Por trás da ideologia verde
Os piores projectos das elites mundializadas
O "Pacto verde"
("Green Deal"
no jargão bruxelense) é doravante o eixo principal das
instituições europeias. Ele foi apresentado por Bruxelas em
Dezembro último. No dia 14 de Janeiro, a presidente da Comissão,
Ursula von der Leyen precisou o financiamento, antes de ser lançada, na
Primavera, uma "grande lei climática" que será imposta
aos Estados membros. Estão em causa milhões de milhões de
euros. Este vasto "plano de batalha ecológica" vai-se tornar,
segundo a sra. Von der Leyen, a "marca de fábrica" da UE.
Naturalmente, encontram-se numerosas vozes que consideram que tudo isto
não iria suficientemente longe. Outros, ou os mesmos, acusaram a
Comissão de vigarice, de "parecer" converter-se à
ecologia cedendo ao ar dos tempos.
O discurso ambientalista estrutura a ideologia das elites mundializadas, de que
Bruxelas é um dos mais belos espécimes
Não é o caso. O discurso ambientalista estrutura em profundidade
a ideologia das elites mundializadas, de que Bruxelas é um dos mais
belos espécimes. Ela encontra suas raízes há várias
décadas. Assim, um cenáculo saído da OCDE
(organização dos países ocidentais mais ricos), conhecido
sob o nome de Clube de Roma, publicou em 1972 um relatório tornado
célebre intitulado "Os limites do crescimento".
Este texto foi vivamente apoiado por Sicco Mansholt, presidente da
Comissão Europeia em 1972-1973. O sr. Mansholt, geralmente considerado
como um dos "pais da Europa", já defendia o decrescimento.
E se houver dúvida quanto ao papel motor dos dirigentes,
políticos, financeiros e oligárquicos, na promoção
das teses pró clima e pró ambiente, não é proibido
observar que o emblemático multimiliardário americano
Michaël Bloomberg até recentemente era o representante da ONU para
o clima. Ele acaba de ser substituído neste posto pelo canadiano Mark
Carney, que foi presidente do Banco da Inglaterra até Janeiro de 2020. O
homem tornou-se célebre pelas suas previsões apocalípticas
em caso de Brexit. Ela agora tem um novo emprego para exibir seus talentos de
profeta de catástrofes anunciadas mas fantasistas.
Distinguir dois planos
Convém à partida distinguir dois planos de reflexão quanto
ao "aquecimento climático": por um lado, a
investigação e a confrontação científica;
por outro, a análise e a compreensão das questões que lhe
estão ligadas: económicas, sociais, políticas,
geopolíticas, democráticas, mesmo filosóficas.
O primeiro debate, sobre a realidade das ditas alterações
climáticas e sobre suas possíveis causas, cabe aos
próprios cientistas. Não será abordado aqui. Neste momento
pode-se recordar que não há uma unanimidade entre os
investigadores que estabelecesse sem contestação a
existência do aquecimento de origem antrópica a não
ser que se trate todos os cientistas dissidentes como fantasistas, ignorantes
ou impostores.
Um espírito racional deveria estar assustado pela omnipresença
totalitária da tese dominante, tão martelada que se torna
difícil sair do quadro do pensamento imposto
Em contrapartida, todos os cidadãos são perfeitamente
legítimos para se inscreverem no outro debate, aqueles que tentam
discernir os meandros das campanhas actuais. De resto, um espírito
racional e crítico deveria ficar assustado pela omnipresença
totalitária da tese dominante, pregada da manhã à noite na
imprensa escrita e audiovisual, até ao ponto em que se torna
difícil sair do quadro de pensamento imposto. Se se ouvir bem certos
militantes ecologistas, não se estaria muito longe da
execução do crime de "negacionismo climático" e
mesmo das sanções penais correspondentes.
Cinco dossiers, pelo menos, podem ser evocados. Eles põem à luz a
ligação intrínseca entre os interesses da oligarquia
ocidental mundializada e a ideologia pró clima. Não se pode citar
aqui senão os títulos de capítulo, cada um deles merecendo
evidentemente desenvolvimentos mais amplos.
Primeiro dossier: o social
O primeiro poderia assim ser resumido: a sobriedade julgada necessária
para "salvar o planeta" é na realidade o subterfúgio da
austeridade que as forças do dinheiro entendem impor aos povos. Ela tem
seus agentes, evidentemente, em numerosas sucursais da "esquerda" e
por vezes é exaltada sob o nome de "sobriedade feliz". Para
todos aqueles que se inquietam quanto à maneira de colmatar seu fim de
mês, agita-se a ameaça do fim do mundo. O
"super-consumo", inclusive de energia, é apontado a dedo com o
lema: "mais vale ser melhor do que ter mais.
