"O projeto de conciliação de classes do PT faliu"
por Ricardo Antunes
[*]
entrevistado por Gabriel Brito
[**]
Jair Bolsonaro assumiu a presidência da República e seus primeiros
dias de mandato deixam claro que sua agenda política é uma
radicalização daquela executada por Temer. Na primeira entrevista
de 2019, o Correio da Cidadania conversou com o sociólogo do trabalho
Ricardo Antunes, que acaba de publicar
O privilégio da servidão o novo proletariado de
serviços na era digital
(Editora Boitempo), e faz uma dura análise do atual estágio
político e ideológico sobre os setores que deveriam fazer o
contraponto ao projeto de uma direita de evidentes traços
autoritários e excludentes.
Na conversa, Antunes aponta para o caminho de destruição total do
mundo do trabalho ofertado pelo novo governo, o que mal foi disfarçado
em sua campanha eleitoral. E constata que apesar da forte votação
o PT já não tem condições de liderar as lutas
sociais no Brasil. "O partido terá de abdicar de qualquer
hegemonismo nas esquerdas. Poderá ser um partido de centro-esquerda
parlamentar, capaz de votar contra projetos que ataquem direitos do mundo do
trabalho e setores vulneráveis da população. Mas nem com
isso devemos ter ilusões. Que ninguém espere que o parlamento
seja a barreira contra a tragédia anunciada de Bolsonaro".
Tal como aponta em seu livro, Antunes afirma reiteradamente as novas facetas
dos movimentos que se opõem ao capitalismo e suas políticas
econômicas, reorganizadas em escala global. "Precisamos de
organização social e política autônoma, de base e
classe, formada com espírito anti-capitalista, coisa que o PT no poder
ajudou a obliterar. As esquerdas sociais precisam jogar sua energia na
combinação das lutas de resistência em todos os
espaços possíveis com a busca de um projeto autônomo de
emancipação social e política. O calendário das
oposições não pode mais ser o calendário das
eleições".
Sobre este reordenamento mundial, o sociólogo explica: "estamos num
período de tripé devastador: hegemonia profundamente destrutiva
do capital financeiro, uma pragmática neoliberal que não tem mais
nenhum limite e uma reestruturação produtiva do capital que por
sinal é permanente. O mundo informacional-digital sob comando do capital
financeiro sabe que não pode eliminar o trabalho definitivamente. Mas
sabe que pode depauperá-lo e só remunerar quando um trabalho for
realizado, sem descanso, férias, fim de semana, nada. Por isso chamo
tais trabalhadores e trabalhadoras de novos proletários da era
digital".
No entanto, é enfático em afirmar que tal modelo de capitalismo
inevitavelmente produzirá uma grande massa de rebelados, dado o
rebaixamento das condições de vida e enorme
concentração de renda que garantirá a seus donos.
A entrevista completa pode ser lida a seguir.
Correio da Cidadania: O que esperar do governo de Jair Bolsonaro e seu perfil
de extrema-direita, refletido, para além da histriônica figura
presidencial, na equipe de trabalho? O que esperar para o chão social
brasileiro em 2019?
Ricardo Antunes:
O que pode ser dito de imediato é que entramos num tempo de completa
imprevisibilidade. Sabemos que Bolsonaro surfa num momento de ascensão
da extrema-direita. Não falamos da direita neoliberal tradicional,
dominante em especial nos países de capitalismo avançado de forma
quase inquestionável, com suas variantes neoliberal pura ou
social-liberal, como no fundo são os socialistas europeus.
O Bolsonaro surfa nesta onda, que, à diferença do neoliberalismo,
tem uma construção menos globalista e mais nacional. O Trump
é fundador deste projeto. Mas uma coisa é ter um projeto de
reposição dos EUA no mundo global, outra coisa é o papel
do Brasil. As diferenças são fundantes: um é o centro, o
império do capitalismo, o outro é um país da periferia,
importante, mas um país que depende do comércio com a China, os
EUA, a Europa, a Argentina. Isso torna tal governo imprevisível.
Politicamente, parece não haver dúvida de que será
extremamente conservador, protofascista e que em seu ideário podemos
caracterizar como profundamente antipopular, antissocial, anticlasse
trabalhadora. Bolsonaro deixou claro que vai avançar na informalidade do
mundo do trabalho. Seu projeto de carteira de trabalho verde amarela é
ultraortodoxo no sentido neoliberal.
