por Melkulangara Bhadrakumar
[*]
I
O rei Abdullah da Arábia Saudita está furioso...
Na última quinzena, a Arábia Saudita elevou muito o tom de sua
retórica para manifestar fúria contra as políticas
regionais dos EUA no Oriente Médio, especialmente para Síria e
Irã. Semana passada, o tom chegou a picos altíssimos, com duas
figuras chaves do regime saudita alternadamente satirizando e ameaçando
o governo Obama.
O desafio estratégico pelo regime saudita contra os EUA é
sustentável, ou logo se verá se não passa de bravata ou
até de estratégia de defesa para encobrir os mais obscuros
medos? Há inúmeras razões para supor que seja a
expressão de uma ira de muitas faces. Há indicação
de que os EUA enviaram sinal de alerta à Casa de Saud, de que a
discrição é a melhor face da coragem, e que os sauditas
não estão em posição que lhes permita
ameaçar a Casa Branca. É claro que os sauditas entenderam, mas
teremos de esperar e observar, para saber como assimilarão a
"dica".
A retórica dos sauditas contra o governo Obama ao longo da última
quinzena foi realmente espantosa, sem precedentes, pelo tom de desafio e forte
agitar dos sabres.
Tal discurso seria impossível durante a presidência de George W.
Bush (porque a família Bush mantém laços muito
próximos com a Casa de Saud há três
gerações), mas, além disso, esse tipo de retórica
jamais foi o estilo saudita. Riad sempre preferiu operar no subsolo, longe dos
olhares de aves de rapina, em tudo que tivesse a ver com as suas absolutamente
importantes relações com Washington.
Analisado o quadro pelo que se vê por fora, as duas coisas que
enfureceram o regime saudita foram o visível empenho do presidente Obama
de fazer avançar o envolvimento dos EUA com o Irã e, em segundo
lugar, o absolutamente claro movimento de Washington, que se afasta do projeto
de "mudança de regime" na Síria. Obama já fala
abertamente sobre um acordo definitivo EUA-Irã sobre a questão
nuclear e vozes de peso, além de funcionários, cada vez mais se
fazem ouvir, inclusive em reunião recente dos "Amigos da
Síria" em Londres, no sentido de que pode interessar à
estabilidade síria e à luta contra a al-Qaeda bem como
à segurança regional em geral que o presidente Bashar
Al-Assad se mantenha na liderança e concorra às
eleições presidenciais marcadas para o próximo ano.
Certo é, em todos os casos, que longe vão os dias em que
Washington dizia que "todas as opções estão sobre a
mesa", ou que "Bashar tem de sair". Claro que Riad já viu
tudo isso, assim como já viu também que pouco conseguiu com a
robusta campanha do lobby saudita em Washington, inclusive com a ameaça
implícita de que a Arábia Saudita se aproximaria de outras
grandes superpotências, como contrapeso aos EUA lobby e
ameaça que não impressionaram o governo Obama. Dito de outro
modo, os sauditas vivem hoje uma experiência absolutamente nova, a saber:
que já não têm poder de veto contra políticas dos
EUA para o Oriente Médio, as quais, doravante, serão
construídas e implantadas como parte das estratégias globais de
Washington. Para regime que investiu fé total no poder do dinheiro para
ditar e comandar planos e navegar livremente pelos corredores do poder em
Washington, é mudança de paradigma que Riad não
está digerindo bem.
Já era evidente, do ataque muito forte contra o governo Obama, vindo de
um importante príncipe saudita, Turki-al-Faisal (irmão do
Ministro de Relações Exteriores, Saud al-Faisal, ele
próprio ex-chefe da inteligência saudita e embaixador em
Washington) em recente conferência de segurança em Mônaco,
da qual participavam políticos importantes, árabes e europeus,
além de líderes do empresariado, e, também em entrevista
que deu ao
Wall Street Journal,
à parte, mas durante a realização da conferência.
Turki virtualmente acusou o governo Obama de perfídia, por ter
trabalhado pelas costas de Riad para fazer avançar a
reaproximação com Teerã; disse que Washington é
culpada de "negligência criminosa", quando a violência na
Síria já custou 130 mil vidas. "O que surpreende é
que as conversas que estavam em andamento [entre Washington e Teerã]
foram mantidas escondidas de nós [Riad]. Como é possível
falar em confiança, se você mantém segredos, até
para os supostos aliados mais próximos?"
disse Turki
.
