A propaganda modela o fluxo de informação de muitas maneiras,
incluindo, obviamente, a escolha das notícias a serem impressas, sua
colocação e a escolha de autoridades para darem credibilidade
àqueles factos. Mas igualmente importante, e implícito nas
escolhas de notícias, especialmente onde há interesses
políticos em causa e diversas interpretações
possíveis das notícias, é omitir factos e ignorar fontes
que põem a perspectiva escolhida (frequentemente a oficial) em causa.
Tais Silêncios de Ouro
(Golden Silences)
e o contornar de fontes inconvenientes são incompatíveis com o
jornalismo honesto mas este é o procedimento operacional padrão
no jornalismo de referência
(mainstream),
com variações sobretudo quanto à severidade e
profundidade do enterramento dos factos incómodos. Estes últimos
muitas vezes não são completamente escondidos mas colocados
tão profundamente num artigo e com tal cautela ou linguagem
qualificadora que [equivale] a serem efectivamente enterrados ou suprimidos.
Isto é ilustrado de modo dramático quando comparamos o tratamento
de vítimas "valiosas" e vítimas "não
valiosas", categorias que Noam Chomsky e eu enfatizámos em
A fabricação do consentimento
(o capítulo 2 intitula-se "Vítimas valiosas e não
valiosas"). Vítimas valiosas são vítimas do inimigo e
de estados alvo, ao passo que vítimas não valiosas são
aquelas mortas por nós ou um dos nossos aliados ou clientes. Demos
pormenores sobre a enorme atenção dos media ao assassínio
de um padre polaco na Polónia comunista em 1984, uma única
vítima valiosa que, como mostrámos, obteve mais
atenção dos media estado-unidenses do que 100 vítimas
religiosas de estados clientes dos EUA na América Latina (1965-1985)
tomadas em conjunto. Estas últimas foram tratadas como não
valiosas em virtude do status de clientes dos assassinos, apesar de oito destas
100 terem sido realmente cidadãos dos EUA.
Ruanda proporcionou uma série de casos de vitimizações
valiosas e não valiosas. Paul Kagame e seu Rwanda Patriotic Front (RPF)
eram (e permanecem) clientes dos EUA servindo os objectivos de
projecção de poder estado-unidense na região africana dos
Grandes Lagos. Ele tem portanto liberdade de acção para matar, o
que tem feito tão excessivamente tanto em Ruanda como na
República Democrática do Congo (RDC) que sua contagem de
vítimas ascende aos milhões (ver Herman e Peterson, Enduring
Lies: The Rwanda Genocide in the Propaganda System, 20 Years Later, Real News
Books, 2014. chaps 4 and 9). Às suas matanças deste vasto
número de vítimas não valiosas foi dado o tratamento do
Silêncio de Ouro e ele foi retratado nos Estados Unidos,
Grã-Bretanha e Canadá como um salvador que se opunha à
violência do "Poder Hutu", um verdadeiro milagre de propaganda
invertida que teve êxito. Em Setembro de 1994, depois de Kagame vencer
sua guerra de conquista em Ruanda, um memorando do Departamento de Estado
indicava que forças de Kagame estavam a matar civis hutu ao ritmo de uns
10 mil por mês. Este memorando não teve efeito sobre a
política estado-unidense de apoio a Kagame e nunca foi mencionado pelos
media de referência. Imagine o que teria acontecido se um tal memorando
houvesse descrito o comportamento dos governos iraniano, norte-coreano, russo
ou venezuelano!
Outro Silêncio de Ouro sobre Ruanda verificou-se no mês passado, no
20º aniversário do
massacre de Kibelho
, um campo de refugiados hutus no Sul de Ruanda. Isto aconteceu principalmente
entre 19 e 23 de Abril de 1995, mas continuou por algum tempo quando refugiados
fugiam do campo. Foi muito tempo depois de o Rwanda Patriotic Front ter
conquistado Ruanda, mas com muito deslocados hutus ainda abrigados em campos de
refugiados, talvez até 100 mil em Kibelho. O governo Kagame decidiu
fechar este e outros campos de refugiados e forçar os mesmos a
retornarem às suas cidades de origem. Isto foi acompanhado por uma
carnificina, com tiros de canhão, granadas, morteiros e artilharia,
observados com horror um contingente de 32 médicos e soldados
australianos ao serviço da ONU. O australiano Terry Pickard escreveu na
sua memória
Combat Medic
:
"Só podíamos esperar que o RPA [Rwandan Patriotic Army] nos
permitisse ir embora depois do que havíamos testemunhado. Eles haviam
simplesmente assassinado milhares de homens, mulheres e crianças
desarmados, famintos, sequiosos e inermes. Nem bebés não foram
poupados. Alguns daqueles que sobreviveram à carnificina letal de
metralhadoras calibre 50, rifles AK47, granadas impulsionadas for foguetes
(rocket-propelled grenades, RPG)
e morteiros foram implacavelmente perseguidos, capturados e ultimados a
baioneta".
