Na contramão das ruas
por
Correio da Cidadania
O palavrório dos políticos de que a "bronca geral" das
ruas tem seu aspecto positivo e é até bem-vinda poderia parecer
um humilde reconhecimento da necessidade de retificar caminhos e rever
atitudes. Definitivamente, não é o que está acontecendo.
Os jovens que foram às ruas bradam por uma radical inversão na
política pública. Exigem que as necessidades fundamentais da
população sejam consideradas como prioridade número um do
Estado.
Contudo, as medidas concretas tomadas pelas autoridades
econômicas aumento do corte de gasto público para
reforçar o superávit primário e elevação da
taxa de juros caminham na direção inversa. Em pânico
com a possibilidade de que a mudança na política monetária
norte-americana possa desencadear um movimento de fuga de capitais, o governo
Dilma desdobra-se para recolocar o Brasil como paraíso idílico da
especulação internacional. Como os fundos públicos
são finitos, os recursos destinados aos credores do Estado são os
mesmos que poderiam ser utilizados para financiar a melhoria da
educação, saúde, transporte, habitação,
segurança etc.
As centrais sindicais que aproveitaram a onda de
protestos para, tímida e constrangidamente, manifestar contra os
recorrentes ataques aos direitos dos trabalhadores pleiteiam
redução da jornada de trabalho e fim do fator
previdenciário.
No entanto, o Planalto e o Legislativo conspiram no
sentido oposto. As medidas anunciadas pelo Executivo de
desoneração da folha salarial são uma sangria nos cofres
da Previdência Social. O projeto de lei que diminui a multa pela
demissão sem justa-causa de 10% do saldo do FGTS, aprovado na calada da
noite por unanimidade, reforça a renúncia de recursos
para-fiscais. No momento em que a conjuntura econômica coloca no
horizonte o espectro de demissões em massa, a redução do
custo de demissão induz a um aumento na rotatividade do trabalho
um eficiente mecanismo de arrocho salarial.
Por fim, enquanto as ruas do
Brasil clamam por decência e responsabilidade no trato dos recursos
públicos, o presidente do Senado voa em jatinho da FAB para um
convescote com seus pares em Porto Seguro; o presidente da Câmara
requisita um avião público para levá-lo, em companhia da
namorada, para assistir à final da Copa das Confederações;
o Presidente do Supremo viaja, às custas do erário, para o Rio,
sabe-se lá para quê; ministros de Dilma mantêm a rotina de,
sem mais nem menos, requisitar jatinhos para assuntos particulares; e o
governador Alckmin, que vinha do anúncio de medidas de austeridade e
demissões de funcionários públicos, utiliza
helicóptero oficial para receber a família que chegava de viagem
no exterior em Guarulhos. Um escárnio.
O
establishment
político parece não acreditar que o povo tenha vencido a letargia
e esteja de fato disposto a mudar o Brasil. Interpreta as
manifestações como uma catarse generalizada que em breve se
esgotará por si mesma. Passa ao conjunto da população
indignada a lição de que a próxima "bronca"
terá de vir com força redobrada. Tempos turbulentos se vislumbram
no horizonte!
O original encontra-se em
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Este editorial encontra-se em
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