por Romain Migus e Albert Mondovi
As manipulações mediáticas visando desacreditar a
Revolução Bolivariana intensificam-se ao mesmo ritmo da sua
orientação rumo ao Socialismo. A reacção às
mentiras e a sua clarificação precisam de muito mais tempo que a
produção da própria mentira, à qual, depois de
desmontada, se seguem novas vagas de calúnias. Decidimos, assim,
compilar as matrizes de opinião negativa mais comuns e às quais
responderemos de forma curta.
AUTORIDADE NEM SEMPRE É AUTORITARISMO
1°) A Constituição da República Bolivariana da
Venezuela é a Constituição de Chávez.
Se o presidente Chávez durante a sua estadia na prisão nos anos
90 escreveu certas ideias quanto à nova constituição, o
esforço de construção colectiva da nova carta suprema
é um exemplo de democracia participativa e representativa. Assim que foi
eleito o presidente convocou, como o prometera durante a campanha, um referendo
para perguntar aos venezuelanos se estavam de acordo em mudar a
Constituição e convocar uma Assembleia Constituinte. O resultado
exprimiu por si próprio a necessidade de mudança: por 90% a
convocação da Assembleia Constituinte foi aprovada. Iniciou-se
então um processo de reflexão colectiva. Através de
assembleias populares e de comissões de bairro, o Povo elaborou
propostas para a constituição da Constituição.
Houve depois eleições para eleger os representantes da Assembleia
Constituinte e que foram o espelho da realidade política do momento.
Contavam-se entre os representantes partidários e aliados de
Chávez (muitos deles mais tarde acabariam por traí-lo), mas
também adversários políticos. Pensar que esta
constituição é obra de Hugo Chávez, escrevendo-a
sozinho noite e dia, é negar a organização do debate
democrático que houve à volta dela.
Após alguns meses de trabalho, inspirando-se no projecto de
Chávez, mas integrando elementos dos cidadãos e do debate
resultante das diferenças políticas no seio da Assembleia
Constituinte, os deputados apresentaram o projecto final à
aprovação dos venezuelanos por um segundo referendo popular. Em
15 de Dezembro de 1999 a nova Carta Suprema foi ratificada por 71,19% dos
venezuelanos.
Como qualquer outra Constituição, é a base sobre a qual se
levantará uma nova República, a República Socialista
conforme entender construí-la o Povo venezuelano.
2°) Chávez decide mudar a constituição para se tornar
presidente vitalício.
O Artigo 230 da Constituição da República Bolivariana da
Venezuela limita a dois a número de mandatos presidenciais. Após
a sua reeleição em 3 de Dezembro de 2006, Hugo Chávez
nomeou uma comissão encarregada de reformar a
Constituição. Se o conteúdo das reformas está ainda
por conhecer, sabe-se já que deverá incluir uma
modificação do artigo 230, de forma a permitir que o Povo
venezuelano seja o único a decidir sobre o fim do mandato presidencial,
como é o caso em numerosas democracias. O trabalho final da
comissão pela Reforma da Constituição será
apresentado à Assembleia Nacional que deverá avaliá-la por
um voto superior a 2/3 dos seus membros (artigo 343 da
Constituição). O projecto, assim confirmado pelos eleitos do Povo
será finalmente submetido a um referendo popular, tal como o prevê
o artigo 344 da Constituição. O resultado desse referendo
confirmará definitivamente o tipo da reforma constitucional.
A acusação de que Chávez modelou a
Constituição de forma a ser presidente vitalício
não tem fundamento. Tanto mais que o artigo 72 dessa mesma
Constituição abre a possibilidade de convocar, a meio mandato, um
referendo revocatório contra o Presidente. No fim de contas, se Hugo
Chávez ficar como Presidente da República até ao fim dos
seus dias será tão somente por o Povo o decidir e por o
próprio Presidente consentir em submeter-se a essa vontade popular.
3°) Com a lei Habilitante, Chávez obteve poderes plenos.
