Uma plataforma de organizações não-governamentais do Mali
denuncia os serviços secretos franceses, com apoio de alguns estados da
região, de terem orquestrado os recentes golpes militares naquele
país e na Guiné-Bissau.
As ONG malianas acusam também a Comunidade Económica dos Estados
da África Ocidental (Cedeao) de ter legitimado no poder os golpistas em
Bamako e Bissau, apesar de proclamar "tolerância zero" contra
golpes de estado. Considerando a Cedeao "um sindicato dos chefes de Estado
da África Ocidental", apelidam a organização
encabeçada pelo presidente da Costa do Marfim, Allassane Outtara, de
"tentáculo dos chefes de Estado ocidentais, principalmente da
França, que não vêem na África senão um
reservatório de minérios inesgotáveis, um lugar de
esvaziamento dos seus produtos que não se vendem nos mercados dos outros
países industrializados".
Apelando à construção de uma "Cedeao dos povos",
as ONG do Mali denunciam também o papel de Blaise Compaoré,
presidente do Burkina Faso, a quem tratam por "um homem de França,
o animador do mercado negro de França em África para venda de
armas e droga, ( ) aquele que sufoca todas as tentativas de os povos
quererem tomar nas mãos o seu destino".
Na Guiné-Bissau, onde meios democráticos divulgaram as
posições das ONG malianas, são cada vez mais evidentes as
ligações dos golpistas de 12 de Abril ao narcotráfico e a
sua submissão a interesses estrangeiros.
Por um lado, há indícios da intensificação do
tráfico de droga nas últimas semanas. Por exemplo, o pessoal da
empresa privada que fazia a segurança do aeroporto de Bissau foi
substituído por gente ligada à cúpula militar do golpe. O
objectivo seria garantir a segurança das operações
aéreas de narcotráfico, já que com a chegada das chuvas as
pistas de terra batida tornam-se mais perigosas. E há testemunhos no
interior do país desde a fronteira com o Senegal, a Norte,
até ao arquipélago dos Bijagós de um maior
movimento das "avionetas do pó branco", acolhidas em terra por
soldados fardados
Por outro lado, o golpe castrense de há dois meses consolidou-se com a
conivência da Cedeao. Foram nomeados um presidente da república
fantoche e um governo "de transição" chefiado por um
militante do PRS de Kumba Ialá, a eminência parda civil do regime
"tropacrático" (assim classificado pelo PAIGC, o partido
maioritário que foi derrubado e marginalizado). Ministros, altos
funcionários, o presidente da Comissão Nacional de
Eleições, presidentes de câmara, responsáveis da
rádio e da televisão estatais foram afastados e
substituídos por gente da confiança dos golpistas. A
missão de cooperação militar angolana, a Missang, com 270
membros, deixou Bissau e foi substituída por uma força da Cedeao,
com 600 militares e polícias, sobretudo da Nigéria e do Senegal,
chefiada por um oficial burkinês. Os militares guineenses anunciaram que
"regressaram às casernas" mas é óbvio, apesar da
cosmética, que o homem forte do país é o chefe do
estado-maior das forças armadas, general António Indjai, o
líder de facto da ditadura de fachada civil instaurada.
Apesar deste contexto político-militar complexo, da tensão social
existente e da deterioração da frágil economia (campanha
da castanha de caju afectada, administração pública
inoperante, salários em atraso, projectos parados, ajudas internacionais
suspensas parcialmente, ano escolar perdido, abastecimento de electricidade e
água à beira da ruptura), os guineenses resistem.
O PAIGC e outras forças políticas constituíram uma frente
anti-golpista, sindicatos, organizações não-governamentais
e movimentos sociais exigem o restabelecimento da legalidade constitucional e
da democracia, jornalistas corajosos denunciam na Internet e em outros meios a
repressão, as perseguições, os abusos, as ilegalidades.
No plano diplomático, o ministro dos negócios estrangeiros do
governo derrubado, Djaló Pires, e o presidente do PAIGC e
ex-primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior que foi preso pelos
golpistas, mais tarde libertado e enviado para a Costa do Marfim e que agora se
encontra em Portugal têm desenvolvido esforços junto da
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e das
Nações Unidas no sentido de uma maior intervenção
da comunidade internacional para o retorno à normalidade constitucional
na Guiné-Bissau, para a conclusão das eleições
presidenciais e para aplicação de sanções aos
cabecilhas militares e políticos do golpe.
É, no entanto, pouco provável que as grandes potências
imperiais estejam dispostas, por causa da "pequena"
Guiné-Bissau, a beliscar os interesses dos seus aliados na zona
os Estados Unidos em relação à Nigéria ou a
França em relação ao Senegal, Costa do Marfim e Burkina
Faso.
Terão pois de ser os próprios patriotas guineenses a libertar-se
de ditaduras mais ou menos encapotadas, do crime organizado, da
corrupção, das divisões étnicas instigadas do
exterior e a construir na sua terra a paz, a democracia e o progresso.