O que pode acontecer na Bolívia?
Na Bolívia há incerteza quanto ao curso dos acontecimentos
políticos, uma incerteza capaz de paralisar até a
imaginação dos mais ousados analistas. Pareceria que
"ninguém sabe o que se vai passar". Combinaram-se à
superfície, o que agora chamam "cenários", uma
série de factores políticos, sociais, económicos,
étnico-nacionais e internacionais que confundem desmesuradamente o
panorama, até produzir um estado de irracionalidade,
desorientação e ansiedade colectiva, que pode levar a uma
caótica explosão social. Mas este agitado panorama superficial
esconde as verdadeiras forças e factores económicos e sociais que
são os que, em última análise, determinam a
posição dos elementos em confronto e os prováveis
desenlaces dos intricados nós das contradições.
Uma vez mais, no caso boliviano, é a análise dialéctica
que iluminará as saídas de uma situação que
não pode prolongar-se muito, sem ameaçar a própria
integridade e o futuro de todo o país.
Para uma boa análise há que voltar ao princípio, pelo
menos do presente período histórico, que o situamos, mais ou
menos, há 25 anos. Não podemos esquecer a metodologia de classe
e determinar as forças económicas e sociais em presença.
Tudo o resto, sendo importante, depende do anterior.
Em 1978 deu-se a derrota política da ditadura Banzer, derrota que
não se verificou por via eleitoral, pois esta foi posteriormente imposta
ao ditador. A derrota foi o resultado de um formidável movimento de
massas que, nessa etapa, assumiu formas democráticas, incluindo a
maciça greve de fome em finais de 1977 e princípio de1978. Houve
três vitórias eleitorais da Unidade Democrática e Popular
(UDP) que só se instalou no governo em 1982 e apenas durou 34 meses.
Antes da subida ao poder da UDP, deu-se ainda o vendaval da breve, ainda que
feroz, ditadura militar saída do golpe de Garcia Mesa. Uma vez mais,
foi um imenso movimento de massas o que acabou com um ditador e a
Bolívia, e a UDP foi, como então se qualificou, pioneira no cone
sul na conquista de uma abertura democrática. Era quase uma ilha
rodeada de ditaduras: Chile, Argentina, Brasil, Paraguai e até o
longínquo Uruguai. Eram os tempos da doutrina da "segurança
nacional" e do "Plano Condor".
Apesar de tudo o governo formado tinha um plano modesto: restaurar as
instituições democráticas, defender os interesses
nacionais e populares, solucionar a crise económica e desenvolver o
país.
A direita recompôs-se. Maioritária no parlamento, deu um xeque ao
governo da UDP que tinha ministros do Partido Comunista. O sindicalismo
radical e a ultra-esquerda cumpriram a sua parte. Mas a UDP também
já estava ferida de morte, particularmente pela acção da
quinta coluna do "ex neo-esquerdista" MIR, convertido em agente da
socialdemocracia europeia e futuro aliado do antigo ditador Banzer. Ao
presidente Siles Zuazo não se lhe pode assacar nenhum acto
anti-nacional. Pode acusar-se de falta de decisão, mas é
inatacável a sua conduta democrática, a sua
intenção de não ferir o interesse nacional e popular. A
debilidade, as contradições internas da UDP conduziram a uma
crise da esquerda que dura até hoje, desde o encurtado mandato de Siles
Zuazo.
A principal conclusão da experiência boliviana é que, pela
acção das massas, derrotaram-se as ditaduras, os representantes
mais conspícuos do imperialismo e a oligarquia, conseguindo-se uma
deterioração que desembocou na queda do regime. Não se
pode esquecer que esta deterioração influenciou sectores das
forças armadas que já não garantiam a
manutenção daquele regime. Produziram-se as aberturas
democráticas e vieram as eleições. Formou-se o governo
central, o executivo, mas não se pôde golpear o poder
intrínseco das classes dominantes, sobretudo o domínio e a
direcção da economia. O avanço político não
se pôde traduzir num avanço da gestão e depois no progresso
da economia. Internamente, a deserção do MIR e de uma boa parte
do partido de Siles conduziu ao colapso do movimento democrático e
popular.