A Constituição da Venezuela afirma existirem cinco poderes
independentes uns dos outros: executivo, legislativo, judicial, eleitoral e
cidadão. A lei Habilitante votada pelo poder legislativo dá ao
presidente Chávez o poder de legislar sobre assuntos definidos pela
Assembleia Nacional por um período, também ele definido pela
Assembleia Nacional, de 18 meses. Os decretos-lei emitidos durante esse
período têm que respeitar a Constituição. O trabalho
do presidente Chávez durante esses 18 meses não poderá em
nenhum caso opôr-se aos trabalhos em curso nos quatro outros poderes.
Assim, não só Hugo Chávez não poderá gozar
de plenos poderes, como as acusações duma suposta deriva
ditatorial são completamente infundadas. Com efeito, a história
recente da Venezuela demonstra o contrário. Em 2001, Hugo Chávez
beneficiara já duma lei Habilitante que usara para promulgar 49
decretos-lei (entre eles sobre a Reforma Agrária, as Pescas e os
Hidrocarbonetos) que formaram o fundamento progressista do governo. Além
disso, a última palavra sobre os decretos emitidos durante os 18 meses
de lei Habilitante pertence aos cidadãos venezuelanos. Estes podem, como
o prevê a Constituição no seu artigo 74, convocar um
referendo (se reunirem 10% do corpo eleitoral) para revogar total ou
parcialmente qualquer lei do país.
O sistema de leis Habilitantes não é próprio da Venezuela.
Encontram-se tais mecanismos jurídicos nos Estados Unidos, no
Canadá ou até mesmo na França com o artigo 49 §3, com
a diferença que nestes países não se goza de nenhuma
contrapartida imposta pelo poder legislativo ou pelos cidadãos como na
Venezuela.
4°) Hugo Chávez pretende impor um sistema de Partido Único
na Venezuela.
Às eleições parlamentares de 4 de Dezembro de 2005
não menos de 450 organizações e partidos políticos
(de nível nacional, regional e local) apresentaram candidatos (só
seis partidos da oposição decidiram boicotar as
eleições). À eleição presidencial de 3 de
Dezembro de 2006, 78 partidos políticos decidiram apoiar um dos 20
candidatos. Da totalidade dos partidos políticos, só 24 apoiavam
os presidente Chávez.
Foi a esses partidos e organizações que o apoiam que Hugo
Chávez convidou a unirem-se num grande partido da
Revolução Socialista. Após a construção
deste último restariam dezenas de Partidos Políticos da
oposição à escala nacional e centenas à escala
regional e local. A democracia multipartidária venezuelana não
seria em nada afectada pela estratégia do movimento socialista.
Estratégia que nem sequer é própria da Venezuela nem do
Socialismo. A União por um Movimento Popular (UMP), o grande partido da
direita francesa, construiu-se segundo a mesma ideia de união. Esta
iniciativa tem, entre outros, o objectivo de lutar contra as tendências
clientelistas no seio do movimento revolucionário. Com efeito, certos
partidos que não representam nada a nível nacional têm o
mau costume político de usar seu pequeno capital eleitoral para obter
postos importantes na função pública e nos
ministérios. Prática que não poderá ter mais lugar
com a criação do novo partido de união.
Ademais, a criação do Partido Socialista Unido dá-se para
tornar a dar um sentido à noção de partido político
na construção do Socialismo. Num país onde os partidos
políticos estão mais que desacreditados, não sendo mais
que simples máquinas eleitorais, o desafio está à medida
da singularidade histórica do Partido Socialista Unido da Venezuela.
Não há verdadeira liberdade sem limites, os do bem comum e do
interesse colectivo.
5°) Chávez e o governo bolivariano tentam eliminar a liberdade de
expressão.
Frequentemente confunde-se a liberdade de expressão com a liberdade
permitida aos grandes grupos mediáticos de impor a sua visão
capitalista, mercantil, sexista e racista da comunicação e
informação à grande maioria que é o conjunto dos
cidadãos que são telespectadores, leitores ou ouvintes.
