"Fundos abutre": a dívida em debate e o cerco financeiro à Argentina
A tibieza do governo argentino ao não ir até as
últimas
consequências após a corajosa suspensão unilateral de
pagamentos aos credores externos põe agora o país numa
situação melindrosa. A medida da suspensão não foi
seguida das que se impunham, nomeadamente de uma auditoria rigorosa a fim de
verificar a parte válida da dívida. A lição que se
pode extrair deste processo é que vacilações, ou
tentativas de
conciliação com credores, podem dar maus resultados.
Também no dossier do petróleo o governo de Cristina Kirchner está a ser tímido.
Isso verificou-se no caso da nacionalização apenas parcial da
Repsol.
E, nos últimos dias, com a aceitação passiva de um
contrato com cláusulas
secretas que uma das suas províncias assinou com a petrolífera
Chevron
(contrato ilegal de acordo com as próprias leis argentinas, que
determinam serem todas as reservas de hidrocarbonetos propriedade federal e
não das províncias).
A ideologia peronista de conciliação de classes leva o governo
à pretensão utópica de
construir um "capitalismo nacional" o que já não é possível
nos dias hoje.
resistir.info
Uma nova sentença da justiça americana confirmando a anterior do
juiz Griesa em favor dos "fundos abutre" vai fechando o cerco
financeiro sobre a Argentina, enquanto mais uma vez coloca a dívida no
centro das preocupações económicas.
O aguardo ultimatum dos "fundos abutre" tornou-se realidade. A
Câmara de Apelações de Nova York, em segunda
instância, sentenciou contra o nosso país. Assim a sentença
do juiz de primeira instância Thomas Griesa, que havia ordenado à
Argentina o pagamento de 100 por cento da dívida, mantém pleno
vigor.
Trata-se de um segundo round ganho pelos "fundos abutre", NML Capital
Ltd e Aurelius Capital Management. Convém recordar que estes
especuladores possuem títulos numa quantidade muito pequena em
relação ao total dos possuidores desses valores que não
aceitaram as trocas anteriores uns 1.330 milhões de
dólares num total de 11.100.
Nesta sentença há uma diferença qualitativa em
relação à primeira. É que as
argumentações dos três juízes intervenientes,
desenvolvidas em 25 páginas, são de uma dureza "a
Argentina é um devedor recalcitrante", chegaram a dizer
é conteúdo irónico inabituais, o que não permite
bons presságios. É certo que tudo passará agora ao
Tribunal Supremo, ainda que nada garanta que tome o caso e, se o fizer,
sentencie de maneira diferente.
Problema político
Por agora não está no horizonte uma nova cessação
de pagamentos por parte da Argentina. O governo argentino deu abundantes
indicações de ser um fiel expoente daqueles que privilegiam acima
de tudo "honrar as dívidas". A própria presidenta da
Nação, Cristina Fernández, o reconheceu. "É o
governo que mais dívida pagou na história" ou "a
Argentina é um pagador serial", foram as palavras que utilizou
quando anunciou o envio ao Congresso nacional de um projecto de lei que mais
uma vez reabre a troca. O projecto de lei mantém as mesmas
condições de pagamento para os 7 por cento dos credores que
não entraram nas reestruturações de 2005 e 2010.
Adicionalmente haverá uma oferta para que os possuidores de
títulos recebam no país, uma vez que a nova sentença
ratifica os condicionamentos para que o banco de Nova York não possa
continuar a ser agente de pagamento.
Até agora o governo tratou a ofensiva dos fundos abutre como um problema
meramente jurídico, que envolve o país com credores privados e
despejou esforços e recursos a litigar em justiça alheia. Nada
mais errado. Não reparou que na realidade a Argentina caiu numa
armadilha, num problema político que é na realidade global. A
própria sentença não se baseia em conceitos da
técnica jurídica e sim em considerações
políticas.
Para além da Argentina
O que o capital financeiro internacional está a discutir, e parece que
nisto triunfará o sector mais radical, é que não
aceitará nunca mais uma renegociação da dívida de
qualquer país que implique uma quitação de capital. Assim,
o exemplo argentino é um mau precedente. Do que se trata é que
não se reitere uma negociação directa de um país
com os seus credores sem intervenção do Fundo Monetário
Internacional (FMI). Vista desta óptica, a ofensiva dos "fundos
abutres" obedece a seus interesses usurários, mas para o grande
capital é a escusa buscada para repor a arbitragem e a capacidade de
monitoramento do FMI em qualquer negociação.
Convém recordar que quando ocorreu o disparar da crise mundial, as
reuniões do G-20 concluíam propondo reformas ao organismo
internacional e ao próprio sistema financeiro. E que ficaram essas
reformas? Recapitalizou-se o Fundo e este foi colocado no centro das
decisões financeiras mundiais. Sua actuação na Europa,
fazendo parte da Troika (FMI, BCE, CE) dispensa maiores comentários.
