Perante dezenas de milhares de pessoas a agruparem-se na fronteira sul dos EUA,
desencadeando agitação política nos Estados Unidos, surge
a pergunta: qual a razão de haver tantos pedidos de asilo e migrantes a
atravessarem ilegalmente as fronteiras de três países
centro-americanos, designadamente a Guatemala, Honduras e El Salvador?
Para começar, não é nenhuma coincidência: estes
são os três países "mais invadidos" ao sul do Rio
Grande, isto é, invadidos pelos Estados Unidos e seus mandatários.
Durante os anos Reagan assistiu-se a um máximo de
intervenção dos EUA na região, com medo de
"Infiltração comunista" dando origem a uma ajuda
maciça a déspotas locais e esquadrões da morte da direita
em toda a América Central e do Sul: o medo que cubanos e
soviéticos influenciaram conduziu a política dos EUA. Em El
Salvador, uma feroz guerra civil entre os latifundiários e uma
rebelião de esquerda custou dezenas de milhares de vidas e milhares de
milhões de dólares em rendimento perdido.
Na
Guatemala
, com uma longa história de apoio dos EUA a uma elite insensível
e violenta, uma guerra civil de 36 anos entre os latifundiários e uma
guerrilha de liderança comunista devastou o país. Honduras foi
cenário de um recente golpe de Estado apoiado pelos EUA e também
de um romance de O. Henry, em que a frase
banana republic
se tornou símbolo. Dificilmente poderia ser imaginada uma frase mais
apropriada para descrever este país centro-americano, tendo as bananas
como a maior fonte de riqueza e periódicas intrigas políticas
sucessivos golpes, assassinatos, corrupção
incrível, tudo isto presidido por senhores da guerra e seus protegidos
de Washington e das grandes empresas.
Então, de que estão estes "refugiados" a fugir?
É tão mau o pais que achem justificável pagar a
contrabandistas para guiar seus filhos menores viajando sozinhos!
através da fronteira EUA-México?
Ao contrário do resto dos media, que rotineiramente ignoraram o que se
passava na América Latina, desde o fim da guerra fria, tenho feito a
cobertura da região regularmente. Relativamente apenas às
Honduras, veja
aqui
,
aqui
,
aqui
,
aqui
e
aqui
(desde 2006). Como
escrevi o ano passado:
"Honduras tem sido sempre um joguete norte-americano, um joguete para o
benefício de United Fruit (renomeada Chiquita) e a aristocracia
latifundiária do país, sendo metido na ordem quando
necessário: Washington enviou os seus fuzileiros navais num total de
sete vezes
entre 1903 e 1925. Os camponeses hondurenhos não gostam que
as suas terras sejam confiscadas pelo governo e entregues a produtores
estrangeiros, a quem foram concedidas franquias monopolistas por
funcionários públicos corruptos. Apesar da dura repressão,
revoltas rurais periódicas começaram a espalhar-se para as
cidades. O país foi governado directamente pelos militares desde 1955
voltando a ter um regime civil apenas em 1981".
Este texto foi sobre o
golpe de Estado endossado por Hillary Clinton
contra o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya. Um conservador que
se tornou popular através de uma série de medidas destinadas a
aliviar pobreza desesperada dos camponeses e transferir o poder dos militares
para a Presidência, o que enfureceu a elite hondurenha. Esta agiu de
imediato quando Zelaya se uniu à
Aliança ALBA
, de países latino-americanos, aliada da Venezuela de Hugo
Chávez.
Embora a ALBA nunca representasse muito económica ou militarmente, o
simbolismo deste movimento foi demasiado para o exército hondurenho
adestrado nos Estados Unidos e generosamente subsidiado por Washington. Os
generais rapidamente colocaram Zelaya num avião e despacharam-no para
fora do país enquanto
ainda de pijama
. Washington emitiu uma crítica superficial e rotineira, embora o
Departamento de Estado de Hillary tivesse
aprovado o golpe
antecipadamente. Isto foi sempre assim e desta vez não foi
excepção.
A história de Honduras é a história de uma luta de
décadas contra o militarismo: os generais, apoiados pelos Estados Unidos
ao longo das décadas, criaram um sistema socioeconómico, centrado
em torno da supremacia do exército, que controla não só o
cenário político, mas também domina a economia. Liberais
reformadores como Zelaya começaram a investigar os abusos levados a cabo
pelo antigo regime militar, os culpados não esperaram que a Procuradoria
começasse a chamá-los: lançaram uma campanha terrorista de
atentados e assassinatos. Como descrevi
em 2009
:
"Um sector inteiro dos militares caiu na criminalidade sem rodeios: tal
como na década de 1990 um típico ladrão de bancos,
traficante de drogas, e/ou raptor-para-resgate era, muitas vezes, um oficial do
exército hondurenho. Cartéis de droga colombianos estenderam seus
tentáculos ao alto comando hondurenho e a violência e a
repressão aumentaram".
Os cartéis claramente restabeleceram a sua influência nas
Honduras: o que estamos a presenciar é uma repetição da
década niilista dos anos 90. De acordo com o
Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime
, no período imediato após o golpe de Estado apoiado por Clinton
a taxa de assassinatos aumentou
de 60,8 por 100 mil em 2008 para 81,8 em 2010; 91,4 em 2011 e 90,4 em 2012
das mais altas do mundo. O governo dos EUA emitiu um aviso para
viajantes que diz aos turistas para
permanecerem afastados
.