Obviamente, os sauditas ficaram lívidos ao saber que o governo Obama
não só não notificou Riad sobre as conversas secretas com
o Irã até o Outono ("quando as coisas ficaram
substantivas"), mas, para piorar, esfregou sal na vaidade ferida dos
sauditas ao iniciar aqueles contatos no final de Março em Omã,
bem no nariz dos sauditas. Na verdade, o acordo provisório sobre a
questão nuclear que foi discutido em Genebra mês passado, passou a
perna nos sauditas, e Turki manifestou preocupação porque o
acordo nada faz para garantir que Teerã não venha a desenvolver
armas atômicas. Por trás de tudo isso, é claro, está
a angústia existencial de que a distensão EUA-Irã venha a
erodir ainda mais o status da Arábia Saudita como aliado destacado de
Washington no Oriente Médio.
Assim, também as marcadas diferenças quanto à Síria
isolaram a Arábia Saudita, internacionalmente e na região. Dois
dias depois das palavras de Turki, o ataque contra o governo Obama prosseguiu,
dessa vez pelo embaixador saudita no Reino Unido e membro da Casa de Saud,
Mohammed bin Nawaf Abdulaziz al Saud, o qual, em coluna no
New York Times
publicada na 3ª-feira passada praticamente advertiu que as
políticas dos EUA tanto no Irã quanto na Síria são
"jogo perigoso", e que a Arábia Saudita "não pode
permanecer calada, nem ficará de lado, inerte". Alegou que "as
políticas dos EUA ameaçam a estabilidade do Oriente Médio
e a Segurança do mundo árabe [...]. O Reino da Arábia
Saudita não tem outra escolha além de tornar-se mais assertivo
nas questões internacionais: mais determinado que nunca em defender a
genuína estabilidade de que nossa região carece tão
desesperadamente. [...] Temos de agir para responder a essas responsabilidades,
com ou sem o apoio de nossos parceiros ocidentais".
Mais importante, o artigo diz claramente que os sauditas manterão
e aumentarão o apoio que dão à Frente Islamista
extremista na Síria. "A Arábia Saudita continuará
nessa sua nova trilha, por quanto tempo se demonstre necessário",
escreveu Mohammed bin Nawaf.
[1]
Mas a grande questão é até que ponto o regime saudita
avançará nessa sua perigosa "nova trilha" de desafio
estratégico aberto aos EUA?
Para responder essa pergunta, temos de viajar para bem além de
questões síria e iraniana; até, de volta, a Setembro de
2001.
Inexplicavelmente, o governo Obama permitiu há algum tempo, pela
primeira vez, que dois congressistas Walter B. Jones (Republicano) e
Stephen Lynch (Democrata) tivessem acesso às
28 páginas
do relatório da Comissão de Investigação de
Inteligência Conjunta [orig.
Joint Intelligence Committee Inquiry (JICI)
] sobre o ataque do 11/Set, que as famílias das vítimas,
sobreviventes mutilados e o público em geral esperam ardentemente que
traga algumas respostas sobre conexões sauditas naquele ataque. Afinal
de contas, 15 dos 19 sequestradores envolvidos no ataque do 11/Set eram
cidadãos sauditas e sempre houve notícias esporádicas de
que tivessem ligações com a Casa de Saud e, até, que
teriam recebido apoio financeiro do governo saudita, além do que
receberam de vários estranhos misteriosos milionários sauditas
que, naquele momento, moravam em San Diego.
Eis
o que Jones escreveu
, redação dele, depois de ler as 28
páginas top-top secret do relatório da JICI:
Fiquei absolutamente chocado com o que li. O que me surpreendeu é que
aqueles homens nos quais pensávamos que pudéssemos confiar me
desapontaram. Não posso dizer mais que isso. Tive de assinar um termo de
compromisso/juramento, de que tudo o que li tem de continuar confidencial. Mas
a informação que li ali me desapontou enormemente.