As eleições de 1985 deram, paradoxalmente, o triunfo a Banzer,
seguido de Paz Estensoro, que ascendeu a presidente (4ª vez) com o apoio
parlamentar do MIR. Nas eleições seguintes (1989) o MIR foi
governo coligado com Banzer e este, com o apoio do MIR, foi presidente em
1997-2002. Entretanto, houve o governo de Sanchez de Losada (1993-1997) do
MNR que, com o que o próprio apelidou de "a mãe de todas as
batalhas", desbaratou o património nacional, particularmente os
hidrocarbonetos, cedidos às transnacionais.
Uma verdadeira corrida de estafetas que na Bolívia se chamaria de
"pasanaco"
[1]
.
Desde esse momento histórico, a conjuntura política é
apenas a imposição do neoliberalismo que, sob diferentes
máscaras, aplicou o programa neoliberal, apresentado-o como reformas
estruturais. Uma a uma, as medidas não são mais do que as
conhecidas receitas do FMI, do BM e do BID, todas elas dentro do consenso de
Washington. O resultado é por todos conhecido, não precisamos de
o recordar: esvaziaram o país em benefício das transnacionais,
perdeu-se a soberania sob qualquer ângulo que se analise, aumentou a
pobreza e a miséria das grandes maiorias, envenenaram-se as mentes com o
individualismo e a Bolívia ficou um país vazio e estranho aos
seus próprios filhos.
É certo que a imensa força mediática, o aparelho
ideológico e objectivamente o medo da inflação dos tempos
da UDP, confundem e paralisam as massas. O neoliberalismo um monstro de
diferentes rostos e estruturas mas de uma só essência
pôde aplicar com reduzida resistência o modelo na íntegra.
Entre os factores ideológicos e psicossociais colectivos que
contribuíram para aplainar o caminho neoliberal não se pode
ignorar o papel da intelectualidade, antes radical de esquerda,
pretérita cultora da violência armada, sempre com um cheirinho
anticomunista e anti-partido comunista.
No entanto, e dada a tradição e a experiência das massas
populares bolivianas, este estado de bloqueio da consciência social
não podia durar muito. Logo em 1996 ano da avalanche
privatizadora começou a clarificar-se a consciência social
e a crescer a resistência anti-neoliberal e anti-imperialista.
No segundo governo de Sanchez Losada (2002) que apenas obteve 22% dos
votos e durou 14 meses, em coligação com o MIR e outros
neoliberais a consciência social popular amadureceu a um grau tal,
que se deu uma situação revolucionária. Todos os factores
objectivos, alguns dos factores subjectivos não faziam prever outra
coisa senão o desenlace que se deu com o governo de Sanchez de Losada.
Houve alguns factores casuais (a necessidade também abre o caminho
através da casualidade, diz a dialéctica). Uma campanha contra o
republicano Reyes Villa, orquestrada pelo MNR e a embaixada dos EUA, para lhe
garantir os votos, na realidade beneficiou o MAS. Este foi a enorme surpresa,
obtendo 20% dos votos.
A crise política que rebentou em Setembro de 2003 e culminou em 17 de
Outubro com a fuga de Sanchez de Losada, que deixou um sulco de sangue e luto.
Mas o neoliberalismo e as suas expressões políticas estavam de
rastos.
Assumiu o governo Carlos Mesa, vice-presidente de Sanchez de Losada. Aceite no
princípio, porque prometia diferenciar-se da política
anti-nacional e repressiva do seu antecessor e não rompia a formalidade
constitucional, ensaiou, simultaneamente, um governo
gattopardista
[2]
e bonapartista: mudar as aparências e colocar-se acima das classes e
dos partidos. Uma operação impossível. O MAS, encandeado
pelas aparências, na prática, co-governou no que era,
essencialmente, um neoliberalismo
light.