Será de notar que este estado de espírito não é
novo na ideologia dominante. O outrora mediático jornalista
François de Closets construiu o essencial da sua carreira editorial a
denunciar as pessoas que desejariam "Sempre mais", título de
uma da vintena de obras aparecidas desde 1970 sobre este mesmo tema.
O antagonismo entre aqueles que se angustiam quanto ao "fim do
mês" e aqueles que alertam sobre o "fim do mundo" irrompeu
em Novembro de 2018: o movimento dos Coletes amarelo nasceu da recusa ao
tributo que o governo tentou impor sobre os combustíveis, com o fim
confessado de "modificar os comportamentos".
Centenas de milhares de empregos directos estão ameaçados, em
nome do enverdecimento da economia
O poder de compra de milhões de trabalhadores não está
apenas ameaçado. Centenas de milhares de empregos directos estão
igualmente ameaçados, em nome do enverdecimento da economia
projectado para criar outros postos de trabalho, mas mais tarde. Uma realidade
que se encontra nos quatro cantos da União Europeia. Não é
por acaso que a Comissão prevê um Fundo destinado especialmente a
"acompanhar" os futuros trabalhadores privados do seu emprego e as
futuras regiões sinistradas.
Sem dúvida não é inócuo observar que as categorias
mais ameaçadas são as mais emblemáticas da força e
da história operárias: mineiros (em França, encontraram
outros pretextos para liquidar esta actividade anteriormente), siderurgistas,
operários das indústrias química e do automóvel...
Um pouco como se no inconsciente dos dominantes se tratasse de se
desembaraçarem das fábricas demasiado
"carbónicas"... e ao mesmo tempo das classes perigosas,
sobretudo ali onde elas estão concentradas e combativas.
Segundo dossier: a geopolítica
O segundo domínio é de outra natureza. Tem a ver com uma
imperícia do Todo Poderoso: este teve o mau gosto de repartir os
hidrocarbonetos confiando uma grande parte aos Estados não alinhados com
o Ocidente... Assim, a Rússia, o Irão, a Venezuela, para citar
apenas três exemplos, são os países onde estão
concentradas as maiores reservas petrolíferas e/ou gasistas.
Portanto pode-se imaginar que nas esferas dominantes, não se ficaria
forçosamente descontente em que estes Estados fossem pouco a pouco
privados dos recursos proporcionados pelas exportações de energia
carbónica. Ao diabolizar esta última enfraquecem-se assim as
posições e os meios financeiros dos adversários ou dos
inimigos designados.
Terceiro dossier: a governação mundial
O terceiro dossier tem forte conotação ideológica.
Repetem-nos continuamente: a catástrofe climática não pode
ser combatida senão à escala mundial. Uma lenga lenga
providencial para todos aqueles que militam, há décadas, por uma
governação mundializada (sonho final dos poderosos) e suas
declinações em grandes blocos regionais tais como a UE.
Logo, isto vem mesmo a propósito: para resolver os grandes problemas do
nosso tempo, a escala dos Estados-nação estaria ultrapassada. De
repente, a tese tem todas as aparências da evidência: o aquecimento
não tem fronteiras, é preciso portanto esquecer as velhas ideias
da soberania nacional.
Quarto dossier: a democracia
A quarta dimensão dos imperativos climáticos impostos refere-se a
uma questão que não é decididamente anódino: a
democracia. Pois os exemplos o mostram: as classes populares, os povos, parecem
não aceitar submeter-se à doxa ambientalista, em todo o caso
não suficientemente rápido para evitar as catástrofes
anunciadas.
Pior, estariam prontos a punir eleitoralmente os governos demasiado zelosos em
matéria de luta contra o CO2. E como estes teriam a fraqueza de temerem
as reacções dos seus eleitores, as medidas necessárias
resumidas na fórmula: "é preciso mudar radicalmente
nosso modo de vida" são eternamente retardadas...
A conclusão se impõe: a democracia tornou-se um obstáculo
à sobrevivência do planeta. Alguns afirmam-no abertamente. Outros,
que não podem ser tão brutais, interrogam-se gravemente. Pois se
a nossa sobrevivência colectiva está realmente ameaçada, a
democracia deve ceder. Isto é imparável e é
sobretudo, miraculosamente, uma aurora para os poderosos do mundo, que fazem
cada vez menos boa convivência com a soberania popular (a Comissão
Trilateral já havia apontado os "problemas" da democracia na
década de 1970 a época do Clube de Roma).