Portanto, para o cotidiano das pessoas só podemos esperar o pior
possível. Mas ele deixou isso claro em sua campanha eleitoral, anunciou
o desmonte completo da classe trabalhadora, coisa que Temer em seus dois anos
já fez amplamente, com a Reforma Trabalhista, a lei da
terceirização total e a permissão da
terceirização ampla e quase irrestrita no setor público.
Correio da Cidadania: O que esperar dessa combinação de
liberalismo econômico extremado e um governo de traços
protofascistas?
Ricardo Antunes:
O governo, para além de seu "mito", já mostra em
seus primeiros passos ser eivado de tensões e contradições
em seu interior. Traz uma política ortodoxa capaz de fazer a Margaret
Thatcher revirar-se em seu túmulo. De um lado traz uma liderança
que surfou em cima de uma onda ultraconservadora e de um enorme desencanto da
população com a falência do projeto de
conciliação de classes do PT.
Teve um "líder" que soube se utilizar das campanhas
anticorrupção para converter o PT no inimigo central do
país como se este fosse o criador da corrupção e que
participou de apenas um debate televisivo, logo no começo da campanha. E
mesmo quando estava em condições de aparecer nos debates
não o fez, fazendo sua vacuidade política não aflorar com
a intensidade que já aflora, como na sua incapacidade de indicar alguma
equação para questões de economia, saúde,
educação...
O vazio do seu ideário é compensado pelo ódio às
esquerdas, aos movimentos populares, aos LGBTs, aos indígenas, às
mulheres, aos negros... O elemento complicador é a cunha militar muito
forte dentro do governo. O vice, ao que parece, foi uma imposição
das forças armadas, um sinal de ser preciso alguém de
confiança para dar comedimento e mesmo um contraponto ao tom
intempestivo do "líder" vitorioso nas urnas.
É o neoliberalismo levado ao limite, com mais
privatização, mais concentração de renda
[rendimento, NR], mais enriquecimento das burguesias, mais empobrecimento das
classes trabalhadoras, mais informalidade do trabalho, coisa que Bolsonaro
insiste em defender...
Dessa forma, a combinação colocada pela pergunta apenas nos faz
antever a multiplicação das possibilidades e tons do desastre
econômico, social e político.
Correio da Cidadania: Já falamos em outras entrevistas sobre a
dificuldade de recolocar o PT como grande liderança das lutas sociais e
da classe trabalhadora depois de seus governos e opções
políticas e econômicas. Mas também se trata da maior
força de oposição, partido que mais elegeu deputados. Como
você imagina a volta do PT à oposição, com todo seu
desgaste entre setores populares e também nas alas progressistas da
sociedade?
Ricardo Antunes:
O projeto de conciliação de classes do PT faliu. A medida do
Bolsonaro de fechar o Ministério do Trabalho é mais do que
emblemática. O Ministério do Trabalho foi criado em 1930 por
Getúlio para ser um organismo a serviço da
conciliação de classe. Ao extingui-lo, Bolsonaro mostra que
não vem fazer a conciliação de classes, mas dar
continuidade à contrarrevolução preventiva iniciada por
Temer, que agora entra em período mais crítico, com a
radicalização da Reforma Trabalhista e a Reforma da
Previdência que visa jogar a população pobre na
imprevidência.
O PT recuperou certo fôlego por conta do desmonte ultraliberal do governo
Temer. O partido saiu do governo Dilma sem força para fazer sequer uma
greve de um dia por conta do impeachment ou contra a prisão de seu
principal líder, Lula. Mesmo assim, se fortaleceu na reta final da
eleição, entre outras coisas porque a população tem
sua sensibilidade. É muito evidente: o governo do PT foi em seu conjunto
desalentador para a classe trabalhadora, mas o governo Temer foi devastador.
Assim, o PT ainda ganhou um voto de confiança de muita gente. Até
figuras como Joaquim Barbosa e Rodrigo Janot declararam voto em Haddad, um
amplo leque de tendências o fizeram, abstraindo o fato de o candidato ser
do PT, diante do fato de no outro lado estar o inimigo maior, com cheiro de
fascismo.
Mas as eleições já foram. Como fica o PT agora?
