Viva os 90 anos do PCB!
No dia 25 de março de 1922, trabalhadores brasileiros reuniram-se em
Niterói.
Eram representantes de vários agrupamentos comunistas que existiam pelo
país. Estavam marcados pelos acontecimentos da Revolução
Russa, pelos movimentos grevistas que agitavam as ruas e fábricas, e
desejavam lutar para transformar o Brasil. Criaram um Partido para combater a
opressão e tinham no horizonte a perspectiva do socialismo, como forma
de emancipação humana.
Esse instrumento da classe operária brasileira floresceu, participou das
lutas mais importantes do século XX, esteve ao lado dos trabalhadores do
campo e da cidade nas suas jornadas mais emblemáticas, como as revoltas
camponesas de Porecatú, Trombas e Formoso, a greve dos 300 mil em
São Paulo em 1953, a campanha O Petróleo é Nosso, a
campanha contra a guerra da Coréia e tantas outras. Mais recentemente, a
luta contra a ditadura, a campanha pela anistia e pelas eleições
diretas para presidente, a luta contra as privatizações nos anos
90, pelos direitos trabalhistas e previdenciários, por uma reforma
agrária radical, por uma verdadeira Comissão da Verdade. Por
isso, esse Partido, desde o momento da sua fundação, foi
perseguido pelos pretensos donos do poder, pela oligarquia encastelada no
latifúndio e pela burguesia, donas dos meios de produção.
Fomos presos, torturados e assassinados, mas continuamos existindo. A nossa
bandeira nunca parou de tremular: mesmo sob a perseguição mais
feroz, lá estávamos nas lutas contra o Estado Novo, nas
mobilizações contra o nazifascismo. Quando a segunda guerra
mundial acabou, saímos da ilegalidade a que a burguesia nos havia
imposto, com um grande número de militantes e forte influência nos
movimentos de massa. Nas eleições de 1945, elegemos uma bancada
parlamentar representativa do povo, que defendeu combativamente os interesses
dos trabalhadores e as liberdades democráticas, com a presença do
senador Luiz Carlos Prestes e de quatorze deputados comunistas.
A nossa presença intelectual e política deixou marcas
indeléveis na sociedade brasileira. Afinal, na história do
século XX, lutaram conosco Graciliano Ramos, Jorge Amado, Oswald de
Andrade, Portinari, Di Cavalcanti, Pagú, Mário Lago, Francisco
Milani, Rui Facó, Monteiro Lobato, Caio Prado Jr., Paulo da Portela,
Silas de Oliveira, Alberto Passos Guimarães, Nelson Werneck
Sodré, Mário Schenberg, Nise da Silveira, Carlos Drummond de
Andrade, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Adolfo Lutz,
Cícero Dias, Aparício Torelly (Barão de Itararé),
Dias Gomes, Paulo Leminski, Vladimir Herzog, Nelson Pereira dos Santos, Leon
Hirszman, Oscar Niemeyer, João Saldanha e milhares dos melhores filhos
da classe trabalhadora.
Aqueles homens de março de 1922 deram o primeiro passo de uma longa
caminhada da qual temos o orgulho de ser os continuadores, com nossos erros e
acertos, com vitórias e derrotas, mas sempre construindo os caminhos da
transformação social e do socialismo.
Hoje, no dia 25 de março de 2012, os comunistas de todos os estados
brasileiros reúnem-se novamente em Niterói.
Comemoram os noventa anos do PCB orgulhosos de suas lutas, lembrando, com
alegria, a nossa história e, com tristeza, as mortes e os
desaparecimentos de bravos camaradas, certos da contribuição do
PCB nas lutas dos trabalhadores e do povo, na cultura, nas artes e nos campos
de batalhas da solidariedade internacionalista. Saudamos a experiência
socialista da União Soviética, do leste europeu e de Cuba, como
de todos aqueles que construíram, no século XX, a ousadia de
nosso sonho emancipatório e nos legaram como herança os
ensinamentos sobre os caminhos que queremos seguir e os erros que devemos
evitar.