Último dossier: a colocação em causa do progresso
Finalmente, a quinta questão é provavelmente a mais fundamental e
refere-se ao progresso. Não pode passar desapercebido a ninguém
que o "estilo da época" põe-no fundamentalmente. O
progresso sob todas as suas dimensões social (poder de compra,
protecção social, serviços públicos...),
económico (crescimento), cultural, científico,
tecnológico... seria, pode-se escolher, suspeito,
culpável, arriscado ou arrogante.
Aqui e ali, interroga-se gravemente: não se teria ido demasiado longe? O
dogma dominante poderia ser enunciado assim: "queira deixar o planeta no
estado em que o encontrou". E para dar uma dimensão emocional
suplementar ao caso, convocam-se "nossos filhos", "nossos
netos" em relação aos quais arcamos com uma pesada
responsabilidade. Exactamente o mesmo argumento que para a dívida...
O leque é vasto, desde os colapsólogos a defenderem abertamente o
retorno à charrua (quando não ao suicídio preventivo da
humanidade, único método para deixar o planeta sobreviver)
até aos mais prudentes que se contentam em por em causa cada novo
projecto de infraestrutura (ferroviária, rodoviária,
aeroportuário, hidráulica há sempre um castor dos
pampas que é preciso salvar). Teremos nós realmente necessidade
de tudo isto? murmura-se de diferentes lados.
Naturalmente, a querela entre partidários de uma visão
prometéica da humanidade os defensores de uma antiga idade de ouro (que
nunca existiu) não é nada nova. Mas a incapacidade progressiva do
actual sistema dominante em criar riqueza (outra que não seja para os
seus accionistas) tem como consequência que este sistema segregue
ideologias regressivas, tal como o decrescimento, que não é
senão o vestuário bio da recessão.
A concepção da relação entre o homem e a natureza
é o terreno privilegiado desta evolução literalmente
reaccionária. Seria preciso "preservar", "defender",
"respeitar" a natureza. Pior: a ideologia dominante de agora em
diante estabelece uma equivalência entre "natural" e
"bom" (a nauseante abundância publicitária neste sentido
o ilustra). Será preciso recordar que este culto do "natural"
nem sempre foi celebrado?
Será que se mede o absurdo de semelhante injunção? A
natureza regorgita de produtos tóxicos, ao passo que produtos dos mais
artificiais (medicamentos, química) representam um trunfo
insubstituível para o bem-estar colectivo e individual. Ainda que,
evidentemente, se deva opor às poluições decorrentes da
busca desenfreada de lucro e não do progresso enquanto tal.
Não se pode conceber a epopeia da humanidade como uma sequência de
combates para descobrir e inventar, para se emancipar dos
"constrangimentos da natureza"?
Mais generalizadamente, não de pode conceber a epopeia humana como uma
sequência de combates para descobrir e inventar, para se emancipar dos
"constrangimentos da natureza"? Desde os primeiros humanos que
constroem um tecto protector para se porem ao abrigo dos caprichos da natureza,
à época actual onde se envia uma sonda para examinar o sol, o
homem sempre procurou libertar-se dos constrangimentos para tornar
possível o que era impossível.
Não tem a humanidade precisamente como característica agira
contra a natureza?
Não é isto que poderia definir a humanidade? Esta última
não tem como característica agir
contra-natura
? A começar por esta luta milenar para repor em causa uma das principais
características da natureza: a lei da selva.
Portanto, de um lado há aqueles que respeitam a natureza, em particular
uma das suas constantes (ainda que não exclusiva): os mais fortes
dominam os mais fracos, os predadores alimentam-se das presas. E do outro
aqueles que têm no coração o combate pela igualdade
combate que decorre, se se ousa resumir, desde o levantamento dos escravos com
Espártaco aos assalariados actuais em luta pelas pensões de
reforma.
Ao pretenderem "salvar o planeta" das ameaças que a actividade
humana, sob a forma de CO2, faria pairar sobre ele, as
instituições europeias escolheram o seu campo. Temos o direito de
escolher o oposto, que pretende não limitar o campo dos possíveis
ao existente. Ou, pelo menos, aceitar o debate sem invectivas e sem
delírios apocalípticos.
12/Fevereiro/2020
Ver também:
Acerca do chamado "aquecimento global"
[*]
Redactor-chefe de
Ruptures
O original encontra-se em
ruptures-presse.fr/opinions/pacte-vert-progres-climat-environnement/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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