Terá de fazer um acerto de contas profundo consigo mesmo, com o
fenômeno do lulismo e sua pragmática. Isto é, aquela
pragmática de um partido que sempre espera a decisão final de seu
líder, entendido pela maioria de seus militantes como um gênio
político infalível. O PT só terá chance de se
recuperar se fizer uma profunda autocrítica em relação a
este ponto. E não vejo condições para isso dentro do
partido, especialmente porque sua cúpula é predominante e
visceralmente lulista. Faço uma análise do PT que temos pela
frente, independentemente das adversidades que o Lula padece na prisão,
condenado sem provas materiais, como é de consenso considerável
por todo um pensamento jurídico razoavelmente independente.
A discussão a respeito da corrupção, que foi intensa nos
governos do PT, é vital. Se não houver uma autocrítica em
relação a isso... Até porque o partido nasceu com uma
certa concepção udenista, dado que a UDN tinha um traço
levemente liberal-democrático. Havia a ideia de que o PT seria capaz de
acabar com a corrupção brasileira, mas terminou no mesmo
lamaçal. Dito isso, o que o judiciário fez em
relação ao Lula é outra questão.
De todo modo, o resultado é que o PT não é mais
líder, por definição ou vontade divina de seu
líder, da oposição de esquerda no Brasil. As
oposições de esquerda terão de se reinventar, e por fora
do lulismo. Uma coisa é defender um julgamento até última
instância e sua condenação a depender de provas materiais
concretas. Outra coisa é praticar uma forma de lulismo mesmo fora do PT,
que dificulta e impede o nascimento de uma esquerda social e política de
perfil mais autônomo, ideologicamente mais consistente e que perceba que
o desafio fundamental do próximo período é combinar uma
resistência de perfil antifascista com um projeto de classe. Como
já vemos na Hungria, onde houve uma manifestação muito
importante contra o governo neofascista e xenofóbico que visa à
devastação da legislação trabalhista do país.
Não que o PT deva ser excluído de tudo. Para algumas
questões as esquerdas devem caminhar juntas, quando houver unidade
básica. Se é contra a reforma trabalhista do Temer e sua
radicalização pelo governo que entra, de devastação
integral do mundo do trabalho, deve caminhar junta. Devemos ter a CUT e o PT em
manifestação de oposição deste tipo. Até por
ser importante diferenciar um pouco a cúpula dominante do PT de amplos
setores do partido, que estão de fato descontentes. Não imagino
que figuras como Tarso Genro e Olívio Dutra, com todas as
diferenças marcadas pelo tempo, mas ainda lideranças muito
respeitadas, não tenham nenhuma insatisfação com a
tragédia desenvolvida pelo PT no último período.
Existe um mosaico de movimentos sociais: MST, MTST, dos indígenas, das
mulheres, dos LGBT, dos negros, da juventude, da periferia, uma miríade
de movimentos sociais profundamente descontentes com a tragédia dessa
contrarrevolução preventiva e o que implementará a partir
de janeiro.
O PT devia fazer o que tanto cobrou do PCB em relação a 1964 (a
partir daquele golpe militar abriu-se um debate nas esquerdas, muitos
saíram do PCB e foram para a luta armada etc). Em poucas palavras, o
debate era: o PCB cometeu erros "de esquerda" ou repetiu um
traço constante desde 1945, isto é, desvios "de
direita", de colaboracionismo e conciliação de classes?
Além desta autocrítica fundamental, o PT não vai poder
ressurgir das cinzas sem pelo menos outras duas autocríticas
fundamentais: a excessiva institucionalidade e apego ao calendário
eleitoral e o distanciamento das classes trabalhadoras, como ficou claro no
impeachment, quando nenhuma reação, nem por uma hora, pode ser
realizada. A ponto de a prisão de Lula no Sindicato dos
Metalúrgicos não ser marcada pela presença de
operários, de gente que foi a base de sustentação do PT e
Lula desde os anos 70. Estavam presentes o MTST, MST e outros movimentos
sociais. A base metalúrgica não fez sequer uma greve ou
resistência contra a prisão de Lula, o que mostra o imenso
descontentamento em relação a seu líder do passado.
O PT deve definitivamente abandonar a ideia de que é o epicentro da
oposição brasileira. O partido e Lula não merecem mais
esse posto há muito tempo. Não lideram a classe trabalhadora
mais. Ao longo da história mereceu, como nos anos 80, quando o partido
liderava as lutas sociais, pois tinha como apoio um tripé espetacular: a
classe operária industrial, amplos setores do campesinato e amplos
setores da classe média assalariada. Por todas as
modificações que tais setores sofreram ao longo de 30 anos, o
partido já não tem o apoio majoritário de nenhum deles. O
partido teve votação expressiva, mas tratou-se de um voto contra
o Bolsonaro. Teve votação expressiva entre setores que ganham um
ou dois salários [mínimos, NR] e em especial no Nordeste.
