A crise grega, o desastre da chamada "esquerda radical" e as
carpideiras neoreformistas no Brasil
As crises têm um significado profundamente pedagógico para as
sociedades. Quanto maior a crise, mais se aproxima o momento da verdade para
todos: Estado, governos, instituições públicas e
privadas, partidos políticos, movimentos sociais. À medida em
que a crise se acirra, vai-se fechando o espaço para o oportunismo, a
demagogia, as manipulações, as meias verdades, as falsas
promessas, as soluções de compromissos, os pactos sociais. A
crise não permite que ninguém fique em cima do muro. Cada
instituição ou liderança é obrigada a se mostrar
por inteiro, dizer com voz alta o que pensa, expor-se à luz do sol sem
proteção.
As crises também são momentos em que chegam à
superfície de maneira explícita todas as
contradições da sociedade. As pessoas começam a perceber
claramente aquilo que antes estava ofuscado pela manipulação dos
meios de comunicação e pela viseira ideológica repetida de
maneira contumaz pelas classes dirigentes. Outro grande ensinamento das crises
também é o fato que nesses períodos os trabalhadores
aprendem em dias de luta muito mais que em anos de calmaria, pois as
manifestações, as greves, as batalhas nos locais de trabalho, nos
bairros, nos locais de estudo e lazer ensinam muito mais que o aprendizado
formal que obtiveram ao longo da vida.
Além disso, as crises representam os períodos mais tensos da luta
de classes. Nesses períodos, os atores envolvidos no processo não
podem agir como jogadores de pôquer: nestes momentos não há
espaço para blefes! Nesse sentido, a crise atual é tão
grave, profunda e devastadora que não permite soluções de
compromisso, como nos velhos tempos da social-democracia clássica,
quando o crescimento do capitalismo nos anos dourados keynesiano possibilitava
algumas vantagens para os trabalhadores em troca da colaboração
de classe e da paz social. Agora, essa rota de fuga foi cortada pela gravidade
da crise. Com a crise e a desaparição da âncora
soviética, o capitalismo voltou a seu estuário original de rudeza
explícita: exploração, miséria e pobreza.
Essa é a tragédia do SYRIZA, a nova social-democracia fantasiada
de "esquerda radical". Esse partido, em função do seu
caráter de classe, dos seus objetivos estratégicos e de sua linha
política confusa e conciliatória, já entrou derrotado
nessas negociações. Isso porque acreditava, ao contrário
do que vendia demagogicamente para as massas (fim dos memorandos, fim da
austeridade, soberania nacional e resgate do emprego), num acordo com a
Troika (União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco
Central Europeu)
, na vã ilusão de que seria possível conciliar os
interesses dos trabalhadores com a Europa imperialista em crise aguda. Como
já era esperado, mesmo com todas as concessões humilhantes,
não foram aceitos no clube do capital.
Vale lembrar que o momento histórico em que a social-democracia
pontificou entre os trabalhadores era outro e eles levaram cerca de um
século para se desmoralizar. Agora, com a crise, o tempo
histórico para esta novíssima social-democracia eleitoreira se
esgotou. Não há espaço nem para a social-democracia
clássica nem para a social-democracia retardatária. A crise
é tamanha que o capital não pode sequer ceder os anéis ou
proporcionar as migalhas do passado. Para se ter uma ideia do nível de
desespero e degradação do sistema capitalista, recentemente a
chefa do FMI, Christine Lagarde, disse que os anciãos estão
vivendo muito e isso é um risco para a economia global... Nessa
situação, como ceder à mão esquerda, se a
mão direita está vazia.
Todas as organizações que recentemente povoaram o
imaginário dos ingênuos, dos movimentistas, autonomistas,
ongueiros até os anticomunistas fantasiados de vermelho estão
destinadas a seguir o mesmo destino: o descrédito junto à
população. É o
SYRIZA
na Grécia, o
Podemos
na Espanha,
Bloco de Esquerda
em Portugal, o
Partido da Esquerda Europeia
, o
Sinn Fein,
na Irlanda, o
Die Link,
na Alemanha, o
Todos
no Chile, o
PSOL
no Brasil e assim por diante. As carpideiras que hoje derramam lágrimas
de crocodilo no Brasil e em várias partes do mundo diante da
"traição" do SYRIZA deveriam acumular ainda mais
lágrimas, pois esse será o caminho dessas
organizações.
