A Alemanha engana-se e engana a Europa
por Juan Torres López
[*]
Nos últimos meses foi atribuída grande importância
às eleições alemãs de domingo 22, sendo
consideradas precursoras de uma mudança de políticas na Europa
mas creio que não as vão ter, pois parece-me que a
situação política e económica não se
alterará muito ali nem na Europa, seja qual for o resultado.
Uma nova vitória dos conservadores não só não
modificará a política de Merkel como inclusive é
possível que leve a enfraquecer o impulso que o seu governo havia dado
à economia nos últimos meses a fim de melhorar sua imagem diante
do eleitorado e reforçar o seu fundamentalismo. E não é
possível esperar nem sequer alguma tímida
reformulação do discurso europeu se não for endurecida com
firmeza a posição de outros sócios da eurozona.
Tão pouco mudariam muito as coisas com uma vitória
social-democrata, pouco previsível, ou inclusive de Os Verdes. Ainda que
nos seus programas tentem sempre diferenciar-se dos democrata-cristãos e
agora proponham o arranque de uma espécie de novos planos Marshall para
reactivar as economias, se chegassem de novo a governar não se
afastariam do que fez e tornará a fazer Angela Merkel.
Será assim porque os partidos políticos governantes na Alemanha
são materialmente escravos desde há muito da classe empresarial e
financeira que é quem na verdade marca o passo da política
naquele país. Não se esqueça que foram os
sociais-democratas que puseram em andamento as reformas reaccionárias
que provocaram o grande incremento da desigualdade e a actual
deterioração das classes trabalhadoras alemãs, e é
bem sabido que suas posições sobre a Europa, o Euro ou a
estratégia do Banco Central Europeu não diferem praticamente em
nada das que são mantidas pela direita mais recalcitrante.
Não haverá mudanças porque o que os grandes poderes
económicos puseram na mesa aproveitando a crise económica e o que
agora se ilustra na Alemanha e em toda a União Europeia não
é outra coisa senão a mudança radical do modelo social, ou
seja, uma alteração profunda do equilíbrio de
forças sociais e, portanto, uma redefinição dos direitos
económicos e inclusive políticos dos cidadãos.
É um objectivo muito diferente das preferências
maioritárias dos cidadãos, tal como demonstram todo tipo de
inquéritos, e isso faz com que as instituições
representativas onde possam reflectir-se tornam-se cada dia mais
incómodas para os grandes poderes económicos. É por isso
que estes últimos vêm impulsionando por todos os meios ao seu
alcance o desmantelamento da democracia em toda a Europa, como denunciou entre
outros o grande filósofo alemão Jürgen Habermas, pois
só assim podem ser impostas as políticas que levam a essa
mudança de modelo e que são tão contrárias
às que desejam que se apliquem a imensa maioria da
população.
Não cabem, pois, grandes mudanças após a
competição eleitoral na Alemanha
Os grupos de pressão tiveram muito cuidado em impedi-las, sobretudo
generalizando um discurso político carregado de mentiras que pouco a
pouco penetra toda a Europa, e particularmente na Alemanha, para ir conformando
uma cidadania submissa e convencida de que o que os grandes grupos financeiros
propõem em seu benefício é justamente o que mais interessa
aos de baixo.
As eleições gerais celebradas na Alemanha têm muito a ver
com tudo isso porque são precisamente as grandes
corporações e grupos financeiros desse país os que mais
combativamente impulsionam essa mudança de modelo social e porque a
população alemã foi especialmente bombardeada e convencida
pelas mentiras e enganos em que foram envolvidas pela sua
colocação em andamento.
TEIA DE ENGANOS
Se há europeus que estão a ser especialmente enganados são
os alemães e se alguém engana os demais europeus
são os dirigentes políticos e económicos alemães.
-
Engana-se aos alemães ao fazer-lhes crer que é a Alemanha a que
financia o resto da Europa, quando se verifica que suas grandes empresas e
bancos foram desde há anos os grandes beneficiários de uma
construção europeia e do Euro mal concebidos por ter sido feito
à sua medida. A Alemanha não é generosa, aproveita-se sim
do seu imenso poder para tratar de submeter os demais, outra vez, num
espaço económico que seus grandes grupos económicos
consideram seu em toda a Europa.
-
São enganados quando se lhes faz acreditar que o desperdício e a
irresponsabilidade dos cidadãos de outros países foram o que
produziu a crise e os males que se sofrem, quando a verdade é que foram
os bancos alemães aqueles que financiaram espontaneamente e sem medida
as bolhas e os excessos que destroçaram as economias para engordar,
durante anos, suas contas de resultados.
-
São enganados quando se lhes faz acreditar que são outros
países que se aproveitam do esforço e dos rendimentos dos
trabalhadores alemães quando na realidade são seus
próprios grupos de poder económico e financeiro os que impuseram
em seu favor políticas que criam desigualdade crescente e mais pobreza e
o que colocaram fora da Alemanha o colossal excedente que obtiveram seus
trabalhadores nos últimos anos.