No meu livro e vários artigos anteriores, aponto que a base de apoio do
governo Lula mudou entre o primeiro e o segundo governos. Na medida em que
perdeu apoio na massa sindicalmente organizada pela CUT e politicamente
dirigida pelo PT, ganhou apoio das massas atingidas pelo Bolsa Família,
que embora fosse um tipo de assistencialismo apoiado até pelo Banco
Mundial, pelos traços de forte miserabilidade de seus
beneficiários foi importante. Neste momento o Nordeste se tornou um
pilar de sustentação do lulismo. Mas a classe trabalhadora
industrial do Sudeste e do Sul passou a se afastar. A classe trabalhadora
nordestina ainda ficou ao lado do PT, por motivos compreensíveis, pois
vivenciou o desgaste completo que foi a devastação de Temer.
O partido terá de abdicar de qualquer hegemonismo nas esquerdas.
Poderá ser um partido de centro-esquerda parlamentar, capaz de votar
contra projetos que ataquem direitos do mundo do trabalho e setores
vulneráveis da população. Mas nem com isso devemos ter
ilusões. Que ninguém espere que o parlamento seja a barreira
contra a tragédia anunciada de Bolsonaro. Precisamos de
organização social e política autônoma, de base e
classe, formada com espírito anticapitalista, coisa que o PT no poder
ajudou a obliterar. As esquerdas sociais precisam jogar sua energia na
combinação das lutas de resistência em todos os
espaços possíveis com a busca de um projeto autônomo de
emancipação social e política. O calendário das
oposições não pode mais ser o calendário das
eleições.
Uma lição das rebeliões de junho que as esquerdas deveriam
ter aprendido é que a população não crê na
institucionalidade, em nenhuma de suas expressões. Naturalmente,
não quero dizer que tais instrumentos não tenham nenhuma
importância. Vimos que o STF agiu positivamente ao impedir ataques da
extrema-direita institucional às universidades e suas expressões
internas. Aliás, até a ditadura era mais cautelosa em fazer
isso...
De todo modo, as rebeliões de 2013 mostraram que os novos caminhos
são mais plebiscitários, horizontais, extraparlamentares,
anti-institucionais e não jogam todas as suas energias no
judiciário. O judiciário está incapacitado para tanto...
Ele reflete o plano da normatividade e as oscilações das
confrontações da vida social, que vêm das ruas.
Correio da Cidadania: Pelas declarações de suas principais
lideranças não haverá essa tão propalada
autocrítica. Aliás, falar nisso chega a parecer uma fuga da
realidade.
Ricardo Antunes:
Com tristeza, digo que não vejo a menor possibilidade desta
autocrítica do PT. Mas muitos setores de base do partido, e até
da direção, menos comprometidos com a trágica
política que levou ao fim de seus governos, participarão de novos
embates.
É preciso extirpar o mito de Lula como grande líder e
herói da classe trabalhadora, o infalível e insuperável.
Neste sentido, o lulismo, tal como foi o prestismo no PCB, e como todos os
movimentos por demais canalizados na figura de seu líder, a exemplo
também da Venezuela, padecem do mesmo mal. O chavismo, que tantas
mudanças positivas gerou na Venezuela, não foi capaz de formar
lideranças que substituíssem Chávez. No Brasil, esse
líder não tem mais condições de capitanear a luta
por uma outra sociedade. Não vi até hoje uma única frase
do Lula a questionar "onde nós erramos?". Antes de ser preso,
Lula dizia em seus palanques que queria de novo unir o país e acabar com
o clima de tensão. Em que mundo ele vive? Num país pautado pelo
racismo, o escravismo e a superexploração do trabalho, como podem
se juntar forças tão díspares? Esse não e o
país da conciliação, é o país da
contradição visceral.
É importante lembrar que a extrema direita politizou o debate eleitoral.
Bolsonaro politizou o debate e ao contrário do que se falou da Dilma
não cometeu o chamado estelionato eleitoral. Usou sua retórica
contra a esquerda, disse que precisava rebaixar direitos do trabalho, defender
empresários, fazer privatizações, jogou toda a culpa no PT.