Nesse momento de rememorar, homenageamos nossos camaradas, como Astrojildo
Pereira, Minervino de Oliveira, Octávio Brandão, Elisa Branco,
David Capistrano, Giocondo Dias, Carlos Marighella, Orlando Bonfim, Hiran
Pereira, Lyndolpho Silva, João Massena, Roberto Morena, Osvaldo Pacheco,
Horácio Macedo, Ana Montenegro, Dinarco Reis, Manoel Fiel Filho,
José Montenegro de Lima, Paulo Cavalcanti, Gregório Bezerra e
nosso histórico camarada Luiz Carlos Prestes, consagrado como o
Cavaleiro da Esperança. Em seus nomes, saudamos todos
aqueles que anonimamente construíram o PCB, este patrimônio da
história brasileira, da luta dos trabalhadores e do movimento comunista
internacional.
Assim como em 1922, em 2012 os comunistas brasileiros não se
reúnem em Niterói apenas para olhar para trás, mas
principalmente para analisar o mundo e o Brasil nos dias de hoje, para
continuar a luta contra o capitalismo, que está cada vez mais
sanguinário e imperialista, como previu Lênin.
O mundo está numa encruzilhada. A crise sistêmica do capitalismo
confirma as tendências de centralização do capital no plano
mundial. A fim de manter seus lucros a todo custo, os capitalistas aprofundam a
precarização das condições de trabalho e reduzem
cada vez mais os salários e direitos, ao mesmo tempo em que a
ação do capital, voltada à formação de novos
e amplos contingentes de trabalhadores livres para vender barato e
de forma precária a sua força de trabalho, promove um processo
crescente de proletarização das camadas médias e do
campesinato. O capitalismo monopolista, em sua escalada mundial, só faz
crescer a concentração da riqueza e aumentar a pobreza, ampliando
o fosso existente entre proprietários e proletários.
Na atual conjuntura, o capital se utiliza dos fundos públicos para
aumentar a sua acumulação. Governos seguem dando suporte ao
grande aparato empresarial, com a transferência de gigantescos recursos
financeiros para salvar bancos e indústrias ameaçadas
pelas crises sucessivas. Para isso - com o respaldo de parlamentos dominados
pelos interesses do capital - impõem drásticos cortes
orçamentários nas áreas sociais e aprofundam a retirada de
direitos dos trabalhadores.
A humanidade está ameaçada. A agressão imperialista se
manifesta nas guerras de rapina, resultantes da ação do capital
para engendrar um novo ciclo de acumulação. Para justificar o
ataque indiscriminado em favor dos interesses capitalistas, governos e
líderes políticos não alinhados ao imperialismo são
satanizados, organizações populares e movimentos rebeldes
são criminalizados. Depois de ocuparem o Iraque e o Afeganistão,
os Estados Unidos e a OTAN invadiram covardemente a Líbia e agora
ameaçam a Síria, o Líbano e o Irã. Enquanto isso,
Israel segue matando, prendendo e expulsando os palestinos de suas terras. Tais
ações têm gerado nada além que a
destruição do planeta, a espoliação dos povos e a
precarização da vida em sociedade.
No Brasil, a ordem do capital se mantém com o imenso poder da burguesia
monopolista associada subalternamente ao imperialismo e coligada aos aliados
nacionais da oligarquia e de setores da pequena burguesia. A ordem burguesa
transitou da ditadura para uma democracia de fachada, de
cooptação, que exige, para o bom funcionamento da
acumulação de capital, o apassivamento dos trabalhadores, forjado
por meio de medidas compensatórias, que visam à
amenização da pobreza absoluta, a medidas de crédito para
fomentar o consumismo, ao mesmo tempo em que se intensifica a
exploração dos trabalhadores. Retiram-se direitos consagrados e
são eternamente adiadas as demandas históricas daqueles que lutam
por moradia, trabalho, terra, educação, saúde e outras
condições essenciais da vida. Querem que os trabalhadores
acreditem que a única possibilidade de seus interesses serem atendidos
depende do crescimento da economia capitalista e dos vultosos lucros que
daí derivam.
