O desastre econômico da administração de Paulo Guedes
Queda do PIB no 2º trimestre/2020: -11,4% em relação ao trim.
homólogo e -9,7% em relação ao trim. anterior
Os últimos números anunciados pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) para o Produto Interno Bruto (PIB), no
segundo trimestre deste ano, representam a maior tragédia da economia
brasileira desde que esses dados começaram a ser apurados pela
instituição. O PIB apresentou uma queda de -9,7%, a maior da
história econômica moderna do País. Do ponto de vista
setorial, essa queda se torna mais grave se observarmos que a indústria
em geral despencou para -12,9%, sendo que a indústria de
transformação, o coração da cadeia de
criação de valor, registrou uma queda de -17,5%. Os
serviços caíram também -9,7% e somente o setor
agropecuário teve um desempenho positivo de 0,4%.
Se observarmos outros dados relevantes para a conjuntura econômica,
poderemos constatar a gravidade da situação econômica: o
consumo das famílias, importante indicador para o desempenho do PIB,
caiu para -12,5%, mesmo com o auxílio emergencial aprovado pelo
Congresso, e as despesas do governo com consumo foram reduzidas para -8,8%. Um
indicador ainda mais alarmante é a performance do investimento
(Formação Bruta de Capital Fixo), que retroagiu para -15,4%. Com
esses resultados a economia brasileira regrediu aos patamares de 2009. Isso
significa que, mesmo que em algum momento se retome o crescimento
econômico, levaremos muitos anos para recuperarmos o tombo registrado nos
últimos tempos e, particularmente, neste ano de 2020.
Não se pode esquecer que o desempenho da economia ocorre num ambiente de
dura realidade sócio-econômica do País:
redução da massa de salários, crise sanitária que
já vitimou mais de 123 mil brasileiros e contaminou cerca de quatro
milhões, desemprego generalizado (se somarmos os desempregados e
desalentados, se aproxima de 20 milhões de trabalhadores), além
de termos ainda 34 milhões na informalidade e outros tantos
milhões na miséria absoluta. Numa situação dessa
ordem somente o fanatismo ideológico do ministro Paulo Guedes pode
acreditar no conto de fadas de uma retomada do crescimento econômico a
partir do setor privado.
Como se sabe em qualquer manual de economia, o investimento é o
principal fator de crescimento da economia, porque investir significa comprar
máquinas e equipamentos, matérias-primas, contratar pessoas,
entre outros itens. Quando o investimento apresenta uma queda dessa magnitude
é porque a economia está em uma situação muito
difícil. Mais grave ainda: mesmo com as taxas de juros baixas, os
empresários deixaram de investir porque sabem que, numa conjuntura de
recessão, desemprego e crise econômica, tanto nacional, quanto
internacional, se investirem na produção, não terão
para quem vender seus produtos. Por isso se tornam inteiramente bizarras as
afirmações do ministro da economia no sentido de que a retomada
do crescimento econômico deve ser realizada pelo setor privado.
Ao contrário do discurso otimista que os adoradores do mercado e os
porta-vozes governamentais vinham afirmando, o Brasil enfrenta a pior
recessão de sua história econômica moderna, com o agravante
de que o País já tinha registrado uma grande recessão
entre 2014 e 2016, no período de Dilma Rousseff e, posteriormente, uma
continuada estagnação econômica, com crescimento
pífio pouco acima de 1% nos anos posteriores. Portanto, os resultados
desse último trimestre vêm apenas demonstrar que, se Paulo Guedes
continuar com essa política de terra arrasada, a economia brasileira
permanecerá por um largo tempo nesse processo de
estagnação.
As mentiras de Paulo Guedes
O ministro Paulo Guedes é uma mistura de criminoso social, mentiroso
contumaz e manipulador de dados, destacando-se ainda que está em guerra
permanente contra os trabalhadores. Ao assumir o ministério prometeu uma
espécie de paraíso para a sociedade brasileira: se as reformas
fossem implantadas, o Brasil retomaria o crescimento econômico, criaria
milhões de empregos, reduziria os privilégios e melhoraria a vida
do povo brasileiro. O que se pode constatar nesse período de governo
é um fracasso retumbante na área da economia e um desastre
social, com aumento da concentração de renda, do desemprego e da
miséria absoluta em todo o território nacional.
Guedes tem sido, tal qual Bolsonaro, um mensageiro do caos. Ele está
colocando uma granada não apenas no bolso do funcionalismo
público, mas dos trabalhadores e da população brasileira
em geral. A política desenvolvida pelo Ministério da Economia tem
um risco calculado: da mesma forma que o presidente, ele quer impor o caos
porque acredita que só num ambiente desestabilizado, com todos
desesperados diante de falsificações e fanfarronices, será
capaz de conseguir realizar sua agenda neoliberal. Ele sabe que medidas de
tamanha brutalidade só podem ser implementadas numa ditadura. Como
não tem força para realizar esse desejo, como na ditadura de
Pinochet, a quem serviu, a tática é o caos, a
intimidação, a mentira e a manipulação. Só
numa conjuntura dessa ordem pode atingir seus objetivos.