E a esquerda conseguiu minimamente oferecer um projeto de esperança em
direção de outra sociedade? Eu não vi em nenhum programa
ou debate. Não vi ninguém dizer que o desafio é recuperar
uma vida dotada de sentido e um outro mundo, não mais capitalista.
Não vi, salvo um ou outro grupo minoritário. Ninguém
defendeu um socialismo de novo tipo, capaz de acabar com a
exploração visceral do trabalho, com a propriedade privada e
intelectual, que domina riquezas criadas pela humanidade, a exemplo das
comunidades indígenas que veem grandes laboratórios se
apropriarem de conhecimentos seculares.
A extrema-direita está apresentando um projeto. A esquerda não.
Lembro de uma vez que estive em Roma, há uns 15 anos, quando vi um
cartaz que me impressionou muito: "nós somos a verdadeira
direita". Quinze anos atrás ou mais. Na Itália a direita
está dizendo que ela é a verdadeira, porque a direita sempre
aparecia como liberal, liberal-conservadora, democrata-conservadora, mas
não como fascista e protofascista aberta, como vemos hoje no Brasil. Por
que a esquerda não politiza o debate com radicalidade? Não estou
falando de doutrinarismo. Mas o que ensinam as comunidades indígenas? A
vida comunal. O que o majestoso
Quilombo dos Palmares
, talvez o primeiro
experimento de emancipação social no Brasil, ensinou? A vida
comunal. O que ensinou a rebelião do Haiti, a primeira dos escravos e
brutalmente reprimida? A possibilidade da vida comunal, com as propriedades
coletivas prevalecendo sobre a privada.
O problema é que na ânsia de ter mais votos considera-se
necessário calibrar e moderar demais o discurso, para adequar-se a uma
onda antiesquerda de amplitude global, sob hegemonia financeira, dado que as
populações sofrem um inculcamento muito profundo contra tais
ideias. Mas nunca é integral. A resposta vem dos levantes, como as
greves de Jirau e Santo Antônio, as greves do começo desta
década que foram muito importantes na história recente do
país. Estamos instados a pensar outro modo de vida.
Correio da Cidadania: Relacionando a entrevista com seu livro, que fala da
precarização do trabalho em escala totalizante, temos a
herança do governo Temer que avançou neste sentido com leis em
favor da terceirização e a entrada de um governo que visa
reforçar tais projetos. Considerando ainda as politicas econômicas
que se anunciam, o que esperar em termos de emprego e renda para a
população brasileira de modo geral?
Ricardo Antunes:
Quando olhamos os países europeus que tiveram vigência da
socialdemocracia, vimos que conseguiram legislações de
proteção social e do trabalho muito positivas, escola e
saúde públicas, níveis de civilidade do capitalismo que
jamais existiram na periferia. Se vemos que o máximo de civilidade que
tivemos na periferia, no caso brasileiro, foi com Getúlio Vargas, sendo
que a classe trabalhadora rural estava excluída da
CLT
...
Mas acontece que estamos num período de tripé devastador:
hegemonia profundamente destrutiva do capital financeiro, uma pragmática
neoliberal que não tem mais nenhum limite e uma
reestruturação produtiva do capital que por sinal é
permanente. Nasceu na Alemanha, mas se espalhou no mundo avançado a
indústria 4.0. Em poucas palavras significa que as
corporações se devoram. O futuro de uma depende da
absorção que ela fará de sua concorrência.
Exemplo: 20 anos atrás havia uma disputa cerrada entre [os produtores de
cerveja] Brahma e Antarctica. Hoje são a mesma, e são uma empresa muito maior do
que a soma dessas duas marcas. Havia também uma disputa intensa entre
Perdigão e Sadia. Hoje são a mesma, a Brasil Foods. No centro
global as fusões se ampliam exponencialmente. Paralelamente,
considerando que as corporações comandam a vida produtiva e,
portanto, as cadeias produtivas de valores, a tecnologia é vital,
especialmente quando o setor de serviços passou a interessar diretamente
aos capitais.
Quando da revolução inglesa, no século 18, a
indústria foi o novo, ainda que houvesse indústria antes. Entre
aspas a indústria vem desde as comunidades primitivas quando ao se
aquecer minérios se conseguia a forma de metal. Mas a
revolução inglesa levou a lógica capitalista à
indústria e a um processo de transformação capitalista do
mundo rural no século 19, que passou ao século 20.