Mas a arrogância do capital provoca o acirramento da luta de classes e
suscita, em contrapartida, uma intensa mobilização dos
trabalhadores em todo o mundo, permitindo que o cenário da
história se abra para as possibilidades da transformação,
reatualizando a necessidade da alternativa socialista. Diante das guerras
imperialistas, manifestamos nossa irrestrita solidariedade aos povos espoliados
e agredidos, pautando-nos sempre no internacionalismo proletário. Neste
mesmo sentido, apoiamos a resistência dos povos em luta e a
insurgência em algumas regiões, a exemplo da Colômbia, como
forma de resistência para impedir o avanço do imperialismo
estadunidense e as ações criminosas do governo narcoterrorista.
É preciso fortalecer a bandeira do socialismo na América Latina,
para fazer avançar as lutas populares e impedir que as garras sangrentas
do imperialismo continuem a se estender pelo continente.
Em nome dos nossos 90 anos de luta, das nossas vitórias e derrotas, com
a legitimidade que conquistamos, inclusive pelos erros cometidos, podemos
afirmar com convicção: não será com o
desenvolvimento do capitalismo, seja ele de que tipo for, que nossos problemas
históricos se resolverão, pois sabemos que, quanto mais tivermos
capitalismo, pior será para o presente e o futuro da humanidade.
Portanto, não será por meio de alianças espúrias
com os exploradores que se acabará com a exploração!
Aqueles que lutam hoje por nossas bandeiras, as bandeiras pelas quais
gerações de brasileiros lutaram, sabem que chegou o momento de
dizer basta! Não mais pactos para o capital crescer sua
acumulação, na esperança da obtenção de
migalhas! Não mais alianças com a classe que se apodera dos meios
sociais de produção da vida e, através disso, da riqueza
socialmente construída por nós. Não mais plantar e
não ter o que comer; não mais produzir a riqueza que nos faz
pobres, não mais sangue e sacrifício para que os capitalistas
saiam de suas crises; não mais o trabalho de muitos se transformando na
riqueza e poder de poucos.
Que se devolva à humanidade trabalhadora o que a ela pertencem: os meios
sociais de produção e de reprodução da vida.
Nós, trabalhadores, resolveremos nossos problemas, emancipando a
humanidade, ao nos livrarmos desta chaga histórica que é o
capitalismo. É hora de os trabalhadores do campo e da cidade, estudantes
e todos aqueles que não se acovardaram, não se renderam nem se
venderam à ordem do capital se levantarem para dizer que existe uma
alternativa para uma humanidade unida, emancipada e solidária. Esta
alternativa é o socialismo, como transição capaz de gerar
as condições que nos permita superar a sociedade de classes e
iniciar a construção do comunismo, a verdadeira história
da humanidade libertada de suas cisões de classe e de todas as formas
que colocam os seres humanos uns contra os outros.
Nós, comunistas brasileiros, nascemos há 90 anos à luz da
Revolução Russa e sua grande esperança de mudar o mundo.
Guardamos esta luz, acalentamos esta mesma esperança e a vivificamos com
nossa luta e o sangue dos que se foram para, agora, mais do que nunca,
reafirmar: para salvar a humanidade é necessário superar a ordem
capitalista e o mundo burguês, e o caminho desta superação
é a Revolução Socialista.
