Precisamos restaurar o Sistema Monetário Europeu
"O casino tem de ser encerrado"
A política europeia da chanceler Angela Merkel está sob
pressão crescente. Não só o presidente da Comissão
Europeia, Manuel Barroso, como também Enrico Letta, recentemente
mandatado pelo Presidente Giorgio Napolitano para formar o novo governo,
criticaram suas políticas de austeridade, as quais têm sido
dominantes na Europa e estão a conduzi-la ao desastre. Líderes da
Europa desde há muito estão perplexos. A situação
económica está a piorar de mê para mês e o desemprego
atingiu um nível que está cada vez mais a minar estruturas
democráticas.
Os alemães ainda não perceberam que os europeus do Sul, incluindo
a França, em vista da actual miséria económica mais cedo
ou mais tarde serão forçados a defender-se contra a hegemonia
alemã. Em particular, contra o dumping salarial alemão, o qual
tem estado em infracção aos tratados desde o princípio da
união monetária, colocando-o sob pressão. Merkel
despertará da sua letargia farisaica quando os países que
estão a sofrer o dumping salarial alemão se juntarem para
forçar uma comutação política contra a crise
à custa das exportações alemãs.
Uma moeda comum poderia ter sido sustentável se os participantes
houvessem acordado acerca de uma política salarial orientada pela
produtividade. Durante os anos 90, uma vez que considerava que tal
coordenação de salários seria possível, concordei
com o estabelecimento do Euro. Mas as instituições estabelecidas
para aquela coordenação, particularmente o Diálogo
Macroeconómico, foram contornadas pelos governos. As esperanças
de que o estabelecimento do euro forçaria um comportamento
económico racional de todas as partes foram vãs. Hoje, o sistema
está desconjuntado.
Como escreveu recentemente Hans-Werner Sinn no
Handelsblatt,
países como a Grécia, Portugal ou Espanha teriam de tornar-se 20
a 30 por cento mais baratos do que a média da UE a fim de
alcançar um nível de competitividade aproximadamente equilibrado
e a Alemanha teria de tornar-se 20 por cento mais cara.
Contudo, os últimos anos mostraram que tal política não
tem possibilidade de ser implementada. Uma apreciação real
através de elevações salariais, que seria
necessária no caso da Alemanha, não é possível com
as associações corporativas alemãs e o bloco de partidos
neoliberais, que é constituído pela CDU/CSU, SPD, FDP e Verdes, o
qual a eles obedece. Uma depreciação real através da
contracção salarial, a qual provocaria a necessária perda
de rendimento de 20 a 30 por cento no Sul da Europa inclusive em
França levará ao desastre, como já podemos ver na
Espanha, Grécia e Portugal.
Se apreciações e depreciações reais não
são possíveis por este meio, será necessário
abandonar a moeda comum e retornar a um sistema que permita
apreciações e depreciações, como era o caso com o
antecessor da moeda comum, o Sistema Monetário Europeu (SME).
Basicamente, a questão é tornar novamente possível
efectuar depreciações e apreciações controladas
através de um regime de taxa de câmbio dirigido pela UE. Para este
objectivo, controles de capital estritos seriam o primeiro passo
inevitável, a fim de regular fluxos de capital. Afinal de contas, a
Europa já deu este primeiro passo em Chipre.
Durante um período de transição, será
necessário proporcionar ajuda àqueles países que com
certeza irão depreciar as suas moedas, a fim de apoiá-los
incluindo ajuda através da intervenção do BCE, para
impedir um colapso. Uma pré condição para o funcionamento
de um sistema monetário europeu seria uma reforma do sector financeiro e
suas regulamentação estrita, de acordo com as linhas das caixas
económica públicas
(public saving banks).
O casino tem de ser encerrado.
A transição para um sistema que permitisse
apreciações e depreciações controladas deveria ser
gradual. Um arranque poderia ter ocorrido na Grécia e em Chipre. As
experiências com a serpente monetária europeia e o SME deveriam
ser consideradas.
30/Abril/2013
[*]
Lafontaine
foi ministro das Finanças da Alemanha de 1998 a 1999 e dirigente do
Partido Social-Democrata (SPD), de que saiu em 1999 por divergências
políticas com o primeiro-ministro Schröder.
Foi um dos fundadores do partido Die Linke, cuja direcção
assumiu, afastando-se em 2009 por razões de saúde. Até
esta data ele havia defendido a União Monetária, ou seja, o Euro.
A presente declaração a favor da dissolução
progressiva do Euro constitui uma inversãao total da sua
posição a respeito.
O original encontra-se em
www.linksfraktion-saaland.de/...
Esta declaração encontra-se em
http://resistir.info/
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