A partir do momento em que esta sentença fique confirmada, e é
muito possível que assim seja não em vão a
presidenta pediu a Deus que ilumine o Supremo Tribunal dos Estados Unidos
não haverá mais reestruturações e trocas de
dívidas com quitações, todo possuidor de título
exigirá receber os 100 por cento e se for ao contado melhor. É
para isto que aponta o capital financeiro internacional e a sentença
é funcional para este objectivo.
A centralidade da dívida
A dívida recuperou sua centralidade. Já o dissemos por
ocasião da sentença do juiz Grieza: são os custos de se
haver negado a investigá-la. Quanto à
reestruturação, em Economistas de Izquierda o assinalámos,
era o momento de aproveitar a suspensão unilateral de pagamentos,
auditar a dívida e determinar o que se devia pagar efectivamente o que
não. Optou-se, pelo contrário, pelo que a própria
presidenta qualificou como "a reestruturação de
dívida externa mais importante de que se tem memória". O
pagamento dos serviços da dívida, dos títulos ajustados
pelo CER, de cupões atados ao Produto Interno Bruto, significaram uma
carga financeira enorme segundo a própria mandatária,
desde 2003 até à data pagou-se a bagatela de 173.333
milhões de dólares que só foi possível
enfrentar dilapidando reservas.
O primeiro passo
Se a esta enorme soma de fundos for agregada a fuga de quase 80 mil
milhões de dólares, ter-se-á uma ideia do excedente
económico que gera a economia nacional, que bem poderia ter sido
dedicada a resolver a crise do transporte ou da energia, a melhorar a
saúde público ou aos aposentados ou a um plano de
habitações populares.
Os gurus da City e o establishment económico apoiam sem
vacilações a reabertura da troca, enquanto a
oposição direitista já anunciou que o votará
positivamente no Congresso. Sabem que é o primeiro passo, a seguir
virá o Clube de Paris e finalmente a volta do endividamento.
O círculo vai-se fechando, por trás disto aguarda o Centro
Internacional de Acerto de Diferenças Relativas a Investimentos (Ciadi)
que continua a acumular juízos contra o país. A economia marcha
para uma encruzilhada, acentuam-se os desequilíbrios fiscais,
monetários e produtivos, o ajuste está no horizonte,
próximo ou em 2014. Já conhecemos os seus resultados.
Outra política
Contudo, na crise está a oportunidade. Ainda é tempo de por em
marcha outra política. A Argentina não tem outra
opção senão desconhecer a sentença que, a
cumprir-se, somaria exigências incalculáveis de milhares de
milhões de dólares. É necessário suspender os
pagamentos até que se investigue a dívida externa, a
começar por aquela na qual se cedeu soberania jurídica, e
retirar-se do Ciadi. Faz-se necessário cercar-se da solidariedade
internacional, começando por promovê-la dentro da Unasul.
Recursos há, a economia os gera. Mas há que buscá-los onde
estão. Estatizar o comércio de cereais para apropriar-se da renda
que hoje fica com as grandes exportadoras. Controlar eficazmente a banca e as
finanças é indispensável para encerrar toda fuga de
capital. Rever as isenções fiscais e os subsídios como um
avanço em direcção a uma reforma tributária
integral progressiva que grave os patrimónios e as rendas do capital,
substitua a tributação dos salários por um imposto sobre
os altos rendimentos e reduza o IVA aos alimentos e artigos de primeira
necessidade. Repor as Contribuições Patronais ao sistema de
Segurança Social aos níveis dos anos 90. Avançar na
nacionalização dos recursos energéticos e dos
serviços ferroviários com controle social. Reduzir a jornada
laboral, começando pelo estrito cumprimento da jornada legal de oito
horas e democratizar os estatutos sindicais, modificar a
legislação que permite a precarização. É o
momento também de anular muitas leis em vigor desde a época da
ditadura.
Jogar a partida
Está em jogo o interesse nacional. Mas não é este o
interesse dos banqueiros, dos grandes empresários nem dos caciques
sindicais sócios dos capitalistas. Não é o interesse dos
que jogam em primeira, dos titulares com os quais o governo dialoga. Sim o
interesse dos que estão na reserva da Nação. Dos
trabalhadores, dos jovens que buscam um futuro, dos sectores médios
empobrecidos, dos oprimidos...
Uma política distinta requer uma aliança social e política
diferente da actual. Não será uma partida simples, mas é
necessário jogá-la, antes de regressarmos à zona onde
já
estivemos.
30/Agosto/2013
[*]
Argentino, integrante de EDI-Economistas de Izquierda.
O original encontra-se em
http://www.argenpress.info/2013/08/fondos-buitre-la-deuda-en-debate-y-el.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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