Balaio de caranguejos
Em verdade, o SYRIZA não é nem nunca foi a "esquerda
radical", como os meios de comunicação costumam lhe chamar,
nem a "nova esquerda", como os movimentistas e autonomistas gostariam
que fosse. O SYRIZA é um partido essencialmente reformista, não
se propõe a sair da União Europeia, nem romper com o euro ou
grande capital, quer apenas humanizar o capitalismo. Sua projeção
foi insuflada pelos meios de comunicação, num excelente
serviço de relações públicas para desorientar os
trabalhadores, isolar o verdadeiro inimigo do capital, o KKE (Partido Comunista
Grego) e desmoralizar a esquerda perante as massas, como aconteceu no Brasil
com o
Partido dos Trabalhadores.
Consciente ou inconscientemente o SYRIZA cumpriu esse papel, pois em
política não bastam as intenções: o que
verdadeiramente interessa é a prática.
Para um observador mais atento da conjuntura grega, é importante
assinalar que a própria trajetória do SYRIZA e sua
composição social e ideológica não poderiam
permitir um resultado diferente do que realmente aconteceu. Esta
organização (Sinaspismos Rizospastikis Aristerás
sigla SYRYZA) inicialmente foi formada por dissidentes eurocomunistas do KKE;
posteriormente a esse grupo inicial foram se juntando outras
formações, como ecologistas, maoístas, trotskistas,
sociais-democratas, personalidades de esquerda e até dissidentes do
PASOK, um verdadeiro balaio de caranguejos, cuja organização
principal é o Sinaspismos, à qual pertence Alexis Tsipras.
[1]
Esses grupos todos se reuniram em maio de 2004 e fundaram o SYRIZA. Com a crise
dos partidos tradicionais burgueses, o SYRIZA teve um crescimento
meteórico: em 2004, conseguiu apenas 3,3% dos votos para o Parlamento
grego e seis das 300 cadeiras; em 2007, aumentou esse percentual para 5% e
conseguiu e 14 cadeiras; a partir de 2012 a ascensão foi vertiginosa,
especialmente em função da crise, e também pelo fato de
ser uma esquerda que se dizia "radical", "renovadora",
diferente da esquerda tradicional, o KKE, e que iria acabar com austeridade e
resgatar a soberania grega. Em função dessas singularidades,
obteve uma repercussão extraordinária na mídia, inclusive
nos principais meios de comunicação imperialistas. Em junho de
2012 o SYRIZA obteve 26,9% dos votos e 71 cadeiras. Estava aberto o caminho
para se tornar o partido dirigente do governo grego: finalmente em 2015 o
SYRIZA obteve 36,3% dos votos e 149 cadeiras no Parlamento, duas a menos que a
maioria absoluta.
A partir da vitória eleitoral Tsipras foi empossado como
primeiro-ministro, mas o SYRIZA começou a tomar atitudes aparentemente
estranhas. Surpreendentemente, optou por uma coligação com um
partido nacionalista de direita,
Gregos Independentes
, para compor a maioria parlamentar, quando poderia ter coligado com outras
formações de centro-esquerda no Parlamento. Para esse partido de
direita entregou a pasta da Defesa. Como era começo de governo, muitos
torceram o nariz, mas absorveram a aliança com um mal
necessário, afinal a sociedade grega estaria envolvida agora numa
batalha muito maior que era o fim da austeridade e o resgate da soberania
nacional.
Na verdade, essa aliança era apenas o resultado de um processo que
já vinha se desenvolvendo no interior do SYRIZA há algum tempo,
onde os setores mais conciliadoras ganhavam espaço à medida em
que o partido ampliava sua influência institucional. Seu programa foi-se
modificando, seus dirigentes buscavam se apresentar como políticos
responsáveis, que não tinham intenções de sair da
zona do euro ou da União Europeia ou ainda tomar medidas unilaterais. O
discurso internacional em relação às principais
instituições imperialistas também foi-se amoldando
à ordem: a odiada
Troika
passou a ser chamada de
instituições
, o
memorando
passou a ser denominado de
acordo
e os
credores gregos
obtiveram o grau de
parceiros
. Não era só a forma que estava mudando velozmente. O SYRYZA
não queria a luta, não queria preparar o povo para uma longa e
difícil batalha contra a oligarquia financeira, acreditava que era
possível fazer omelete sem quebrar os ovos ou andar na chuva sem se
molhar.
