Nem Aécio nem Dilma
Prosseguir na luta pelo Poder Popular e pelo Socialismo
1. O PCB disputou o primeiro turno destas eleições denunciando o
jogo marcado da democracia burguesa e deixando claro que é
impossível reformar e humanizar o capitalismo. A revolução
socialista é o único caminho para os trabalhadores acabarem com a
exploração.
2. O resultado das eleições para presidente confirmou os
prognósticos feitos pelo PCB, de que se repetiria o roteiro elaborado
pelas classes dominantes. Valendo-se de sua hegemonia política e
econômica e dos limites impostos pela legislação, a
eleição foi levada para o segundo turno, com duas candidaturas
ligadas aos seus interesses. A classe trabalhadora foi derrotada nestas
eleições e deverá continuar em luta, qualquer que seja o
futuro presidente.
3. Nas eleições burguesas, os candidatos da ordem são
escolhidos previamente, entre aqueles que certamente garantirão o poder
burguês e o crescimento da economia capitalista. O financiamento privado
e os espaços na mídia variam em função das
possibilidades de vitória e das garantias de satisfação
dos interesses dos diversos setores do capital, com a manutenção
dos fundamentos econômicos que prevalecem desde Collor e que vêm se
aprofundando nos últimos governos: superavit primário,
responsabilidade fiscal, autonomia do Banco Central, renúncias fiscais,
desonerações da folha de pagamento, ou seja, o Estado e suas
instituições a serviço do capital, tudo dentro da
estratégia de inserir cada vez mais o capitalismo brasileiro no sistema
imperialista.
4. O capital financeiro, as grandes corporações, o
agronegócio e as empreiteiras são os campeões de
doações às campanhas dos candidatos da ordem e
continuarão influenciando diretamente as diretrizes do futuro governo. O
bloco dominante burguês, portanto, apesar das disputas entre as
frações que o compõem e que se tornam mais evidentes
durante o processo eleitoral, mantém a hegemonia conservadora sobre a
sociedade brasileira, assegurando a reprodução do capitalismo em
sua fase de plena internacionalização.
5. Historicamente, a burguesia sempre contou com a ação do Estado
para estimular o desenvolvimento do mercado e da propriedade privada, buscando
abafar a luta de classes, sob o argumento falacioso de que somente o
crescimento capitalista resolveria os problemas sociais e aumentaria os
salários dos trabalhadores.
6. Nos anos 1990, o ciclo de mercado puro projetado a partir das
práticas neoliberais trouxe, como consequência, a
resistência aberta dos trabalhadores organizados em partidos, sindicatos
e movimentos sociais. No entanto, as forças sociais e políticas,
nascidas das lutas das classes trabalhadoras, acabaram por aderir à
ordem capitalista e burguesa, operando um pacto com as classes dominantes em
nome dos trabalhadores.
7. Antes mesmo da posse de Lula, em 2003, o PT amoldou-se à
lógica do crescimento capitalista através da "Carta aos
Brasileiros", abandonando seu moderado programa de reformas, para garantir
a ampla reprodução do capital, concedendo aos trabalhadores mais
e piores empregos, o controle relativo da inflação e o acesso ao
consumo pela via do endividamento. À população que vivia
abaixo da linha da pobreza, foi oferecida a saída da miséria
absoluta para continuar na condição de miséria.
8. A opção pelo crescimento capitalista com maior ênfase no
papel desempenhado pelo Estado não modificou, essencialmente, o quadro
de extremas desigualdades que sempre imperou no Brasil. Pelo contrário,
o PT atuou como eficaz operador da contrarreforma social em favor do grande
capital, transferindo recursos públicos para o crescimento capitalista
(isenções, subsídios, infraestrutura, logística,
juros baixos subsidiados na hora de emprestar e altos para garantir a
lucratividade dos bancos).
9. No campo, a aliança com o agronegócio garantiu o avanço
do capitalismo monopolista, a precarização das
condições de trabalho e a paralisação da reforma
agrária. Nas cidades, o governo Dilma permitiu o crescimento da
criminalização dos movimentos sociais, ao aprovar
legislação que dá às Forças Armadas poderes
para reprimir as manifestações populares.
10. No plano internacional, a estratégia principal do estado
burguês continuou sendo a adoção de políticas
visando à expansão das grandes empresas capitalistas brasileiras
no exterior, conduzindo uma ação de fato imperialista em
países latino-americanos e africanos e buscando consolidar a
liderança da integração regional, sob a lógica do
desenvolvimento capitalista. Além disso, mantém o objetivo de
afirmar o Brasil como potência internacional, através da
obsessão histórica de conquistar uma cadeira permanente no
Conselho de Segurança da ONU. Para tal, faz concessões ao
imperialismo, mantendo tropas militares no Haiti e estreitando
relações comerciais com o Estado sionista de Israel.
11. Por outro lado, a candidatura de Aécio Neves cresce na onda
conservadora inflada durante os governos de pacto social implementado pelo PT.
O PSDB é uma opção nefasta à classe trabalhadora,
pois aposta no aprofundamento das privatizações, no arrocho
salarial, na criminalização dos movimentos sociais e da pobreza,
privilegiando o Estado máximo para o capital e mínimo para os
trabalhadores. Representa a aceleração de pautas
ultraconservadoras, como o combate às causas LGBT, redução
da maioridade penal, a privatização do sistema carcerário
e a criminalização do aborto.