Para resumir a missa, no início de Dezembro os dois congressistas, Jones
e Lynch apresentaram projeto de resolução a exigir que o
presidente Obama levante o sigilo que impede a publicação
daquelas 28 páginas (que Bush tornou absolutamente sigilosas, com o
argumento de que a divulgação daquelas páginas "viola
a segurança nacional").
Parece que já começou um jogo de gato-e-rato que envolve a Casa
Branca, o Capitólio e a opinião pública interna
além do judiciário norte-americano e a Casa de Saud.
II
Há muito tempo especula-se que aquele relatório de 28
páginas do
Joint Intelligence Committee Inquiry
[JICI] de 2002 demonstra que o governo saudita teve, pelo menos, papel
indireto no apoio aos terroristas responsáveis pelo ataque de 11/9.
De fato, o ex-senador Bob Graham, que presidiu a Comissão JICI já
disse à imprensa, sem pedir sigilo, que está convencido de que:
(...) o governo saudita, sem dúvida alguma, apoiava os sequestradores
que viviam em San Diego.
Ora, tudo persiste até hoje como simples objeto de curiosidade, ou
material puramente especulativo, para diz-que-dizem de deputados, senadores ou
mídia e até, talvez, do judiciário...
Por estranha coincidência, na semana passada a Corte de
Apelação dos EUA manteve o direito das vítimas dos ataques
do 11/9 a dar prosseguimento ao processo que iniciaram em 2003 para julgar o
Reino da Arábia Saudita, acusado de ter assegurado apoio
considerável à al-Qaeda, pouco antes do ataque terrorista. Na
essência, a Corte confirmou que é necessário incluir a
Arábia Saudita no conjunto de acusados (réus) naquele processo.
De fato, advogados que trabalham nos processos do 11/9 já citaram
várias vezes o relatório JICI, como base para as
alegações de que a Arábia Saudita foi principal fonte de
financiamento para a al-Qaeda, mas os que defendem os sauditas sempre respondem
que o relatório JICI disponível para a defesa não mostra
qualquer evidência de que nem sauditas governantes nem
funcionários do governo saudita ou cidadão saudita jamais
financiaram a al-Qaeda.
Nesse ponto, precisamente, é onde ganha importância a
liberação para o público de todo o relatório JICI,
completo. É questão de timing estratégico para o Congresso
(e para o governo dos EUA), ou será simples coincidência, que a
Casa Branca tenha liberado aquelas 28 páginas do relatório JICI,
para leitura de dois congressistas, sob estritas condições de
confidencialidade, justamente nesse momento em que a Corte de
Apelação se aprontava para manifestar-se sobre o possível
envolvimento (criminal) do governo saudita nos ataques do 11/9?
Pela via oposta, o que acontece se, à luz desses desenvolvimentos, as
partes que querem processar o governo saudita insistem em exibir, como prova, o
relatório completo da JICI? Por aí se entra diretamente centro de
um labirinto escuro.
Mas em última análise, a bola, como dizem os norte-americanos,
está na quadra de Obama. Depende exclusivamente do governo Obama
não vetar a resolução do Congresso para que o estado
levante a proibição que impede a divulgação do
relatório JICI, se for aprovada na Câmara de Deputados e no
Senado.
Aqui é onde a porca torce o rabo. É fato bem conhecido que, ao
contrário de seus antecessores no Salão Oval George
Herbert Walker Bush, William Jefferson Clinton e George Walker Bush
Barack Hussein Obama não é presidente que se envolva diretamente
e pessoalmente e profundamente nas relações com a Arábia
Saudita. Obama é presidente que, como o
New York Times
escreveu há alguns meses no contexto da Síria,
(...) raramente manifestou opiniões de peso nas reuniões do
gabinete, e [cuja linguagem corporal] sempre era bem clara: Obama sempre
parecia impaciente ou desinteressado enquanto ouvia os debates, às vezes
passando os olhos pelas mensagens que chegavam ao seu Blackberry, ou de olhos
distantes, mastigando chiclete.