Além disso, o SYRIZA também se transformou num partido de
personalidades, onde a bancada parlamentar passou a substituir as bases
partidárias. No último Congresso, Tsipras foi eleito presidente
pelo próprio Congresso,
manobra que o transformou num ser intocável, uma vez que só pode
ser destituído cargo, mesmo cometendo os piores erros, por um outro
congresso daqui a três anos. Dessa forma, o Comitê Central passou a
ser um órgão sem qualquer poder de decisão, pois
não pode afastar nem mudar o presidente, a não ser que ele
próprio concorde ou também aceite convocar um congresso
extraordinário. Tsipras se transformou num reizinho jovem, que
não deveria prestar contas para ninguém. Isso se tornou uma
absoluta verdade quando, às vésperas do referendo, 109 dos 201
membros do Comitê Central assinaram um manifesto contra o acordo e mesmo
assim sequer puderam se reunir ou barrar a decisão já tomada por
Tsipras.
Uma rendição sem luta
É importante enfatizar que a crise grega é a síntese das
contradições do capitalismo e do reformismo nesse momento da
história. Mas justiça seja feita: a crise não
começou com o SYRIZA, a crise é do capital e foi aprofundada
pelos governos conservadores precedentes, PASOK, Nova Democracia e outros. Mas
a responsabilidade do SYRIZA está justamente em ter enganado o povo, ter
realizado promessas que não iria cumprir, ter-se rendido covardemente
sem luta, rastejado humilhantemente perante a oligarquia financeira, mesmo
quando 61,3% da população em referendo rejeitaram as medidas de
austeridade, que agora cinicamente o SYRIZA tenta justificar como se fosse uma
fatalidade. Realmente, o memorando acertado por Tsipras é muito mais
danoso ao povo grego que os memorandos anteriores e tão humilhante que
custa acreditar como um personagem que há pouco era festejado como
estrela de primeira grandeza conseguiu se transformar tão rapidamente
num anão político.
É necessário conhecermos os pontos fundamentais do acordo para
avaliarmos a profundidade do desastre e a incoerência do reformismo. 1)
Reforma da Previdência
: o governo se comprometeu a reformar a previdência, com aumento da idade
da aposentadoria para 67 anos e restrições às chamadas
aposentadorias precoces; 2)
Reforma Trabalhista
: revisão dos acordos de negociação coletiva, greves e
demissões em geral e permissão para que o comércio possa
abrir aos domingos; 3)
Reforma Fiscal
: o governo deverá aumentar o Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA)
relativo ao consumo, bem como a ampliação da base
tributária para aumento das receitas. 4)
Reforma da Administração Pública
: redução nos custos da administração e corte
automático dos gastos para se adaptar às metas do
superávit primário. O País terá ainda que reformar
a justiça civil, de forma a adequá-la às normas europeias
e possibilitar o autoresgate dos bancos, preservar a independência do
setor de estatística e aprovar leis que também adaptem o sistema
bancário ao restante da Europa.
Há ainda a maior das rendições: a Grécia
deverá realizar uma privatização generalizada dos ativos
públicos, envolvendo os setores de energia elétrica, transporte,
comunicações e até os pontos turísticos como
várias ilhas gregas. Esse fundo terá titularidade formal grega,
mas será supervisionado pela T
roika,
O resultado financeiro dessas privatizações será
transferido para um
fundo de privatizações
, com o qual os credores europeus esperam arrecadar 50 mil milhões de
euros. Desse total, 75% serão destinados a pagamento da dívida
externa e recapitalização dos bancos e apenas 25% poderão
ser alocados para investimento interno. Para se uma ideia da monstruosidade
dessa medida, basta dizer que as privatizações realizadas
anteriormente pelos governos de direita somaram apenas cinco mil milhões
de euros.