12. Mas as diferenças entre os dois polos da disputa política no
campo da ordem (PT e PSDB) são cada vez mais secundárias, de
forma e não de conteúdo. As nuances estão no "como
fazer": com mais liberdade para o mercado e a livre iniciativa com o apoio
do Estado, segundo os tucanos; com mais apoio do Estado para que o mercado
funcione livremente, conforme dizem os petistas.
13. Independentemente do governo de plantão, com o agravamento da crise
mundial do capitalismo, o estado burguês reprimirá ainda mais os
trabalhadores e as lutas populares, porque precisará tentar retirar ou
diminuir direitos sociais e trabalhistas, acirrando a luta de classes. Como em
outros países, a sociedade se torna mais conservadora, ampliando a
hegemonia do capital no aparelho de estado, na mídia, no parlamento, na
justiça.
14. Diante de tudo isso e na certeza de que a vitória de um ou outro
candidato no segundo turno não vai representar alteração
do quadro atual, o PCB se posiciona em favor do voto nulo. O apoio dos
comunistas à candidata do PT seria contribuir para iludir os
trabalhadores e desmobilizá-los nas suas cada vez mais duras e
necessárias lutas.
15. Respeitamos aqueles companheiros de esquerda que consideram que as
diferenças entre o PSDB e o PT ainda são relevantes e que
votarão em Dilma como um "mal menor". Contamos com esses
companheiros nas acirradas lutas que se aproximam. Nas eleições
anteriores, o PCB recomendou o voto crítico no PT no segundo turno e, no
entanto, os governos de Lula e Dilma mantiveram as políticas neoliberais
e ainda aprofundaram as privatizações e o ataque aos direitos dos
trabalhadores.
16. Esse voto útil tem sido trabalhado por aqueles que ressuscitam os
fantasmas do golpe de direita, como se a burguesia precisasse derrubar um
governo que serve fundamentalmente aos interesses do capital. Caso a atual
Presidente seja derrotada, a responsabilidade será exclusivamente do PT
e de sua política de pacto social, de cooptação e
apassivamento da classe trabalhadora, que despolitizou o processo
político brasileiro tornando menos nítidas as diferenças e
os interesses de classe em disputa em nossa sociedade.
17. A posição do PCB tem um critério classista, uma
opção pela construção do Poder Popular, no rumo da
revolução socialista e não pela reforma. Os reformistas e
socialdemocratas iludem e apassivam os trabalhadores e cooptam suas
organizações. Não podemos indicar o voto no PT pelos
seguintes motivos:
a) Não assume a reforma agrária e nem a demarcação
das terras indígenas, porque está comprometido com o
agronegócio e o desenvolvimento do capitalismo no campo;
b) Não supera a política de superavits primários e a
sangria de recursos para os bancos, porque é financiado pelos banqueiros;
c) Não pode assumir a defesa da legalização do aborto e
das demandas do movimento LGBT, porque está comprometido com a bancada
evangélica e o fundamentalismo que fere o caráter laico do Estado;
d) Não pode reverter as privatizações, porque está
empenhado na lógica privatista e mercantil das parceiras
público-privadas;
e) Não promove a reversão dos ataques à previdência
pública, porque está comprometido com a previdência privada
e o capital financeiro;
f) Não pode garantir os direitos dos trabalhadores contra a
precarização das condições de trabalho, as
terceirizações e a flexibilização de direitos,
porque está comprometido com os grandes empresários;
g) Não pode enfrentar a criminalização dos movimentos
sociais e a violência policial, porque está comprometido com a
garantia da paz burguesa, como demonstram as operações de
garantia da Lei e da Ordem e da Lei de Segurança Nacional;
h) Não pode desempenhar um papel de fato progressista na ordem
internacional, porque faz da política externa um meio de expandir os
negócios dos grandes empresários, empreiteiras e banqueiros, numa
clara opção de inserção subordinada ao sistema
imperialista;
i) Por fim, não pode mudar a armadilha do pacto social e do
presidencialismo de coalizão porque é refém dela, sendo
beneficiado pela atual forma política eficiente para se manter no
governo, mas cujo preço é o abandono das reformas mais
elementares.
18. O PCB tem a certeza de que a grande tarefa dos militantes comunistas e da
esquerda socialista é aprofundar sua participação nas
lutas populares, com destaque para as lutas dos trabalhadores, com vistas
à construção da alternativa proletária ao bloco
conservador dominante: o Poder Popular.
19. Devemos nos manter firmes nas ruas e nos movimentos que fortaleçam a
organização dos trabalhadores, em unidade com os partidos,
organizações e movimentos de orientação
anticapitalista, buscando fazer avançar a pauta unitária
produzida pela esquerda socialista nas ruas a partir de junho de 2013 e
contribuindo para a formação de uma frente de esquerda
permanente, de caráter anticapitalista e anti-imperialista.
PCB - Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central
(11 e 12 de outubro de 2014)
O original encontra-se em
pcb.org.br/...
Esta nota política encontra-se em
http://resistir.info/
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