É verdade: pode não passar de crítica impiedosamente
enviesada, de colunista do
Times
dedicado a fazer a sua própria opinião pessoal soar como se
fosse opinião pública, porque é claro que Obama compreende
a gravidade da crise; mas nesse caso ele também conhece bem os limites
da capacidade dos EUA para influenciar os pontos mais quentes do Oriente
Médio emergente. Como escreveu recentemente Robert Hunter, ex-embaixador
dos EUA na OTAN e diretor de Assuntos do Oriente Médio no Conselho de
Segurança Nacional dos EUA no governo de Jimmy Carter, os EUA têm
alguns interesses específicos a buscar na atual situação
no Oriente Médio e, portanto,
(...) a estratégia dos EUA sobre parceiros e aliados no Golfo
Pérsico precisa ir além da fixação de instrumentos
militares e focar-se em redesenvolver o empenhamento e os compromissos dos EUA
em termos não militares.
Enquanto isso, de volta ao relatório JICI, aumenta a pressão
pública das "Famílias do 11/9 Unidas por Justiça
contra o Terrorismo", grupo ativista que reúne as vítimas do
ataque, e nem a Casa Branca nem os Congressistas podem ser indiferentes a uma
questão tão fortemente emocional como essa, que deixou marca
indelével na psique nacional norte-americana. Os veículos da
imprensa-empresa mostram o quanto as famílias das vítimas dos
ataques do 11/9 apreciaram o veredito da Corte de Apelação. O pai
de um jovem de 25 anos morto na Torre Norte do WTC disse à rede ABC
News:
Esse ano, o Natal chegou antes, para as famílias do 11/9. Vamos festejar
nosso Natal no Tribunal.
Na verdade, o processo, se efetivamente prosseguir e for bem-sucedido, pode
resultar em o governo e membros da família real saudita que
contribuíam para organizações que financiavam a al-Qaeda
terem de pagar indenizações de dezenas, talvez centenas de
milhares de milhões de dólares. Depois que o paquiderme legal se
puser em movimento, ninguém sabe até onde chegará.
O que torna toda a questão altamente explosiva é que o embaixador
saudita nos EUA, na época dos ataques do 11/9 era ninguém menos
que Bandar bin Sultan, atualmente o espião-chefe de Riad. Além do
mais, diz-se que Bandar atuou direta e pessoalmente sobre Bush Jr., que lhe deu
permissão especial, diretamente da Casa Branca, para a decolagem de um
voo fretado (num momento em que o tráfego aéreo estava fechado
sobre todo o território dos EUA), que partiu do Kentucky, com 144
pessoas a bordo, inclusive vários membros da família bin Laden,
para que não fossem revistados, entrevistados, contatados nem de modo
algum perturbados por efeito dos ataques de 11/9. Depois do voo,
funcionários do FBI foram citados, dizendo que o pessoal que fugira dos
EUA por intervenção de Bandar (com ativa
colaboração pessoal de Bush) era "gente que interessa".
De fato, a parte mais curiosa é que Bandar também é hoje o
personagem chave que conduz avante o projeto saudita para derrubar o governo
legítimo do presidente Bashar Al-Assad na Síria. Dito de outro
modo: Bandar, que pode vir a ser intimado a depor num tribunal criminal
norte-americano que julga o processo das famílias das vítimas do
11/9, é exatamente o mesmo Bandar que, no campo operacional,
ameaça torpedear o mais bem construído plano de todo o governo
Obama para chegar a um acordo político para a questão
síria, na Conferência Genebra-2.
Interessante também, como digressão, que o Saban Center for
Middle East Policy do Brookings Institute (o mesmo, cujo Fórum Obama
escolheu recentemente para dar as primeiras notícias importantes sobre o
novo engajamento dos EUA com o Irã) acaba de lançar estudo
exaustivo, assinado por Elizabeth Dickinson, especialista em Oriente
Médio, sob o título "BRINCANDO COM FOGO: Por que o
financiamento privado do Golfo para extremistas na Síria pode incendiar
o conflito sectário também em casa" [orig.
PLAYING WITH FIRE: Why Private Gulf Financing for Syria's Extremist Rebels Risks Igniting Sectarian Conflict at Home
].
O trabalho de análise foca em como o Kuwait "emergiu como
organização guarda-chuva financeiro e organizacional para
organizações de caridade e indivíduos que apoiam vasta
variedade de grupos rebeldes na Síria"; e diz que "doadores do
Golfo contribuíram para o alinhamento ideológico e
estratégico que há hoje entre os grupos rebeldes [na
Síria], com os extremistas no comando militar das
ações".