Os australianos tentaram salvar alguns hutus, mas foram forçados pelos
números e pelas regras da ONU meramente a observar. Uma foto tomada por
um deles mostra um vasto campo de cadáveres e depois disso, por
instruções da ONU, alguns deles saíram com contadores de
passo
(pace-counters)
para contar os corpos. Eles chegavam a 4.000 e sentiram que haviam coberto
menos da metade do número de mortos quando sua contagem foi cancelada
por pressão da RPF. Vários deles estimam que a contagem plena
atingiria os 8.000 ou mais (Ver Hugh Riminton. "Rwandan massacre still a
burden for Diggers",
Herald Sun
[Australia]. April 20, 2015). A ONU, contudo, acabou por apresentar uma
estimativa de 2.000. Esta estimativa mais baixa foi a preferida pelos media de
referência. O
New York Times,
por exemplo, repetiu a frase "até 2000" na sua escassa
cobertura em notícias e editorial durante Abril e Maio de 1995.
Este massacre, tal como memorando sobre a carnificina de Setembro de 1994,
não teve efeito sobre a política dos EUA ou da ONU em
relação ao governo de Ruanda e essencialmente desapareceu da
história ruandesa no Ocidente, excepto na Austrália. Com o
20º aniversário do massacre de Kibelho, em 22 de Abril de 2015 (o
dia da maior matança), não houve nem um artigo ou editorial sobre
aquele acontecimento nos media de referência dos EUA ou Reino Unido.
Isto era claramente território do Silêncios de Ouro, com Kagame
ainda cliente dos EUA e celebrado no Ocidente como um salvador de Ruanda, um
"Abe Lincoln" africano na visão distorcida de Philip
Gourevitch. Só na Austrália, onde a equipe médica havia
sofrido como observadores importantes da matança em massa, houve nos
media um certo número de relatos acerca dos acontecimentos de Kibelho.
Vários deles eram comoventes e dramáticos (ex.: reportagens
intituladas "The killings just went on and on"; "Our time in
hell on earth"; livros como os de Kevin O'Halloran,
Pure Massacre
e de Paul Jordan,
The Easy Day Was Yesterday
); mas o drama e a autenticidade destes relatos não podiam romper o muro
do Silêncio de Ouro nos Estados Unidos.
É notável que o número estimado de 8.000 ou mais em
Kibelho é o mesmo que os media de referência repetiram muitas
vezes acerca do número de vítimas do massacre de Srebrenica, o
qual se verificou no mesmo ano e só alguns meses após o de
Kibelho (a partir de 11 de Julho de 1995). Naturalmente, uma profunda
diferença entre os dois casos é que o massacre de Srebrenica foi
executado por sérvios bósnios, os quais, juntamente com o governo
Milosevic da Sérvia, foram declarados vilões e alvos dos Estados
Unidos e da NATO. Segue-se que as vítimas de Srebrenica eram valiosas e
que os EUA-NATO dominavam a ONU e o seu braço do Tribunal Criminal
Internacional para a Antiga Jugoslávia
(International Criminal Tribunal for the Former Yugoslavia ICTY)
perseguiria os vilões responsáveis pelo massacre. E os media de
referência do Ocidente apresentariam regularmente este episódio, a
11 de Julho de cada ano como momento para recordar aos públicos
ocidentais os horrores do massacre de Srebrenica, com artigos acerca dele e
fotos a mostrarem sepulturas e famílias enlutadas e a reiterar a
lição a ser aprendida sobre a necessidade de
intervenção humanitária precoce e vigorosa.
Também há uma propensão para inflacionar os números
das vítimas valiosas em Srebrenica, em contraste com o tratamento do
número de vítimas não valiosas em Kibelho, as quais, como
observado, foram rapidamente reduzidas pela ONU e pelos media de possivelmente
8.000 ou mais para "até 2.000". Em Srebrenica, embora a
contagens de corpos nunca houvesse confirmado 8.000
execuções, esse número foi produzido de imediato e foi
mantido
até o presente como um acto de fé e pela sua utilidade
política (as vítimas valiosas nunca são demasiadas).
O alto número de execuções em Srebrenica também foi
ajudado por outros truques da metodologia do Silêncio de Ouro. Um deles
é enterrar o facto de que muitos corpos recuperados na
Bósnia-Herzegovina oriental eram quase certamente de homens mortos em
combate, os quais travaram-se na vizinhança de Srebrenica e para
além desde 11 de Julho durante alguns dias quando vários milhares
de soldados bósnios muçulmanos da 28ª divisão fugiram
da cidade e tentaram alcançar território muçulmano seguro
em Tuzla. Num estudo de relatórios forenses produzidos por peritos do
ICTY sobre os 1.920 corpos em sepulturas em massa exumados entre 1966 e 2001, o
analista forense Ljubisa Simic mostrou de modo convincente que os ferimentos em
pelo menos metade dos apontam para mortes em combate. Contudo, num golpe de
propaganda ocidental, estas mortes em combate foram ignoradas e todos os corpos
encontrados na vizinhança são considerados como vítimas de
execução.