Vale ressaltar que os credores, para humilhar ainda mais os líderes do
SYRIZA, obrigaram a que o Parlamento grego aprovasse as medidas em tempo
recorde (duas rodadas de aprovação já foram realizadas) e
exigiram que todas as reformas fossem supervisionadas pela
Troika
, o que na prática significa que o País está sob a
intervenção da oligarquia financeira e se transformou numa
espécie de protetorado dessas instituições. Também
exigiram a saída do governo do ministro das Finanças, Yanis
Varoufakis, que eles consideravam um negociador difícil, o que
também foi aceito por Tsipras; foi substituído por um outro
ministro mais palatável. O nível de humilhação foi
tamanha que o próprio Varoufakis divulgou o que lhe foi dito por um dos
personagens das negociações: "Você pode até ter
razão no que fala, mas nós vamos esmagá-los".
Em outras palavras, o primeiro-ministro grego vergou a espinha, capitulou de
maneira indigna, abandonou os compromissos com a população e se
transformou num agente consciente da oligarquia financeira contra seu povo.
Isso se tornou mais claro com a votação no Parlamento: 229 a
favor, 64 contra. Como 38 deputados do SYRIZA votaram contra ou se abstiveram
(32 contra, seis abstenções e ainda um deputado faltou à
votação), a aprovação do memorando só foi
possível porque os partidos de direita socorreram o SYRIZA na sua marcha
para a desmoralização. Em outros termos, confluíram para
os mesmos objetivos tanto a chamada "esquerda radical" quanto a
direita que já tinha implementado os dois memorandos anteriores.
Dois novos fatos políticos vieram se juntar a essa conjuntura para
compor o rápido processo de degeneração do reformismo
moderno. O primeiro foi a ação da polícia, sob controle do
governo do SYRIZA, que reprimiu brutalmente os manifestantes que protestavam em
frente o Parlamento contra a aprovação do memorando, sem ficar
nada a dever aos velhos tempos. O segundo é a ação da
liderança do SYRIZA: diante do fato de que alguns ministros e altos
funcionários do governo votaram contra o memorando, resolveram fazer um
expurgo generalizado, afastando do governo todos os ministros e
funcionários que se manifestaram contra a capitulação.
Essas duas medidas, de um lado, abrem espaços para a
implementação de mais concessões e medidas impopulares,
bem como deixa o campo aberto para a repressão generalizada que
virá em função da indignação da
população, que está se sentindo frustrada e traída.
O custo social da rendição
Como enfatizamos anteriormente, a luta de classes não é um jogo
de pôquer: na luta de classes não tem blefe. Desde o início
das negociações, Tsipras e Varoufakis tinham a ilusão de
que seria possível alcançar uma negociação
vantajosa com o Eurogrupo, que era possível uma reforma da União
Europeia a partir de dentro.
Por isso, passaram a fazer um jogo duplo: enquanto acenavam com
concessões ao Eurogrupo e redefiniam os qualificativos para os credores,
o memorando e a
Troika,
internamente faziam um discurso altivo contra a austeridade, em defesa da
soberania nacional e dos trabalhadores, especialmente os mais pobres. O SYRIZA
imaginava que o blefe e a bazofia seriam capazes de dobrar a oligarquia
financeira. Vale ressaltar que as bravatas que falavam internamente não
tinha nenhuma base real: o SYRYZA nunca buscou organizar a
população para a resistência duradoura contra o Eurogrupo.
Mesmo antes do desfecho das negociações, Tsipras já tinha
definido várias concessões, dava mostra de que o seu discurso
interno não era para valer e que não estava disposto ir às
últimas consequências caso os credores resolvessem endurecer. Isso
se tornou mais claro especialmente a partir de uma carta que enviou aos
negociadores aceitando várias medidas da receita de austeridade,
além de entrevistas à imprensa internacional no mesmo sentido.
Parecia um bom menino querendo se mostrar bem comportado perante seus algozes.
Dessa forma, quando os negociadores do grande capital perceberam a fragilidade
do adversário desenvolveram um enredo não só para humilhar
Tsipras e seu governo, mas especialmente para enviar uma mensagem a todos os
povos esmagados pela dívida e pelas políticas predatórias
de que este será o tratamento dispensado a todos os rebeldes e que
também será inútil a rebeldia.