Contra a ordem capitalista e a hegemonia burguesa, é preciso construir o
Poder Popular e a contra-hegemonia dos trabalhadores. Devemos ampliar e
aprofundar as ações no plano tático voltadas para o
fortalecimento da organização e da consciência de classe
dos trabalhadores, com vistas à correta ocupação dos
espaços políticos, no sentido da construção e
aprofundamento dos mecanismos necessários ao desenvolvimento da luta
contra-hegemônica. É tarefa premente o fortalecimento de nossa
atuação no plano das lutas sindicais e da juventude, na
organização dos trabalhadores do campo, das mulheres, dos negros
e demais movimentos populares, assim como a denúncia cotidiana do
capitalismo e a divulgação das ideias socialistas e comunistas.
Com a Unidade Classista, levantemos as bandeiras por mais direitos e melhores
salários, pela reestatização de empresas
estratégicas com a participação dos trabalhadores na sua
gestão, pela redução da jornada de trabalho para todos sem
redução de salário, contra a precarização do
trabalho e a privatização da previdência, em defesa da
saúde pública e contra as demissões. Vamos fortalecer e
ampliar a Intersindical, na perspectiva da construção efetiva de
uma organização sindical classista em âmbito nacional.
Com a UJC, lutemos em prol da Universidade Popular e por uma
educação pública emancipadora e de qualidade. Busquemos
contribuir para a organização dos jovens trabalhadores e dos
marginalizados pelo sistema capitalista, que apresentam um enorme potencial de
expressar a contracultura, contestar a ordem e fomentar a rebeldia. Com os
Coletivos Ana Montenegro e Minervino de Oliveira, participemos das lutas contra
a superexploração das mulheres e dos negros impostas pelo capital
e a favor de suas demandas sociais específicas, contra a
discriminação sexual e o racismo. Com os intelectuais, artistas,
homens e mulheres da ciência e da cultura, estreitemos nosso compromisso
com a mais ampla e irrestrita liberdade de manifestação do
pensamento, resgatando nossas tradições de luta por uma cultura
democrática e popular, revolucionária, em contraponto à
forma capitalista, que tudo transforma em mercadoria.
Com os movimentos e organizações populares da cidade e do campo,
atuemos decididamente contra a privatização e o sucateamento dos
sistemas públicos de transportes, educação e saúde,
em defesa da seguridade social solidária e da moradia digna, contra a
destruição ambiental, pela reforma agrária radical, jamais
perdendo de vista que a emancipação de toda a humanidade somente
virá com o fim da propriedade privada, a destruição das
relações capitalistas e a edificação da sociedade
socialista.
Com os povos de todo o mundo, dediquemo-nos à solidariedade
internacionalista, juntando nossas vozes aos trabalhadores em greve na Europa e
nos Estados Unidos, às populações atacadas pelo
imperialismo no Oriente Médio e na África, aos movimentos
populares da América Latina e, em especial a Cuba Socialista, a seu
governo e ao Partido Comunista Cubano, tal como fazemos há mais de 50
anos.
O PCB está e sempre estará presente e ativo em todos os
espaços de luta, traçando, desde agora, o caminho da
Revolução Socialista no Brasil. Queremos construir, com todos
aqueles que lutam por transformações radicais da sociedade, uma
frente anticapitalista e anti-imperialista, com a perspectiva de movimentar o
bloco revolucionário do proletariado. Para aqueles que ousam ser os
protagonistas do presente e do futuro, para a classe trabalhadora, único
sujeito capaz de realizar esta transformação radical, oferecemos
nossos braços camaradas.
Somos combatentes, somos convictos de nossos ideais, somos marxistas, queremos
ser seres humanos integrais em uma humanidade emancipada, somos
internacionalistas, somos anticapitalistas.
Em uma frase: fomos, somos e seremos comunistas. Somos o Partido Comunista
Brasileiro, somos o PCB!
Viva a nossa reconstrução revolucionária!
Viva a classe trabalhadora!
Viva o Socialismo!
Viva os 90 anos de luta do PCB!
Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Niterói, 25 de março de 2012.
O original encontra-se em
pcb.org.br/...
Esta declaração encontra-se em
http://resistir.info/
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