A liberdade de expressão está consagrada no artigo 57 da
Constituição bolivariana. Afirma este que "qualquer pessoa
tem o direito de exprimir livremente os seus pensamentos, ideias ou
opiniões de viva voz, por escrito, ou através de qualquer forma
de expressão". A liberdade de associação (artigo 52
da Constituição), a liberdade de se reunir em locais
públicos (artigo 53) e a liberdade de comunicação (artigo
58) reforçam esta liberdade fundamental. Neste sentido existe mais
liberdade de expressão que em qualquer outro dos países
democráticos.
Com efeito, a oposição minoritária pode tranquilamente
manifestar o seu repúdio pelo governo e os seus porta-vozes são
sistematicamente revezados pelos meios de comunicação comerciais
que se transformaram em verdadeiros actores políticos e representam uns
70% do espectro mediático venezuelano (TV, rádio, imprensa
escrita). O governo não tem nenhum controlo sobre a difusão na
Internet e é costume encontrar nela apelos à violência,
à insubordinação, ou até mesmo à guerrilha
urbana emitidos por grupos radicais da oposição.
Apesar da participação activa dos meios de
comunicação comerciais no Golpe de Estado de Abril de 2002 e na
sabotagem económica de Dezembro de 2002 - Fevereiro de 2003, que se
saldou por uma perca de 15 mil milhões de dólares em termos de
produção nacional, nenhum destes meios foi encerrado ou censurado
pelo governo bolivariano.
Em Dezembro de 2004 foi votada a lei sobre a Responsabilidade Social da
Rádio e da Televisão (lei RESORTE) com o fim de instaurar um
sistema de regulamentos legais no país. Esta lei é semelhante
se bem que menos estrita às leis que regem o CSA
francês ou o FCC americano. Apesar da sua flexibilidade a grande maioria
dos meios de comunicação venezuelanos continua a violá-la
impunemente. A liberdade de expressão foi encorajada pelo governo
bolivariano ao promover a criação de centenas de meios de
comunicação comunitários através dos quais os
habitantes dum bairro possam fazer ouvir as suas vozes, os seus pontos de
vista, e participar na discussão sobre as coisas públicas.
Pilares importantes da reflexão comum e muito frequentemente
crítica da burocracia do Estado, estes milhares de vozes que se exprimem
nos meios de comunicação comunitários eram
sistematicamente esquecidos pelos grandes patrões da imprensa.
Também foi o governo bolivariano um dos principais promotores da cadeia
de televisão internacional
Telesur
, cujo objectivo é permitir à grande maioria dos
latino-americanos poder exprimir a sua realidade social. Realidade social da
qual nunca fizeram eco os grandes grupos mediáticos.
Enfim, o não renovamento da concessão hertziana à cadeia
RCTV vai permitir à maioria decidir sobre a linha editorial e a
qualidade dos programas que vai difundir a nova cadeia de serviço
público. E assim romper com a sujeição da liberdade de
expressão ao capital financeiro de uma mão cheia de poderosos.
Em 2002 o escritor venezuelano Roberto Hernandez Montoya escreveu: "Os
patrões dos meios de comunicação na Venezuela têm
tanto poder que nem fazem ideia que esse poder tem limites". Querendo
garantir uma democracia integral, o governo bolivariano deu assim uma parte
desse poder mediático ao Povo.
6°) Chávez leva a cabo uma campanha de
nacionalizações selvagens e ameaça a propriedade privada.
A propriedade privada é garantida pelo artigo 115 da
Constituição Bolivariana. Em nenhuma altura no seio do governo se
pensou em pôr em causa esse princípio. Fiador e promotor do
interesse colectivo, os poderes públicos devem no entanto impor um
conjunto de prioridades ao exercício das liberdades individuais em
função de bem comum. A função social da propriedade
permite submeter as obrigações mercantis e comerciais às
exigências humanistas e de dignidade das pessoas. É claramente uma
escolha soberana a de decidir dar mais importância às pessoas que
aos bens, é a escolha que tomou numerosas vezes a
população da Venezuela pela via das urnas.