Em outras palavras, a Troika utilizou a incoerência e as ilusões
do reformismo para golpear profundamente a vontade de luta do povo grego,
reduzir as perspectivas de uma rebelião popular e impor um severo
retrocesso social, político e econômico. Realmente, se levarmos em
conta que o País já vinha sendo destroçado pelas
políticas predatórias da oligarquia financeira, o novo pacote de
austeridade, se não houver resistência popular, vai aprofundar a
barbárie. Afinal, o desemprego na Grécia está por volta de
28%, ressaltando-se que entre a população jovem esse
índice atinge cerca de 60%, o rendimento médio caiu cerca de 40%.
[2]
Milhares de funcionários públicos foram demitidos, as
relações trabalhistas desreguladas, as aposentadorias perderam
cerca de 28% de seu poder de compra e mais de 40% das pessoas estão
vivendo abaixo da linha de pobreza. Numa situação dessa ordem,
aumentam os suicídios entre os aposentados. Um deles se enforcou e
deixou um bilhete afirmando estar convicto de que um dia o povo grego vai
reunir forças suficientes para justiçar em praça
pública todos os traidores do País. Essa situação,
que já era dramática, vai se tornar ainda pior com as novas
medidas aprovadas no Parlamento. O reformismo demonstrou não estar
à altura das tensões da luta de classes nem à altura da
vontade do povo grego.
Todavia, o mais dramático é que a rendição aprovada
pelo Parlamento grego não irá funcionar. Pelo contrário, a
dívida grega, que era de 124% do PIB no início da crise já
está por volta de 180% do PIB e crescerá ainda mais e
rapidamente, podendo chegar aos 200% até o final do ano. Isso
significará mais imposições para o pagamento de juros e
novas medidas contra os trabalhadores e a população em geral. Com
o aumento da recessão que virá, do desemprego, de mais
empobrecimento das famílias e tensão social, haverá queda
nas receitas fiscais e depressão profunda da economia. Como já
foi demonstrado nos memorandos anteriores, essa receita predatória serve
apenas para alimentar a volúpia da oligarquia financeira, aprofundar a
crise e piorar as condições de vida da população.
As carpideiras do social-reformismo
Mas esse drama nos leva a conclusões importantes: a emergência do
SYRIZA como organização política da "esquerda
radical" criou grandes ilusões na esquerda internacional. Afinal,
surgia no berço da democracia aquilo que era considerado aos quatro
ventos como uma
esquerda renovada, não sectária, democrática,
que reunia os movimentos dos indignados com a globalização sem
vínculo com o passado do socialismo real e, acima de tudo, disposta a
enfrentar a Europa capitalista, a austeridade imposta pela União
Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu e
resgatar o orgulho grego. Era quase um milagre dos deuses a fazer surgir do
Olimpo um Prometeu redentor capaz de resgatar a honra e a soberania da
Grécia.
Por isso mesmo ganhou a simpatia de grande parte da opinião
pública progressista, de partidos políticos, autonomistas,
trotskistas e organizações sociais em todos os continentes.
Muitos intelectuais de peso internacional deram apoio à nova
organização. Delegações partidárias
visitavam a Grécia não só para reverenciar e apoiar a nova
esquerda, mas principalmente para se credenciar como a versão do SYRIZA
em seus países. Parecia que se tinha encontrado a pedra filosofal para a
luta política, principalmente porque parte do SYRIZA saíra das
fileiras do Partido Comunista Grego (KKE), considerado por esse pessoal como
stalinista, sectário e ultraesquerdista. Muita gente não levou em
consideração desde o início as advertências do KKE
sobre essa esquerda renovada, seu caráter de classe e plataforma
política. Estavam todos embriagados com a forma do fenômeno e
sequer se deram ao trabalho de pesquisar as origens, observar a
trajetória, seu programa e a prática política. Todas as
críticas vindas daqueles que estavam atuando no teatro de
operações da Grécia era relegadas a um plano
secundário.
Quando nas eleições anteriores, o KKE se recusou a compor um
governo com o SYRIZA e alertou sobre seu verdadeiro caráter
político, recebeu críticas violentas, grosseiras, muitas delas
enfatizando o sectarismo e o ultraesquerdismo dos comunistas. Nas
eleições de janeiro, quando o SYRIZA obteve
condições para formar o novo governo, essa esquerda parecia em
êxtase. Notas de apoio e solidariedade foram enviadas por várias
organizações. Todo mundo queria estar próximo ou se
parecer com o SYRIZA. Ninguém percebeu ou não quis perceber que o
SYRIZA, em vez de chamar as forças de centro-esquerda para compor o
governo, pois necessitava de apenas dois deputados para compor a maioria
absoluta, surpreendentemente compôs com um partido nacionalista de
direita (muitos comentam que este acordo já estava selado muito antes do
resultado das eleições), mas isso era visto como uma
flexibilidade tática, afinal para derrotar um inimigo maior era
necessário certas concessões internas.