Indústria e campo eram os setores principais da criação de
valor e lucro, da extração da mais valia. Nesses séculos o
setor de serviços, embora tivesse núcleos privatizados, era
essencialmente público: estradas, telefonia, saúde,
educação, previdência, cárcere...
Mas com a crise dos anos 70, estrutural e muito profunda, tanto do capitalismo
como de seu sistema, houve uma intensificação à
enésima potência da tecnologia de informação e
comunicação no mundo das empresas, em particular do setor de
serviços. E a introdução do mundo maquínico, da
lógica informacional e digital, transformou profundamente a
produção capitalista. Hoje uma grande empresa carrega o nome de
uma marca, mas terceiriza toda sua produção. O Wallmart tem uma
cadeia vastíssima, que começa no sul da China. A Amazon tem um
mundo esparramado de empresas que oferecem trabalhos de ponta na área
digital, tem experimentos como lojas e shoppings onde a pessoa entra, é
identificada digitalmente, pega um produto, sai e seu preço cai direto
na conta bancária. Tudo sem contato com nenhum trabalhador. Uber e
assemelhados praticam uma escravização do(a) trabalhador(a) que
usa seu carro, paga seguro, gasolina e que numa corrida vê 20%, 30% do
pagamento imediatamente recolhido pelo aplicativo.
Como cito no livro, tem o contrato de zero hora na Inglaterra, que abarca
praticamente todas as profissões de serviços, médicos,
advogados, técnicos, cuidadores, limpeza, domésticas,
jardineiros... Eles ficam à disposição de seus
aplicativos, que os chamam para prestar serviços. E só recebem
quando há uma chamada para fazer um serviço. Se ficar 3 ou 4 dias
esperando uma chamada que não vem, não recebe. As empresas de
tais áreas foram as que mais comemoraram a aprovação desta
contrarreforma trabalhista do Temer, em favor do trabalho intermitente, porque
podem fazer os trabalhadores esperarem, seja de sábado, domingo, sem
pagá-los. E quando chamados ganham por duas ou três horas. Se de
repente chove e o movimento de um fast food fica abaixo do esperado a
remuneração pode ser insuficiente até
paracondução.
Correio da Cidadania: Esse aspecto não se choca frontalmente com o
discurso ufanista em favor do trabalho dito autônomo, do
empreendedorismo, condições que supostamente tornariam o
trabalhador mais livre?
Ricardo Antunes:
O mundo informacional-digital sob comando do capital financeiro sabe que
não pode eliminar o trabalho definitivamente. Mas sabe que pode
depauperá-lo e só remunerar quando um trabalho for realizado, sem
descanso, férias, fim de semana, nada. Por isso chamo tais trabalhadores
e trabalhadoras de novos proletários da era digital. E daí vem o
título do livro, a partir do livro de Albert Camus,
o Primeiro Homem,
quando em linhas gerais ele diz que só os acidentes de trabalho, em
empresas que dão seguro saúde, dão a chance de
férias e lazer ao trabalhador. Só quando eles se acidentam podem
ter tais benefícios. O desemprego passa a ser o maior medo e o trabalho,
que deveria ser uma virtude, acaba sendo um caminho para a morte, fotografia
que resulta no Privilégio da servidão.. Isto é,
os jovens que hoje têm 20, 25 anos, se tiverem sorte, serão
servos, submetidos e dominados em seu trabalho. O assalariado é o
escravo da era capitalista, como dizia Marx.
Os jovens de hoje, qualificados ou não, nativos ou imigrantes, se
tiverem sorte terão o privilégio de serem servos. Caso
contrário, estarão no desemprego, que será muito maior no
futuro. Em suma, a indústria 4.0 significa digitalização,
automatização, introdução da inteligência
artificial, da lógica dos algoritmos, todo esse monumental avanço
de tecnologia da comunicação e informação, de tal
modo que todas as atividades vão eliminar o trabalho vivo, intensificar
o trabalho realizado pelo mundo digital ("a internet das coisas",
como dizem), em qualquer setor, escolas, bancos etc. No mundo produtivo, seja
na indústria, agricultura, suas intersecções e
serviços, tudo que for possível digitalizar, computadorizar,
automatizar e eliminar trabalho humano será valido.