Uma reforma da constituição prepara a inserção de 5
estatutos sobre a propriedade privada que tratam dos diferentes aspectos de que
ela se pode reverter. Sem ser um fim em si, a propriedade privada deve
continuar a ser um meio do desabrochar humano e de progresso colectivo. As
confiscações, os arrestos, as redistribuições de
bens não valorizados (terras, oficinas, alimentos, açougues)
correspondem a um procedimento legislativo inscrito na Lei de
expropriação por causa de utilidade pública ou social que
rege a obrigação de garantir à população o
respeito pelos seus direitos fundamentais (trabalho, habitação,
alimentação) sem que estes possam ser subordinados aos
princípios invioláveis da propriedade.
Não é tanto o estatuto de propriedade que incomoda, mas mais a
hipoteca do desenvolvimento social. Uma grande propriedade que participa no
desenvolvimento nacional, que permite a inclusão, que produz e respeita
os trabalhadores tem todo o seu lugar na Venezuela. Prova disso são os
numerosos ciclos económicos bilaterais organizados pela Venezuela com
empreendedores dum país estrangeiro em Caracas e a recente
conferência sobre o lugar que podem ocupar os empreendedores nacionais
num país onde o Estado os tinha antes debaixo da asa e que têm
agora que prestar serviços ao conjunto da nação.
7°) Chávez e o governo bolivariano vão fechar
arbitrariamente a mais velha cadeia de televisão venezuelana (RCTV).
Em 1987 o governo do presidente de então Jaime Lusinchi (do partido
Acción Democrática) decide regulamentar o sistema de
obtenção de concessões hertzianas para as
televisões e rádios nacionais. O novo regulamento apareceu no
jornal oficial nº 33726 de 27 de Maio de 1987 e estipula no seu artigo 1:
"As concessões para a transmissão e exploração
de cadeias de televisão e frequências de rádio são
dadas para um período de 20 anos" e precisa no seu artigo 4:
"As concessões que tenham sido dadas antes da data do presente
decreto serão consideradas válidas nos termos estabelecidos no
artigo 1".
Como se vê os 20 anos acabaram. A concessão dada à cadeia
RCTV pelo Estado teve fim em 27 de Maio último. O governo venezuelano
não suprime nenhuma licença nem encerra nenhuma cadeia de
televisão, exerce muito simplesmente o poder de não renovar a
concessão conforme estabelecido pela Lei.
O controlo do uso de frequências hertzianas pelo Estado não
é próprio da Venezuela. Em França os artigos 21 e 22 da
lei 86-1067 relativo à liberdade de comunicação afirmam
claramente o poder do Estado nesse domínio.
Não há portanto nenhum encerramento arbitrário de cadeia
de televisão. O senhorio decide apenas mudar de inquilino, e nada impede
a RCTV de continuar a emitir por cabo. Esta decisão foi nomeadamente
motivada pelas múltiplas infracções à lei de
Responsabilidade Social da Rádio e da Televisão (lei RESORTE)
assim como pela participação activa da RCTV no golpe de Estado de
Abril de 2002 e na sabotagem económica de Dezembro de 2002
Fevereiro de 2003, que se saldou por uma perca de 15 mil milhões de
dólares do PIB.
O espaço deixado vazio pela RCTV foi preenchido desde 28 de Maio de 2007
por uma cadeia de serviço público onde os programas estão
a cargo de Produtores Nacionais Independentes e duma rede nacional de
televisões comunitárias, numa palavra, pelas mãos do Povo
criador e imaginativo. O nome desta nova cadeia diz bem: TVes, jogo de palavras
com "te ves" que significa "vês-te".
VENEZUELA 2000, UMA NOVA CUBA DOS ANOS 1950? DROGAS, TRÁFICO E
CORRUPÇÃO.
8°) Segundo Transparency International a Venezuela é o país
mais corrupto do continente Americano, mais que o Haiti. Assim, a Venezuela
é o país mais corrupto do mundo.
