Brasil a saque
Carta aberta ao ministro da Economia
Brasília, 18 de setembro de 2020
Exmo. Sr.
Paulo Guedes
Ministro da Economia
Brasília - DF
Assunto: Questionamento acerca das Privatizações de
Patrimônio Público
Senhor Ministro,
A Auditoria Cidadã da Dívida é uma
associação sem fins lucrativos, composta por importantes
entidades da sociedade civil e cidadãos(ãs)
voluntários(as) que atuam em diversos núcleos organizados em
vários estados do país, e tem como principal objetivo
estatutário a luta pela realização da auditoria da
dívida pública, prevista na Constituição Federal.
Ao longo dos anos, temos acompanhado a legislação autorizativa de
privatizações de patrimônio público, sempre sob a
justificativa de necessidade de pagar a dívida
pública, no entanto, o que temos assistido é um grande
prejuízo não só ao patrimônio nacional, como
à classe trabalhadora brasileira, tendo em vista que:
-
Ao contrário de representar redução da
dívida pública, as privatizações têm
provocado aumento dessa dívida, tendo em vista que passivos das empresas
privatizadas não são repassados aos compradores, mas têm
sido transformados em dívida pública
https://bit.ly/3jvseQg, pág. 66
;
-
As privatizações têm ocorrido por preços
baixíssimos, inferiores ao lucro de 1 ano! Só para citar exemplos
mais recentes, 3 plataformas de petróleo foram vendidas pelo
preço de 3 apartamentos
https://bit.ly/31Fhf0G
e uma usina eólica foi entregue por menos de 1/6 do valor investido
https://bit.ly/3lBCqsg
;
-
As privatizações têm representado imenso custo aos
cofres públicos, que arca com o pagamento de estudos
https://bit.ly/3517r3l
para modelar as vendas;
-
As privatizações têm consumido recursos do BNDES
para financiar os interessados em adquirir empresas estatais
estratégicas e lucrativas que estão sendo privatizadas
https://bit.ly/2EHDwle
;
-
O valor recebido com as privatizações tem sido muito
inferior ao montante de juros da questionável dívida
pública (jamais auditada com a participação da sociedade
civil, ou conforme manda a Constituição de 1988), fazendo com que
esta dívida se multiplique sistematicamente, o que é novamente
utilizado como falsa justificativa para mais vendas de patrimônio do povo.
Pela presente Carta Aberta, que conta com o respaldo de todas as demais
entidades participantes da campanha É HORA DE VIRAR O JOGO, questionamos
as verdadeiras razões para a entrega de patrimônio público
estratégico e lucrativo, conforme exemplos:
PETROBRAS
O atual presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, declarou que seu
sonho é a companhia privatizada. Estivéssemos em período
de normalidade institucional, sendo os dirigentes responsáveis pelo
sucesso dos órgãos sob sua direção, tal desejo
seria motivo para substituição do gestor.
Pretende-se privatizar oito refinarias que respondem por 50% da atual
capacidade de refinação, a subsidiária para a atividade
típica de todas as petroleiras, a distribuição, BR
Distribuidora, além de gasodutos, terminais, fábricas de
fertilizantes, participação na petroquímica e na
produção de biocombustíveis. A tudo isso se acrescenta a
alienação de direitos de produção em reservas de
petróleo e gás natural. Ou seja, promover um fim esquartejado da
maior empresa brasileira.
As privatizações e a consequente desintegração da
Petrobras estão na contramão da tendência da
indústria internacional e da crescente relevância das companhias
petrolíferas estatais.
As estatais já são 19, entre as 25 maiores empresas de
petróleo e gás natural, controlando 90% das reservas e 75% das
produções mundiais.
As vendas de ativos da Petrobras não se justificam pela
redução do endividamento e estão em
contradição com o aumento da integração vertical e
da internacionalização das companhias de petróleo,
inclusive as estatais.
O que pode ser atribuída à venda de ativos limitou-se a 25,65% da
redução da dívida líquida, entre o final de 2014 e
o final de 2018. Cerca de três quartos (74,35%) desta
redução teve origem na geração operacional de caixa
da Petrobras.
O somatório do lucro operacional do Abastecimento da Petrobras nos anos
de 2015, 2016 e 2017 registrou US$23,7 mil milhões, em valores
corrigidos para 2018, enquanto o E&P
(exploração/produção) obteve US$9,4 mil
milhões no mesmo período, quando o preço do
petróleo médio foi de US$52,68 por barril.
As privatizações de refinarias, terminais, dutos e da
distribuidora trazem prejuízos muito mais graves à
resiliência e mesmo à sobrevivência da Petrobras do que
presumíveis benefícios pela redução dos gastos com
juros, decorrentes da antecipação da redução da
dívida.