A pergunta que não quer calar é: o que vai acontecer com a massa
de trabalhadores(as)? Teremos um pequeno grupo de trabalhadores(as) muito
qualificados(as) na ponta do sistema, para realizar as atividades humanas
absolutamente insubstituíveis ao menos até o presente, mas toda a
massa de trabalhos intermediários, desde as gerências e
supervisões até a parte mais executora, operária, todos
jocosamente chamados de "colaboradores", vai perder seu emprego.
Assim teremos uma situação na qual os bolsões de
desempregados aumentarão.
O Brasil tem praticamente 20 milhões de desempregados. Mais um conjunto
que faz bico, trabalho informal, autônomos sem
formalização, à margem muitas vezes do sistema de
previdência. Consequentemente, a previdência arrecadará
menos, vão dizer que ela é deficitária por culpa dos
trabalhadores, quando é o grande capital que arrebenta a
previdência pública em favor da previdência privada,
favorável aos bancos com seu modelo de capitalização.
Correio da Cidadania: É um cenário profundamente destrutivo.
Ricardo Antunes:
Tem um elemento importante que destaco no livro: essa massa imensa de
trabalhadores e trabalhadoras na China, Índia, na Europa, EUA,
Canadá, Brasil, Argentina etc. etc. etc., enfim, massa imensa de jovens
informalizados, terceirizados, intermitentes, alguns com poucos direitos,
outros com burla completa, se rebela. Recentemente houve greves dos
trabalhadores de fast food nos EUA e das trabalhadoras da limpeza dos tribunais
de justiça de Londres. Há greves frequentes em escritórios
de telemarketing.
Precisamos estudar, compreender e analisar o modo de ser daquilo que chamo de
nova morfologia do trabalho, do proletariado de serviços, que não
é a classe média. O que caracteriza a classe média
é a prevalência do trabalho intelectual, o que não é
o caso das categorias aqui citadas. Há uma massa de jovens bem formados
em Portugal, Grécia, que vai trabalhar em hotéis, restaurantes.
Vi em Veneza jovens formados em engenharia abrindo e fechando as portas do
vaporetto (as barcas que transportam as pessoas pelos canais) por 500 euros por
mês, seis dias por semana, durante 5 ou 6 meses, em um contrato
só, depois substituído por outro jovem.
É claro que tal contingente de proletários é diferente em
sua subjetividade quando comparado ao antigo operário industrial, um
metalúrgico, um trabalhador rural. Mas o setor de serviços se
tornou altamente produtivo, gerador de lucro e mais valor. Duas passagens
importantes colocadas por Marx em O Capital: para gerar valor e mais valia a
produção do trabalho não precisa ser materialmente
produtiva; ela pode ser vista no espaço da circulação, a
exemplo da indústria do transporte. Esta não produz nada, mas
transporta pessoas e mercadorias. É um eixo vital da
geração de lucro. É preciso entender o processo de
produção que existe dentro de atividades de
circulação. E tal atividade é vital porque quanto mais
tempo se leva a circular, menor sua produtividade. Quanto mais rápido o
tempo de circulação se aproxima de zero, maior o tempo de
produção.
Não é difícil compreender que o mundo das tecnologias da
comunicação e informação expandidas em todas as
áreas passou a ser um setor vital na esfera de circulação
do capital. Nossos gostos são conhecidos pelos sites e redes sociais. Se
procuramos uma passagem para a França, na mesma hora recebemos no
computador informações de novas passagens a um preço mais
razoável. Significa que o capital quer extrair mais valor em todos os
espaços em todas as formas de produção no sentido lato.
Por que o governo Bolsonaro defende o ensino a distância? Porque o
professor, ganhando 15 reais por aula, pode deixar de dar aula para 20 ou 30
alunos e poderia dar para 20 mil ou 30 mil. Quando isso ocorre, aquele
professor que foi vital para a aula presencial, numa escola privada, passa a
ser gerador de um lucro muito potencializado.
Tudo isso cria um proletariado de novo tipo que luta, se rebela, e é
diferente do anterior. Dizem na Europa "nós somos a parte mais
precária da classe trabalhadora: somos jovens, temos
qualificação, homens, mulheres, nativos, imigrantes, brancos,
negros, amarelos, mas não temos direitos adquiridos como tinha a antiga
classe trabalhadora". Vi muita gente na Itália a dizer, "o
sindicato representa vocês, a velha classe trabalhadora. Teremos de criar
os nossos, porque o de vocês não nos representa". O
sindicalismo, especialmente o europeu, muito moderado e tradicional, aprendeu a
representar sua classe no desenho socialdemocrata. Mas hoje a
socialdemocracia é mais ficção que realidade.