A corrupção é o legado infame de 40 anos de
políticas capitalistas clientelistas que herdou o governo bolivariano ao
chegar ao poder. Face escondida duma burocracia de Estado ainda pesada, a
corrupção invadiu as consciências, a tal ponto que um homem
político que a ela não recorresse era tido por idiota. O
presidente Chávez reconhecendo que a corrupção é um
vício gravíssimo que será difícil erradicar a curto
prazo iniciou uma luta de morte contra esse flagelo. A criação de
conselhos comunitários e a nova geometria do poder estão na base
duma apropriação directa pelo Povo dos meios financeiros que lhe
estão destinados, sem passar pelo crivo redutor de funcionários
corruptos.
Se a corrupção ainda persiste na Venezuela, será a
situação tão catastrófica como faz crer a O(N)G
Transparency International?
A organização Transparency International, bem longe de ser uma
ONG independente, é financiada por numerosas multinacionais (entre as
quais ExxonMobil, directamente interessada na Venezuela) assim como por
diversas agências governamentais incluindo paraventos da CIA como a
Fundação Ford, A Agência Norte-Americana para o
Desenvolvimento Internacional (USAID) ou o Centro Internacional do
Empreendimento Privado (CIPE), tendo estado estas duas últimas
implicadas no golpe de Estado de Abril de 2002 assim como em todas as
tentativas de destabilização do governo bolivariano.
Além disso Transparency International limita as suas
investigações ao sector público, o que penaliza os
países onde o Estado tem um papel regulador ou de obstáculo ao
liberalismo mais feroz. Também, um dos critérios maiores usado
por Transparency International para determinar o nível de
corrupção é a percepção que os
próprios cidadãos têm da corrupção no seu
país. Imagina-se facilmente como um inquérito desse tipo nos
sectores tomados pela oposição e intoxicados pela propaganda dos
meios de comunicação comerciais pode falsear a realidade da
corrupção na Venezuela. Tanto as ligações
financeiras da Transparency International como os seus métodos de
investigação obrigam-nos a distanciar-nos do resultado alarmista
que parece mais uma arma suja contra a Venezuela que um estudo objectivo e
transparente.
9°) Existem centenas de prisioneiros políticos no país.
Não existe nenhum cidadão encarcerado por motivos
políticos ou delitos de opinião. Ninguém foi inculpado
pela organização do golpe de Estado de Abril de 2002.
Lembremo-nos de passagem que os generais responsáveis pelo putsch de
Argel em Abril de 1961 foram encarcerados e Bastien-Thierry, organizador do
atentado de Petit Clamart, foi fuzilado.
No entanto um certo número de pessoas na Venezuela foram julgadas e
condenadas ou postas a exame em casos de morte de cidadãos venezuelanos
como durante o golpe de Estado de 11 de Abril de 2002 ou como no caso do
assassínio do procurador Danilo Anderson.
Se há figuras políticas encarceradas é por
prevaricação financeira ou delitos de direito comum.
Mas um político prisioneiro não é o mesmo que um
prisioneiro político.
Uma calçada no jardim do Império
10°) O governo bolivariano adopta um comportamento imperialista ao comprar
títulos do tesouro argentino ou praticando a diplomacia do
petróleo nas Caraíbas. Ao fazê-lo, malbarata o
orçamento nacional no exterior em lugar de investir nos problemas dos
venezuelanos.
Às vezes é difícil admitir que possa haver aqui outras
trocas e outras discussões que as baseadas no interesse social e
solidariedade. Talvez a maioria veja aí um discurso hipócrita que
permite usar habilmente a arma diplomática que é o
petróleo. Isso seria passar além da visão bolivariana da
integração latino-americana. Advêm daqui uma série
de acordos não tanto condicionados aos termos comuns de troca comercial
quanto às esperanças e aos gestos humanitários que unem
cada vez mais Estados e povos.