CORREIOS
Ao longo do tempo a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos
ECT, se consolidou como uma das maiores e melhores Empresas de Correios do
mundo. Sua receita anual varia entre R$18 e 20 mil milhões, o que chama
atenção de grandes corporações nacionais e
internacionais, porém devido ao seu pacto federativo a ECT não
tem fins lucrativos e exerce o chamado subsídio cruzado,
onde os grandes centros, em média 324 municípios, financiam os
mais de 5 mil restantes, universalizando dessa forma o serviço postal
independentemente da condição social dos seus usuários,
sendo a Empresa que atua no e-commerce com o menor custo e mesmo assim
não necessita do Tesouro Nacional devido ser uma Empresa
Superavitária.
Portanto, defender as Empresas Públicas é defender a soberania do
nosso País e o direito à universalização dos seus
serviços.
ELETROBRAS
A maior empresa de energia elétrica da América Latina, com 125
usinas, concentrando mais de 50% dos reservatórios de água do
país, e mais de 70 mil quilómetros de linhas de
transmissão espalhadas por todas as regiões país, a
Eletrobras foi a responsável pela construção e hoje opera
as principais usinas e linhas de transmissão do país. Faz isso de
forma eficiente, mantendo tanto a alta qualidade de seus serviços quanto
a lucratividade da empresa. Nos últimos dois anos e meio, a empresa
acumula mais de R$28,9 mil milhões de lucro.
A Eletrobras mantém seu compromisso público. A empresa vende a
energia elétrica mais barata do mercado, com tarifas de R$60/MW (46%
abaixo do preço de mercado), com vistas a promover o acesso a energia
elétrica e a modicidade tarifaria. Atuando como instrumento de
promoção de políticas públicas, a Eletrobras leva
energia a milhares de pessoas com o programa Luz para todos, tornou nossa
matriz energética mais limpa com o Programa de Incentivo às
Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa) e combate o
desperdício através do Programa Nacional de
Conservação de Energia Elétrica PROCEL.
A privatização da empresa e consequente perda de controle sobre
os grandes reservatórios e linhas de transmissão representaria um
grande risco para a soberania do país. Além disso, a
experiência histórica e recente nos mostra que a
privatização não é sinônimo de aumento da
qualidade e muito menos de redução dos preços. Nos estados
onde as distribuidoras da Eletrobras foram privatizadas recentemente, em alguns
casos, as contas de energia elétrica já experimentaram aumentos
de mais de 30%. Energia não é mercadoria, e defender a Eletrobras
Pública é defender a soberania do país!
BANCO DO BRASIL
A carteira de crédito do Banco do Brasil alcança, hoje, mais de
R$700 mil milhões e irriga toda a economia. O BB está presente em
99,5% dos municípios do Brasil e mais de 80% das
transações hoje ocorrem em plataformas digitais. Atua em mais de
100 países e conta com número de clientes (69 milhões) que
ultrapassa a população de países como Espanha,
França, Inglaterra e Itália.
Lucrativo e útil, remunera os cofres públicos com resultados
expressivos, ano a ano. Sólido, com governança aprovada pelos
órgãos de controle e regulação, pode fazer muito
para a economia brasileira neste momento de queda dramática no PIB.
O Banco do Brasil responde por 60% do crédito concedido à
agricultura empresarial e 80% do montante destinado à agricultura
familiar, sendo que este último segmento pouco interessa aos bancos
privados. A produção familiar é a base de 90% dos
municípios brasileiros com até 20 mil habitantes e reponde pela
renda de 40% da população economicamente ativa e por mais de 70%
dos empregos no campo. Se o Brasil só contasse com a
produção familiar, ainda assim, estaria entre os 10 maiores
países na produção de alimentos.
SERPRO
Atualmente, muitos consideram que o dado é o novo petróleo
https://bit.ly/2ZjypiE
. É nesse cenário que o SERPRO se insere como a maior empresa
pública de TI do mundo e guardião dos dados dos brasileiros. Com
55 anos de experiência, o SERPRO funciona como uma verdadeira
memória da TI do Governo Federal, sendo o responsável por seus
principais sistemas estruturantes e cuidando de dados extremamente
sensíveis e estratégicos
https://bit.ly/2RawEQs
, tais como todas as transações de comércio exterior
(Siscomex), informações de toda a gestão administrativa,
financeira e contábil da União (Siafi), informações
fiscais de todas as pessoas físicas e jurídicas (IRPF e IRPJ), de
todas as Notas Fiscais Eletrônicas emitidas (NFe) e de toda a
escrituração contábil das empresas (Sped), dentre muitos
outros. Além disso, o SERPRO é o grande catalisador da
transformação digital do Governo Federal, desenvolvendo
soluções inovadoras, como a Carteira Digital de Trânsito e
o Datavalid. O SERPRO é uma empresa bem estruturada, sustentável
e lucrativa, que não depende do orçamento da União. Teve
excelentes resultados nos últimos anos, com faturamento de R$ 2,86
bilhões e lucro líquido de R$487 milhões em 2019, ano em
que foi premiado como a maior empresa no setor da Indústria Digital pela
revista
Exame
https://bit.ly/35fMwcO
.