Assim, a Hégira hondurenha para o Rio Grande é um resultado
direto da política externa dos EUA: será o ricochete ou
"blowback",
utilizando o jargão da CIA para as desagradáveis
consequências das ações dos EUA no exterior? Seria
fácil dizer que este é mais um exemplo de como a política
externa dos EUA de intervenção global retorna para nos assombrar,
porque isso é parte da verdade. No entanto, a velha história
familiar de americanos arrogantes
(Ugly Americans
[1]
a apoiarem o Déspota Local ainda pior não se encaixa nos fatos
atuais: houve uma queda incrível na ajuda militar dos EUA para as
Honduras. Em 2017 foram mais 19 milhões de dólares. Este ano
são
meros 750 mil dólares!
A história de Honduras antes da ascensão da hegemonia americana
fez mais para moldar o país do que qualquer outro factor: a
questão vital da propriedade da terra é central aqui e em todo o
Sul. O feudalismo
[2]
nunca foi realmente abolido e os restos feudais que persistem
até hoje na região atrasaram o desenvolvimento económico e
tecnológico e mantiveram a maioria na penúria. A política
externa dos EUA ajudou a sustentar esta repressão sistémica:
não a criou. Quaisquer que sejam as "causas-raízes", as
consequências de toda esta história criaram algo muito
próximo de um Estado falhado.
Por isso, dezenas de milhares de pessoas estão a fazer uma longa
caminhada para a fronteira entre os EUA e o México: a base social e
institucional da civilização humana está caindo em
pedaços, não só em Honduras, mas em toda a América
Latina. Apesar de tudo isto nem é novo nem é principalmente
atribuível às acções dos Estados Unidos. Sim, nossa
"guerra contra as drogas" tem criado uma classe criminosa capaz de
rivalizar com o poder dos governos locais para manter a ordem, mas as drogas
são ilegais em todos os lugares, não só na América
do Norte.
As Honduras podem ser um Estado falhado, e a política externa dos EUA
certamente não ajudou a melhorar longe disso! ainda que o
fracasso seja tanto uma consequência de uma cultura política que
antecede a influência americana, tal como o é dos mais recentes
acontecimentos. Se isto dá direito a que hondurenhos atravessem a
fronteira e reivindiquem asilo nos Estados Unidos é uma matéria
que vou deixar para o julgamento dos meus leitores, mas meus os pontos de vista
são bem
conhecidos
.
Basta dizer que a resposta à pergunta de porque tantos hondurenhos
estão a reencenar
The Camp of the Saints
na nossa fronteira sul deve ser encontrado na complexa história daquela
terra infeliz, que os "mestres da virtude" e falsos
"especialistas", que dominam o discurso dos EUA fariam bem em
aprofundar. O que não farão, pois não é uma
história propícia para as habituais asneiras dogmáticas.
Então, o que podemos fazer para aliviar o problema, causado em parte
pela história das nossas relações com Honduras?
Parece-me que os apoiantes de Trump estão no caminho certo com sua
redução radical da ajuda militar dos EUA ao corrupto governo
hondurenho. E embora não devêssemos prosseguir uma política
de mudança de regime, mesmo que apenas para desfazer a anterior
mudança apoiada pelos EUA, os fala baratos da
"promoção da democracia" no Departamento de Estado
fariam bem em chamar a atenção para a acção
destrutiva do regime actual. Afinal, isto é algo de que podem culpar a
Hillary Clinton.
A administração de Trump deveria evitar o tipo de "causas
fundamentais" sem sentido algum que precedem a entrega de grandes
quantidades de ajuda económica. Invariavelmente, dinheiro que vai
directo para os bolsos das autoridades locais.
A crescente presença nas Honduras de gangs como MS-13 é um
problema de aplicação da lei, algo que não vai ser
resolvido até que a cumplicidade governamental com essas gangs seja
descoberta e erradicada. Este é um novo fenómeno pandémico
na região: uma forma de capitalismo de compadrio, que eu chamo de
cumplicidade com criminosos o resultado direto de uma falha da
"guerra contra as drogas", o florescente mercado para opiáceos
viciantes e muitas vezes mortíferos e a corrupção
intrínseca gerada pela intervenção do Estado no
tráfico.
A cumplicidade com criminosos que está a destruir a sociedade
civilizada, ao sul da fronteira dos EUA não é algo que possa ser
interrompido apenas se Washington "fizer algo". Cabe às
pessoas que vivem nesses países libertar-se de seus opressores. A
América não vai resolver problemas, que remontam ao legado do
colonialismo espanhol. O que é necessário é uma
"América primeiro" uma política regional que abandone
os erros do passado mais recente, voltando à sabedoria do passado
de John Quincy Adams, o melhor secretário dos EUA, que, quando
pressionado por exaltados a apoiar a causa da independência grega,
respondeu
que a América "é criadora de desejos de liberdade e
independência de todos. Ela é campeã e reivindica apenas a
sua própria".
[1]
The Ugly American,
romance de William Lederer e Eugene Burdick publicado em 1958. Foi transposto
para o cinema em 1963.
[2] É altamente discutível caracterizar como feudal o modo de
produção de Honduras ou de qualquer país latino-americano.
Resistir.info não tem de endossar tudo o que diz um autor quando
publica
um dos seus artigos.
[*]
Director editorial de Antiwar.com e investigador do Instituto Randolph Bourne.
O original encontra-se em Antiwar e em
www.informationclearinghouse.info/49748.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.