-
Engana-se os alemães quando se lhes diz que seu modelo social é
insustentável por culpa da Europa e do custo da solidariedade com outras
nações, quando na realidade se há problemas de
financiamento é pela cada vez menor contribuição dos
proprietários de capitais alemães ao financiamento dos interesses
colectivos e pela colocação dos excedentes que obtêm fora
da Alemanha.
-
São enganados quando se lhes diz que hão de trabalhar mais que os
trabalhadores de qualquer outro país, quando as estatísticas
mostram que apesar de serem mais produtivos nos sectores de vanguarda, pelo
maior avanço das suas economias, trabalham menos, felizmente para ele,
ainda que certamente com condições de trabalho e de rendimento
cada vez piores.
-
Engana-se os alemães e os dirigentes alemães estão a
enganar os cidadãos europeus quando se lhes diz que as políticas
de austeridade são a melhor forma de avançar e que além
disso são necessárias pela dívida de outros países,
quando a Alemanha a teve sempre mais elevada que muitos deles e quando é
uma evidência clamorosa que estas políticas empobrecem toda a
Europa e, por fim, os próprios trabalhadores alemães e quando
só estão a servir para justificar a privatização e
o desaparecimento de serviços públicos e direitos sociais.
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Engana-se os alemães e os dirigentes alemães enganam toda a
Europa quando se lhes diz que a dívida que há que reduzir deriva
do excessivo gasto público destinado ao bem estar social, quando na
realidade decorre dos juros gigantescos que se pagam aos bancos privados ao
impor um banco central na Europa que não o é e que só
serve para apoiar e salvar os bancos privados.
-
Engana-se os alemães e os dirigentes alemães enganam os europeus
normais e comuns quando se lhes diz que países como Grécia,
Portugal ou Espanha exigem ajudas ou resgates multimilionários para
levá-los em frente, quando na realidade esses resgates só servem
para salvar os bancos alemães ou as grandes empresas que vivem de fazer
investimentos imperiais no resto da Europa, em muitos casos promovendo e
financiando todo tipo de práticas corruptas.
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Engana-se os alemães e os dirigentes alemães enganam os europeus
quando se lhes diz que há que rebaixar salários para criar
emprego e dessa forma só se consegue que aumente o lucro empresarial e a
pobreza; ou que há que flexibilizar os mercados laborais, quando isso
só se traduz em maior poder de negociação dos grandes
empresários mas não em mais e sim em pior emprego; ou que
há que reduzir a despesa pública quando são cada vez
maiores suas aventuras e despesas militares ou as despesas financeiras que
graciosamente se pagam aos bancos privados.
-
Engana-se os alemães e os dirigentes alemães enganam todos os
cidadãos quando se apresentam como justos e eficientes reclamando
estritas condições de pagamento aos agora devedores. Ocultando
que países como a Grécia foram generosos com a Alemanha quando
era esta quem tinha que pagar sua dívida.
Não cabe esperar grandes mudanças destas eleições
alemãs porque são celebradas em meio a um cinismo institucional
gigantesco, no âmbito de um colossal roubo intelectual e político
que não se pode combater no seio de instituições que
deixaram de ser democráticas ou por governos que são marionetas
dos grupos financeiros e grandes empresários.
A estratégia da mentira triunfa, e desgraçadamente de forma muito
particular na Alemanha, graças ao poder imenso que acumularam as classes
mais ricas. A riqueza dos 10% mais ricos da Alemanha, por exemplo, passou dos
45% do total em 1998 para 53% em 2008; as dos 40% seguintes dos 46% para 40% e
a dos 50% mais pobres dos 4% para 1%.
Isso é o que explica que apesar de 70% dos alemães afirmarem
estarem conscientes e reprovarem a injustiça que implicam as actuais
políticas económicas e laborais voltem a votar, na sua grande
maioria, nos partidos que as executam.
Na Alemanha, como nos demais países europeus, conseguiram converter
cidadãos e cidadãs titulares de direitos nos
"súbditos dóceis" dos quais dizia o grande Thomas Mann,
em
A montanha mágica,
"que demonstram em todo escritório e em todos local de trabalho o
respeito devido à autoridade".
Quando os eleitores tiverem deixado de ser dóceis e ingénuos,
como vêem sendo a maioria dos alemães e europeus em geral, e
quando enfrentarem com decisão as autoridades corruptas e
totalitárias que nos governam, as eleições
começarão a ter outro significado e então sim
abrirão caminho para verdadeiras mudanças políticas.
[*]
Catedrático no Departamento de Teoria Económica e Economia Política da Universidade de Sevilha.
O original encontra-se no Público.es de 22/Setembro/2013 e em
juantorreslopez.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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