Ao longo de cinco meses Tsipras e Varoufakis negociaram com o Eurogrupo, sempre
enfatizando que o objetivo das negociações era acabar com a
austeridade, resgatar a soberania e desenvolver internamente um plano de
salvação social. Quando as negociações chegaram a
um impasse e as ilusões de que era possível um acordo com a
oligarquia financeira se acabaram, então Tsipras tentou uma
última cartada. Convocou um referendo para que a população
se manifestasse contra ou a favor da austeridade. O KKE ainda tentou no
Parlamento incluir no referendo um item no qual o povo deveria se manifestar
também sobre o rompimento com os credores e a saída do euro, mas
essa proposta sequer foi posta em votação no Parlamento. Isso
já demonstrava que o SYRIZA não queria nem era capaz de enfrentar
os credores europeus.
Confiando nos discursos dos líderes do SYRIZA, a população
votou em massa (61,3%) contra a austeridade. Surpreendentemente, após o
referendo, o líder do SYRIZA começou a mostrar sua verdadeira
face: aceitou a pressão dos credores para a demissão de
Varoufakis, enviou uma carta ao Eurogrupo na qual praticamente aceitava a maior
parte das exigências e deu entrevista à imprensa internacional
reafirmando os pontos em que estava disposto ceder. Percebendo o blefe do
adversário, os negociadores do Eurogrupo apertaram o torniquete e
exigiram concessões muito maiores do que aquilo que tinham oferecido
anteriormente, sob pena da saída da Grécia da zona do euro.
Tsipras jogou a toalha e rastejou humilhantemente perante os negociadores.
A partir daí mudou completamente o discurso e passou a defender
abertamente as exigências da
Troika
, com a mesma chantagem e os mesmos argumentos que partidos de direita fizeram
anteriormente. O que veio depois todos já conhecem:
aprovação das medidas de mais austeridade, repressão aos
trabalhadores que protestavam em frente ao Parlamente contra o memorando,
expurgo dos ministros e funcionários do governo que se posicionaram ou
votaram contra as medidas de austeridade e, agora, aliança com os
partidos de direita (PASOK, Nova Democracia, Potami), sem os quais não
teria aprovado as medidas no Parlamento. Ou seja, as tensões da luta de
classes nesse momento de crise profunda do capitalismo são tão
grandes que a máscara do reformismo levou somente seis meses para cair
e, com sua queda, pode ter desmoralizado todas as experiências
semelhantes em gestação pelo mundo.
No Brasil, há uma prostração generalizada. Praticamente,
todos os agrupamentos de esquerda (à exceção do PCB,
Partido Comunista Brasileiro) embarcaram na onda do SYRIZA e agora, cabisbaixos
e envergonhados, tentam justificar suas posições e as
próprias reviravoltas do SYRIZA. Outros passaram do apoio entusiasta
à crítica aberta. Militantes do PT, para justificar a
política de seu governo e num delírio histórico, dizem que
o que ocorreu na Grécia não foi a rendição do
SYRIZA, mas uma espécie de acordo de Brest-Litovski, no qual os
bolcheviques foram obrigados a fazer concessões para salvar a
revolução. Nas outras organizações instala-se a
prostração generalizada, a tentativa envergonhada de justificar
as medidas do SYRIZA como um mal menor, mas a verdade é que a derrota
política do SYRIZA foi um banho de água fria no reformismo
brasileiro. Outras correntes agora criticam o SYRIZA para salvar a pele, mas
todos estavam entusiasmados e agora curtem a ressaca moral e política.
