Escalada da barbárie no Brasil
De quem é a culpa?
por Plinio Arruda Sampaio
[*]
Nem mesmo a mais reacionária das pessoas pode negar que a
população rural brasileira encontra-se em um estado de desespero.
Por mais que a produção cresça e que as
exportações agrícolas encham de dólares o Banco
Central, o emprego agrícola continua praticamente estagnado. Não
há trabalho para todos no campo, embora existam milhões de
hectares de terra sem cultivar. A opção de emigrar para a cidade
deixou de existir, pois as cidades não têm atualmente
condições de oferecer emprego sequer aos seus habitantes. Os sem
terra não tem para onde ir.
A situação dos pequenos proprietários é semelhante.
Pressionados por uma política agrícola talhada para beneficiar
exclusivamente o agronegócio, não conseguem manter seus pequenos
sítios. Centenas de milhares são compelidos a abandonar e parte
deles engrossam as fileiras dos sem-terra.
O governo dispõe de meios para solucionar os problemas dessas
milhões de famílias: desapropriar as propriedades que não
cumprem sua função social e entregá-las aos trabalhadores
rurais sem terra ou com muito pouca terra.
A Constituição determina que isto seja feito, mas, passa ano,
entra ano, essas disposições não são cumpridas.
De quem é a culpa?
O Executivo não destina ao INCRA
[1]
os recursos necessários para:
equipar-se devidamente; efetuar desapropriações na escala
requerida; realizar os gastos indispensáveis para que as famílias
assentadas possam viver com dignidade nos assentamentos. À uma demanda
de 24 mil milhões de reais para assentar 1 milhão de famílias,
em 4 anos, o governo respondeu com um orçamento apenas suficiente para
assentar 420 mil famílias no mesmo período. Isto, contudo,
não é o pior. O pior mesmo é que nem esse orçamento
rebaixado foi repassado ao INCRA. O dinheiro é liberado sincopadamente,
impedindo a autarquia de estabelecer um ritmo contínuo às suas
atividades.
A primeira conseqüência disso é o prolongamento do
período em que os sem terra precisam ficar acampados ou nas
terras ocupadas ou na beira das estradas à espera do
assentamento. Ora, são essas as situações de risco, pois,
nesse período de incertezas, os jagunços se sentem animados a
ameaçar as famílias acampadas e a cometer contra elas toda sorte
de violência, como meios de fazê-las abandonar os acampamentos e,
desse modo, afastar a pressão pela desapropriação.
Não há, pois, como absolver o governo Lula de parte da
responsabilidade pelas mortes e ferimentos ocorridos na semana passada em
Felisburgo, Estado de Minas Gerais.
O Poder Judiciário não se sai melhor nesta relação
de culpados. Pelo contrário, os juizes têm se constituído
em uma verdadeira pedra no caminho da reforma agrária, tanto pela demora
no julgamento das desapropriações, como pela presteza fulminante
com que concedem mandados de despejo contra famílias que ocupam terras
notoriamente improdutivas. Isto sem falar no critério escandaloso
utilizado por muitos juizes na fixação de
indenizações milionárias para propriedades comprovadamente
mal geridas, premiando, assim proprietários faltosos com o dinheiro do
povo.
Não se conhece nenhum esforço sério da cúpula do
Poder Judiciário para abreviar a solução das
ações de arrecadação de terras devolutas propostas
pelos Estados e pela União. Veja-se, para dar apenas um exemplo, o caso
da tragédia de Felisburgo: os sem terra vitimados pelos jagunços
ocupam, há mais de dois anos, uma área que, de acordo com o
INCRA, constitui terra devoluta a ser arrecadada pelo Estado. Mas a
Justiça não foi capaz de decidir o caso nesse tempo. Para os
nossos juizes, isso é normal. Eles não se escandalizam com o fato
de que, na era dos satélites rastreadores, uma ação
discriminatória, demore cinco, dez, vinte e até mais anos.
Parte da culpa pela tragédia de Felisburgo cabe, portanto, aos homens e
mulheres que receberam da sociedade a honra e a autoridade para fazer cumprir a
lei.
O Legislativo não fica atrás. Os quinhentos e tantos
parlamentares recusam-se a produzir uma legislação que substitua
o cipoal impenetrável de leis dispersas, que os representantes do
latifúndio conseguiram aprovar em períodos passados, por uma
legislação que, preservando os direitos de todos, permitam ao
Executivo acelerar a solução de um problema que está
assumindo características de um processo de destruição do
tecido social do Estado.
O que fizeram, nestes dois anos, os deputados da maioria governamental e
especialmente os deputados do PT para remover esse entulho
autoritário?
A chamada grande imprensa não pode ficar de fora deste
arrolamento de culpados. Os jornais escritos, falados, televisivos distorcem
sistematicamente o noticiário dos conflitos rurais, com o intuito
evidente de indispor o MST com a opinião pública. No
episódio de Felisburgo, por exemplo, as palavras
invasão e invasores constaram de todos os
noticiários, quando, na realidade, as famílias estão
ocupando, com autorização do juiz da Vara de Conflitos
Agrários, uma terra que é pública.
Infelizmente, nem a própria cidadania escapa de parte da culpa pelos
cinco mortos, pelos vinte feridos e pelo menino que perdeu um olho no
acampamento Terra Prometida, numa cidade ironicamente chamada
Felisburgo. Um dos fatores da inação das autoridades diante da
violência que cresce no campo é a falta de pressão da
sociedade civil pela realização de uma verdadeira reforma
agrária.
Corumbiara, Eldorado dos Carajás, Felisburgo até quando as
pessoas de bem assistirão passivamente essa escalada da
barbárie?
[1]
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.
[*]
Plinio Arruda Sampaio é presidente da ABRA (Associação
Brasileira de Reforma Agrária).
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/ed425/opiniao.htm.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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