Os direitos estão sendo eliminados país por país. Era
inimaginável na Itália, que em 1970 fez um código do
trabalho altamente avançado, vermos, como estabelecido em 2017, um
sistema de pagamentos por voucher. O trabalhador faz, por exemplo, 100 horas
mensais e pega um voucher por hora de trabalho, para depois trocar cada um
deles pelo equivalente à hora do salário mínimo italiano.
O empresário diz que pode arrumar mais horas de trabalho, mas não
pelo mesmo valor. Cria-se um sistema de pagamento direto. E se o trabalhador
não aceita há uma massa imensa de imigrantes e pobres
desesperados por tais postos.
Estamos diante da criação ilimitada de massas de jovens
disponíveis para o trabalho que não têm mais o regime de
proteção, no qual há direitos como férias,
saúde, descanso etc. É um movimento duplo e contraditório:
precarização ilimitada, na qual o intermitente global é
emblemático, e uma massa que se rebela, está lutando para
aprender a criar suas novas formas de associativismo, como se vê em
Milão, em Nápoles, em Portugal, a exemplo do movimento Precari@s e
Inflexíveis. Neste país há o recibo verde como modo de
pagamento, recibo que mede seu pagamento de acordo com a produção
no tempo de trabalho.
Correio da Cidadania: Desse modo, faltaria reconhecer que uma das brechas
aproveitadas pela extrema-direita na atual conjuntura foi uma
interpretação deficiente da atual formação das
classes trabalhadoras?
Ricardo Antunes:
As teses sobre o fim da classe trabalhadora estão sepultadas.
É uma classe que se amplia. Mas como é muito segmentada,
heterogênea, com distinções de classe,
geração, gênero, etnia, é evidente que há uma
dúvida sobre quais organismos vão dar sentido de pertencimento de
classe a este conjunto heterogêneo, polimorfo, polissêmico que
caracteriza a classe trabalhadora na China, na Índia, na Coreia do Sul,
na África, no leste europeu, na América do Sul...
Nas rebeliões de junho [de 2013] era muito visível o jovem proletariado
brasileiro que ralava o dia inteiro em empregos precários para pagar uma
faculdade de noite imaginando que ia participar da festa e dividir o bolo.
Quando ele percebeu que a divisão do bolo, metaforizada nos megaeventos
esportivos, não tinha pedaço nenhum paraele, só para as
grandes corporações, se rebelou. Esse jovem é
política e ideologicamente muito diferente, porque não tem
tradição política nem sindical em seu lastro.
E os sindicatos e partidos de esquerda, grosso modo, têm sido incapazes
de compreender a vida cotidiana, a consciência contingente e aquilo que
é capaz de mobilizar o proletariado que na Europa já se
autodenomina precariado. Essa definição não veio da
sociologia do trabalho. Foram os movimentos de trabalhadores que deram este
nome, a exemplo do San Precario, dos trabalhadores de Milão. É a
nova franja do proletariado, que antes era pequena, mas se expandiu
mundialmente, solapando as bases sociais da socialdemocracia. É uma
parcela da jovem classe trabalhadora que não se beneficia das conquistas
sociais da época do welfare state do taylorismo e do fordismo.
Portanto, quais os interesses desses segmentos que compõem a totalidade
da classe trabalhadora? Que lutas querem realizar? Como vão soldar
laços de pertencimento de classe a fim de evitar que sejam tratados de
forma individual? Como mostram as reformas de Temer, Macri e Macron, querem que
o trabalhador se entenda sozinho com a empresa. Mas quando o trabalhador ganhou
uma? Neste cenário o capital ganha todas.
A saída dos trabalhadores só pode ser solidária e
coletiva, como tento trabalhar nos dois capítulos finais do livro:
"Há futuro para os sindicatos? Há futuro para o
socialismo?" É decisivo recuperar as questões vitais da vida
cotidiana e desenhar outro modo de vida, muito além do capital. Este
é o imperativo do século 21.
11/Janeiro/2019
[*]
Sociólogo.
[**]
Jornalista e editor do Correio da Cidadania.
O original encontra-se em
www.correiocidadania.com.br/...
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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