Em outros termos, estão todos tontos, confusos, envergonhados,
frustrados, chorando pelos cantos, mais perdidos que cego em tiroteio,
procurando uma explicação para uma mudança tão
drástica de perspectivas. Afinal, o sonho de ser a versão
nacional do reformismo grego se transformou num pesadelo. Dormiram no
paraíso e acordaram próximo ao inferno. E agora, sem
referências internacionais, sem a âncora que imaginavam redentora,
o caminho se tornou bem mais difícil. Mas é importante assinalar
que nenhuma dessas organizações que se empolgaram com o SYRIZA
teve a dignidade de fazer uma autocrítica das grosserias que assacaram
contra o KKE antes do desfecho da tragédia. O mais engraçado
é que agora o KKE é chamado de sectário, ultraesquerdista
e coisas do gênero, quando em passado recente o acusavam de conter a luta
dos trabalhadores. A coerência não é o forte desse pessoal.
Existiria outra saída além da rendição?
Estes acontecimentos que levaram a uma verdadeira tragédia grega merecem
uma reflexão por parte de todas as forças sociais e
políticas que desejam mudar o mundo e construir a nova sociedade. Mas
antes, é necessário responder à questão central
sobre a crise: existiria uma saída para além da
capitulação. Como se sabe não existe crise eterna nem
crise sem saída. E também na política não existe
vácuo. Tsipras estava diante de uma disjuntiva: a rendição
ou a luta. Ele preferiu a primeira opção. Mas se a
rendição fosse a única saída para os povos
explorados pelo imperialismo, o capitalismo seria um sistema eterno. Portanto,
qualquer organização, seja militar ou política, que
capitula sem luta diante do inimigo não merece sequer existir. No caso
grego, assim como em relação aos países, a saída
não é a rendição, a saída é a luta.
O fato é que existia um leque de alternativas bem amplo. O ministro
demissionário Yanis Varoufakis propôs criar um sistema paralelo de
liquidez que poderia ser ativado em caso de asfixia financeira e que
possibilitaria uma transição para uma nova moeda. Também o
ministro da Reconstrução Produtiva, da Energia e Meio Ambiente,
Panayotis Lafazanis, da
Platafoma de Esquerda,
propôs outra alternativa: o governo passaria a utilizar os 22 mil
milhões de euros retidos Banco Central enquanto uma nova moeda
não fosse introduzida. Para tanto, era necessário o governo
intervir no Banco Central caso houvesse alguma resistência, uma vez que
seu presidente era ligado aos interesses da Troika. Evidentemente que essas
duas soluções ainda não representavam o rompimento com o
euro nem com a União Europeia e estavam ainda dentro da lógica de
resolver a crise grega sem romper com a
Troika,
mas pelo menos demonstravam alguma disposição para a
resistência. Mas o novo reformismo não é capaz de ser
sequer uma caricatura da esquerda.
Na verdade, a verdadeira saída para a crise seria a luta que
possibilitasse a mudança na correlação de forças
entre o povo grego e o imperialismo europeu. Essa luta envolveria o
cancelamento unilateral da dívida grega, que é a raiz principal
dos problemas, a nacionalização dos bancos e dos grandes
oligopólios, o desligamento da União Europeia e do euro,
além do fim das relações com a OTAN, e um programa de
mudanças que incluísse o resgate dos salários dos
trabalhadores e aposentados e a retomada da economia em novas bases, como um
via de transição para a reorganização da sociedade
grega, baseada no interesse dos trabalhadores e da população em
geral. Como ficou demonstrado, não existe a menor possibilidade de
acordo com o imperialismo e muito menos é possível reformar a
Europa capitalista a partir de dentro, especialmente neste momento de crise
sistêmica global.
Mas, antes de tudo, era necessário um chamado ao povo grego em
praça pública em todas as regiões do País para
tomar ciência dos passos que o governo iria dar e das possíveis
consequências do rompimento com o imperialismo europeu. Essas assembleias
teriam um papel importante na preparação da resistência, a
partir da organização nas fábricas, nos estaleiros, nos
bancos, nos bairros, nos escritórios, nas escolas e universidade e no
campo para resistir a qualquer tipo de ação do inimigo. Mas isso
é pedir muito ao novo reformismo: ele não estava à altura
do povo grego.
