil no FMI e em
outras instituições atacaram a proposta argentina, talvez porque
ela deixasse exposto o nosso servilismo diante dos mesmos credores.
Revista Sem Terra: Que avaliação podemos fazer do governo Lula
como um todo?
César Benjamin:
Lula governa há mais de dois anos e não foi capaz de apresentar
ao país nenhuma grande idéia, daquelas que marcam uma
época e cuja influência se projeta para o futuro. A marca do seu
governo, antes de tudo, é a mediocridade.
A política interna do Brasil continua a ser feita dentro da mesma
estrutura conservadora que prevaleceu nos governos anteriores. Forças de
natureza supranacional, representantes dos nossos credores internos e externos,
ocupam o Banco Central e o Ministério da Fazenda. A partir dessas
posições, manejando as políticas monetária, cambial
e fiscal, bem como a execução do orçamento, controlam e
subordinam a ação de todo o Estado brasileiro. As demandas de
natureza subnacional se expressam no Legislativo, onde são negociadas
caso a caso, na margem, de acordo com a necessidade de
composições políticas em cada momento. E o povo pobre
recebe as migalhas das políticas compensatórias. Lula opera
dentro dessa mesma estrutura de organização do poder,
radicalizando todos os seus aspectos.
Revista Sem Terra: Não há atenuantes?
César Benjamin:
Alguns companheiros dizem que a conjuntura nacional e internacional é
muito difícil. Outros dizem que Lula ainda não conseguiu
governar. Outros centram sua crítica na política econômica,
como se ela fosse um enclave conservador dentro de um governo progressista.
Tudo isso é escapismo. O governo Lula fez uma opção
ideológica conservadora, embora contenha dentro de si alguns enclaves
progressistas, como quase sempre ocorre em qualquer governo. Isso pode ser
reconhecido na agenda que vem cumprindo com alterações
retrógradas na Previdência, na legislação
trabalhista, na organização sindical; com seu apoio ao
agronegócio e aos transgênicos; com o pagamento de juros
indecentes aos que vivem de rendas e na relação com o
povo. Depois de mais de dois anos de um governo supostamente de esquerda,
deveríamos esperar que o povo brasileiro estivesse mais informado, mais
mobilizado, mais consciente, mais preparado para a luta, mas o que vemos
não é isso. Nenhum discurso de Lula está voltado para
construir a força social transformadora. Nenhum desperta novas
consciências e novos valores. Nenhum mobiliza. Ao contrário. Ele
age sistematicamente para desmoralizar as forças progressistas e
enfraquecer o mundo do trabalho, enquanto diz ao povo: espere, não
faça nada, no fim eu vou dar conta de tudo. É chocante a
diferença, por exemplo, com os pronunciamentos de Chávez ou de
Fidel aos seus povos. Cada pronunciamento de um desses líderes tem forte
conteúdo dialógico e pedagógico. São chamamentos
à consciência, à organização, aos valores,
à colocação do povo como protagonista de sua
própria história.
Revista Sem Terra: A eleição de Lula não foi uma
demonstração de avanço do povo brasileiro?
César Benjamin:
Não. Resultou da mesma operação política que vem
desde Collor, que liga os de cima com os de baixo.
Revista Sem Terra: Explique isso melhor.
César Benjamin:
A Constituição de 1988 manteve o presidencialismo, garantiu
liberdade de organização e ampliou enormemente o contingente
eleitoral do país, principalmente em direção aos pobres
(com o voto dos analfabetos, por exemplo) e aos jovens (com o voto aos
dezesseis anos). Nunca tivemos um eleitorado tão amplo, tão
representativo da nação como um todo, o que, em tese, deveria
favorecer as forças da mudança. Paradoxalmente, porém,
desde 1989 temos uma sucessão quase linear de políticas
anti-sociais e antinacionais, sempre referendadas pelo voto popular.
Para entender isso é preciso desvelar as operações
políticas que ligam, numa ponta, a grande burguesia nacional e
internacional e, na outra, o povo mais pobre, aquele que decide as
eleições. Collor inaugurou isso no terreno simbólico.
Fernando Henrique deu seqüência com o Plano Real, que permitiu uma
convergência momentânea desses interesses tão
díspares. Mas esses casamentos dos mais ricos com os mais pobres acabam
sempre em frustração e em divórcio. Não geram uma
estrutura política estável. A operação tem de ser
refeita periodicamente, com nova roupagem. Hoje, Lula é quem faz essa
ligação. Oferece R$ 140 mil milhões em juros para os mais
ricos e R$ 10 mil milhões, pulverizados, em bolsa-família para os
mais pobres. Ele será tolerado pela burguesia enquanto cumprir bem esse
papel. Depois será defenestrado. Quando se desgastar, um novo arranjo
político será apresentado ao povo brasileiro, para que tudo
continue na mesma.
Revista Sem Terra: Tudo continuará na mesma?
César Benjamin:
Acho que não. Essa sucessão de arranjos é intrinsecamente
instável, e por isso o sistema político brasileiro, como um todo,
é instável também. Se o sistema que nasceu na Constituinte
de 1988 for mantido eu não tenho certeza de que será
, é questão de tempo que o povo brasileiro coloque um
reformador na presidência. Por isso está em curso uma
operação de blindagem, cujo aspecto principal é a
concessão de autonomia legal ao Banco Central, que é, de longe, o
principal órgão formulador e executor de política
econômica. Se ele for separado do poder político, o povo
poderá eleger quem quiser para a presidência, que nada
mudará. É um golpe branco.
Revista Sem Terra: E quanto às expectativas de reeleição
de Lula?
César Benjamin:
Para mim, são incertas. Não creio que Lula venha a ter um final
de mandato tranqüilo. A Presidência da República é uma
instância muito complexa, para onde convergem todas as demandas e
interesses. Só se gerencia bem a Presidência quando existe um
projeto, legitimado pela Nação, que sirva de eixo ordenador das
negociações e imponha limites aos apetites de cada parte. Lula
abriu mão de um projeto e passou a fazer política no varejo,
atendendo ou deixando de atender cada interesse conforme as pressões do
momento, agora cada vez mais ponderadas pela grande meta da
reeleição, a única que de fato interessa ao grupo
hegemônico do PT. Com o tempo, o governo está se tornando
inconfiável para todos. Ninguém governa dois anos, desse jeito,
sem crise.
Revista Sem Terra: Então, que fazer?
César Benjamin:
Nossa tarefa é impedir a reprodução da aliança
espúria dos mais ricos com os mais pobres, a que me referi, seja qual
for a forma que ela vier a assumir. E encontrar o caminho político que
viabilize a aliança do mundo do trabalho e da cultura com os mais
pobres. Poderemos formar assim uma maioria política e moral de novo
tipo, o bloco histórico de que a nação necessita para sair
da crise. Apesar das aparências, isso é perfeitamente
possível. Quando a necessidade existe, imperiosa, a coisa tende a
acontecer.
Abril/2005
[*]
Analista político. Autor de
A opção brasileira
, Ed. Contraponto, Rio de Janeiro, 208 pgs., ISBN: 85-85910-19-4
O original encontra-se na
Revista Sem Terra
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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