por Rita Casaro e Bárbara Ablas
Considerados o grande negócio do século XXI, os serviços
de saneamento básico são disputados ferozmente pelas grandes
multinacionais do setor, de olho num mercado potencial de US$ 400 mil
milhões por ano.
São francesas as duas maiores do mundo Veolia Environnement
[1]
(nascida da gigante Vivendi Universal) e Grupo Suez (antiga Lyonnaise des
Eaux). Juntas operam 80% dos serviços em seu país de origem e
estão presentes em todos os continentes, inclusive América do
Sul. Em 2004, a Veolia faturou 24,6 mil milhões; a Suez,
40,7 mil milhões.
Muito mais que competência técnica, conforme afirma a propaganda
das sofisticadas brochuras distribuídas pelos agentes da
privatização, o segredo do êxito está em práticas
impublicáveis. Ou eram assim até o lançamento do livro
Les véritès inavouables de Vivendi
(As verdades
inconfessáveis da Vivendi), de autoria do sindicalista Jean Luc
Touly.
Também presidente da seção francesa da
Associação pelo Contrato Mundial da Água, no início
de março, ele esteve no Brasil a convite do Governo do Paraná
que disputa o controle da Sanepar com o consórcio liderado pela
Vivendi-Veolia e relatou parte dessas manobras. No dia 8, participou em
São Paulo de debate sobre o tema, realizado pelo Sintaema (Sindicato dos
Trabalhadores de Água, Esgoto e Meio Ambiente), com apoio do SEESP, IMG
(Instituto Maurício Grabois) e outras entidades.
JEITINHO FRANCÊS
Segundo Touly, o salto vertiginoso que a Vivendi e a Suez deram a partir dos
anos 50, quando prestavam serviços a apenas um terço dos
municípios franceses, deveu-se principalmente ao direito de
entrada. Em troca de contratos de 30 ou 40 anos, elas concediam
empréstimos às administrações locais, a juros de
15%, bastante altos, mas que seriam pagos pelo consumidor juntamente com a
tarifa. O artifício, contou ele, foi proibido em 1993. No entanto,
encontram-se formas de burlar o bloqueio. Muito comum tornou-se o
superfaturamento na compra de anúncios em jornais municipais. As
empresas pagavam até 20 vezes o preço normal. Outro modo é
financiar os times de futebol das cidades, que têm verbas das
prefeituras, relatou.
Contrato garantido, é preciso fazer com que a conquista valha a pena. Um
jeitinho para maximizar os lucros é incluir na conta de água do
consumidor taxas e serviços os quais ele sequer conhece. Por
exemplo, os investimentos feitos são avaliados a cada seis meses e
cobrados. O problema é que o cidadão não tem qualquer
controle sobre isso.
No que diz respeito às obras e manutenção que a empresa
está obrigada a fazer por contrato, há também diversas
possibilidades de ganho. Esses serviços são contratados sem
licitação, muito freqüentemente de subsidiárias do
mesmo grupo. Apenas com esse tipo de irregularidade, a Vivendi ganhou
5 mil milhões.
Abocanhar mercados mundo afora exige outros artifícios. Em países
muito pobres ou vítimas de catástrofes, um bom caminho é a
ajuda humanitária. Primeiro, mobiliza-se uma
missão com o pretexto de ajudar as populações que
estão sem suprimento de água. Depois, chega a equipe comercial
para convencer o poder público a conceder o serviço, sempre com o
apoio do Banco Mundial.
Em nações como o Brasil, em que há infra-estrutura e
capacidade técnica, a receita é diferente. Nesses casos,
entram pelas bordas, com um contrato de assistência técnica ou
para a construção de uma estação de
tratamento, ensina Touly. Além disso, não aparecem
abertamente, mas atuam por meio de uma pequena filial local ou em sociedade com
companhias do país.
Nesse campo, as PPPs (Parcerias Público-privadas) têm a
função de assegurar total garantia ao investidor privado.
Legitimam os contratos de tal forma que fica impossível
rompê-los, explicou.
BOLÍVIA, A VÍTIMA
Corroborando as denúncias feitas pelo sindicalista, a socióloga
boliviana Maria Esther Udaeta, que também participou das
discussões sobre o tema em São Paulo e no Paraná, relatou
as conseqüências da privatização da água em seu
país. A luta acirrou-se em 2000, quando houve a Guerra da
Água em Cochabamba e a Bechtel United Utilities foi literalmente
posta para correr. Hoje, a disputa se dá em La Paz e El Alto, contra a
Águas de Illimani, controlada pela Suez. Embora o contrato tenha sido
cancelado por decreto presidencial, após uma paralisação
de três dias em janeiro, a empresa segue operando os serviços. A
situação já motivou até uma greve de fome dos
ativistas.
Tamanha revolta explica-se por práticas de gestão ultrajantes.
Quando ganhou o contrato em 1997, a companhia foi a única concorrente e
as regras foram alteradas para que ela se encaixasse nas exigências.
Embora alegue ter investido US$ 58 milhões, estima-se que US$ 55
milhões sejam créditos do Banco Mundial para a Bolívia.
Assim, teriam desembolsado de fato apenas US$ 3 milhões.
No entanto, segundo Udaeta, que é membro da Comissão para a
Gestão Integral da Água na Bolívia, sequer esse acordo de
compadres a Suez se digna a cumprir. Deveria fornecer água
potável à região das oito bacias que ganhou na
concessão. Entretanto, concentrou-se nos locais mais populosos e deixou
de lado grandes áreas. Em El Alto, 25% não têm acesso
à água e não terão a não ser que eles
próprios paguem pela ligação, ao custo de US$ 400. E
estamos falando de gente que vive com US$ 1 por dia.