O que se vê e esse talvez seja o aspecto que Bandar deve observar
com máxima atenção e seriedade é que
Washington está monitorando de perto o apoio a grupos jihadistas
extremistas que operam na Síria, apoio que lhes é assegurado
pelos petro-estados do Golfo Árabe e suas chamadas
organizações de caridade. O documento diz claramente:
O Tesouro dos EUA tem conhecimento dessa atividade e manifestou
preocupação sobre esse fluxo de financiamento privado.
Nesse ponto, pode-se acrescentar a esse caldeirão fervente mais um
ingrediente: a luta interna pelo poder dentro do regime saudita, com Bandar
convertido em alvo de críticas (raríssimas), na própria
imprensa-empresa saudita.
O bem conectado escritor e jornalista saudita Jamal Kashoggi escreveu
recentemente no jornal
Al Hayat
do establishment saudita, crítica velada, mas perfeitamente
inteligível, contra Bandar:
Seria erro desafiar o poder da história, com a ilusão de que os
poderosos poderiam forjar acordos e planejar o futuro distanciados dos povos
que, divididos e sem qualquer contato ou experiência com a democracia,
acabam abusados por forças locais, regionais e internacionais. Mesmo
assim, esses povos continuam em estado de fluidez e fúria. Sabem o que
querem, mas estão confusos sobre como chegar lá. O que é
certo é que não esperarão que um cavaleiro surja, montado
num cavalo branco, para guiá-los a uma nova luminosa aurora. O tempo do
só-eu-posso-tudo acabou.
Kashoggi não escreveria isso, se não tivesse firme
convicção de que o que escreveu tinha de ser escrito.
III
O ataque de Jamal Kashoggi contra o príncipe Bandar bin Sultan
é o máximo a que pode chegar a crítica na imprensa-empresa
saudita contra membro poderoso da Casa de Saud, mas, de fato, as tensões
entre os príncipes rivais já respingam para os jornais; e as
políticas que Bandar, atual chefe da inteligência saudita,
já começam a ser atacadas.
Além do mais, a Síria não é a única frente
na qual Bandar está ou esteve envolvido. Bandar também pilotou,
em nome dos sauditas, o golpe militar no Egito. De fato, em todos os teatros
onde se veem as pegadas de Bandar Egito, Iêmen, Líbano,
Síria as coisas vão mal para a Arábia Saudita e
são teatros interconectados.
O Egito parece ser o albatroz no pescoço dos sauditas.
[2]
A expectativa saudita era que o país fosse rapidamente pacificado, mas
a agitação só fermenta, sem fim à vista. O
desenvolvimento mais recente é que a Fraternidade Muçulmana, de
longe o grupo mais bem organizado e a plataforma política mais popular
no Egito, foi declarado "organização terrorista".
Democracia e estabilidade "inclusivas" e a recuperação
econômica do Egito são hoje quimera, algo que a atual
geração não conhecerá. Pois mesmo assim a
Arábia Saudita mantém e financia aquele estado paralisado e
falido. Até quando poderá continuar?
Os Emirados Árabes Unidos já informaram ao Cairo que o apoio
árabe para a junta não durará muito. Já se comparou
a mais recente dose de ajuda enviada dos Emirados ao Egito ($3,9 mil
milhões) a transfusão de sangue a doente que sangra rapidamente,
incessante e incontrolavelmente. De fato, o confronto entre a deposta
Fraternidade Muçulmana no Egito teve impacto real nos alinhamentos
regionais. Levou a Turquia para os braços do Irã. Teerã
já começou a falar das relações iraniano-turcas
como "de raízes profundas e fraternas". Isso tudo considerado,
a frente egípcia está dando terrivelmente errado para Bandar. Bem
claramente, as coisas chegaram a um ponto no qual as tensões em torno de
tanto aventureirismo se vão convertendo em disputas por poder dentro da
própria Casa de Saud.