Uma saída dessa magnitude com certeza criaria uma nova conjuntura
internacional. Mesmo levando em conta que a Grécia representa apenas 2%
do PIB europeu, a dívida externa está nas mãos
principalmente dos bancos da Alemanha e da França e, portanto, um
cancelamento da dívida impactaria todo o sistema financeiro europeu, em
função dos fluxos de interdependência entre os bancos da
região e colocaria a crise no colo do imperialismo e não do povo
grego. Além disso, seria um exemplo para os trabalhadores que
estão na mesma situação na Espanha, em Portugal, na
Irlanda, na Itália e outros países, mudando assim as
perspectivas da luta dos trabalhadores em toda a Europa.
O SYRIZA, com o mandato popular da maioria da população, teve em
suas mãos a possibilidade histórica de contribuir de maneira
efetiva na luta contra o imperialismo, mas preferiu compor com o inimigo, com o
argumento de que fora das regras impostas pelos algozes não haveria
alternativas. No imaginário popular deve estar grassando uma grande
frustração, afinal todos imaginavam que o partido no governo
respeitaria a vontade popular. Mas o custo político dessa
capitulação é muito grande e terá
repercussão tanto no interior do próprio SYRIZA quando nos outros
partidos políticos e na sociedade grega. Essa nova conjuntura
deverá impactar profundamente o quadro político do País e,
independentemente do que venha a acontecer com o governo, haverá uma
reorganização das forças políticas tanto no
interior do próprio SYRIZA, como nas outras forças e
organizações sociais, pois numa conjuntura dessa ordem, a
indignação popular vai ser canalizada para algum tipo de
ação política.
Como aconteceu com o Partido dos Trabalhadores no Brasil, uma parte da esquerda
do SYRIZA vai continuar vociferando contra a direção
majoritária, mas aos poucos irá se adaptar até a
integração, muito embora de vez em quando queira se diferenciar
da maioria. Outra parte poderá romper com o SYRIZA e formar outra
organização, como aconteceu com o PSOL no Brasil. O setor
majoritário do SYRYZA, se continuar governando, tomará medidas
cada vez mais à direita e se integrará à ordem, mesmo
mantendo um discurso formalmente progressista, para continuar enganando os
trabalhadores.
Como a experiência já demonstrou, é melhor para o
imperialismo que um partido dito de esquerda realize o trabalho sujo, pois os
partidos tradicionais já estão bastante desgastados junto
à população. Assim se torna mais fácil para o
capital atingir seus objetivos. O reformismo apresentará essas medidas
como o mal menor, mas seguirá em frente na sua saga de fazer o papel da
mão esquerda do imperialismo. Esse filme nós já vimos no
Brasil e muitas vezes quando alertávamos os camaradas em fóruns
internacionais ou em bilaterais éramos vistos como sectários e
esquerdistas. Agora a bola está novamente com o povo grego que, por sua
tradição de luta, saberá encontrar os caminhos para dar a
volta por cima e buscar sua emancipação.
[1] O SYRIZA é formado por 12 organizações, sendo o
Sinaspismos, corrente de eurocomunistas expurgada do KKE com a crise da URSS, o
bloco majoritário. As outras organizações que formam o
Syriza são as seguintes: AKOA (Esquerda Comunista, Ecológica e
Renovadora); DEA (Esquerda Internacionalista dos Trabalhadores, trotskista);
DKKI (Movimento Democrático e Social, que saiu do PASOK); KOE
(Organização Comunista da Grécia, maoísta); KOKKINO
(Vermelho, trotskistas); Cidadãos Ativos (Corrente fundada por Manolos
Glezos, figura histórica grega e herói da resistência
contra o nazismo); KEDA (Movimento pela Esquerda Unida na Ação,
cisão do KKE em 2000); Rizospastes (cisão dos Cidadãos
Ativos nacionalistas); Omada Roza (Grupo Roza, esquerda radical); APO
(Grupo Político Anticapitalista, ligada ao trotskismo). Além
dessas organizações, compõem ainda o SYRYZA personalidades
que vão de sindicalistas a atletas olímpícos.
[2] Os dados foram retirados de uma entrevista de Tsipras ao
Le Monde,
onde expõe os dados que utilizamos e define as concessões que
estava disposto a fazer ao Eurogrupo.
[*]
Doutorado em economia pela Universidade Estadual de Campinas, com
pós-doutoramento na mesma
instituição. Autor de
A globalização e o capitalismo contemporâneo
e
A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil.
É diretor de Pesquisa do Instituto Caio Prado Junior e um dos editores
da revista
Novos Temas
e membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (
PCB
).
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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