A abertura energética para com os países das Caraíbas
permite a "micro-Estados" libertarem-se sensivelmente da
dependência perniciosa da ajuda norte-americana e das refinarias
estrangeiras. As contrapartidas que exige a Venezuela dizem respeito às
pessoas, aos aspectos sociais do desenvolvimento nacional mais que ao respeito
pelos procedimentos de rigor económico ou de redução dos
défices públicos a todo o custo. Estas últimas
exigências condicionavam a ajuda do "Norte" no quadro do
Consenso de Washington. O acordo Petrocaribe que rege esta aliança
energética é bem claro. Não se trata de uma
doação mas de condições especiais de
administração do petróleo. O pagamento definido para 25
anos deverá fazer-se uma parte em divisas, a outra em serviços
(medicamentos, carne, sementes, etc). A acusação de esbanjamento
por parte da oposição não é senão
hipócrita. Após ter usado a sua influência no seio duma
OPEP descomposta no princípio dos anos 2000, a Venezuela conseguiu
estabilizar, em acordo com os seus parceiros, os preços do
petróleo bruto em alta. Além disso, em 2005, a companhia CITGO
(propriedade da PDVSA nos Estados Unidos) trouxe pela primeira vez na sua
história benefícios ao país. A maior parte deste imenso
excedente financeiro, que os membros da oposição desbarataram
enquanto no poder, é investido na Venezuela em programas sociais.
A Venezuela compra títulos do tesouro argentino e com isso consegue um
meio de suspender a dependência argentina dos credores do Norte, de
escoar uma grande parte da sua liquidez para lutar contra a
inflação, e de reatar os laços com uma Argentina que lhe
fornece inúmeros bens manufacturados que lhe são recusados pelos
Estados Unidos. Enfim, esses títulos são portadores de
remuneração a prazo, e são a ocasião de consolidar
um sistema financeiro que permita conservar os capitais no "Sul" de
maneira que as mais-valias da manipulação de fundos cessem de ser
sistematicamente retidas no Norte. É este o argumento da
constituição do "Banco do Sul", ao qual ninguém
na América Latina é obrigado a aderir, mas cujo projecto tem tido
um grande sucesso nas economias nacionais estruturalmente e financeiramente
dependentes do Norte.
11°) A Venezuela é o país mais perigoso do continente
(violência/delinquência + armada)
Ouve-se frequentemente o Departamento de Estado referir-se à
"corrida aos armamentos" imposta pela Venezuela na
"região" latino-americana em risco de ser destabilizada por um
Estado quase vadio. Em termos de orçamento de armamento a Venezuela
está atrás de Brasil, Argentina, Chile, Colômbia
(reforçado mais ainda pela ajuda militar norte-americana no quadro do
Plano Colômbia) e México. O armamento da Venezuela revela uma
renovação do seu arsenal ligeiro e da sua frota de aviões
de caça cujas peças sobressalentes lhe foram recusadas pelos
Estados Unidos. Os mesmos Estados Unidos oferecem menos resistência em
armar a Colômbia com carros de assalto cuja pertinência para lutar
contra uma guerrilha entrincheirada o mais das vezes em montanhas de forte
declive se percebe mal. A menos que não seja mais que uma maneira de
evitar pôr na rua os trabalhadores de Cleveland e Detroit.
Depois de passar da defesa nacional à segurança nacional e ao
estabelecimento de regimes autoritários, a segurança interior
anima muitos receios. Se os "teatros de operação"
lugares remotos de isolamento e de desvelos policiais , os
desaparecimentos, torturas e outros massacres praticados ao longo de toda a IV
República Venezuelana desapareceram, a insegurança e a
violência continuam no entanto parâmetros alarmantes. Acompanhando
o armamento de redes de narcotráfico, semelhante a fenómenos que
se dão por exemplo no Rio de Janeiro, acompanhando os registos de
violência no Recife e alcançando o pico em termos
homicídios em Caracas em meados dos anos 1990, a violência na
Venezuela é um mal que mina a nação e estigmatiza a
desunião e a desarticulação das estruturas sociais do
país em várias escalas. A depuração dos corpos de
segurança, a luta determinada da justiça e o restabelecimento de
oportunidades iguais para todos são um esforço nacional.
Se a Venezuela é um país perigoso, é-o para o governo
norte-americano, pela sua mensagem de esperança e
transformação social que promete à América Latina e
ao Mundo.