Ao impor a reforma trabalhista, Guedes disse que esta reforma iria criar
milhões de empregos porque desburocratizaria as relações
de trabalho. Mentira: a reforma trabalhista devastou os salários e
direitos dos trabalhadores e não criou nenhum emprego. Pelo
contrário, aumentou o desemprego, precarizou a vida dos trabalhadores e
permitiu que os empresários pudessem demitir em plena pandemia. Na
verdade, com a desregulamentação do trabalho, o objetivo de
Guedes é avançar com a barbárie: cerca de 50% dos
assalariados brasileiros se transformariam em horistas, ganhando por hora
trabalhada e não mais por salário mensal, sem direitos a descanso
semanal remunerado, férias, 13º salário e outros direitos.
Esse é o mundo ideal de Guedes.
Outra de suas grandes mentiras é recitar, como se fosse um mantra, que o
governo está quebrado, que não pode gastar, que se gastar a
inflação explode. Por isso, seria necessária a reforma da
previdência, a partir da qual o País economizaria em 10 anos cerca
de R$1 milhão de milhões
[1]
. Com esse discursinho raso impôs a reforma e deixou as
gerações futuras desamparadas, sem perspectiva de aposentadoria,
a não ser que realizem um plano de previdência privada junto aos
amigos de Guedes no sistema financeiro.
É também com esse discurso mentiroso que está tentando
aprovar a reforma administrativa. Diz que a máquina pública
precisa ser enxuta, que os servidores são parasitas que sugam o Estado
como se este fosse um hospedeiro generoso, que o governo gasta 90% da receita
com funcionários, que esses trabalhadores tiveram aumento de 50% acima
da inflação, que é necessário acabar com a
estabilidade no emprego e reduzir os salários. Mentira: na verdade, os
gastos com funcionários públicos é de cerca de 20% da
receita e, como percentual do PIB, inferior ao que se gastava em 2002. Mas
Guedes aposta na desinformação e na prática de repetir a
mentira até que esta se torne uma verdade.
É importante destacar essa questão da estabilidade no emprego: o
que Guedes quer mesmo é retroagir à condição do
funcionalismo público na década de 20 do século passado,
onde sequer existia concurso público para as funções do
Estado. Ele quer desmontar o pouco que resta de direitos dos trabalhadores e
abrir as portas para o clientelismo, o coronelismo, retirando dos trabalhadores
qualquer tipo de garantia e autonomia para investigar os dirigentes
políticos de plantão. Como é que um funcionário
público, sem estabilidade, vai redigir um parecer contra um prefeito, um
governador, um parlamentar ou membro do Executivo federal?
A quebra da estabilidade abre as porteiras para o assédio moral, para
chantagens e para demissões. Ao acabar com os concursos públicos,
quer ampliar o domínio das oligarquias no interior do Estado, como na
República Velha, onde os coronéis e governadores eram
os que indicavam os funcionários de acordo com seus interesses. No caso
particular do Brasil atual, se não existisse concurso público,
Fabrício Queiroz
e vários milicianos com certeza estariam em um cargo de confiança
no governo.
Como manipulador de dados estatísticos, Guedes costuma sempre apresentar
dados falsificados para justificar suas políticas neoliberais.
Recentemente, para justificar o fim da destinação
obrigatória de verbas para os gastos sociais, como saúde e
educação, garantidos pela Constituição, ele
inventou a lorota do descontrole das finanças públicas. Mas
habilmente escondeu que, se existe problemas com as finanças
públicas, é exatamente porque o governo paga anualmente mais de
R$350 mil milhões
[1]
por conta da dívida interna. Aí está o principal elemento
de desorganização das finanças públicas no Brasil.
Um agente dos banqueiros
Na verdade, o Brasil não tem um ministro da economia, tem um agente dos
banqueiros que quer implantar a ferro e fogo a agenda neoliberal para servir
aos interesses da oligarquia financeira nacional e internacional. Há
dois episódios muito representativos de quais interesses comandam a
economia brasileira atualmente. Logo no começo da pandemia,
começou-se a discutir a necessidade de um auxílio emergencial
paras as pessoas que ficaram desempregadas ou sem atividade econômica em
função da doença. Guedes queria no início aprovar
apenas R$200 [31,86] para cada pessoa. Depois de muito debate e
pressão da sociedade, visto que R$200 era uma quantia ridícula, o
Congresso aprovou a quantia de R$ 600 [95,59].
No entanto, no mesmo período as autoridades econômicas aprovaram
repassar para os bancos R$1,2 milhão de milhões, de forma a que o
sistema financeiro facilitasse o sistema de crédito para as empresas em
dificuldades em consequência da pandemia. Os banqueiros não
utilizaram esse dinheiro para irrigar o crédito, mas para especular na
Bolsa de Valores, que passou a bater recordes de alta, ou para depositar o
próprio dinheiro, como sobras de caixa, no Banco Central e receber juros
sobre esses depósitos. Agora mesmo, o Conselho Monetário Nacional
autorizou o repasse de R$325 mil milhões
[1]
para o Tesouro Nacional, resultado dos ganhos contábeis com as reservas
cambiais em função da desvalorização do real. Mas
esses recursos serão destinados exclusivamente ao pagamento da
dívida interna.