CASA DA MOEDA
Fundada em 1694, a CMB desempenha um amplo leque de serviços
essencialmente públicos por sua particular natureza, inexistindo no
mundo registro de privatizações bem sucedidas no seu campo de
atuação, fato já estudado e explicado
https://bit.ly/3iglMMK
. Também é responsável pela segurança e
autenticidade dos selos postais, fiscais e passaportes brasileiros, sendo
historicamente superavitária e sustentável.
Contudo há caricatural tentativa de privatização que serve
apenas como diversionismo que visa repassar à iniciativa privada um
natural monopólio.
É impressionante o ritmo de ações e a falta de respeito
como a CMB vem sendo tratada nos últimos 14 meses, como fica claro a
seguir: a) Desde 12 de julho de 2019 a CMB é administrada por diretores
que não preencheram os requisitos de experiência para o cargo e
sem sequer conhecerem a empresa; b) em 32 dias (14 de agosto de 2019) já
havia Exposição de Motivos para acabar com a exclusividade de
suas atividades); c) foi inserida em 14 de outubro no PND (Decreto 10.054/19)
sem qualquer tipo de estudo; d) foi editada Medida Provisória 902/19 em
05 de novembro para acabar com a exclusividade da CMB; e) uma semana
após editada a MP 902, o BNDES abre (em 12 de novembro de 2019) um
pregão para contratar empresa especializada para apresentar
estudo de privatização; f) em 24 de janeiro BNDES já tinha
contratado empresas por R$2,768 milhões; g) não aprovada a MP 902
no Congresso em 14 de abril de 2020; h) em 28 de maio de 2020 o Presidente da
República afirma que retirará CMB das privatizações.
Deveria estar interrompida a sanha privatizante, mas não foram
obedecidas as decisões do Congresso ou mesmo do Presidente da
República, pois a direção da CMB prossegue em aberto
desmonte institucional da empresa, substituindo-a por uma estrutura
própria e sem concurso público através das seguintes
medidas: a) implantação de avaliação de desempenho
com utilização de curva forçada para demitir os empregados
concursados; b) terceirização de atividades finalísticas
da empresa (sem paralelo no mercado) através de pregão; c)
elevação drástica do número de cargos de livre
provimento para executar tarefas que os empregados efetivos advertem serem
impróprias; d) prosseguem as interações com BNDES para
privatização e alienações, ao argumento do Decreto
10.054/19 não estar revogado. Como se vê, há absoluto
desrespeito à natureza dos serviços prestados pela CMB, a
decisão do Congresso e à manifestação do Sr.
Presidente de 28 de maio de 2020.
DATAPREV
A Dataprev faz, mensalmente, o processamento da folha de pagamento de todos os
aposentados do país, assim como de todos aqueles que recebem algum tipo
de benefício previdenciário.
Os benefícios previdenciários da folha de pagamento processada
pela empresa são, de fato, tão críticos para a economia do
país que eles representam 25% do PIB em 500 municípios e 6,52% do
PIB total. Ela também mantém o CNIS (Cadastro Nacional de
Informações Sociais), grupo de bases de dados que possuem, dentre
outras informações, todos os vínculos trabalhistas e
previdenciários de todos os trabalhadores do Brasil.
Além do INSS, a Dataprev atende também a Secretaria Especial de
Previdência e Trabalho, a Agência Nacional de Transportes
Terrestres (ANTT), a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), a
Secretaria de Receita Federal do Brasil (SRFB), a Superintendência
Nacional de Previdência Complementar (PREVIC), instituições
financeiras públicas e privadas, entre outros.
Diante desses exemplos, todas as 37 (trinta e sete) entidades que firmam a
presente carta, conforme logomarcas a seguir, solicitam a V. Exa. detalhar as
verdadeiras razões para entrega de patrimônio estratégico e
lucrativo a preços irrisórios, com danos patrimoniais,
financeiros, econômicos e morais ao país.
Atenciosamente,
O original encontra-se em
auditoriacidada.org.br/...
Esta carta aberta encontra-se em
https://resistir.info/
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