Mesa libertou, com uma verborreia imparável os fantasmas das
contradições: regionais, étnico-nacionais e de classe,
acabando por cair enredado na utopia de acalmar os ânimos exaltados de
todos.
A sua renúncia deu lugar à sucessão constitucional de
Rodriguez Veltze, Presidente do Supremo Tribunal, mas antigo funcionário
de organismos dependentes da embaixada dos Estados Unidos. Assim, no meio de
um emaranhado de interpretações legais, anteciparam-se as
eleições gerais, imediatamente postas em perigo. No imediato,
Rodriguez Veltze cometeu alguns erros grosseiros (?), como aceitar a
exigência do Pentágono de entregar os mísseis de
fabricação chinesa, necessários à defesa nacional.
Rodriguez nem sequer parece ter-se apercebido da construção de
uma base denominada
"Emplazazamiento Operativo Adelantado",
no Paraguai, apenas a 200 km da nossa fronteira. Melhor dito, a 200 km da
nossa imensa riqueza de hidrocarbonetos, sobretudo gás natural.
Não disse nem uma palavra sobre o acordo chileno-argentino para formar
uma força militar destinada a "vigiar a democracia e a paz na
região". Parece que já denominam a Bolívia como
região.
É nestas circunstâncias que se realizarão as
eleições gerais em 18 de Dezembro. No meio de ameaças
secessionistas e ruído de sabres. As sondagens sérias
prognosticam o triunfo de Evo Morales e do MAS. Mas o êxito nas urnas
não basta. O principal é assegurar que o parlamento sancione
essa primeira maioria. A direita política, a oligarquia oriental e
sobretudo a embaixada dos EUA preferem o golpe de Estado ou a convulsão,
em vez de um governo populista como o do MAS.
A nosso ver, o medo é exagerado. Certos porta-vozes, como o candidato a
vice-presidente pelo MAS, sangram-se em saúde. Garcia Linera afirmou
que "quer um capitalismo andino e... não um socialismo
impossível". Tentou rectificar mas, como diz o povo, "palavra
solta não volta à boca". Revela quanto é capaz negar
e adaptar-se às circunstâncias para chegar ao poder. Outro
Lúcio Gutierrez? Outro governo tergiversante no horizonte americano?
Não é que a esquerda responsável exija um programa
socialista, revolucionário com todos os efes e erres. Mas, pelo menos,
coerência, seriedade, responsabilidade, que ponham um freio à
penetração do oportunismo que se agarra, sem disfarce, ao carro
dos vitoriosos. Que não se despertem ilusões e, antes de mais,
se estruture uma direcção que unifique sem hegemonismos, sem
caudilhos e sem exclusivismos de nenhuma natureza.
É necessário impor uma derrota à direita, mas que
não seja artificial e que, depois, não dê ao povo uma noite
de outros 20 anos de obscuridade, de exploração desenfreada e de
saque transnacional.
Notas do tradutor
[1] Entrega de favores a uns e outros, à vez.
[2] Alusão ao príncipe siciliano que dizia 'É preciso que algo mude para
permanecer tudo na mesma', levado à cena em 'O Leopardo' de Luchino Visconti.
Tradução de José Paulo Gascão.
Do mesmo autor ver também:
O Pentágono roubou mísseis à Bolívia !
A desmoralização da direita e a falsa esquerda eleitoralista
Carta a múltiplos destinatários
"A mudança deve ser total"
[*]
Professor universitário e escritor, autor de
"Ideologia e Mito"
e
"Técnica do golpe de Estado"
(editado em Portugal pela Seara Nova).
Marcos Domich virá a Portugal dentro em breve. No dia 10 de
Dezembro à tarde está programada uma conferência sua no Centro Cultural de Vale
de Vargo, Concelho de Serpa
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|