12°) A Venezuela é um centro potencial de actividade terrorista na
América Latina.
A integridade territorial da Venezuela e a protecção dos recursos
do sub-solo, particularmente cobiçados neste princípio de
século belicoso, são garantidas por um exército bem menos
notável que o da maioria dos seus vizinhos, e sem qualquer possibilidade
de se "projectar" agressivamente para além das suas fronteiras.
A luta contra o narco-tráfico e o terrorismo internacional está
na origem dum desentendimento dos Estados Unidos com o Brasil sobre a
instalação duma base militar na Amazónia remota,
reservatório de biodiversidade. Há alguns meses foi instalada uma
base no Chaco Paraguaiano, a dois passos da segunda reserva de gás do
continente (na Bolívia), mas sobretudo, assim foi dito, para vigiar
actividades terroristas na tripla fronteira Paraguai, Brasil, Argentina.
Tripla fronteira que, além do seu interesse geopolítico, se
reveste dum interesse geoestratégico notório: corresponde ao
maior aquífero do planeta, o Guarani.
Ouve-se de diversas fontes comentários sobre os centros de terrorismo na
Venezuela conforme definidos pelos Estados Unidos (islamismo, campos de treino
iranianos, ETA, bases da Al Qaeda!!!). Não é tudo isto mais que
uma mentira orquestrada que pretende justificar uma intervenção
estrangeira. Não tem de acreditar numa mentira senão quem precisa
dum pretexto.
Depois de 2000 e do encerramento da sinistra "Escola das Americas" no
Panamá, onde se formaram os mais famosos ditadores do continente, os
Estados Unidos instalaram oito novas bases na região que se somam
às sete já existentes, totalizando vários milhares de
soldados estacionados numa região que assegura 40% do consumo de
petróleo da federação norte-americana.
CASSANDRAS
13°) A Revolução Bolivariana sem petróleo
afundar-se-á por si própria.
Antes de especular sobre a economia pós-petrolífera venezuelana,
é bom lembrar que, com o sub-solo da Faixa do Orenoco, a Venezuela
possuiria as reservas petrolíferas mais importantes do mundo, à
frente dos países do Médio Oriente. Além disso a Venezuela
dispõe das primeiras reservas de gás da América Latina,
ainda sub-exploradas. O país é também rico em
alumínio e ouro. As indústrias de base venezuelanas têm
belos dias diante de si, ainda que o petróleo se venha a tornar raro.
O governo bolivariano lançou uma grande campanha para diversificar a
economia. Tradicionalmente a Venezuela era um país importador. As
receitas do petróleo asseguravam a compra de diversos produtos
manufacturados, agrícolas, etc. Para não depender das
importações, o governo relançou a produção
agrícola, nomeadamente no seio de cooperativas agrícolas. O
desenvolvimento endógeno, pilar da economia bolivariana, pretende
reduzir as importações de produtos manufacturados. Note-se
também na Venezuela o desenvolvimento sem precedentes da
petroquímica que faz medrar o aparelho produtivo da indústria
petrolífera.
Para lutar contra o flagelo da dependência das importações,
o executivo promulgou o decreto presidencial 3898 que obriga todas as
indústrias de base (públicas ou privadas) a fornecer em primeiro
lugar as empresas de transformação nacional e a exportar
só o excedente. As aberrações que eram a
importação massiva de T-shirt de poliamida ou de tachos de
alumínio e a sua venda a preços elevados não terão
mais lugar.
O tecido produtivo da Venezuela foi reforçado pela criação
de dezenas de milhares de cooperativas e empresas de produção
social que, na grande maioria, estão situadas fora da economia do
petróleo e não estão ligadas à indústria de
base.
Enfim, o crescimento da tributação fez dessa entidade a principal
entrada no orçamento de Estado, e só depois o petróleo,
enquanto que a primeira representava só 22% quando da
instalação do Presidente Chávez no poder.
O original encontra-se em
http://vdedaj.club.fr/spip/article.php3?id_article=764
. Tradução de DF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.