Enquanto isso, o governo reduziu o auxílio emergencial para os 67
milhões de pessoas (de R$ 600 para R$ 300), o que significa cortar pela
metade a comida na mesa dessas 67 milhões de famílias. Ou seja,
em plena pandemia, a prioridade desse governo, e de Paulo Guedes em especial,
que afinal queria uma quantia ainda menor, é favorecer os interesses dos
banqueiros (e que se dane a população brasileira!), uma vez que
os recursos repassados ao Tesouro dariam para bancar com folga o auxílio
emergencial de no mínimo R$600 pelos próximos sete meses.
Aliás, o conjunto de meias verdades e mentiras completas do ministro
Paulo Guedes ficou completamente desmoralizado nessa crise: o discurso da
austeridade, da responsabilidade fiscal, do corte dos gastos, das
privatizações não era nada mais nada menos do que
pretextos para destruir direitos, garantias e salários dos
trabalhadores, transferir o patrimônio público para o setor
privado e avançar despudoradamente sobre o fundo público. Num
passe de mágica, surgiu dinheiro para repassar aos bancos, para cobrir o
auxílio emergencial e para transferir recursos ao Tesouro para pagar a
dívida interna.
A ofensiva da burguesia e a alternativa classista
Agora as classes dominantes e seu principal porta-voz, a Rede Globo, ensaiam
novamente o discurso do teto dos gastos, da responsabilidade fiscal e da
austeridade. A próxima ofensiva ideológica para os
pós-pandemia já se pode prever: o governo vai argumentar no
sentido de que o Estado gastou muito com a pandemia e que é
necessário apertar o cinto para pôr as contas em ordem. Mas esse
discurso vai encontrar enorme resistência: primeiro, porque em
várias partes do mundo essa é uma narrativa que está sendo
posta de lado. Muitos governos conservadores, diante da necessidade objetiva de
responder à questão do emprego e da retomada da economia,
estão colocando em marcha planos heterodoxos na área
econômica. Aqui mesmo no Brasil, inclusive no interior do governo,
já há um debate sobre os caminhos a serem seguidos para retomar a
economia.
Mas, independentemente das contradições entre as
frações das classes dominantes, tanto nacionais quanto
internacionais, todos são ferrenhos defensores do capital, da ofensiva
contra os trabalhadores, das privatizações e do assalto ao fundo
público. Não se pode ter nenhuma ilusão: quem tiver vai
pagar um alto preço político. A propósito, todos
estão de olho nas privatizações que o governo está
anunciando: entre as empresas estão os Correios, a Eletrobrás, o
Pré-Sal, além do desmembramento por dentro da Caixa
Econômica Federal, do Banco do Brasil e da Petrobrás. Assaltar o
patrimônio nacional e o fundo público está na ordem do dia
das classes dominantes.
Por isso, as forças classistas não podem cair na ilusão de
alianças com o inimigo. É necessário pensar
estrategicamente. Não dá para pensar apenas no varejo. As medidas
antipopulares, o desemprego e a miséria vão acirrar a luta de
classes, e os comunistas, em particular, devem estar preparados para qualquer
cenário. É fundamental disputar o momento pós-pandemia
tanto com a burguesia quanto com aqueles que se iludem com a
conciliação de classes. Ao mesmo tempo em que devemos defender a
unidade de ação com todos que estejam contra esse governo e sua
política de terra arrasada, é fundamental construir uma
sólida unidade das forças classistas, de forma a que se
apresentem para a sociedade como uma alternativa à barbárie que a
burguesia quer impor aos trabalhadores, à juventude e ao povo pobre das
periferias.
Devemos nesse processo construir um programa estratégico que possa
combinar dialeticamente medidas objetivas para resolver os problemas concretos,
imediatos e cotidianos da população, com uma plataforma
alternativa anticapitalista para o nosso País. Só armados com
esse programa para atuar na conjuntura que se abrirá no
pós-pandemia é que teremos condições de influir com
protagonismo no próximo período. A conjuntura está
favorável para um discurso que desmoralize a política neoliberal,
a falência dos serviços privados, o ataque contra os trabalhadores
e a juventude e o povo pobre e que vincule esses problemas com as classes
dominantes e o sistema capitalista. A hora é de ousadia e luta!
03/Setembro/2020
[1] 1 euro = 6,2765 reais (em 04/Set/20)
[*]
Secretário-geral do PCB, doutor em economia pela
Unicamp, com pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas da mesma instituição. É autor, entre outros, de
Reflexões sobre a crise Brasileira
(edições Revolucionárias, 20220),
A crise econômica mundial, a globalização e o Brasil
(Edições ICP, 20013) e
A globalização e o capitalismo contemporâneo
(Expressão Popular, 2008), além de vários ensaios em
revistes e sites nacionais e internacionais.
O original encontra-se em
pcb.org.br/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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