A partir daí, segue-se longa lista de irregularidades. Não
instalaram medidores de consumo e cobram arbitrariamente; a
tubulação de esgoto está dentro das casas para que, ao se
romper, seja problema do morador; e subiram e dolarizaram as tarifas.
________
[1]
A Veolia (Vivendi, Compagnie General des Eaux, CGE) é a
transnacional da água que opera directamente em Portugal. Em Espanha
predomina a outra grande: Suez-Lionayse des Eaux. Existem mais algumas e
dividem as zonas do mundo, evitando concorrer entre si.. A Veolia em
Portugal chama-se CGE Portugal tem já algumas concessões
de água. Tudo indica que esteja a posicionar-se para a
privatização das Águas de Portugal, SA. Esta
transnacional gigante é originária de uma enorme empresa
pública francesa que, de certo modo, serviu de modelo
à EPAL e depois às Águas de Portugal.
Para mais informação acerca das privatizações selvagens da água visite o sítio
web da
Associação Água Pública
.
Direito que mobiliza
Entrevista de Maria Esther Udaeta
Já ouvimos falar muito sobre o que aconteceu em Cochabamba no ano de
2000 e agora há outro conflito nas cidades de El Alto e La Paz. O que
deu origem a esses conflitos?
Os camponeses de Cochabamba e outras cidades mais populosas estão
acostumados a fazer a gestão da água e de sua escassez
através de práticas sociais, culturais e econômicas.
São práticas milenares de uso, captação e
distribuição das águas com uma lógica e
característica coletiva e não individual. Eles são os
verdadeiros donos da água. Durante a década de 90 houve muitas
leis neoliberais, até que em 99 criaram uma lei que desconhece essa
forma de gestão impondo regras de mercado e exclusividade. A guerra da
água é conhecida como algo que aconteceu em alguns dias, mas ela
tem sido um processo, que se tornou mais forte entre os meses de outubro de 99
a abril de 2000. Após meses de luta nós conseguimos revogar essa
lei.
A população da cidade e os setores campesinos se envolveram
juntos nessa luta?
No auge da guerra de água sim. Cidade e campo lutaram juntos. Mas com
uma diferença entre urbanos e rurais. A parte urbana preocupava-se muito
com as tarifas e não queria pagá-las. No campo, onde os mais
pobres estavam sendo atropelados em seus direitos, a preocupação
estava voltada para os pequenos produtores e seus sistemas de
irrigação. Porque eles usam a mesma fonte de água para
diversos fins. A lei de 99 não reconhecia esses usos.
De que forma esses movimentos começaram a se articular em Cochabamba ?
Em Cochabamba surgiu um movimento sete meses antes da guerra da água que
questionava a estrutura tradicional de partidos políticos e sindical.
Isso foi uma base para o que está acontecendo atualmente. Nós,
como coordenadores de Defensoria da Água e da Vida, fomos reivindicar
nossos direitos pela água. Foi uma proposta de luta muito interessante e
politicamente forte, que não ficou apenas em Cochabamba, ganhou um
âmbito mais global. Com mais visão de país do que a cidade.
Essa visão tem sido muito importante não só para a defesa
da água, mas também para propor mudanças. A lei que
provocou o conflito não diferenciava serviços de caráter
empresarial e comunitário e continha artigos que davam possibilidade de
estabelecer o monopólio da água. Também houve a
questão da Superintendência de Saneamento Básico, similar
ao que existe no Brasil (ANA) que, supostamente pela lei, teria o papel de
regular e fiscalizar, mas nossa experiência demonstrou que ela tem andado
de mãos dadas com outros setores. Além disso, lhe deram um poder
maior que o do presidente da República. Nem ele pode afastar um
superintendente. Essa Superintendência teve um papel evidente e
desmascarado de conivência com as empresas em Cochabamba e também
com a Águas de Illimani. Foi tão intolerável que o
próprio presidente se incomodou. Hoje a Superintendência
está muito desacreditada.
Apesar das vitórias de Cochabamba, a lei de água continua vigente
ou houve mudança?
Isso é bem complicado. Temos uma lei de água grande do ano de
1906. E esta lei esteve vigente até a década de 90. Desde
então, fizeram 32 versões de ante-projetos de lei de água
financiados por cooperação multilateral, como do Banco Mundial,
e o resultado é que não se pode sancionar nenhuma lei , por isso,
houve um interesse por uma lei setorial. Não temos uma lei geral, o que
temos é um marco regulatório muito complicado porque dentro de
cada lei, pequenas ou grandes, existem outras pequenas leis de água.
É um problema legal e jurídico. Cada lei tem uma prerrogativa
sobre a água. E quando você pensa em ter uma lei geral de
água tem que se pensar em modificar 21 normas.
Apesar da empresa Águas de Illimani não ter mais contrato, ela
continua operando?
Sim. Ela opera na capital, La Paz e na cidade de El Alto. Tem a
concessão para as duas. Em janeiro houve a greve de três dias que
resultou em um decreto que cancelou o contrato. Depois começou uma crise
para decidir quem iria entrar. Participaram prefeitos, a
Federação de Juntas de Vizinhos de El Alto (Fejuve), a
Superintendência e também alguns organismos internacionais
interessados em financiar. A partir daí entramos em um clima de
instabilidade sobre quem ficaria encarregado pela Superintendência,
ninguém quer este cargo porque está muito questionado.
Também houve crises de gabinete e muita pressão internacional.
O contrato com as Águas de Illimani não existirá mais?
O decreto é claro. Terminou o contrato e é preciso analisar o que
será favorável aos interesses da Bolívia de acordo com as
leis e a concepção política do Estado. O que não
está claro é como fazer isso.
16/Mar/05
O original encontra-se em
http://www.planetaportoalegre.net/050316_1.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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