Sobre a conjuntura, fascismos e golpes
Não pretendo falar do julgamento do STF sobre o Habeas Corpus de Lula.
Não é isso que interessa. Julgo que todo o processo que envolve
as denúncias contra o ex-presidente tem vício de origem, logo
não deveria ter chegado até esse ponto no qual chegou, com duas
condenações absurdas, de nove e depois expandida para 12 anos. No
campo do direito, não são poucos os juristas que apontam a
inconsistência nas provas contra Lula. E, se um dos princípios
basilares da lei burguesa é a presunção de
inocência, não teria motivo de ser diferente só porque o
acusado é um ex-presidente. Logo, o julgamento é político.
Não faltará quem jogue na cara: então tu apoias a
corrupção do Lula? Não, não apoio. Nem do Lula, nem
de ninguém. Os que comandam a máquina capitalista todos têm
as mãos sujas de alguma forma. Mas, se formos nos ater à letra
fria da lei penso que provas concretas são necessárias, contra
quem quer que seja: amigo ou inimigo meu.
Vejo claramente algumas coisas que gostaria de dividir para o debate:
Primeiro:
Sim, foi golpe o que aconteceu em 2016. De um jeito novo, mas foi golpe. E
estamos vendo esse golpe se desdobrar vertiginosamente. "Primeiro a gente
tira a Dilma", disseram, e é assim mesmo. O que vem depois vai
pegando primeiro os petistas e no desenrolar pode pegar qualquer um. Isso
é fato. Uma hora vai chegar ao cidadão comum. Alguém pode
dizer que o cidadão comum sempre esteve vivendo num estado de
exceção e de certa forma é verdade. Os empobrecidos sempre
estão com a lei sob suas cabeças, como uma faca afiada, coisa que
não ocorre com os do topo da pirâmide. Exemplos não faltam,
de um e de outro lado. Vejam os números de mortes impunes nas favelas,
nas periferias. Vejam a situação dos aprisionados, grande parte
sem julgamento. Vejam os ricos que matam e traficam e saem impunes. Tudo isso
é verdade. Mas num tempo de golpe, a ação contra os
inimigos do "estado de coisas" se potencializa, cresce e deixa a vida
confusa. A mão da lei, que é a mão do poder, pode pegar
qualquer um, sem precisar usar a lei. O contrato social representado pelas
leis, ainda que frágil na democracia burguesa se rompe definitivamente.
Tudo passa a valer. Inclusive convicções pessoais viram provas.
Isso não pode ser aceitável.
Segundo:
a direita brasileira conseguiu colar no Lula e no PT a imagem de
"comunista". Todos os que temos compreensão da realidade e
conhecemos a fundo o que é o capitalismo, o socialismo e o comunismo,
sabemos que o PT e o Lula não são comunistas. O máximo que
podemos conceder é que eles sejam de um liberalismo de esquerda, com
certa pegada social e uma preocupação com os empobrecidos, ainda
que insuficiente. Mas, não adianta dizer isso a essas gentes que
já estão inoculadas com essa "verdade" do
petista/comunista. É por isso que esse povo vai para as ruas com suas
camisas da seleção que representam a pátria
gritar contra Lula e o PT. Porque pensam que eles são comunistas, e
acreditam que o comunismo é o mal. Veem o comunismo com os olhos da
direita, sequer sabem bem o que isso significa. Precisaríamos de muito
tempo para desconstruir isso. Muito trabalho de base. Não se consegue
com discursos nem com postagens no facebook. Ainda mais que o próprio
facebook trabalha para consolidar essa mentira que virou verdade. O tal do face
é uma fábrica de mentiras, tal qual os grandes meios de
comunicação.
Terceiro:
sim, há fascismo nessa conjuntura brasileira e isso não é
banalizar o termo. Teothonio dos Santos, no seu livro "Socialismo ou
Fascismo" ajuda a gente a compreender esse movimento. Ele avalia que
existem atitudes fascistas, movimentos fascistas e fascismo. Cada caso é
bem diferente um do outro Ele faz sua análise nos anos 70 do
século passado e é claro que não podemos
transplantá-la para hoje. Mas ajuda a pensar. Segundo Teothonio, o
fascismo surge quando há uma ameaça à nação
e um movimento de unidade nacional que aparece para salvá-la. Não
é o caso no Brasil. Mas, acontece que foi criado um consenso que diz o
contrário. Nesse consenso liga-se o PT ao comunismo e isso aparece como
uma ameaça. É o que dizem os comentários raivosos de um
bom número de pessoas. Nesse caldo, figuras como Bolsonaro, militares ou
políticos da direita de todas as cores, aparecem como lideranças
capazes de colocar ordem na casa. A casa bagunçada pelo capitalismo
aparece como uma casa bagunçada apenas pelo PT. "No tempo dos
milicos não tinha violência", dizem, e não analisam o
tempo de um Brasil ainda rural, sem os males das grandes metrópoles. A
violência não é coisa do PT, ela é estrutural do
capitalismo.