A tarefa de conseguir que o número de vítimas se elevasse
até àquele objectivo permanente de 8.000 voltou-se mais
recentemente para a identificação do ADN dos cadáveres. Um
número de 6.924 é o total de Julho de 2014 avançado pela
Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas (ICMP) com base nesta
metodologia. Além do facto de esta Comissão não ser
verdadeiramente "internacional" mas sim dominada pelos Estados Unidos
e autoridades bósnias muçulmanas, os que apresentam esta nova
afirmação recusaram-se a permitir que a sua metodologia fosse
verificada por analistas de defesa independentes. E se bem que os dados
forenses sobre corpos permitam alguns julgamentos limitados sobre a
possível causa e momento da morte, o ADN nada nos diz sobre estas
questões ou qualquer coisa acerca do lugar da sua ocorrência.
Para o ICTY, a principal testemunha sobre o massacre de Srebrenica foi um
alegado participante, o croata Drazen Erdemovic. Ele foi gravemente
comprometido por antecedentes mercenários, pelas circunstâncias da
sua participação nas mortes e por contradições no
testemunho, mas estava desejoso de implicar altas autoridades bósnias
sérvias e portanto foi protegido pelos promotores e juízes do
ICTY e mantido quase completamente livre de acareações
sérias. Um estudo irrefutável da história de Erdemovic,
seu papel e a protecção que recebeu do ICTY foi escrito pelo
jornalista Germinal Civikov (
Srebrenica: The Star Witness
[Belgrado, 2010]).
Trata-se de uma crítica devastadora do homem e do ICTY, mas apesar de
terem sido disponibilizadas cópias para os media ocidentais de
referência, incluindo Marlise Simons do
New York Times,
a este livro foi dado o tratamento completo do Silêncio de Ouro.
Outro elemento do Silêncio de Ouro em relação a Srebrenica
é o blackout dos factos antecedentes que tornaria o implacável
tratamento sérvio de prisioneiros mais compreensível. Embora
Srebrenica fosse designada como uma "área segura" pelo
Conselho de Segurança, protegida de ataque, aquela
designação também exigia que fosse desarmada. Isto
não aconteceu e desde 1992 até Julho de 1995, incursões de
quadros bósnios muçulmanos, dirigidas primariamente pelo
comandante local Naser Oric, atacaram muitas cidades habitadas por
sérvios e mataram vários milhares de civis sérvios. O
tenente-coronel Thomas Karremans, que comandou o batalhão holandês
em Srebrenica em 1995, declarou em 23 de Julho de 1995 que "Nós
sabemos que só na área circundante do enclave de Srebrenica, 192
aldeias foram arrasadas e todos os aldeões mortos". O juiz Patrick
Robinson do ICTY perguntou directamente ao comandante da ONU em Sarajevo,
Philippe Morillon, se o que aconteceu em Srebrenica em Julho de 1995 "foi
uma reacção directa ao que Naser Oric fizera aos sérvios
dois anos antes?". Ao que Morillon respondeu, "Sim, excelência,
estou convencido disso". Isto não foi mencionado nos media de
referência dos EUA (para um relato mais completo, ver George Bogdanich,
"Prelude to the Capture of Srebrenica", in Herman, ed.,
The Srebrenica Massacre: Evidence, Context, Politics
[Alphabet Soup, 2011]). Em suma, o contexto dos antecedentes, interferindo com
o processo de demonização e com os planos de guerra dos EUA-NATO,
foi ignorado pelos media de referência.
Não é que os media façam omissão da história
em todos os casos. De facto, em conexão com a recente morte de
polícia e tumultos em Baltimore um editorial do
New York Times
intitulava-se "O que aconteceu antes dos tumultos de Baltimore"
(29/Abril/2015). Aqui a posição política liberal dos
editores torna permissível centrar-se no contexto e nas causas
primárias. Com Srebrenica a agenda de demonização e
mudança de regime proibia o equilíbrio e o contexto
inconveniente. Isto, nos media de referência, é um lugar comum na
cobertura da política externa e é dramaticamente evidente
no tratamento do demonizado Putin e no conflito da Ucrânia onde um perito
em assuntos russos como Stephen Cohen, que pretende falar acerca dos
antecedentes Rússia-NATO e causas primárias, não pode
obter tanto espaço noticioso quanto as Pussy Riot russas que querem
denunciar Putin.
29/Maio/2015
[*]
Economista, estado-unidense, autor de numerosos artigos e
livros
sobre os media e a política externa.
O original encontra-se em
www.globalresearch.ca/golden-silences-in-the-u-s-propaganda-system/5452429
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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