Uma renúncia mal intencionada
A renúncia do presidente Carlos Mesa é, além de uma
manobra política, um acto mal intencionado.
Mesa, no fundo, não quer abandonar a presidência e sim receber um
apoio político do Parlamento e de outra instituições para
consolidar a política neoliberal e o status entreguista que herdou do
seu companheiro de fórmula em 2002. No seu anúncio de
renúncia foi explícito ao assinalar que não aceitaria uma
lei de hidrocarbonetos que questionasse os contratos leoninos firmados com as
petroleiras. Tão pouco aceita uma rescisão real do contrato com
as Águas del Illimani, filial de uma empresa transnacional à qual
só importam os lucros. Procura esmagar toda resistência para
impor o ingresso da Bolívia no Tratado de Livre Comércio com os
EUA e ratificar o compromisso de conceder, com a complacência do
Parlamento, a imunidade do pessoal estadunidense que cometa delitos na
Bolívia.
Na renúncia de Mesa descobre-se também não só o
desejo de desprestigiar e esmagar os movimentos reivindicativos, como de por em
confronto sectores e regiões do país, uns contra outros.
É certo que o movimento popular apresentou sem coordenação
e sem a adequada preparação, durante as últimas semanas,
numerosas petições e acções que dispersaram as
forças e até provocaram um estado de mal estar em alguns sectores
sociais. Também é certo que no movimento popular actuam
elementos com uma linguagem radicalóide e desmedida que faz suspeitar de
um trabalho de infiltração de agentes da direita revanchista,
desestabilizadora, antidemocrática e da oligarquia regionalista.
Nesta situação súbita, ainda que não totalmente
imprevista, apresentaram-se diversas soluções nem sempre
adequadas. Está afastado que a renúncia de Mesa não possa
ser colmatada pela sucessão apresentada pela fórmula
constitucional. Nem Vaca Diez, nem Cossío, nem Rodriguez, nas suas
qualidades de presidentes do Senado, da Câmara dos Deputados e da Corte
Suprema de Justiça, serão aceites pelo povo, tanto pela sua
militância política como miristas e movimientistas vinculados
à embaixada ianque como por fazerem parte do poder oligárquico e
neoliberal.
Tão pouco é viável o simples encerramento imediato do
Parlamento, apesar do seu estado de degradação extrema, pois
converteria politicamente Carlos Mesa num Fujimori sem controle.
Nestas circunstâncias, vai-se impondo a ideia de uma saída que, ao
mesmo tempo que preserve a democracia conquistada pelo povo, permita uma
solução que reflicta a actual correlação de
forças, não prejudique a unidade nacional e solucione os
problemas pendentes num novo contexto político. Essa saída
é a antecipação das eleições gerais, para
presidente e vice-presidente e membros de ambas as câmaras legislativas.
Entretanto, há que advertir que a simples desvalorização
da renúncia de Mesa não mudaria nada no país, a crise
continuaria igual e o neoliberalismo continuaria a imperar e a consolidar-se.
Portanto, o movimento popular e social deve impor o compromisso da
antecipação das eleições gerais, a realizar-se num
prazo politicamente adequado.
O governo de Mesa, cumprindo o seu papel de governo transitório, deve,
se quiser conseguir um mínimo de estabilidade política, abandonar
o seu apoio às transnacionais e deixar que, interpretando correctamente
o sentimento popular, seja realmente resgatado o direito proprietário
dos hidrocarbonetos e das Aguas del Illimani, a ser substituída por uma
SAMAPA renovada e com controle social.
Neste momento ainda não há uma alternativa popular para defender
a democracia e a unidade nacional. Portanto o movimento popular, sindical e as
organizações política de esquerda e patrióticas
estão convocadas a superar a actual dispersão e a articularem-se
e organizarem-se em torno de uma plataforma de luta que resgate a Pátria
e atenda às urgentes necessidades do povo, dos trabalhadores, por uma
melhoria salarial e fontes de trabalho.
A agenda de Outubro propôs a convocatória de uma Assembleia
Constituinte que deverá anteceder os referendos departamentais, a
eleição de prefeitos e o estabelecimento das autonomias.
PELO RESGATE DA PÁTRIA, A LUTA CONTINUA
O GÁS E O PETRÓLEO PARA A BOLÍVIA E OS BOLIVIANOS
PELA UNIDADE COMBATIVA DO POVO CONTRA O IMPERIALISMO E OS NEOLIBERAIS
La Paz, 7 de Março de 2003
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Primeiro secretário do CC do Partido Comunista da Bolívia.
Este artigo encontra-se em
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