Em suma, a retórica estridente que cerca hoje as políticas
externas sauditas, que sempre, tradicionalmente, foram discretas e cautelosas e
conduzidas sem oposição, tem muitas faces. Tem de ser vista como
a irrupção de várias tensões que se
sobrepõem na matriz complexa que cerca a Casa de Saud, onde grupos
rivais disputam as atenções do velho rei e as rivalidades
já contaminam o rumo que o grupo de Bandar está dando às
políticas externas sauditas. Elaborando sobre esse tópico
recentemente, David Hearst, do
The Guardian
(UK), resumiu bem:
Intrigas de corte podem explicar por que a política externa saudita, que
sempre foi discreta e cautelosa e conduzida quase sempre na coxias, está
hoje tão exposta. Pode ser efeito de uma obsessão antiga, que
sempre abala as monarquias absolutas: a luta pela sucessão.
Mesmo assim, a grande pergunta permanece sem resposta: até que ponto a
Arábia Saudita empurrará o envelope e desafiará as
estratégias dos EUA na Síria e no Irã? Chegará ao
ponto de realmente comprometê-las? A intervenção saudita no
Bahrain mostra que, onde seus principais interesses estejam envolvidos, Riad
é capaz de agir com força extrema. Não há
dúvidas de que Riad temia muitíssimo que o levante xiita no
Bahrain viesse a ter ressonâncias nas províncias leste da
Arábia Saudita, dominadas pelos xiitas, e um fortalecimento de xiitas
dessa magnitude teria efeitos em vários teatros da política
regional. Não surpreendentemente, os sauditas patrocinaram a violenta
repressão dos xiitas no Bahrain. Não havia crítica
ocidental, por mais ampla ou forte que fosse, capaz de levar os sauditas a
repensar sua política para o Bahrain.
Por tudo isso, devem-se acrescentar muitos pontos de interrogação
no pedido-monstro que os sauditas encaminharam, para compra de 15 mil unidades
de mísseis antitanques , a serem comprados da empresa Raytheon, ao
preço de mais de US$1000 milhões de dólares. Não
é concebível que a Arábia Saudita esteja sob risco de
invasão por tanques, e, seja como for, o país já tem
estoques gigantes, de mais de 4 mil mísseis anti-tanques. Como seria de
esperar, os especialistas perguntam-se: mas... e de onde virá a
ameaça?
Não há nem a mais remota possibilidade de a Arábia Saudita
envolver-se em guerra de solo, de contato, com o Irã. Qualquer contato
entre os dois adversários, se houver, será naval ou aéreo.
Sofisticados mísseis anti-tanques não têm utilidade nas
operações sauditas no Bahrain ou no Iêmen. E a
Arábia Saudita tampouco se vê ameaçada pelo Iraque.
A única explicação plausível a que chegaram os
especialistas é que essa recente compra saudita pode estar conectada
à guerra de Bandar na Síria. É possível que os
sauditas tenham mandado para longe suas armas anti-tanques, servindo-se de
outras fontes (não de fontes norte-americanas, porque os EUA monitoram
de perto todos os deslocamentos de armas enviados a terceiros) e estejam
substituindo as peças de seu próprio arsenal, com material
recém-chegado dos EUA. Como disse o ex-embaixador os EUA na
Arábia Saudita, Charles Freeman:
Eu diria, especulativamente, que, com um pedido desse tamanho ($1000
milhões), os sauditas estão descarregando seus atuais arsenais na
direção da oposição, e substituindo-os por novos
itens.
Se for isso, e Bandar estiver realmente pressionando à frente rumo
à guerra saudita contra o regime sírio, não obstante os
recentes sinais emitidos pelas potências ocidentais, as conversas de
Genebra-2, no mês que vem, podem não levar à
remoção do presidente Bashar Al-Assad; e não só sua
minoria alawita permanecerá como presença chave em qualquer
governo de transição: o presidente Bashar Al-Assad pode
também concorrer outra vez à eleição presidencial.
Mas, sim, há outro modo de olhar para tudo isso. Para citar David
Kenner, editor-associado da revista
Foreign Policy:
Mas a intenção dos sauditas pode ser comprar as armas, mais que
qualquer outra coisa. Num momento em que estão às turras com
Washington por causa da diplomacia do governo Obama para o Irã e a
não intervenção na Síria, os bolsos fundos do reino
podem, pelo menos, providenciar para que seus laços com o
Pentágono permaneçam tão fortes e firmes como sempre.