O fascismo, diz Teothonio, aparece quando as lideranças populares
estão desorientadas ou chegam ao poder e não conseguem dar
respostas às lutas do povo. Temos essa realidade com o governo do PT
que, de certa forma, não conseguiu avançar nas demandas populares
e domesticou sindicatos e movimentos. Hoje temos essa
desorientação. Também, para que o fascismo se expresse
para além de ações isoladas é necessário que
existam grupos marginais e decadentes que se organizem contra o socialismo, o
comunismo ou as demandas populares. Temos isso hoje no Brasil de maneira muito
clara.
Teothonio diz ainda que para que o fascismo se instale como projeto de governo
é necessário que haja uma crescente luta popular que ameace a
burguesia, então, ela, com a ajuda do grande capital, trava a luta. Bom,
não temos grandes levantes populares, mas não estamos
adormecidos, e a burguesia local impõe via meios de
comunicação essa "verdade": os comunistas querem
voltar. Isso é forte. Talvez não tenhamos mesmo as
condições materiais e históricas para um regime fascista
no Brasil. Mas isso não significa que não tenhamos de conviver
com movimentos pontuais e atitudes fascistas. Coisas que já observamos
claramente hoje. Isso tem de ser combatido, sob pena de avançar.
Nesse contexto todo, misturando os ingredientes, a situação
é de fato dramática para esquerda, porque é
necessário apontar cenários e saídas a essa camada da
população que hoje se mobiliza na campanha de
"eleição sem Lula é fraude". Esse é, na
verdade, um projeto muito reduzido para nossa esquerda nacional. Posso entender
os partidos se juntando em atos públicos para rechaçar atitudes e
movimentos fascistas, mas isso não toca na essência do problema.
Não há verdadeiramente um projeto nacional que sirva de rede para
nossos desejos. Não há. O projeto que boa parte das gentes em
movimento hoje tem é o projeto petista, que já mostrou suas
fragilidades e suas insuficiências.
Como acreditar que as coisas possam ser diferentes? Que a política
econômica não será comandada por gerentes do capital? Que
os meios de comunicação comerciais de massa não
seguirão realizando a mais-valia ideológica sem freio? Que a
auditoria da dívida será feita e o que for ilegal não
será pago? Esses pontos não estão no horizonte petista
hoje. Nesse sentido, antes de pensar em uma frente com essa força seria
necessário avançar muito mais, para além da proposta
esquerdo/liberal.
É fato que no mundo real só podemos trabalhar com a realidade
real, como diz o economista José Martins. E sabemos que os caminhos da
mudança são tortuosos e difíceis, necessitando de
construção coletiva massiva. Mas, não podemos rebaixar os
horizontes. Como dizia Galeano a utopia foi feita para a gente caminhar, e a
utopia não é um lá-na-frente impossível. Ela
é um lá-na-frente que ainda não chegou, mas que pode
chegar. Então, nossas propostas e bandeira precisam se erguer
além do possível. Claro, sem deixar de observar o que é
possível no agora. Mas esse é um caminho dianalético (sim,
dianalético, como em Dussel), ou seja, no confronto entre tese e
antítese, assoma a voz da comunidade das vítimas, os que
estão fora do horizonte do sistema ( e não fora do sistema).
É com esses, que clamam desde a exterioridade, que temos de caminhar. E
a esses não basta serem incluídos na máquina de moer
carne. O que se quer é outra forma de organizar a vida, na qual as
maiorias não fiquem de fora seja das riquezas, seja da
possibilidade de decisão.
Resumindo:
nesses dias de estupor diante do papel da Justiça, das vozes da caserna
que assomam pela TV, dos movimentos fascistas, posso me solidarizar com os
partidários de Lula na compreensão de que está sendo
travada uma cruzada contra o PT e não contra a corrupção.
Mas, ao mesmo tempo conclamo aos companheiros e companheiras de tantas lutas
que ampliem o olhar, aumentem o horizonte das lutas, e fortaleçam a
utopia. O lá-na-frente não pode ser um pouco mais de
justiça, um pouco mais de salário, um pouco mais de democracia. O
lá-na-frente tem de ser nosso sonho maior, de trabalhadores livres,
solidários, com o fim da propriedade privada, as riquezas repartidas, o
poder popular. O comunismo.
Talvez não cheguemos lá agora, mas chegaremos, se para lá
dirigirmos, de verdade, nossos pés e nosso coração.
05/Abril/2018
Dia 11 de Abril, 4ª feira, 18h00
Acto público frente à Embaixada do Brasil em Lisboa.
Estrada das Laranjeiras, M. Sete Rios
Pela democracia no Brasil.
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Jornalista, brasileira.
O original encontra-se em
eteia.blogspot.pt/2018/04/sobre-conjuntura-fascismos-e-golpes.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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