Afinal, quem deu e como deu o golpe na Bolívia?
A presidente provisória, que logo deve convocar eleições,
se chama Jeanine Áñez. Como na cerimônia de posse ela teve
o senador direitista Arturo Murillo sussurrando junto ao seu ouvido o
que deveria dizer, é fácil entender qual será sua
autonomia como presidente interina.
Essa senhora insignificante teria força para chegar onde chegou?
Não. Era um zero à esquerda até anteontem, continua sendo
hoje e continuará amanhã. Chegou onde chegou graças ao
golpe desfechado depois que Evo Morales conquistou mais um mandato ao derrotar
no primeiro turno o ex-presidente Carlos Mesa.
Inconformado com o resultado, Mesa fez uma denúncia de fraude. Foi essa
denúncia que derrubou Evo Morales?
Não: foi só o primeiro estopim. Mesa fez um escândalo
tremendo, depois calou a boca e sumiu no breu das tocas, à espera do que
iria acontecer.
Evo Morales pediu uma auditoria à Organização dos Estados
Americanos, cujo secretário-geral é o uruguaio Luis Almagro.
Em pouquíssimo tempo Almagro disse que a tal auditoria constatou
irregularidades, e denunciou ao mundo que a eleição tinha sido
fraudada.
Evo recusou-se a aceitar a constatação da OEA, e por isso sofreu
o golpe de Estado. Certo?
Não, não, nada disso.
Antes mesmo de conhecer em detalhes os métodos que levaram ao resultado
da tal auditoria, ele disse que diante daquela conclusão convocaria
novas eleições.
Pois bem: nos tais detalhes que ele desconhecia, a OEA disse ter encontrado
irregularidades em exatas 78 atas, de um total de 34.555. Ou seja, em 0,22%
delas.
O próprio relatório a OEA, além de registrar esse absurdo,
admite que seu trabalho se concentrou só nas regiões onde Evo
tinha sido vitorioso.
Seria a OEA cúmplice do golpe? Com certeza absoluta.
Assim que o relatório foi divulgado, o respeitado Centro de Pesquisa em
Economia e Política (CEPR, na sigla em inglês), sediado em
Washington e que tem entre seus consultores vários prêmios Nobel,
resolveu examinar o documento. E sua análise é demolidora: diz
que a missão da OEA 'não apresentou evidências' que
sustentassem fraude alguma. Ao contrário, cometeu graves erros de
procedimento na tal auditoria.
Bem: e o que o relatório esse sim, uma fraude da OEA
provocou?
Abriu as portas para a largada que os 'comitês cívicos' esperavam
para entrar em ação e saíssem às ruas, desatando o
golpe.
E o que são esses 'comitês cívicos'?
São milícias criadas em Santa Cruz de la Sierra, polo de riqueza,
racismo desvairado e ultraconservadorismo, no primeiro governo de Evo.
Há outros espalhados pelo país, mas os de Santa Cruz são
os mais fortes: ali, jamais foi aceito que um índio tivesse chegado onde
chegou.
Seu líder se chama Luis Fernando Camacho, herdeiro de uma família
especialmente poderosa. É um ultracatólico fundamentalista,
racista até o mais fundo da alma, e que se aliou a evangélicos de
seitas eletrônicas para atacar o presidente sem pausa nem trégua,
à espera dos militares.
Ele esteve no Brasil faz alguns meses, e se reuniu, entre outros
próceres do bolsonarismo, com Ernesto Araújo no ministério
de Aberrações Exteriores. Consumado o golpe, admitiu candidamente
que o governo Bolsonaro estava 'muito bem informado' sobre a
situação boliviana.
Além de Carlos Mesa, o candidato derrotado, e da escandalosa
ação de Luis Almagro, secretário-geral da OEA, houve mais
cúmplices no golpe desfechado por Camacho?
Sim, sim, os de sempre nestas nossas comarcas latino-americanas condenadas ao
infortúnio: as Forças Armadas, a polícia (que em 2008
já tinha tentado se sublevar contra Evo), os grandes meios de
comunicação e, claro, os donos do capital. Tudo com apoio dos
Estados Unidos de Donald Trump, claro, e com a certeza das
bênçãos do Brasil de Bolsonaro.
Há dois pontos intrigantes no bloco dos cúmplices. O primeiro se
refere às Forças Armadas, que até o último segundo,
mesmo quando a polícia já espalhava terror pelas ruas, se
mantiveram em silêncio.
Só abriram a boca no instante final, quando a ameaça de uma
explosão incontrolável se espalhou pelas ruas, para pedir a
renúncia de Evo.
Essa postura indicaria uma divisão interna significativa? O tempo
dirá.
O segundo ponto intrigante: durante os anos de Evo na presidência, os
ricos de sempre enriqueceram ainda mais. O modelo econômico aplicado foi
extremamente favorável a eles.
Por que então apoiaram o golpe?
Por puro racismo. Afinal, o tal indígena que os beneficiou cometeu o
absurdo inaceitável de também beneficiar a sua própria
gente.
Além do mais, por mais presidente que fosse, Evo Morales nunca deixou de
ser índio. E, portanto, ser desprezível.
Esse é o lado sórdido, abjeto, das minorias bolivianas que uma
vez mais se impuseram à maioria, à ordem constitucional, à
decência.
Até quando? Pois vale repetir: o tempo dirá.
15/Novembro/2019
Ver também:
Un indígena no merece ni una cama (o cómo criticar en la izquierda lo que se admira en la derecha)
Embajada de EEUU en La Paz: Su accionar encubierto en apoyo al Golpe de Estado contra el presidente Evo Morales
Cinco estratégias da guerra híbrida na Bolívia
www.resumenlatinoamericano.org/category/latinoamerica/bolivia/
[*]
Jornalista, brasileiro.
O original encontra-se em
www.brasil247.com/blog/afinal-quem-deu-e-como-deu-o-golpe-na-bolivia
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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