De fato. Há motivos para crer que grossas camadas de mentiras e
enganação ofuscam as reais intenções que há
por trás da retórica saudita.
Considerem, por exemplo, as reuniões supostamente secretas entre
sauditas e israelenses. De repente, a cortina inexplicavelmente se abriu sobre
essas reuniões, por mais que as cogitações
sauditas-israelenses fossem segredo conhecido há anos, também em
nível de inteligência, e um dos fios sempre entretecidos na
complicada tapeçaria política do Oriente Médio. Bem
claramente, as recentes fugas são parte da "guerra
psicológica". E, na realidade, tudo pode bem ser, só, uma
limitada coincidência de interesses sauditas e israelenses.
O que realmente importa é que Israel e Arábia Saudita operam em
níveis enormemente diferentes em Washington. As conexões de
Israel nos EUA são profundas e cobrem os padrões
políticos, culturais e religiosos da sociedade norte-americana, enquanto
o lobby saudita só opera em nível superficial. No cerne da
diferença está a realidade objetiva de que Israel tem a
capacidade de agir para salvaguardar seus interesses de segurança, e por
mais que vez ou outra faça pesar a atmosfera sobre os laços com a
Casa Branca, esse sempre será traço transitório, e as
relações em geral sempre se recuperam, sem grande dano. A Casa de
Saud, por sua vez, depende completamente da proteção militar dos
EUA.
Em interessante artigo recente, escrito em conjunto por Bernard Haykel, o
conhecido professor de Estudos do Oriente Próximo em Princeton, e Daniel
Kurtzer, ex-embaixador dos EUA em Israel e no Egito,
eles resumem
:
Ao contrário de Israel, a Arábia Saudita tem pequena
influência na política interna dos EUA, além do apoio de
alguns homens do petróleo e fabricantes de armas. Os reis sauditas
sequer mantêm relação pessoal calorosa com o presidente
Barack Obama, como mantiveram com os presidentes H. W. George Bush, George W.
Bush e Bill Clinton, que geriam pessoalmente as relações
bilaterais. Assim como não é provável que sauditas e
israelenses rebaixem suas relações com os EUA, menos
provável ainda é que se aproximem entre si.
Haykel e Kurtzer estimam que qualquer "coordenação
diplomática e militar entre israelenses e sauditas pode até gerar
manchetes, mas, muito provavelmente, sempre será
ficção".
Por tudo isso, a que se resume o borbulhante descontentamento dos sauditas? A
questão é que Riad está cada dia mais desesperada.
Considera a Síria uma guerra por procuração contra o
Irã e quer que os EUA apoiem o esforço saudita. Não
está acontecendo. Em vez disso, Washington aproxima-se do Irã e
no processo está dando a Teerã uma nova legitimidade, o que
é anátema para Riad. Essa é uma charada que não se
deixará resolver facilmente e a Arábia Saudita terá de
aprender a viver com ela pelo menos durante o governo Obama...
27/Dezembro/2013
NT
[1] Ver também 22/12/2013, The Saker, Blog The Vineyard of the Saker,
redecastorphoto em:
"A Casa de Saud ameaça: verdade ou encenação?"
(traduzido).
[2]
Albatross
: Uma metáfora frequente em inglês. Vem de
versos de Coleridge, sobre um marinheiro que vê um albatroz a seguir seu
navio (o que todos os marinheiros entendem como sinal de sorte), mas mata o
albatroz (o que converte o bom presságio em mau presságio). Para
tentar impedir as desgraças provocadas pelo assassinato do albatroz, o
marinheiro que o matou é condenado a andar com o corpo do albatroz morto
enrolado no pescoço, o que ele faz, até a morte. A
metáfora, ligeiramente modificada, também ocorre em
francês, pelo L'Albatros de Charles Baudelaire, em
Les Fleurs du Mal.
[*]
Diplomata de carreira da Índia. Prestou
serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka,
Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia.
É especialista em questões do Afeganistão e
Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para
várias publicações, dentre as quais
The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research
e
Indian Punchline.
A primeira parte do original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
e a tradução de Vila Vudu em
(efectuadas pequenas alterações).
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.